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segunda-feira, 14 de março de 2016

Operação Lava Jato - A origem do complô


A personalidade de Sergio Moro revela-se em seu estudo da Operação Mani Pulite, na qual supõe ter-se inspirado ao conduzir a Lava Jato
por Mino Carta — publicado 14/03/2016 02h05

Paulo Whitaker/Reuters

Ele não sabe que a mídia italiana não se parece em nada com a nativa

Quem é Sergio Moro? Não há brasileiro que não saiba dele e da sua determinação ao alimentar diuturnamente a crise de um país abandonado ao seu destino, privado de Instituições e Estado de Direito.

Juiz de primeira instância e da província imperiosamente postado na origem dos nossos tormentos, apreensões e incertezas, primeiro motor do marasmo em plena expansão, partícula primeva do big-bang que não se aquieta.

Há quem enxergue em Sergio Moro alguém entregue à missão redentora, capaz de seguir Pedro, o Eremita, a caminho da Terra Santa para arrancar o sepulcro de Cristo das mãos infiéis. Versão sedutora de uma personalidade complexa.

Melhor, de todo modo, ir além de interpretações e suposições. Um texto que Moro escreveu ao zarpar na rota da Lava Jato é muito indicativo dos seus propósitos, bem como das suas quimeras.

Trata-se de um estudo, de indisfarçável pretensão acadêmica, da Operação Mani Pulite, que, na Itália dos primeiros anos 90, implodiu a Primeira República nascida no imediato pós-Guerra com o fim da ditadura fascista. Leitura instrutiva para entender e dimensionar a desmedida ambição de quem escreve, a par da ignorância envolta em empáfia provinciana.

Para se atirar ao trabalho intitulado “Considerações sobre a Operação Mani Pulite”, seria recomendável o perfeito conhecimento da história dos últimos 70 anos. Moro não está equipado para tanto. Valem de saída dois exemplos para expor a ousadia, ou a desfaçatez, de quem orgulhosamente se engana. 

Possível o sonho de ser um Di Pietro, promotor, porém, lá juiz não caberia na Operação (Foto: Tony Gentile/Reuters)

Primeiro exemplo. Moro entende que os vazamentos seletivos das ações da Lava Jato contribuem de forma decisiva para o êxito da sua operação, e escreve: “Os responsáveis pela Operação Mani Pulite fizeram largo uso da imprensa (...) os vazamentos serviram a um propósito útil. O constante fluxo de revelações manteve o interesse do público elevado e os líderes partidários na defensiva (...) importante garantir o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados”.

Vazamentos destinam-se, obviamente, à mídia, no caso da Lava Jato, a nativa. Donde a mídia do pensamento único, porta-voz da minoria, transformada em partido de oposição. A mídia italiana tem outro endereço.

A Itália está longe de ser um país perfeito, mas suas instituições funcionam a contento e o Estado Democrático de Direito está em vigor. O jornalismo ali existe para todos os gostos e tendências. Vai-se do L’Unità, fundado por Antonio Gramsci, ao Il Giornale de Silvio Berlusconi.

Do Osservatore Romano, órgão do Vaticano, ao Il Manifesto, declaradamente de esquerda. Do Corriere della Sera, moderado e conservador, ao La Repubblica, de centro-esquerda. E há de se levar em conta que no início da década de 90 ainda sobrevivia uma imprensa partidária. 

No comando do pool, Saverio Borrelli, magistrado de estatura mundial (Foto: Leemage/AFP)

Vazamentos houve durante a Mani Pulite, e certamente contribuíram para manter acesa a atenção da opinião pública. Ofereceram-se, porém, aos mais diversos relatos, interpretações, comentários. Não era objetivo tanto de Mani Pulite quanto da mídia peninsular organizar um golpe de Estado.

Segundo exemplo. Moro refere-se a um instituto do Direito italiano, o avviso di garanzia, espécie de intimação entregue ao indagado com a devida antecedência para informá-lo que uma investigação está em curso a seu respeito e que ainda será chamado a depor. Um ditado italiano diz de alguém em má-fé: prega bem e cisca mal. Não consta que Lula tenha recebido em tempo útil algo similar ao avviso di garanzia.

Pelo contrário, é preciso dizer que Moro foi admiravelmente atendido pela polícia para montar um show carnavalesco que envergonha o País aos olhos do mundo e exibe, ao cabo, a ausência de uma Suprema Corte pronta a impor o império da lei.

Duzentos policiais, armados até com metralhadoras, invadiram às 6 da manhã de sexta-feira 4 a residência do ex-presidente da República e o Instituto Lula, e não surpreende que as reportagens dos jornalões tivessem chegado aos locais meia hora antes enquanto o helicóptero da Globo sobrevoava a área. Nada de espanto, de todos os pontos de vista: o complô é midiático-policial, e Moro aí está para atiçar o fogo.

Um ministro do STF apenas pronunciou as palavras certas, Marco Aurélio Mello. Sabidamente, ele não simpatiza com o PT, mas soube arcar com o papel que compete ao magistrado. No mais, retoque-se o ditado: aos amigos tudo, aos inimigos nem mesmo a lei. 

O aparato diante do Instituto Lula envergonha o Brasil aos olhos do mundo (Foto: Nelson Almeida/AFP)

O poder corrompe, a fama também. Ao longo da Lava Jato, Moro empolgou-se e engajou-se em uma operação bem maior do que a própria sob seu comando. Sempre que não estivesse engajado de saída. Endeusado pelos golpistas, santificado em todas as instâncias midiáticas, Moro tripudia a se valer da insensatez geral, nutrida pela crença de que a verdade é aquela que nos convém.

Desconfio que Moro não conheça a língua dos seus ancestrais, o que não é pecado. Mas o juiz é patético ao apontar como única fonte de informação a respeito da Mani Pulite um livro de autores quase desconhecidos publicado em inglês por uma editora nova-iorquina.

Sobre o assunto, existe uma bibliografia monumental à disposição de quem pretender uma análise profunda. Mesmo assim, um bom começo seria ler Mani Pulite – La Vera Storia, de Gianni Barbacetto, e algo mais sobre a estrutura da Justiça italiana e sobre as tradições dos partidos. Para evitar afirmar que a Democracia-Cristã se perfilava à direita.

Tratava-se, isto sim, de um partido grande demais no poder por tempo excessivo. Nela se digladiavam correntes opostas. Uma de direita, liderada, entre outros, por Giulio Andreotti, sete vezes primeiro-ministro, fidelíssimo aos Estados Unidos, outra de esquerda, encabeçada por Aldo Moro.

Nas eleições de 1976, a DC obteve 36% dos votos e o Partido do Comunista 34%. Neste momento, fortaleceu-se a ideia do compromesso storico, aliança entre democrata-cristãos e comunistas, esposada por Moro e Enrico Berlinguer.

Setenta foi a década do terrorismo de direita e de esquerda, preto e vermelho, cujas atividades criminosas atingiram o pico da violência e da notoriedade, uns com o atentado da estação de Bolonha (80 mortos, centenas de feridos), outros como o sequestro e o assassínio de Aldo Moro.

As Brigate Rosse, que o mataram, haviam sido infiltradas pela CIA para o cumprimento de uma missão do agrado dos EUA e da direita DC, apavorados pela perspectiva do compromesso storico. 

Ao entregar o corpo de Moro assassinado, os terroristas é que encenaram o show (Foto: Effigie/AFP)

Ao contrário do que se lê no texto de Sergio Moro, a DC não desapareceu em bloco do mapa político italiano. Muitos da ala esquerda cresceram na aliança com os ex-comunistas reunidos em um partido que mudou de nome ao longo do tempo e hoje se chama Democrático para liderar a coligação governista.

Desde o fim da Mani Pulite, desta corrente progressista da antiga DC saíram um presidente da República, Oscar Luigi Scalfaro, Romano Prodi, premier duas vezes, e mais um premier, Enrico Letta, anterior ao atual, Matteo Renzi, formado na juventude democrática cristã.

O Partido Comunista, ignorado por Moro, emergiu incólume da Mani Pulite. Indiciado um somente entre seus militantes e preso por quatro meses, teve de ser solto com direito a um pedido de desculpas.

O ex-comunista Massimo D’Alema ocupou a cadeira de premier e Giorgio Napolitano foi presidente da República, único a ser reeleito depois de sete anos de mandato em toda a história republicana.

Quanto ao Partido Socialista, manteve a sua tradição de esquerda por longo tempo, até se dispor a uma aliança com a DC e protagonizar um enredo de sabor tucano sob a liderança de Bettino Craxi, enfim condenado pela Mani Pulite e obrigado ao exílio para evitar a prisão.

De alguma forma, o compromesso storico se concretiza no atual governo de Matteo Renzi, sem a dimensão e o impacto que certamente teria se tivesse surgido do acordo entre Moro e Berlinguer.

É imaginável que Sergio Moro sonhe em se tornar o Antonio Di Pietro brasileiro. O promotor Di Pietro ganhou popularidade por ter dado voz de prisão ao primeiro indiciado daMani Pulite, um certo Chiesa, de fato um mariuolo, em linguagem mafiosa personagem secundária, de pouca monta.

Di Pietro não deixou de ter papel relevante, embora a qualidade da operação residisse na força-tarefa, o pool, integrada por promotores de altíssimo nível e chefiada pelo procurador da República de Milão, Saverio Borrelli, magistrado de estatura mundial.

Ao contrário do que Moro informa, Andreotti foi condenado em 3 instâncias, a idade salvou-o de cumprir a pena (Foto:Filippo Monteforte/AFP)

Igual a Moro, Di Pietro não carecia de ambições. Foi ele o único dos promotores da operação a enveredar pela carreira política e fundar um partido, Italia Dei Valori, com algum êxito de início. Hoje também Di Pietro tornou-se personagem de pouca monta.

Moro não participaria da Mani Pulite por pertencer ao poder judicante, que a Justiça italiana exclui da fase de investigação e indiciamento. Entre as inúmeras informações erradas que Moro transmite no seu trabalho, uma, clamorosa, ao dizer que Giulio Andreotti foi absolvido.

Colocado no banco dos réus pela Mani Pulite, foi condenado nas três instâncias e só não tomou o rumo do cárcere ao cabo do percurso judiciário por causa da idade avançada, a lhe alongar a vida para encurtar a prescrição da pena.

