Relação trazia nomes de 156 políticos de oposição, a maioria tucanos, supostamente beneficiados com doação de caixa 2 na eleição de 2002. Entre os nomes estavam os de José Serra e Aécio Neves
Um laudo de 56 páginas, encomendado pelo PSDB ao perito americano Larry F. Stewart, ex-integrante do serviço secreto dos Estados Unidos e especialista em fraude de documentos, ajuda a desmontar a Lista de Furnas
- uma relação de 156 políticos de oposição, a maioria tucanos,
supostamente beneficiados com doação de caixa 2 na eleição de 2002. A
lista falsa trazia os nomes dos ex-governadores José Serra (São Paulo),
Eduardo Azeredo e Aécio Neves (Minas).
No laudo, o perito assegura que o documento, trazido a público em 2006 pelo lobista Nilton Monteiro,
é uma fraude grosseira. “Após análise da combinação de todas as
incompatibilidades e fatores relatados, concluo que a fotocópia
apresentada e o original da lista de Furnas são, de fato, fraudulentos”,
afirma. A direção do PSDB afirmou ter pago R$ 200 mil.
Segundo ele, “há indicações de que os dois documentos podem ter sido
assinados pelo mesmo autor”, o falsário. A relação de supostos
beneficiários de caixa dois é descrita em cinco folhas assinadas pelo
então presidente de Furnas Centrais Elétricas, Dimas Fabiano Toledo. O
documento teria sido fabricado à base de colagem sobre folhas
diferentes, com enxerto posterior de nomes e aposição de assinaturas e
rubricas falsas.
Em algumas folhas, a assinatura verdadeira do ex-diretor de Furnas
teria sido colada. Em outras, conforme o perito, ela foi simplesmente
falsificada, seja por decalque, ou imitação livre. “A caligrafia
encontrada nos dois documentos questionados (original e cópia) muito
provavelmente não é a de Dimas”, diz o especialista. “Estou convencido
de que a letra não é a dele e que trata-se de falsificações.”
Conforme o laudo, a lista de furnas foi montada com duas partes de
documentos diferentes e depois xerocopiada, como se fosse uma peça única
e coerente. A primeira parte, das páginas 1 a 4, quando analisada sob
luz ultravioleta, “comporta-se diferente da página 5”, possivelmente
enxertada em outra ocasião.
Fibras
Além disso, acrescenta, “a página 5 parece ter uma composição de
fibras diferente das outras páginas”. As duas observações foram baseadas
na análise química, que mostrou que a copiadora usada para produzir a
página 5 é diferente da que foi usada para produzir as quatro primeiras.
Até os logotipos da empresa, segundo Stewart, “são incompatíveis com os
verdadeiros, fornecidos pela empresa”.
Embora o laudo do perito americano não faça parte dos autos do
processo sobre o chamado mensalão mineiro, que corre na 2.ª Vara
Criminal da Justiça Federal do Rio, o PSDB o usará como argumento
técnico e de convencimento da Justiça, por ocasião das alegações finais.
Segundo o deputado federal Marcus Pestana, presidente do PSDB em Minas,
a lista de Furnas foi montada para “salvar a barra” do governo Lula, às
voltas com o escândalo do mensalão petista em 2005.
Com a expectativa de julgamento próximo do mensalão no Supremo
Tribunal Federal (STF), o laudo do perito americano será usado também
como blindagem frente à estratégia petista de defesa. “Com essa fraude
grosseira, eles pretendiam provar que todos os partidos são iguais e
fazem captação de recursos de caixa dois para financiar suas campanhas”,
disse Pestana.
Processado por dezenas de políticos citados na lista, Monteiro está preso desde outubro por estelionato e falsificação.
Pestana acusa dois políticos petistas - o deputado estadual Rogério
Correia (MG) e o ex-deputado estadual Agostinho Valente (hoje no PDT),
de serem cúmplices na montagem da fraude, conforme revelou inquérito da
Polícia Civil de Minas. Correia deverá ser alvo de um processo ético por
quebra de decoro. Ele negou que a lista de Furnas seja fraude e
Valente, hoje filiado ao PDT e sem mandato, não foi localizado.
Para o advogado William dos Santos, defensor de Monteiro e do
deputado Correia, o laudo de Stewart “foi comprado” pela parte
interessada e, por isso, não tem credibilidade. “Ele (Stewart) foi
contratado para dizer o que o PSDB queria”, afirmou. “Não é uma perícia
oficial, não tem valor jurídico algum e foi feita só para confundir.”
Pestana explicou que o PSDB recorreu ao especialista americano ao
perceber que o PT, a cada eleição, requenta a lista de Furnas e
certamente repetirá a estratégia nas eleições deste ano.
Fonte: GAZETA DO POVO
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