sábado, 19 de janeiro de 2019

Doença que parecia "inocente" aumenta risco de várias doenças, incluindo cancro do fígado



É o transtorno genético mais comum no mundo ocidental, é fácil de diagnosticar e de tratar e é, frequentemente, desvalorizado como "um problema da idade". Agora, uma investigação vem mostrar que a doença é uma das origens de problemas de saúde bem mais complexos e graves Quem tem hematocromatose tem duas cópias de um gene defeituoso que faz com que o ferro se acumule. Detetada precocemente, a doença tem um tratamento simples e eficaz, mas os sintomas comuns, como cansaço extremo e dores nas articulações, fazem com que seja, frequentemente, confundida com sinais normais de envelhecimento.

Agora, uma análise dos dados de quase 3 mil pessoas, entre os 40 e os 70 anos, com esta mutação genética, no Reino Unido, permitiu aos investigadores compreender melhor as consequências da hematocromatose, com um em cada cinco homens e uma em cada 10 mulheres com este gene a desenvolver doenças no fígado, incluindo cancro, diabetes, e osteoartrite ou artrite reumatoide. Julga-se que o fato de perder sangue na menstruação e nos partos seja a explicação para a menor incidência nas mulheres.

A equipa liderada por David Melzer, da Universidade de Exeter, em Inglaterra, concluiu que, além de o problema ser mais comum do que se acreditava, as pessoas com esta mutação desenvolvem mais doenças à medida que envelhecem, aumentando o risco de morte prematura.

No caso dos homens, o número de mortes por cancro do fígado foi significativamente mais elevado do que o esperado.

O ferro é ingerido normalmente através da alimentação e é absorvido pelo intestino. A hematocromatose faz com que o portador da mutação absorva demasiado ferro e, nesse caso, a absorção do ferro pelo intestino diminui por forma a evitar a sua acumulação, como explica a Associação Portuguesa de Hematocromatose. Quando isto acontece, o organismo continua a absorver ferro, levando a uma sobrecarga progressiva, que, percebeu-se agora, danifica os órgãos.

Até aqui, como afirma David Melzer, "pensava-se que as mutações da hematocromatose raramente causavam problemas de saúde". "Mostrámos que a hematocromatose hereditária é uma doença muito mais comum e furtiva", acrescenta, no estudo publicado no BMJ e no The Journals of Gerontology: Medical Sciences.

A investigação conjunta das universidades de Exeter e de Connecticut, EUA, e do Instituto nacional norte-americano do Envelhecimento, sugere que passe a ser rotina um exame de despiste da condição, como uma análise de sangue, já que o tratamento, depois, passa simplesmente pela remoção regular do sangue sobrecarregado com ferro.

Atualmente, acredita-se que a hematocromatose se desenvolveu no passado em populações que se fixaram em sítios onde não havia carne suficiente e que, por isso, passaram a conseguir absorver mais ferro a partir de uma dieta pobre em carne, facilitando a reprodução. É comum no norte da Europa, embora também se encontre no sul. Na Irlanda, é conhecida como "a maldição celta".

Fonte: http://visao.sapo.pt/visaosaude/2019-01-18-Doenca-que-parecia-inocente-aumenta-risco-de-varias-doencas-incluindo-cancro-do-figado

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