Está claro que o escândalo da Petrobras não foi inventado e é bom que os corruptos sejam exemplarmente punidos. Ofende os espíritos democráticos, entretanto, e exibe a precariedade e o descalabro da situação, a omissão a respeito das falcatruas anteriores, cometidas às claras, inclusive na própria Petrobras, pelo governo tucano, com seu socialismo democrático da fancaria que tanto apraz à casa-grande.

De todo modo, a Mani Pulite jamais promoveu o show da truculência encenado pela Polícia Federal na sexta-feira 4, entre São Bernardo do Campo e as alturas do Ipiranga. Programa tão bem preparado, esmerilhado nos detalhes infinitesimais e enfim levado a cabo na exasperação magistral de uma violência adequada à caça de um Dillinger ou de um Bin Laden, faria empalidecer os melhores diretores dos musicais da Broadway.

Espetáculo similar só é possível em um país tão peculiar quanto único, ainda a viver uma Idade Média, onde o juiz Moro, os promotores curitibanos, a polícia e a mídia desconhecem a diferença entre duas figuras contempladas pela lei: o suspeito e o indiciado. Lula é apenas e tão somente suspeito, de mais a mais por suspeitas até agora sem a menor consistência.

Como suspeito, só poderia ser convidado a depor sem aparato coercitivo, sem ameaça e sem prepotência. Isto é do conhecimento até do mundo mineral, conquanto nem todos na Justiça, na polícia, no jornalismo, na política e no público em geral tenham a sensibilidade do quartzo e do feldspato.

As considerações de Sergio Moro sobre Mani Pulite exibem uma personalidade pueril antes ainda que provinciana. Estamos diante de um impecável rebento destes anos de redemocratização (?) fajuta, de decadência cultural, de arrogância inaudita, de insensatez avassaladora. E comparar a Lava Jato à Mani Pulite é apenas ridículo.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/892/a-origem-do-complo

Livro diz haver correlação entre violência e cristão conservador



O fundamentalismo religioso está tão impregnado na cultura norte-americana, que existe uma forte correlação entre as elevadas taxas de crimes violentos e o cristianismo conservador.



Elicka se baseou 
em pesquisa para
escrever o livro

Essa tese é defendida pela criminologista Elicka Peterson Sparks em seu livro The Devil You Know, recentemente lançado nos Estados Unidos.

“A ideologia fundamentalista cristã é criminógena”, disse ela, que é professora de criminologia na Universidade Estadual Appalachian, em Boone. 

No livro, Elicka afirma que o viés religioso que influencia negativamente a sociedade americana são o nacionalismo cristão, o direito cristão para governar, o não reconhecimento da separação entre Estado e Igreja, tomar como exemplo passagens violentas da Bíblia, a rejeição de convivência com pessoas de outros credos e a aplicação do rigor punitivo aos “pecadores”.

Ela diz que cristãos que falam sobre os valores da família são hipócritas porque esses princípios servem, na verdade, para isolar os não crentes, mesmo seus parentes, além de homossexuais.

A autora argumenta que, portanto, a visão de mundo do cristão conservador é “um viveiro ideal para a violência”, porque parte do pressuposta de que os Estados Unidos são uma espécie de "Sodoma e Gomorra".

Entre as mortes violentas relatadas pela Bíblia, Elicka destacou aquelas por apedrejamento, estupro, fogo e espada. 

Citou 1 João 3:4: "Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade; porque o pecado é iniquidade".

A criminologista defende, ainda, que a lógica da ideologia do fanatismo cristão como multiplicador de violência não se restringe aos Estados Unidos, porque também se aplica a países da América do Sul.

Ela poderia mencionar o Brasil, um país cuja quase totalidade da população é cristã e também um dos que lideram a violência urbana.




Leia mais em http://www.paulopes.com.br

quinta-feira, 10 de março de 2016

NOME DO MERCADO - Engenheiro citado na "lava jato" passa a representar gigantes de combustível

Quatro meses depois de renunciar à presidência da BR 

Distribuidora em meio a investigações da operação “lava jato”, o engenheiro químico José Lima de Andrade Neto continua nos bastidores do setor, comandando agora o sindicato que representa as maiores distribuidoras do Brasil. Como a BR Distribuidora costuma liderar o comportamento da entidade, especialistas da área apontam que ele segue interferindo em políticas de óleo e gás.

O Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom) é uma das entidades mais influentes nas decisões nacionais sobre o tema. Tem apenas 12 associadas, mas entre elas a BR Distribuidora — responsável por 35% do mercado brasileiro —, Shell, Ipiranga e Chevron. 
Andrade Neto foi citado por Cerveró em delação e se afastou da BR Distribuidora.
Reprodução

Segundo o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró, que assinou delação premiada na “lava jato” e também foi diretor financeiro da distribuidora, Andrade Neto participou de encontro que discutiu repasse de propinas da Petrobras. Cerveró disse que a reunião ocorreu em 2012, no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, onde estavam presentes o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) e o ex-ministro Pedro Paulo Leoni Ramos.

Ainda de acordo com Cerveró, o então presidente da BR disse que contratos de álcool, aluguéis de caminhões e obras de bases de distribuição de combustíveis seriam “os negócios que poderiam render propina mais substancial”.

Outro delator, Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia, relatou ter pagado propina de R$ 20 milhões para conseguir obras de infraestrutura na BR, também na gestão de Andrade Neto.

Para o Sindicom, no entanto, o mercado de distribuição de combustíveis "não foi, nem está sendo afetado sob qualquer aspecto em função das investigações da 'lava jato'", conforme nota da entidade enviada à ConJur.

Andrade Neto foi secretário nacional de Petróleo e Gás na gestão do então ministro Edison Lobão (Minas e Energia) e tem ligações com o senador Fernando Collor (PTB-AL), ambos alvos do desdobramento da “lava jato” no Supremo Tribunal Federal. Ele deixou a BR justamente quando os dois senadores deixaram de ter controle político da subsidiária da Petrobras.

O engenheiro saiu do cargo em setembro de 2015, alegando problemas de saúde, e assumiu as atividades no Sindicom em janeiro deste ano. A antiga empresa de Andrade é a principal mantenedora do sindicato, tendo contribuído com cerca de R$ 100 milhões nos últimos dez anos. Tudo o que o sindicato gastou no mesmo período soma R$ 150 milhões.

Atuação na Justiça
A atuação do sindicato não se resume à criação de normas. A entidade tem participado, como terceiro interessado, de ações judiciais envolvendo o Fisco e distribuidoras que não são associadas a ele. Num caso, envolvendo a Arrows Petróleo do Brasil, o Sindicom levou ao processo informações que auxiliaram o Fisco do Rio de Janeiro a vencer a ação que cobrava o recolhimento de ICMS em substituição tributária — regime de recolhimento em que o primeiro setor de uma cadeia de produtos é responsável por antecipar o imposto de todo o restante da cadeia.

Essa pressão do Sindicom sobre distribuidoras não associadas foi assunto no próprio Supremo, em 2006. Em voto na Reclamação 4.810, que tratava do excesso de ações civil públicas do Ministério Público e de seu uso político, o ministro Gilmar Mendes citou reportagem da revista Época levantando suspeita de que o Sindicom teria “comprado” uma investigação do Ministério Público Federal contra distribuidoras. A negociação teria ocorrido, de acordo com a revista, via patrocínio de R$ 70 mil para o livro de um procurador da República que investigou a distribuidora Petroforte Brasileiro Petróleo, fechada pela Agência Nacional do Petróleo sob acusação de fraudar combustíveis e sonegar impostos.

A justificativa dada pelo sindicato para interferir nos processos foi a da proteção à concorrência e a igualdade de condições para todas as distribuidoras. Por isso o esforço em evitar que liminares desobrigassem essas companhias de recolher tributos, como o ICMS.

O comportamento não foi o mesmo, porém, com uma de suas afiliadas, a ExxonMobil (Esso). A companhia mantinha imunidade para não recolher Cofins sobre a venda de derivados do petróleo. O direito foi adquirido graças a uma decisão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, em que a Procuradoria da Fazenda Nacional perdeu o prazo para contestar. O Fisco levou o caso ao Superior Tribunal de Justiça, que determinou o pagamento do tributo. Em todo esse processo, que levou mais de 20 anos, não há uma palavra do Sindicom sobre desequilíbrio concorrencial em relação às demais distribuidoras.

Questionado sobre a questão, o Sindicom afirmou, via assessoria de imprensa, que "graças à sua atuação séria no aperfeiçoamento da regulamentação e na defesa de práticas tributárias justas, como forma de contribuir para a melhoria do ambiente de negócio do setor, a entidade consolidou uma imagem reconhecida pela credibilidade, tradição, experiência e defesa da ética concorrencial".

Assinaturas em xeque
Foi ainda sob o comando de Andrade Neto que a BR Distribuidora foi acusada de usar um contrato falso de fiança para direcionar uma execução de dívida para os sócios de uma empresa devedora. Os sócios alegaram não serem verdadeiras as suas assinaturas no contrato de fiança que garantiria a dívida, apresentado pela BR. O direcionamento da dívida foi negado e a BR teve de pagar os honorários advocatícios dos recursos que ajuizou contra decisões anteriores no mesmo sentido. 
Revista Consultor Jurídico, 9 de março de 2016, 19h20

segunda-feira, 7 de março de 2016

Memória: O Caminho do Peabirú


O geólogo alemão, Reinhard Maack (1892–1969), criou em 1952 o primeiro mapa do Paraná a mostrar o Caminho do Peabiru. O trabalho teve por base o manuscrito de outro alemão, Ulrich Schimidel.


Schmidel foi um dos primeiros a percorrer o Caminho de Peabiru, em 1553, saindo de Assunção, hoje capital do Paraguai, seguindo até São Vicente, em São Paulo, em um percurso de seis meses.

O caminho não é mais encontrado hoje pela atividade agrícola, além da construção de estradas e cidades. Um artigo sobre o“Geoprocessamento aplicado a estudos do Caminho de Peabiru”, usa o mapa de Maack. A linha mais forte representa o ramal principal do Caminho de Peabiru. E as outras representam os ramais secundários.


Mapa Político do Paraná com o Caminho de Peabiru.

