Título original: Salmo do desespero
por Ricardo Gondim, pastor da Igreja Betesda
Certa mulher sofria de uma síndrome rara. Na flor da idade, dores, mal estar, debilitação, passaram a fazer parte do seu cotidiano. Na cabeceira do seu leito de hospital, enfermeiras encontraram um papel amassado. Abriram imaginando tratar-se de alguma receita médica ou talvez alguma correspondência recebida durante o tratamento. Para a surpresa de todos, era um Salmo desesperado:
Hoje
quero escrever um Salmo em que derramo todo o meu rancor contra um Deus
que nos faz esperar sem necessidade. Deus nos deixa sofrer sem
precisão. Que Deus é esse que se revela conceitualmente, mas não se
mostra em um prosaico remédio que cura uma doença banal? Que Deus é esse
que se faz carne para revelar seu rosto amoroso, mas não se faz carne
para revelar a vacina contra malária. Em meu Salmo, digo o que os
cantores de Israel nunca tiveram coragem de dizer: fomos criados para a
tragédia; nossa breve e estúpida existência não passou de um erro
cósmico. No dia em que o sol explodir e a terra deixar de existir, o
universo não sentirá nossa falta. Deus não sentirá falta da humanidade.
Mas nós, desaparecidos e reduzidos a nada, retribuiremos nosso desprezo
ao Divino. Nossa não-existência será um tapa na cara de Deus. Nós também
não sentiremos sua falta.
As enfermeiras choraram. Mas, nas lágrimas derramadas, jamais se entenderá a angústia de alguém que precisou escrever uma poesia tão dolorida.
Certa mulher sofria de uma síndrome rara. Na flor da idade, dores, mal estar, debilitação, passaram a fazer parte do seu cotidiano. Na cabeceira do seu leito de hospital, enfermeiras encontraram um papel amassado. Abriram imaginando tratar-se de alguma receita médica ou talvez alguma correspondência recebida durante o tratamento. Para a surpresa de todos, era um Salmo desesperado:
Hoje
quero escrever um Salmo em que derramo todo o meu rancor contra um Deus
que nos faz esperar sem necessidade. Deus nos deixa sofrer sem
precisão. Que Deus é esse que se revela conceitualmente, mas não se
mostra em um prosaico remédio que cura uma doença banal? Que Deus é esse
que se faz carne para revelar seu rosto amoroso, mas não se faz carne
para revelar a vacina contra malária. Em meu Salmo, digo o que os
cantores de Israel nunca tiveram coragem de dizer: fomos criados para a
tragédia; nossa breve e estúpida existência não passou de um erro
cósmico. No dia em que o sol explodir e a terra deixar de existir, o
universo não sentirá nossa falta. Deus não sentirá falta da humanidade.
Mas nós, desaparecidos e reduzidos a nada, retribuiremos nosso desprezo
ao Divino. Nossa não-existência será um tapa na cara de Deus. Nós também
não sentiremos sua falta. As enfermeiras choraram. Mas, nas lágrimas derramadas, jamais se entenderá a angústia de alguém que precisou escrever uma poesia tão dolorida.
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