Manifestantes
à porta da embaixada alemã em Atenas, em 2011, exigindo reparações pela
ocupação da Grécia por parte da Alemanha nazi na Segunda Guerra
Mundial.
Kostas Tsironis/AP/SIPA
Tornou-se quase sistemático: em todas as controvérsias
sobre a maneira como Berlim tenta impor os seus pontos de vista na
resolução da crise da dívida, os alemães são remetidos para o seu
passado nazi. Como reagir? Die Zeit propõe algumas respostas aos seus
leitores.
Fonte: PRESSEUROP
"A noi Schettino, a voi Auschwitz", lia-se recentemente na primeira página de Il Giornale. "Nós com Schettino, vocês com Auschwitz.”
Eis como o jornal italiano reagia a uma diatribe igualmente subtil do Spiegel Online que visava o covarde capitão do Costa Concordia, qualificado de “típico italiano”. A mensagem que Il Giornale quis transmitir foi a seguinte: vocês, alemães, calem as boquinhas, lembrem-se que são os responsáveis pelo Holocausto!
Evidentemente que se pode argumentar que Il Giornale é um
jornal populista de direita, que ainda por cima pertence à família
Berlusconi e, portanto, não deve ser levado muito a sério. Pode-se
também recorrer ao reconfortante pensamento de que somos de tempos a
tempos confrontados com a comparação com os nazis alemães. Só que
estamos a assistir presentemente à intensificação destes ataques.
Recentemente, numa palestra realizada em Portugal, o escritor alemão de Leste, Ingo Schulze, um homem sensível, foi questionado
sobre se os alemães iriam conseguir com o euro aquilo que não tinham
sido capazes de realizar com os panzers [tanques], ou seja, dominar a
Europa. Um discurso que se ouve hoje diariamente na Grécia, muitas vezes formulado de forma ainda mais virulenta.
Aliás, as críticas tornam-se mais elegantes, por exemplo, quando a
política de austeridade da Alemanha é comparada com a do chanceler do
Reich Heinrich Brüning – antecessor de Adolfo Hitler. Fala-se também
muitas vezes de "Sonderweg" [a exceção alemã], por exemplo, quando o
Governo de Angela Merkel se recusa a acionar a impressora de notas tanto
quanto alguns gostariam. Ora, qual foi o resultado histórico da exceção
alemã, tantas vezes citada? Auschwitz, naturalmente. O círculo está
fechado.
Não podemos deixar-nos intimidar
Não há necessidade de torturar muito as meninges para entender a
atual proliferação de comparações com o regime nazi: pela primeira vez
desde 1945, a Alemanha aparece em todo o seu poderio, não porque o tenha
desejado, mas porque a crise da dívida europeia fez dela o país mais
poderoso da Europa, económica e politicamente. A Alemanha influencia
agora fortemente os assuntos internos de países terceiros.
Gradualmente, o país assume na Europa o papel que os Estados Unidos
desempenharam durante muito tempo no mundo: o de uma potência que usou –
e por vezes abusou – da sua força, que serviu como o bode expiatório,
que tinha que salvar o mundo, mas cujos métodos para o fazer mereceram
reprovação.
No entanto, há uma coisa de que nunca a puderam culpar: de enviar
seis milhões de judeus para a morte certa e metade do mundo para a
guerra. Os protestos suscitados pelos poderes dominantes, quaisquer que
sejam, são compreensíveis a um nível humano, e muitas vezes
justificados. Mas no caso da Alemanha, toma demasiadas vezes uma
dimensão diferente, que destrói na casca qualquer tentativa de debate.
Como devem os alemães reagir? Ingo Schulze indignou-se e amuou, antes
de escrever que estava arrependido de ter reagido dessa forma.
Primeiro, o simples facto de o público estar à espera exatamente desse
tipo de reação mostra que não era a melhor resposta. Segundo, devemos,
naturalmente, ser cautelosos em relação a qualquer acesso de arrogância
alemã, o que não fez votar em Volker Kauder, presidente da CDU no
Bundestag, quando proclamou que a Europa "fala alemão". Não disse "volta
a falar", mas não andou longe.
Em terceiro lugar, não podemos deixar-nos intimidar pelos paralelos
com o regime nazi. A exceção alemã não pode levar o Governo alemão nem a
curvar a espinha nem a insistir casmurramente em querer, "já que é
assim", fazer cada vez mais o que lhe apetece. Especialmente quando
sabemos que Auschwitz serve de meio de persuasão moral em conflitos
políticos. Não se deixar impressionar, recusar amavelmente, sem se
ofender, também são reações razoáveis. E prosseguir o debate sobre as
questões de fundo, as finanças ou as intervenções militares.
O paradoxo histórico da Alemanha
O novo papel da Alemanha promete um aumento dos paralelos com o
regime nazi e deve prolongar-se por uns tempos. É preciso encaixá-los,
queiramos ou não, e esperar que passem. Mas este estoicismo não vai
esconder um problema sério, ligado a um paradoxo histórico da Alemanha
que pode ser formulado da seguinte forma: a história só não se repetirá
provavelmente se os alemães estiverem seguros e atentos a que não se irá
repetir.
O que fazer então? Pedir aos outros que parem com paralelos idiotas
com o regime nazi, mas aceitar todas as outras formas de insulto
imagináveis. Sim, seria uma solução. Os alemães podiam também admitir
que gostavam de ser amados, muito mais do que os franceses ou os
britânicos, que já se amam muito a si mesmos. No entanto, essa
necessidade de amor não deve levar os alemães a negar-se, sobretudo
porque isso só lhes angariaria mais desprezo.
Finalmente, trata-se de associar uma certa descontração em relação ao
estrangeiro a uma sensibilidade histórica especialmente aguda no
interior das nossas fronteiras. O antissemitismo, o terror neonazi, a
ocultação do passado, os acessos de arrogância – eis os verdadeiros
perigos e abusos que nos ameaçam.
Os alemães têm agora de demonstrar grande coragem – e grande sensibilidade.
Fonte: PRESSEUROP
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