A rota principal do caminho atravessa o Estado do Paraná no sentido leste-oeste, vindo de São Paulo, passando pelos municípios de Adrianópolis, Tunas do Paraná, Cerro Azul, Doutor Ulisses, Castro, Tibagi, Reserva, Cândido Abreu, Pitanga, Nova Tebas, Mato Rico, Roncador, Nova Cantu, Altamira do Paraná, Guaraniaçu, Campo Bonito, Braganey, Iguatu, Corbélia, Anahy, Aurora, Iracema do Oeste, Jesuítas, Assis Chateaubriand, Palotina e Terra Roxa, chegando às margens do Rio Paraná.

Além da rota principal, o caminho tinha rotas secundárias que atravessavam o estado no sentido norte-sul. Uma das rotas secundárias vinha de São Paulo, passando pelos municípios paranaenses de Salto do Itararé, Siqueira Campos, Wenceslau Braz, Arapoti, Jaguariaíva, Piraí do Sul, Castro, Carambeí, Ponta Grossa, Palmeiras, Porto Amazonas, Balsa Nova, Campo Largo, Araucária, Curitiba, São José dos Pinhais, Morretes, Paranaguá, chegando ao oceano Atlântico. Próximo ao município de Castro, o ramal secundário cruzava com o o principal.

Em Curitiba, outro ramal seguia sentido nordeste, passando por Colombo, Bocaiúva do Su e Campina Grande do Sul. Ali se dividia, com um ramal para São Paulo e outro para o Litoral, passando por Antonina, já no Atlântico. Em Araucária, um ramal secundário seguia para Santa Catarina, passando pelos municípios de Contenda, Mandirituba, Tijucas do Sul e Agudos do Sul.

Outro ramal secundário tinha início em São Paulo e atravessa o Paraná, passando pelos municípios de Jardim Olinda, Paranapoema, Paranacity, Cruzeiro do Sul, Uniflor, Atalaia, Mandaguaçu, Maringá, Floresta, Itambé, Engenheiro Beltrão, Peabiru, Campo Mourão, Mamborê, Juranda, Boa Esperança, Rancho Alegre do Oeste, IV Centenário, Formosa do Oeste, Jesuítas, Assis Chateaubriand, Tupãssi, Toledo, Ouro Verde, São Pedro do Iguaçu, Vera Cruz do Oeste, Diamante do Oeste, Ramilândia, Matelândia, Medianeira, Jardinópolis, Capanema, Planalto, Pérola do Oeste, Pranchita, Santo Antônio do Sudoeste, Bom Jesus do Sul, Barracão e Flor da Serra do Sul, de onde seguia para Santa Catarina.

Esta distribuição permitia o deslocamento dos índios e dos primeiros exploradores.



Clique aqui para encontrar mais informações no site do Museu Paranaense.

Fonte: http://www.jws.com.br/2016/03/memoria-o-caminho-do-peabiru/

Sobre o espetaculoso Procurador Federal que ajudou a constranger Lula, com a polêmica condução coercitiva



Raposa no galinheiro

Procurador Santos Lima, casado com ex-funcionária do Banestado, tentou barrar quebra de sigilo de contas suspeitas

Osmar Freitas Jr. -  Nova York


A proverbial raposa volta a tentar tomar conta do galinheiro. Desta vez aconteceu nos EUA. No sábado 23 de agosto, uma comissão de autoridades brasileiras embarcou para um périplo por cidades americanas. A missão era verificar in loco investigações feitas pelos procuradores daquele país, que poderiam ser ampliadas nos casos de remessas monetárias ilegais e lavagem de dinheiro feitas por brasileiros. Estavam na turma os senadores Antero Paes de Barros (PSDB-MT) e Magno Malta (PL-ES) e os deputados Dr. Hélio (PDT-SP) e José Mentor (PT-SP), todos da CPI do Banestado, dois procuradores da República, uma delegada, um perito da Polícia Federal e consultores da Câmara dos Deputados. A viagem seria um sucesso, mas o trem quase descarrilou por causa de uma disputa insólita, cujos motivos até então ocultos se revelaram, no mínimo, de má-fé. É que entre os procuradores estava Carlos Fernando dos Santos Lima. Santos Lima, quando servia em Curitiba, foi quem recebeu e manteve engavetado, desde 1998, o dossiê detalhadíssimo sobre o caso Banestado e uma lista de 107 pessoas que figuram na queixa-crime sobre remessa de dólares via agência em Nova York. No episódio houve aquilo que em termos jurídicos se chama de “instituto da suspeição”, já que o procurador é parte interessada no caso. Sua esposa, Vera Lúcia dos Santos Lima, trabalhava no Departamento de Abertura de Contas da filial do Banestado, em Foz do Iguaçu. Agora, na Big Apple, Santos Lima fez um tour de force para que a documentação da quebra de sigilo de várias contas, realizada pelo escritório da Procuradoria Distrital de Manhattan, também não viesse à luz, enveredando por um labirinto burocrático que, como sempre, tem seu final em pizza.

ISTOÉ recebeu informações de autoridades americanas de que 
os procuradores Santos Lima e Vladimir Aras, do Paraná, tentaram amarrar a entrega dos preciosos documentos. Alegaram que os quatro membros da CPI não tinham autoridade para processar o caso e só ao Ministério Público caberia a tomada de medidas legais. Insistiram também que só aceitariam os resultados da quebra de sigilo bancário se a Promotoria Distrital nova-iorquina remetesse a papelada para o Departamento de Justiça americano e este colocasse o crivo do MLAT – o acordo de cooperação entre os ministérios da Justiça dos dois países. O impasse causou constrangimento não apenas a quem forneceria a papelada como também aos parlamentares presentes.

Foi insólito”, disse um dos americanos.

O impasse só seria resolvido através de uma manobra que frustrou Santos Lima. Os promotores distritais nova-iorquinos enviariam os documentos da quebra de sigilo para a filial do Banco Itaú em Nova York – instituição que comprou o Banestado na privatização, herdando o imbróglio – e o banco daria tudo aos senadores e procuradores. Com essa posse, os papéis seriam “consularizados”, ou seja: o Consulado do Brasil na cidade atestaria a autenticidade da documentação. De funcionários do Itaú ISTOÉ recebeu informações que houve nova investida de Santos Lima para que os membros da CPI não recebessem o que esperavam. A jogada, porém, não deu certo, e as provas obtidas pelo escritório do promotor Robert Morgenthal já estão nas mãos de quem promete dar continuidade ao caso. O senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), que encabeçava a missão parlamentar, disse: “No final da reunião com o District Attorney, a história do Brasil começou a mudar. Dou minha palavra de que esta CPI não vai acabar em pizza.” Mas, se depender do procurador Santos Lima, pode-se esperar uma mezzo-a-mezzo.

Vera Lúcia, esposa de Santos Lima, trabalhava no Banestado quando, em 1998, o procurador recebeu em Curitiba o dossiê sobre as atividades ilegais do banco. No dia 17 de setembro daquele ano, ele tomou o depoimento de Heraldo Ferreira – ex-gerente de câmbio da agência do banco em Foz do Iguaçu –, em que fazia denúncias sobre as atividades da instituição financeira. O caso Banestado saiu da gaveta do procurador somente depois que ISTOÉ investiu nas apurações do escândalo. Apenas em 21 de março de 2003 é que o procurador Santos Lima enviou esse depoimento à PF, sendo que na Assembléia do Paraná havia sido instaurada uma CPI sobre o assunto quatro dias antes.

A invasão ao galinheiro não seria feita apenas por uma única raposa. Junto a Santos Lima estava nos EUA Neide de Alvarenga – ex-chefe-geral da Divisão de Repressão ao Crime Organizado da PF (DCOIE). Era ela quem insistia para que a primeira equipe de agentes da PF – mergulhada nas investigações em Nova York, em fevereiro deste ano – voltasse ao Brasil. Isso a despeito de o chefe do grupo, o delegado José Castilho, insistir que as investigações avançavam e que o grupo tinha ganhado importante aliado no escritório do promotor distrital de Manhattan. Os faxes que Neide mandava para o Consulado do Brasil em Nova York, onde os agentes se reuniam, eram de conhecimento público, já que não vinham protegidos pela confidencialidade. Batia-se sempre na mesma tecla: a da interrupção dos trabalhos e a volta da equipe, o que acabou acontecendo em abril. Não foi por falta de convites que a delegada deixou de verificar no local os progressos – que hoje são provados pelas 270 caixas de documentos que o District Attorney pôs à disposição das autoridades brasileiras. Mas ela só decidiu viajar em companhia do procurador Santos Lima.

Nem tudo, porém, foi refrega na viagem desta comissão de parlamentares e procuradores. A primeira escala do grupo foi Washington. Na capital americana, a visita rendeu frutos inesperados: o adido da Receita Federal na Embaixada do Brasil entregou à comissão uma lista com 170 nomes de pessoas que possuem imóveis em território americano, não declarados ao Fisco brasileiro. Da lista, fazem parte artistas, empresários e políticos. No total, existem 660 nomes de pessoas com imóveis, mas apenas 170 o fazem de modo criminoso. Destes, o preço mínimo de imóvel é de  US$ 800 mil – o que vale um apartamento de um dormitório em Manhattan, mas é soma suficiente para se adquirir um condomínio de luxo em partes da Flórida e de outros Estados americanos. Entre os nomes –que estão sendo mantidos em sigilo pela CPI e pela Receita – está o de Fábio de Oliveira Catão.

Rastros de Catão

Em setembro de 1994, o megalaranja pernambucano Fábio de Oliveira Catão, 39 anos, saiu do anonimato ao denunciar ao MP e à PF dois caciques de peso da política nordestina: o então vice-presidente da República, Marco Maciel, e o ex-governador de Pernambuco, Joaquim Francisco. Catão trabalhara no setor de transportes do comitê de campanha que, em 1990, elegeu Maciel para o Senado e João Francisco para o governo do Estado. Em depoimento à PF, ele disse que parte dos recursos do comitê de campanha foi doada por “fantasmas” ligados ao esquema de PC Farias. Segundo Catão, ele mesmo ia buscar o dinheiro na agência do Itaú de Boa Viagem. As denúncias nunca chegaram a ser provadas. Catão, que namorou a filha de Maciel, Maria Cristina, havia se apossado do cartão 24 horas da namorada para fazer saques sem autorização. Depois, sumiu de Pernambuco. De acordo com sua irmã, Alexandra, viajou para os EUA e para a Europa. Há sete anos, ele não dá notícias. Seu sumiço está com os dias contados.

Documentos da Promotoria do distrito de Nova York acusam Catão de lavar dinheiro de corrupção nos EUA. De acordo com as investigações, ele seria o administrador de uma conta de US$ 1,5 bilhão no Merrill Lynch, de Dallas, movimentada por políticos e empresários brasileiros. Ele deixou recentemente rastros na cidade de Calgary, no Canadá, onde morou por seis meses com a namorada Viviane Sperb. O casal saiu do país no dia 8 de agosto rumo a São Paulo num vôo de classe executiva. Catão comprou por US$ 5.855 as passagens na agência Atlas. Foi atendido pela brasileira Patrícia Lefebre, a quem pagou a fatura com um cheque de uma conta encerrada do Nationsbank de Dallas. “Como éramos brasileiros, tínhamos uma boa convivência, e ele me disse que administrava uma conta de políticos em Dallas”, contou ela a ISTOÉ. Após se hospedar em agosto no hotel Best Western Regent, em São Paulo, mudou-se para Santa Catarina, onde estaria trabalhando para políticos locais. Viviane retornou para a casa da família em Gramado (RS).“Ele me disse que trabalhava para os bancos e que o nome do chefe dele era Gabriel Halaban”, contou ela, que garante ter rompido o namoro com Catão.

Amaury Ribeiro Jr. e Osmar de Freitas Jr.

FONTE: ISTO É 

PROPINODUTO
|  N° Edição:  1770 |  03.Set.03 - 10:00 |  Atualizado em 07.Mar.16 - 16:14



quinta-feira, 3 de março de 2016

A nova Guerra Fria financeira global


 

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"A estratégia da Nova Guerra Fria é, basicamente, nunca parar de forçar outros países a privatizar as respectivas economias para abrir-se às políticas neoliberais. O objetivo é conseguir que os países abram as respectivas economias às empresas e aos bancos norte-americanos."

(...) "De repente, ficou bem claro que o FMI não é instituição internacional para promover o crescimento econômico global: é uma arma da diplomacia dos EUA para a Guerra Fria, e diplomacia que, no governo Obama, caminhou muito rapidamente rumo à direita.*

19/2/2016, Michael Hudson ("Guns + Butter Interview") Counterpunch
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Suponha que um país deva dinheiro a governo ou a agência oficial estrangeira. Como os credores podem receber, a menos que haja uma corte internacional e sistema para aplicar a lei? O FMI e o Banco Mundial foram parte desse sistema para aplicar as leis, mas agora já andam dizendo "Não vamos mais participar de sistema algum. Só trabalhamos para o Departamento de Estado dos EUA e para o Pentágono. Se o Pentágono diz ao FMI que tudo-bem se um país não for obrigado a pagar o que deve à Rússia ou à China, o país deixa de ter de pagar, no que tenha a ver com o FMI. Esse novo trato rompe a ordem global criada depois da 2ª Guerra Mundial. O mundo está sendo dividido em duas metades: a órbita do dólar norte-americano e os países que os EUA não podem controlar e cujos governos e altos funcionários não estão, digamos assim, na folha de pagamento dos EUA.

Dr. Michael Hudson é economista especializado em finanças e historiador. É presidente do Instituto para o Estudo de Tendências Econômicas de Longo Prazo, é analista financeiro de Wall Street e professor e pesquisador emérito da University of Missouri, Kansas City. Seu livro de 1972 Super Imperialism é uma crítica de como os EUA exploraram economicamente outros países servindo-se do FMI e do Banco Mundial. Seu livro mais recente é Killing the Host: How Financial Parasites and Debt Destroy the Global EconomyHoje discutimos seu artigo "FMI muda as regras para isolar China e Rússia"[The FMI Changes Its Rules to Isolate China and Rússia]."

[abertura]

Bonnie Faulkner: Michael, produzi sete programas a partir das apresentações em Rimini, sobre Moderna Teoria Monetária [orig. Modern Money Theory], dos quais participaram Marshall Auerback, William K. Black, Stephanie Kelton, e todos foram enormes sucessos.

Michael Hudson: Muito bom. Aquele evento foi sensacional. Quando entramos, naquele enorme estádio de futebol, nos sentimos como se fôssemos os Beatles entrando pela passarela central. As pessoas nos saudavam, gritavam nossos nomes, como se fôssemos celebridadespop.

Bonnie Faulkner: Os italianos mostraram-se tão calorosos, tão entusiasmados com uma teoria econômica alternativa. Também achei sensacional.

Michael HudsonYep. E as pessoas viajaram da Espanha e de toda parte. Foi dos melhores eventos de que qualquer um de nós jamais participou.

Bonnie Faulkner: Fico feliz de ter podido participar. Um encontro, sem dúvida, inesquecível.

Mas, voltando ao presente, li seu artigo 
"FMI muda as regras para isolar China e Rússia". Fez soar um sinal de alarme sobre as implicações das mudanças das regras do FMI, que faz empréstimos a governos. Antes de discutirmos essas mudanças de regras no FMI: o que precipitou mudanças tão drásticas no FMI?

Michael Hudson: Há várias mudanças políticas. A primeira foi que - no passado, o FMI jamais fez empréstimos a países que estivessem em situação de 'calote' em dívidas com outros países. Isso porque, no passado, o governo em questão era o governo dos EUA. Desde a 2ª Guerra Mundial todos os empréstimos para resgate ou estabilização feitos pelo FMI e Banco Mundial sempre envolveram o governo dos EUA, em conjunção com consórcios de bancos norte-americanos.

Pela primeira vez, agora que China e os BRICs estão crescendo, os países tomam empréstimos não exclusivamente dos EUA submetidos às forças dos lobbies norte-americanos, mas também tomam empréstimos de China e outros países.

A reação dos EUA foi mudar as regras do FMI. Disseram "Calma lá. Tudo bem que o FMI empreste dinheiro a países que não pagam o que devem à China e Rússia ou a outros BRICs, porque estamos numa nova Guerra Fria. O FMI realmente trabalha a nosso favor". Enquanto os EUA tiverem poder de veto no FMI, o delegado deles pode vetar empréstimo a qualquer país que deva dinheiro aos EUA, e que os EUA não queiram apoiar. Mas não fará objeções a que o FMI empreste dinheiro a satélites dos EUA, como a Ucrânia, que tem grandes dívidas não saldadas com a Rússia.

Em dezembro passado, a Ucrânia devia $3 bilhões à Rússia, de empréstimo feito pelo fundo soberano russo de investimentos. Os EUA estão fazendo de tudo para ferir economicamente a Rússia, supondo que, se for suficientemente ferida, a Rússia se renderá à estratégia de Washington. Os EUA estão fazendo de tudo para ferir economicamente a Rússia, supondo que, se for suficientemente ferida, a Rússia se renderá à estratégia de Washington.

A estratégia da Nova Guerra Fria é, basicamente, tentativa de forçar outros países a privatizar as respectivas economias para abrir-se às políticas neoliberais. O objetivo é conseguir que os países abram as respectivas economias às empresas e aos bancos norte-americanos.

As mudanças nas regras do FMI aconteceram para mobilizar o FMI como, basicamente, um agente do Departamento de Defesa dos EUA, com escritório também em Wall Street. De repente, ficou bem claro que o FMI não é instituição internacional para promover o crescimento econômico global: é uma arma da diplomacia dos EUA para a Guerra Fria, e diplomacia que, no governo Obama, caminhou muito rapidamente rumo à direita.

Bonnie Faulkner: Agora temos a Organização de Cooperação de Xangai, OCX [orig. Shanghai Cooperation Organization, SCO] como uma aliança militar alternativa à OTAN, e o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura, BAII, que ameaçam substituir o FMI e o Banco Mundial. Você acha que essas novas alternativas ao bankingocidental podem ser bem-sucedidas? O quanto bem-sucedidas?

Michael Hudson: O grande ponto é que o sistema ocidental debanking, o Banco Mundial e o FMI, não é sistema bem-sucedido. O FMI segue uma economia sórdida que diz que, se você deve dinheiro a acionistas ou banqueiros de outros países, você tem de impor arrocho (não é 'austeridade': é ARROCHO) máximo ao país, para que pague o que deve, custe o que custar. Essa economia da sordidez que opera atualmente diz que o arrocho capacitará os devedores a arrancar para fora do país o máximo de dinheiro de impostos, para pagar banqueiros e acionistas estrangeiros.

É a mesma desastrosa teoria que britânicos e norte-americanos e franceses usaram nos anos 1920s, para insistir que o povo alemão conseguiria pagar qualquer valor de reparação, desde que se criassem impostos suficientes sobre a economia alemã.

Que essa teoria é falsa e viciosa já está demonstrado por John Maynard Keynes e também pelo norte-americano Harold Moulton, da Brookings Institution. Mas as lições dos anos 1920s foram rejeitadas pelo FMI, porque o pessoal lá sabe muito bem - e a equipe já disse bem claramente - que nenhum arrocho jamais capacitará país algum a pagar dívida externa alguma. Quanto mais arrocho - quanto mais 'austeridade', no jargão oficial e 'jornalístico' de mascaramento da realidade -, menor a capacidade do país para pagar suas dívidas, e quanto mais arrocho, mais o país terá de tomar emprestado.

É quando o FMI entra em cena, com o segundo golpe: o golpe número um é a 'austeridade' (arrocho). O golpe número dois é dizer: 'Ok, acho que nosso programa não funcionou. Que lástima. [Na verdade, não é surpresa para ninguém, e já aconteceu incontáveis vezes.] Então, agora, vocês têm de privatizar, privatizar, privatizar, a indústria e os recursos naturais, tudo. E vendam as terras.'

Isso, precisamente, é o que o FMI diz aos países devedores e é o que disseram à Grécia, ano passado.

Quando o plano de austeridade arrocho que o FMI exigia desde 2010 não funcionou, o FMI uniu-se ao resto da Troika (Banco Central Europeu e União Europeia), em 2015, para exigir que a Grécia concordasse com vender suas ilhas, seus portos, seus sistemas de abastecimento de água, tudo que ainda fosse propriedade pública. Depois de terem destruído a Grécia, no verão de 2015, começaram as 'negociações' com a Ucrânia.

O golpe número 1 do FMI contra a Ucrânia foi impor 'austeridade' arrocho, sob o falso pretexto (é a economia de sarjeta do FMI) de que a Ucrânia conseguiria pagar os acionistas estrangeiros com impostos sobre a renda que seriam extraídos da economia doméstica. Quando o 'remédio' agravou ainda mais a 'doença', o Banco Mundial e a [agência] USAID entraram em cena. O ministro das finanças da Ucrânia nomeado pelos EUA pôs as garras na terra agricultável, nos direitos de venda e distribuição de gás e em outros recursos naturais que a Ucrânia poderia vender para quitar as dívidas com credores norte-americanos e europeus - mas não o que a Ucrânia devia à Rússia.

A ideia geral é que, se investidores norte-americanos conseguirem comprar a infraestrutura chave e comandar os pontos chaves da economia ucraniana, conseguirão separa a Ucrânia, da Rússia. A Ucrânia teve papel chave na economia russa. Muito da indústria militar e espacial russa é produzida na região do Donbass, no leste da Ucrânia.

A ideia portanto era separar Ucrânia e Rússia, no primeiro passo, para dividir a Rússia; depois, se tratará de dividir a China em pequenos 'pedaços'. A meta é tratar China e Rússia como os EUA trataram o Oriente Médio, a Líbia, o Iraque, o Afeganistão e a Síria - fazendo o que for preciso, até arrancar deles as empresas e os recursos naturais.

Bonnie Faulkner: E qual é o objetivo do Tratado da Parceria Trans-Pacífico, TPT, e como se opõe a projetos como o Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura?

Michael Hudson: Poderia dar-lhe resposta rápida e dizer que o objetivo é matar de fome 50% da população global, abolir aposentadorias e pensões e disseminar o mais amplamente possível a máxima miséria. Aí está realmente o efeito desse Acordo.

A história da capa finge que tem a ver com comércio, mas a agenda real é forçar privatizações e neutralizar qualquer regulação que os governos proponham. É o exato contrário de toda a Era do Progresso. Nos últimos 300 anos, Europa e EUA pressupunham que você teria uma economia mista, com governos investindo na infraestrutura, estradas e outras vias e meios de transporte, comunicações, sistemas de água e esgotos, gás e eletricidade. O papel de infraestrutura do governo era atender a essas necessidades básicas a custo mínimo, para promover uma economia competitiva, de baixos custos. Foi assim que os EUA enriqueceram. Foi assim que a Alemanha industrializou-se e, também, foi assim que o resto da Europa industrializou-se.

Mas o objetivo da Parceria Trans-Pacífico é reverter e privatizar todo e qualquer investimento público. A ideologia da tal 'parceria' é que a economia deve ser propriedade de, e operada por, agentes privados; proprietários privados, empresas privadas, cujo objetivo é lucro de curto prazo.

Há vários outros objetivos relacionados: acabar com qualquer regulação que vise a proteger o meio ambiente (porque aumentam os custos); acabar com qualquer proteção ao trabalho; e acabar com qualquer projeto para criar impostos sobre exploração de recursos naturais ou sobre as atividades do rentismo.

A ideia é converter estradas e sistemas de transporte em estradas apedagiadas, que serão compradas por empresas estrangeiras, que imporão os preços de pedágio que bem entenderem. A Internet e o sistema de distribuição de água serão privatizados e convertidos em sistemas q também funcionarão por 'pedágios', todos os serviços serão comprados, todos.

Assim se imporá uma economia de rentismo neofeudal em todo o mundo, com o estado expulso dos setores de Finanças, Indústrias e Imobiliário.

Acho que se pode dizer que, num nível mais amplo, a ideia é apagar o Iluminismo e restaurar o feudalismo. Pode parecer exagero, mas as pessoas ainda não se deram conta de o quanto são radicais os acordos de investimento do Tratado da Parceria Trans-Pacífico, TPT.

Por exemplo, quando a Austrália aumentou os impostos sobre cigarros e incluiu nos maços avisos de que cigarros são nocivos à saúde, a Philip Morris processou o país, exigindo receber da  Austrália o que a empresa lucraria, se as pessoas continuassem a fumar e só parassem ao morrer de câncer nas porcentagens hoje calculadas.

Quando o Equador tentou processar empresas de petróleo por crime ambiental, as empresas responderam, processaram o país e, hoje, o Equador tem de pagar às petroleiras valor correspondente ao lucro que teriam se continuassem a poluir o solo para extrair petróleo - em grau infinito. Nenhum governo em lugar algum do mundo que assine essa 'Parceria' será jamais livre para criar leis de proteção ao meio ambiente nem, sequer, para criar novos impostos que atinjam as empresas financeiras ou qualquer outra empresa privada.

Essencialmente, os novos compradores das estradas que os sistemas de água e esgoto poderiam usar passam a ser autorizados a fazer das estradas um meio de extração de lucros, sem nenhuma lei antimonopólios que os perturbem. Implica dizer que poder cobrar o que bem entendam, e tratar os países onde operam exatamente como são tratados os usuários de TV por cabo em New York City. Eu moro em Forest Hills, no Queens. Ali só há um provedor de sinal, a Time Warner. Se eu quiser instalar um cabo para receber outros canais, sou condenado a pagar o que quer que as empresas cobrem, e esse custo nada tem a ver com o custo de produção dos programas. Tenho de alugar o cabo deles. Não posso comprar o cabo para usá-lo como quiser.

Assim opera a economia rentista. Há nela ganhos que nada têm a ver com custos de produção. Ao longo de séculos, economistas como Adam Smith, David Ricardo, John Stuart Mill e Thorstein Veblen escreveram sobre como criar uma economia que produziria tudo ao custo real, tecnológica e socialmente necessário, sem almoço grátis, quer dizer, sem nenhum tipo de renda não justificável  ("renda econômica", orig. "economic rent").

O objetivo da Parceria Trans-Pacífico e sua versão 'transatlântica', para a Europa, é promover extração de renda econômica. Esses interesses rentistas oferecem um tipo de economia-lixo, para substituir a economia clássica, contra a Era do Progresso e a democracia social, para criar uma ideologia de direita que eles chamam de 'livre comércio'. Essa expressão é puro duplipensar orwelliano.

Bonnie Faulkner: As regras da Organização Mundial do Comércio foram aplicadas contra aqueles países, que você citou antes, como a Austrália?

Michael Hudson: Acho que a Philip Morris perdeu a ação, mas mesmo assim o estado australiano foi obrigado a gastar milhões de dólares em custas e despesas do processo. É quase impossível para país pobre, como o Equador, e mesmo para a Austrália, gastar esse dinheiro todo para conseguir defender-se contra aqueles exércitos de advogados empresariais. Nos termos da Parceria TTP, os árbitros seriam escolhidos pelo setor empresarial e seus advogados contratados.

Os julgamentos [no acordo, fala-se de "arbitragem"; o mecanismo é chamado "mecanismo para a resolução de conflitos Investidor x Estado (MRCIE)"] são feitos à margem do Estado e não são regidos pelas leis aprovadas por Parlamentos eleitos: a oligarquia empresarial substitui o que hoje conhecemos como "democracia". Decisões sobre quanto os governos terão de pagar às empresas como reparações são tomadas por um pequeno grupo de 'árbitros' que trabalham em regime de 'porta giratória' que conecta o Estado e as empresas. Os chamados 'árbitros' não passam de lobbyistas a serviço das empresas.

Bonnie Faulkner: A China acelerou a criação de seu sistema alternativo de compensações internacionais [orig. China International Payments System, CIPS] e de sistema próprio de cartões de crédito. O que é o atual Sistema Internacional de Compensações Interbancárias [ing. SWIFT Interbank Clearing System], e o novo sistema chinês o ameaça em algum sentido?

Michael Hudson: Todos os bancos têm um sistema de compensação dos cheques que preenchemos, para saque em nossas contas bancárias. O sistema SWIFT é um gigantesco programa para computadores, que torna possível mandarmos dinheiro, por cheque de nossa conta bancária, para outros, que usam outros bancos.

Há cerca de um ano, estrategistas norte-americanos conceberam o que viria a ser uma nova Guerra Fria contra a Rússia. Pode rapidamente tornar-se guerra militar. Mas os EUA perceberam que poderiam ferir a economia russa sem ter de mandar soldados. Não é mais preciso que os EUA invadam. Invasões é guerra antiquada. Hoje, é difícil invadir outros países. Mas os EUA podem manter a Rússia como refém - ou qualquer outro país - se, repentinamente, decidirem expulsar, a Rússia ou qualquer país, do sistema de compensaçõesSWIFT. O país expulso do sistema SWIFT não pode compensar cheques. Acaba paralisado. Para excluir um país, os EUA 'embaralham' ou apagam as comunicações e conexões entre bancos.

Tão logo os norte-americanos começaram a falar sobre isso, China e Rússia reagiram. Evidentemente, não podem admitir que um país que pode vir a declarar-lhes guerra, tenha tanto poder. Obama e Hillary Clinton já ameaçaram expulsar Rússia e China do sistema SWIFT.Assim sendo, os russos responderam que muito desejariam ser parte de uma unidade global, mas dado que os EUA comandam o sistemaSWIFT exclusivamente para atender aos seus próprios interesses e de modo hostil, Rússia e China são obrigados a proteger os respectivos sistemas de compensações bancárias.

A China imediatamente pôs-se a trabalhar para criar sistema próprio de compensações bancárias.

Pessoas, empresas e organizações governamentais na China e nos demais países BRICS deixarão a posição de reféns dos EUA, sempre a espera de um 'vírus' de computador que os norte-americanos implantem no sistema de computação que faz as compensações bancárias, como fizeram no sistema que controla as centrífugas iranianas. Porque se trata disso: assim como os EUA invadiram os computadores que controlavam as centrífugas iranianas, assim também podem invadir o sistema SWIFT. Agora, a China e os países BRICs já são capazes de defender-se contra esse tipo de ataque.

Bonnie Faulkner: E a China já implementou seu Sistema Chinês Internacional de Compensações, ou são só planos?

Michael Hudson: Acho que o programa ainda está sendo desenvolvido, porque é sistema extremamente complexo. Essas coisas têm uma inércia, é mais fácil desenvolver programas a partir do que existe, do que desenvolver sistema substituto. É como o programa Office, da Microsoft. Por isso os computadores Mac usam Word e Excel. Custa bilhões de dólares escrever programa novo, sem nenhum conflito com os existentes. Acho que os chineses ainda estão trabalhando nos conflitos, porque, afinal, não precisam temer guerra eletrônica imediata declarada nesse campo.

Bonnie Faulkner: O primeiro-ministro russo Vladimir Putin propôs uma parceria ou, no mínimo, uma cooperação entre o ocidente e parceiros militares e econômicos emergentes no outro lado do mundo. A abertura de Putin para o ocidente parece ter caído em ouvidos surdos. O que você pensa sobre isso?

Michael Hudson: É a mesma esperança que já havia desde os anos 1990s, mesmo antes de Putin chegar ao poder. A ideia é que a Rússia quer unir-se à OTAN, dado que qualquer guerra atômica entre nações industrializadas está já fora de questão.

Todos enfrentam uma ameaça comum que lhes vem do Islã wahhabista financiado pela Arábia Saudita - o terrorismo da Xaria Wahhabista. A Rússia preocupa-se com terroristas financiados pelos sauditas ali bem próximos de sua fronteira sul, da Geórgia, do Azerbaijão, diretamente até a Ásia Central.

Os chineses também se preocupam com o terrorismo wahhabista, entre os uigures.

ISIS e a Frente Al-Nusra atuam hoje como a Legião Estrangeira dos EUA.

Quando Hillary Clinton derrubou o governo da Líbia, armas e equipamentos militares de todos os tipos foram entregues ao ISIS. Os recursos do Banco Central da Líbia foram roubados e também foram entregues aos terroristas do ISIS. Quando os EUA invadiram o Iraque, entregaram o exército sunita e bilhões de dólares em notas amassadas de 100 dólares, na prática, aos terroristas do ISIS. Assim, por mais que os EUA falem de combater o ISIS nos casos em que matem norte-americanos, o ISIS é, basicamente, ferramenta que os EUA usam para quebrar países que ameacem não aceitar o padrão do dólar global.

A Rússia tinha esperanças de que os EUA acabariam por entender que esse sistema é loucura total. EUA, Rússia e Europa têm muito a ganhar no comércio multilateral. A Europa, se conseguisse defender efetivamente seus próprios interesses, veria que a Rússia é sua parceira comercial óbvia. Europeus e norte-americanos, é claro, muito teriam a ganhar se investissem e reerguessem a economia russa, porque faltam empresários naquela parte do mundo.

Mas, em vez de buscar uma esfera de prosperidade mútua entre Europa, Rússia e os EUA, os EUA empurraram a Europa para uma zona morta de arrocho neoliberal. Por causa disso, a economia europeia está encolhendo. Sem a Rússia, a prosperidade europeia é praticamente impossível. Mas isso - a ruína da Europa - é o que os EUA desejam, porque Europa próspera beneficiaria também Rússia ou China.

A ideia dos EUA é aplicar à Rússia o mesmo tratamento que aplicaram a Cuba, Irã e Líbia - isolar o país, à espera de que a Rússia caia de joelhos. Mas a Rússia é muito maior que Cuba ou que a Coreia do Norte; a China, é ainda maior. E, em vez de se renderem ao plano econômico norte-americano liberal, decidiram que ambas as nações, Rússia e China, trabalhariam para construir um alinhamento mutuamente defensivo. A patética diplomacia norte-americana conseguiu firmar ainda mais uma unidade eurasiana, exatamente o que os EUA mais queriam impedir que acontecesse.

Bonnie Faulkner: Sim. Creio que no seu artigo, a certa altura, você descreve alguns dos membros do FMI como se vestissem coletes de explosivos, para fazer a instituição voar pelos ares. Achei ótima a descrição.

Michael Hudson: É, mesmo, como se os EUA entrassem na reunião do FMI usando coletes de explosivos e dissessem "Queremos que o FMI só sirva aos interesses dos EUA, não a interesses internacionais". Assim se quebrou a ilusão de que o FMI seria negociador honesto, interessado em ajudar os países a se estabilizar.

A pressão dos EUA mudou radicalmente várias regras. Uma das regras a que já fiz referência é a de não emprestar a país que se recuse a pagar o que deve a outro governo. Nada disse está registrado nos contratos que o FMI assina. Mas o que, sim, está escrito nos estatutos do FMI é que ninguém estaria obrigado a emprestar coisa alguma a país que visivelmente não tem nem terá tão cedo os meios para pagar o empréstimo. É a regra chamada "nenhuma nova Argentina", que ficou estabelecida depois que o FMI emprestou dinheiro à Argentina em 2001 para pagar o que devia. A Argentina não tinha qualquer chance de pagar por esse empréstimo.

O FMI quebrou essa regra depois de 2010, quando emprestou à Grécia. Alguns funcionários deixaram o FMI, ao ver ignoradas as suas análises. A diretoria do FMI perguntou como poderia emprestar aquele dinheiro à Grécia para que a Grécia pagasse o que devia a bancos alemães, franceses e ingleses, e resgatar acionistas, sem definir como a Grécia pagaria o empréstimo.

O então diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, atropelou a equipe e membros da diretoria e criou uma nova regra, chamada "de risco sistêmico". Por essa regra, o FMI ficava autorizado a violar as regras da própria constituição e emprestar a qualquer país (mesmo que fosse devedor inadimplente), no caso de o risco de o país não pagar o empréstimo gerasse risco a muitos países. Na prática, o FMI definiu que haveria risco sistêmico sempre que houvesse risco de qualquer acionista perder mais de $1. Essa perda derrubaria a "confiança". Então, para salvar bancos e acionistas do fundo, a economia seria detonada pela deflação da dívida. Vale lembrar que há poucos dias, dia 29/1/2016, o FMI cancelou essa 'regra'. Declarou que não voltará a aplicá-la.

Outro elemento presente na lei de constituição do FMI estipulava que o FMI não emprestará a país em guerra. A razão óbvia é que, se um país está em guerra, guerra civil sobretudo, que esteja destruindo o setor de exportação - como a Ucrânia está fazendo -, de onde obterá as dividas necessárias para pagar sua dívida externa? A Ucrânia exportava para a Rússia praticamente tudo q produzia. O ataque contra o Donbass e o leste da Ucrânia destruiu toda a indústria ucraniana de exportação.

Os EUA super turbinaram o FMI para que fizesse o empréstimo à Ucrânia. A diretora do FMI, Christine Lagarde disse que esperava que a Ucrânia não gastasse todo o dinheiro em mais guerra. Na verdade, 1,5 bilhão de dólares foram entregues a banqueiros cleptocratas como Kolomoiski, que imediatamente retirou do país todo o dinheiro, ao mesmo tempo em que usou o dinheiro que tinha na Ucrânia para financiar um exército anti-Donbas. Dia seguinte, o presidente Poroshenko declarou que então, afinal, a Ucrânia podia continuar e ampliar a guerra.

A quarta regra que o FMI quebrou é a de não emprestar a país onde seja baixa a probabilidade de que se implante um programa de arrocho [orig. "austeridade"]. Chamam a isso uma "condicionalidade". Implica calar qualquer oposição democrática. A Ucrânia está reduzindo pensões e impondo regras de arrocho as mais ferozes, o que implica dizer que é mínima a chance de o país sobreviver como democracia.

Os EUA já se manifestaram e já reconheceram que estão desistindo de fingir que seriam país que só apoia democracias. Nos anos 1960s e '70s apoiaram incontáveis ditaduras na América Latina, inclusive a derrubada de Allende no Chile.

E agora o FMI emprestará a países em guerra, mesmo quando não haja qualquer possibilidade de o empréstimo ser pago, bastando, para obter dinheiro, que o país que solicite o empréstimo faça o que os estrategistas norte-americanos lhe ordenem. E não emprestará a país que precise do dinheiro para pagar dívidas a bancos russos ou a bancos dos países BRICS.

Bonnie Faulkner: Michael, você até já começou a responder essa pergunta, mas talvez possa acrescentar  mais alguma coisa. O Fundo Nacional Soberano Russo emprestou dinheiro à Ucrânia. Você já falou disso. Esse empréstimo foi protegido pelas cláusulas de empréstimo do FMI, e os papéis foram registrados nos termos definidos pelas leis e tribunais comerciais de Londres. Explique, por favor, como as regras do FMI e o Banco Mundial protegiam a estrutura original das práticas de empréstimos soberanos pós-2ª Guerra Mundial.

Michael Hudson: O FMI disse que não emprestaria dinheiro a país que devesse dinheiro, ou estivesse em estado de 'calote' de dívida com qualquer governo, ou que não negociasse de boa fé para pagar governos estrangeiros. Ucrânia devia $3 bilhões ao Fundo Nacional Soberano Russo - obviamente, uma organização governamental. O empréstimo russo foi feito em termos de concessão, mas não sem qualquer proteção. Dado que se tratava do Fundo Nacional Soberano Russo, ele se autoprotegeu, registrando a transação na Inglaterra. Tem havido muita discussão na Rússia sobre se a Ucrânia conseguirá safar-se sem ter de pagar o que deve à Rússia.

Ano passado, o Tesouro dos EUA teve longa discussão com advogados de bancos sobre o que a Ucrânia deveria fazer para continuar em condições de para receber novos empréstimos do FMI. Agora, aí está. Já conhecemos a resposta: mudaram-se as regras do FMI. Não esqueçamos que a União Europeia e os bancos internacionais, como regra geral, não se alistam em consórcios para conceder empréstimos a país que não se qualifique para obter empréstimos do FMI. Para receber empréstimos dessas organizações, o país devedor tem de ter 'ficha limpa' no FMI.

Agora, a diferença é que, em vez de proteger o sistema de empréstimos para todos países e governos, o FMI só protegerá empréstimos a países que gravitem na órbita dos EUA. Governos que não obedeçam aos EUA ficam sem crédito e sem dinheiro. Na prática, esses governos que 'não obedecem' aos EUA são todos que não implantem políticas neoliberais as mais rígidas.

Bem resumidamente, tudo isso foi feito porque os EUA estavam decididos e retirar da Rússia o direito e a capacidade legal para cobrar (e eventualmente receber) os $3 bilhões que a Ucrânia tomou emprestados.

Discutiu-se até se a Ucrânia poderia declarar "odiosa" a dívida que os russos estavam cobrando, porque 'tudo' que pertencesse à Rússia teria passado a poder ser declarado 'odioso', desde que Obama 'declarou' que Putin seria cleptocrata e corrupto.

Ora, durante 50 anos os EUA emprestaram dinheiro a fundo perdido a todos os tipos de ditadores corruptos na América Latina, África e Ásia, todos absolutamente corruptos, de Pinochet, ladeira abaixo, até Tony Blair.

Verdade é que os EUA fizeram voar pelos ares todo o arcabouço legal e legítimo da lei internacional.

A Ucrânia sabe que perderá nos tribunais britânicos, onde a transação está registrada, seja qual for a sua tentativa de escapar de pagar o que deve à Rússia. As cortes inglesas tendem a garantir os direitos do credor. Mas, pelo menos, os EUA conseguiram passar aquele derradeiro empréstimo, diretamente às mãos da cleptocracia ucraniana.

A Ucrânia e seus apoiadores nos EUA talvez suponham que, com o petróleo a menos de $30 o barril, e com a Rússia precisando de dinheiro, conseguirão dobrar a Rússia aos desejos dos EUA. É perfeita insanidade, porque já é perfeitamente visível que a Rússia não se renderá. Há poucos dias, o ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergei Lavrov anunciou que a Rússia está repensando seu relacionamento com o ocidente.

É óbvio que os EUA opõem-se a quaisquer laços econômicos entre Alemanha e outros países europeus, e a Rússia. Assim sendo, a Rússia está repensando o próprio relacionamento com a Europa. Ora! Se a Europa age como se quisesse ser o 51º estado dos EUA, em vez de defender os interesses de seus próprios cidadãos, os russos, claro, se orientarão na direção da China e dos demais BRICs. É péssimo para os EUA e para a Europa. Melhor seria um relacionamento amigável, para maior prosperidade de todos.

Bonnie Faulkner: Você deu ao seu artigo o título de "FMI muda as regras para isolar China e Rússia"porque é o que estavam fazendo. O objetivo por trás da mudança nas regras é isolar China e Rússia. Mas China e Rússia estavam cooperando com o FMI e o Banco Mundial, não estavam?

Michael Hudson: Sim, estavam. O principal objetivo da estratégia dos EUA desde o início sempre foi a China. Os EUA passaram três anos discutindo abertamente o que fazer para isolar a China. Os EUA não querem ver nenhum grande Estado potencialmente independente. Tudo bem que a mão de obra chinesa trabalhe sob salários super arrochados para abastecer as prateleiras de Wal-Mart com itens exportados de baixo preço. Mas os EUA não podem admitir uma China potência independente.

A China deu aos importadores e investidores norte-americanos importantes interesses comuns a favor dos quais fazerem lobby para impedir que o governo dos EUA intensificasse sua Guerra Fria contra a China. Mas a Rússia não tem o mesmo poder de alavancagem, porque não tem tantos meios, como tem a China, para enriquecer gente do outro lado do mundo, especialmente depois que os russos meteram Khodakovsky na cadeia, quando ele tentou vender sua petroleira Yukos para a Exxon. Na essência, seria vender o controle do petróleo russo, extraindo-o do patrimônio nacional russo. As vendas e lucros certamente encolheriam, depois que os contadores da Exxon usassem todas as estratégias que conhecem para sonegar impostos, servindo-se de bandeiras de conveniência e bancos em paraísos fiscais para fazer desaparecer qualquer lucro taxável.

A China quer que sua moeda torne-se item da cesta global de moedas do FMI. Quer estabelecer o yuan com status igual ao do dólar, para que não precise depender de bancos norte-americanos para suas exportações, e, sobretudo, para criar crédito doméstico.

A China quer evitar o os neoliberais neoconservadores norte-americanos fizeram à Rússia em 1992 e 1993. Naquele momento, eles convenceram a Rússia de que o banco central russo não poderia viver ser dólares norte-americanos que serviriam como lastro para o rublo. Dado que a Rússia não tinha grande quantidade de dólares norte-americanos, o resultado foi deflação drástica ("terapia de choque" sem terapia). Efeito disso na Rússia, foi a desindustrialização.

Não havia necessidade alguma de a Rússia tomar empréstimos em moeda estrangeira para saldar despesas domésticas com a própria indústria e força de trabalho. O rublo foi transformado em moeda satélite do dólar, até que quebrou, no crash de 1997, quando os capitais - em torno de $25 bilhões ao ano - fugiram para a libra esterlina e o dólar.

Isso, precisamente, é o que a China quer evitar. Querem livrar-se de depender do dólar, exceto o que for necessário para importar dos EUA ou para defender a moeda contra ataques. George Soros disse que espera que o yuan caia. É 'aviso' para que os especuladores ponham-se a tentar derrubar a moeda. Os chineses estão tentando livrar-se de interconexões com a órbita do dólar, exceto o necessário para importar dos EUA - que acho que não é muito, exceto no caso de filmes.

Bonnie Faulkner: Você mencionou quatro das próprias regras, que o FMI infringiu ao emprestar dinheiro à Ucrânia. Será que você se incomodaria de comentar novamente aquelas quatro regras, para que as pessoas não percam de vista a extensão da mudança?

Michael Hudson: A primeira regra foi a de não emprestar a país que não tivesse meios visíveis para pagar o empréstimo. É a chamada regra "nenhuma nova Argentina". Já havia sido quebrada no empréstimo à Grécia, quando Strauss-Kahn introduziu o tal de "risco sistêmico" para proteger os bancos.

A segunda regra foi não emprestar a país que tenha dado calote, quer dizer, que tenha renegado as dívidas que tivesse com credores oficiais, quer dizer, país que tivesse declarado que não pagaria o que devesse a outro país. Essa regra tornou o FMI uma espécie de 'cobrador' mafioso a serviço do cartel de credores. Hoje porém já é 'cobrador' mafioso a serviço dos só dos credores que os EUA protejam.

A terceira regra é não emprestar a país em guerra. A Ucrânia está em guerra, guerra civil contra o leste do país. Mas como o Donbass é apoiado pela Rússia, a regra não valeu nesse caso.

A quarta regra é não emprestar a país que não imponha à população as regras do arrocho [o FMI chama de "regras de austeridade"] do FMI, que empobrecem de tal modo o país que entram rapidamente em bancarrota e têm de vender o próprio patrimônio (terras e recursos naturais). O governo golpista da Ucrânia não pode impor a receita de arrocho do FMI sem ser arrancado do poder, mas pode vender terra e direitos de extração de gás natural a Soros e à Monsanto. Então, nesse caso, a regra não valeu.

Essas quatro regras foram infringidas. A Ucrânia ainda não começou a vender os próprios recursos naturais, e há alguma discussão em curso sobre isso, porque os cleptocratas locais querem continuar proprietários daqueles recursos e fazer o mesmo negócio que seus contrapartes russos fizeram no início dos anos 90s: venderão nas bolsas de valores de EUA e Grã-Bretanha coisa como 25% do monopólio que hoje é deles; os compradores encarregam-se de fazer subir e subir o preço, e depois vendem os seus 75%, para receber em Londres, New York ou onde for. O que importa é tirar da Ucrânia todos os valores, deixando o país sem fundos, e devendo anualmente quantidades enorme de dinheiro, com o patrimônio nacional vendido na bacia das almas.

Bonnie Faulkner: Você diz que a questão entre Oriente e Ocidente é uma filosofia do desenvolvimento. Em que o desenvolvimento difere nos dois sistemas?

Michael Hudson: A filosofia neoliberal norte-americana do desenvolvimento é uma espécie de conceito orwelliano oco; chamam de "desenvolvimento" o que é ausência de desenvolvimento. Como se fosse "desenvolvimento reverso". O plano neoliberal é criar uma sociedade pós-industrial. "Pós-industrial" nessa caso significa economia "neo-rentista" que volta ao feudalismo.

Em vez de os governos assumirem o comando e proverem serviços básicos a baixos preços para que o país construa economia competitiva, os governo neoliberalizados vendem estradas e energia, água e esgotos a compradores que cobrarão por tudo, bem ou serviço, que encontre demanda no mercado. É a via mais curta para empobrecer o país. É o oposto do que fez a economia do desenvolvimento ao longo de quase todo o século 20.

Bonnie Faulkner: Que tipo de cenário o Departamento de Estado e o Tesouro dos EUA discutem há mais de um ano, como meio para se opor aos empréstimos para infraestrutura que chineses e russos têm feito a outros países? Acho que você já falou um pouco sobre isso.

Michael Hudson: Os EUA não se integraram ao Banco Asiático de Investimento e Infraestrutura, e fizeram de tudo para induzir outros países a não se integrarem. Houve muita gritaria e ranger de dentes quando a Inglaterra integrou-se ao BAII e outros países tentaram segui-la. Os EUA estão tentando criar uma cortina de ferro que impeça que os BRICS escapem da órbita do dólar norte-americano. É uma cortina financeira - não é cortina de ferro: é cortina eletrônica.

Bonnie Faulkner: Naquele artigo, você escreveu que o FMI seguiria emprestando aos países e dizendo a eles que não têm obrigação de pagar o que devem a Rússia e China, mas que sempre poderão tomar empréstimos do FMI?

Michael Hudson: Não é que o FMI vá e diga aos países que não paguem o que devem. O problema é que não há corte internacional. Não há agente que obrigue a cumprir as leis e fiscalize com eficácia se as leis estão ou não estão sendo cumpridas. Por exemplo, há incontáveis fundos abutres a gritar que a Argentina deve dinheiro a eles, mas até agora não conseguiram cobrar coisa alguma. Conseguiram que a Nigéria confiscasse um navio-escola argentino, mas, porque era propriedade do Estado argentino, o país teve de deixá-lo partir.

Suponha que um país deva dinheiro a outro governo ou agência oficial. Como os credores conseguirão receber, se não houver corte internacional e sistema de aplicação das sentenças e decisões daquela corte? O FMI e o Banco Mundial foram parte desse sistema para fazer pagar, mas agora tudo mudou. Agora, o FMI está dizendo 'Não faremos mais o que fazíamos. Agora só trabalhamos, exclusivamente, para o Departamento de Estado e para o Pentágono dos EUA.' Se o Pentágono diz ao FMI que 'tudo-bem', que tal ou qual país não precisa pagar o que deve à Rússia ou à China, então o país não tem de pagar - pelo menos no que tenha a ver com o FMI.

Esse é o movimento que rompe toda a ordem global que foi criada depois da 2ª Guerra Mundial. O mundo está sendo dividido em duas metades: a órbita do dólar dos EUA, e países que os EUA não conseguem controlar e cujos governantes e funcionários não estão na folha de pagamento dos EUA, digamos assim.

Bonnie Faulkner: No artigo, você fala de mudança geopolítica tectônica, que será combatida com a fúria de uma Inquisição do Século Norte-americano.[1] O que você quer dizer com "Inquisição"?

Michael Hudson: Todos os truques mais sujos, golpes de todo o tipo. O presidente Obama disse que não vamos invadir país nenhum, porque nenhum país consegue realmente mobilizar soldados em número suficiente, sem criar crise econômica e política no âmbito interno. Dado que não pode fazer guerra à moda antiga, Obama optou pela via das listas de matar e dos assassinados planejados dentro do Departamento de Estado ou noutras áreas do governo dos EUA. Mas os EUA já fazem isso há muito tempo, já fizeram no Chile, no governo Nixon/Kissinger, e na Guatemala e Nicarágua no governo Reagan.

Ou, de modo mais simples, subornam governos para forçá-los a promover gente em países estrangeiros que trabalham para os EUA. Você tem alguma dúvida de que na Inglaterra, por exemplo, se alguém como Tony Blair torna-se primeiro-ministro, ele deixará de fazer qualquer coisa que os EUA o mandem fazer?

Se querem garantir que nada aconteça, mesmo no caso de um país realmente trabalhar para ser independente, como o Chile trabalhou, por exemplo, os EUA vão até lá e assassinam o presidente eleito. Se num ou noutro país há movimento consistente a favor da reforma agrária, os EUA lançam lá a Operação Condor e matam 10 mil professores, militantes e líderes sindicais que trabalhavam a favor da reforma agrária. Na essência e no espírito, é política terrorista.

Por fim, os EUA usam o ISIS e a Frente al-Nusra como uma Legião Estrangeira dos EUA e os mandam para qualquer país que queiram destruir e saquear.

Bonnie Faulkner: Você escreveu: "Esperava-se que o capitalismo industrial clássico de há um século se convertesse numa economia de abundância. Em vez disso, temos o capitalismo do Pentágono, o capitalismo da finança, já deteriorado numa economia rentista polarizada e num imperialismo senil, fanado. (...) Se e quando a ruptura acontecer, não será marginal, mas mudança geopolítica sísmica."[2] O que você pensa da ruptura que se aproxima, do sistema financeiro global dolarizado pós-2ª Guerra Mundial? Como será?

Michael Hudson: Outros países tentarão enriquecer do mesmo modo como os EUA tentaram enriquecer: promovendo a prosperidade, um mercado doméstico, subsidiando pesquisa e desenvolvimento, exatamente como os EUA subsidiaram a tecnologia de ponta. E vão tentar impedir o rentismo - impedir que haja privilegiados, sejam donos de patentes ou donos de sistemas de TV a cabo. O objetivo sempre é evitar os super-lucros, ou a "renda econômica", ganho excessivo, além de qualquer investimento e independente de qualquer investimento.

É normal desejar que as pessoas lucrem de modo que reflita a verdadeira contribuição delas à produção, e sempre se quer garantir melhor status ao trabalho. Queremos sempre educar nossa força de trabalho, fazer dela uma força de trabalho tecnológica moderna.

Para isso, é indispensável que haja subsídios governamentais. Daí uma economia mista, com setores públicos e setores privados, na qual os governos pagam pelos custos de infraestrutura com vista a ajudar o setor privado, garantindo a todos melhores condições de concorrência.

Quero dizer: outros países evidentemente podem fazer o que os EUA fazem desde sua Guerra Civil. Serão protecionistas, tentarão melhorar a qualificação da própria mão de obra, e melhorar também a qualidade da própria agricultura. Promoverão indústrias de ponta, saúde pública e atenderão outras demandas básicas. Assim poderão alcançar o que a social-democracia se propôs a alcançar há um século, na Era Progressista. Esse, precisamente, é o caminho que EUA e Europa resolveram fechar, proibir a entrada de qualquer outro estado ou povo.

Bonnie Faulkner: Em seu artigo, você escreveu que o resultado foi "criar e reforçar uma nova Cortina de Ferro que dividirá o mundo em, de um lado, economias pró-EUA cada dia mais neoliberais; e, de outro, o resto, inclusive economias que busquem manter o investimento público em infraestrutura, impostos progressivos e o que, antes, se conheceu como um capitalismo progressista."[3] 

Michael Hudson: Acho que quando a União Soviética acabou e Rússia e outros países convidaram conselheiros norte-americanos, aqueles países provavelmente esperavam que aqueles neoliberais os ajudariam a desenvolver-se como os EUA, e a alcançar a prosperidade de uma economia industrial e produtiva como a norte-americana.

Os russos não se deram conta de que os EUA não tinham nenhuma intenção de ajudá-los a enriquecer ao ponto de enriquecimento que os EUA chegaram e pelo modo como chegaram. Os conselheiros norte-americanos chegaram para destruir e saquear. Foram eles que desindustrializaram a Rússia e também os Bálticos apertando todos os elos de conexão que haviam mantido coesa a União Soviética. Resultado, a Rússia foi empurrada para trás e voltou a ser fornecedora de matérias-primas.

O resultado não foi só a pobreza, foi também a emigração em massa. A República da Latvia, por exemplo, é aplaudida como um "milagre do Báltico", como se fosse história de sucesso. O milagre é que os salários nunca pararam de cair durante a última década, levando 10-20% da população a ter de deixar o país - principalmente a população em idade laboral. O mesmo aconteceu na Rússia. Muitos dos engenheiros e outros profissionais treinados partiram para os EUA, onde ajudaram a industrialização. Neoliberalizar a Rússia não tornou o país mais próspero. Mas, por algum tempo, enriqueceu investidores norte-americanos.

Bonnie Faulkner: E sobre os pacotes de empréstimo do FMI à Grécia pós-2010? São caso também de quebra de regras no FMI?

Michael Hudson: Foi quando aconteceu o debate dentro do FMI sobre a regra de "nenhuma nova Argentina". Não cabia esperar que o FMI viesse a emprestar a país que visivelmente não teria como pagar o empréstimo. Meu livro Killing the Host trata disso.

Há três capítulos sobre a Grécia, que é exemplar de como, no passado, o FMI esmagou países do Terceiro Mundo, quase sempre para beneficiar empresas norte-americanas de minérios e outros exportadores também norte-americanos. Mas a Grécia foi o primeiro país europeu ao qual o FMI chegou explicitamente para esmagar, com o objetivo de privatizar tudo. Também escrevi um capítulo sobre a Latvia. Esse é, precisamente, o assunto de Killing the Host [Matar o anfitrião].

Bonnie Faulkner: Você escreve que Dominique Strauss-Kahn apoiou a posição linha-dura do Banco Central Europeu e EUA no caso da Grécia. E também Christine Lagarde em 2015, apesar dos protestos da equipe no FMI.

Michael Hudson: A equipe do FMI declaradamente se opôs a qualquer empréstimo à Grécia, porque o país não tinha condições de pagar. Mas foi quando Strauss-Kahn encontrou-se com o presidente Sarkozy da França e disse que tinha planos para candidatar-se à presidência. Sarkozy disse a ele que de modo algum conseguiria sucesso eleitoral na França se, como presidente do FMI, agisse de modo a expor o Fundo ao calote previsível que os gregos lhe aplicariam. Mas vários bancos franceses teriam sido atingidos se o FMI não os 'resgatasse', quer dizer, se não emprestasse o dinheiro ao governo grego, apenas para que fosse repassado aos bancos franceses, e o FMI engoliria o prejuízo.

Então, o presidente Obama foi à reunião do G-20, depois que Tim Geithner, secretário do Tesouro já falara ao telefone com toda a Europa, para dizer que, se a Grécia não pagasse o que devia a bancos e acionistas franceses e alemães, os bancos norte-americanos teriam graves prejuízos - e o mesmo aconteceria também com grandes bancos europeus, todos com dívidas encadeadas uns com os outros.

Por isso - porque todo o sistema desabaria, quer dizer, porque grandes bancos norte-americanos perderiam dinheiro -, mesmo que Strauss-Kahn já soubesse que a Grécia não poderia pagar, o empréstimo foi autorizado. Obama e Geithner disseram que o FMI não podia deixar que os apostadores norte-americanos perdessem o dinheiro que apostaram naquele determinado cavalo financeiro. Ficou resolvido que melhor quebrar a Grécia, mesmo que significasse quebrar a Europa. O troca-troca foi esse: para salvar os bancos, destruíram a economia grega.

A assimetria da posição autista, autorreferente dos EUA é enorme. É ganância nua. Estão dispostos a esmagar o FMI, a Grécia e a integração europeia, só para que Goldman Sachs e bancos de Wall Street que jogaram suas fichas na Grécia não sofressem qualquer prejuízo.

Foi o que levou à renúncia da presidenta da seção europeia do FMI. Se bem me lembro, ela viajou ao Canadá, e os canadenses publicaram tudo que ela tinha a revelar e revelou. Destruiu completamente a credibilidade do FMI, já antes da crise ucraniana.

Bonnie Faulkner: Você escreveu que a razão pela qual a economia grega foi esmagada teria sido a urgência em deter o [partido] Podemos na Espanha, e movimentos semelhantes na Itália e em Portugal, todos com plataformas a favor de buscar antes a prosperidade nacional que a 'austeridade' [o arrocho] da Eurozona. Você acha mesmo que esse componente também tenha pesado?

Michael Hudson: Foi precisamente o que o Banco Central Europeu declarou. Disseram com todas as letras que 'Não podemos deixar que o Syriza vença'. O ministro de Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, contou que lhe disseram, durante reunião com o FMI e os europeus, que a democracia era o que menos os preocupava. Que nenhuma diferença faria quem fosse eleito. Qualquer novo governo grego seria obrigada a pagar as dúvidas contraídas pelo governo corrupto que precedeu o governo do Syriza.

Financial Times e praticamente toda a imprensa ocidental sabiam e publicaram que, se a dívida grega fosse perdoada, para salvar o país da bancarrota, o FMI e o resto da troika da União Europeia teriam de perdoar dívidas de Itália, Espanha e Portugal. Todo o sistema de cobrança de empréstimo ruiria. Diante do impasse entre salvar os bancos ou salvar a economia, a troika optou por salvar os bancos, e quebrar as economias nacionais.

Foi também o que fez o presidente Obama nos EUA, quando 'resgatou' os bancos, em 2008. Essa é a causa fundamental que hoje dá vida à candidatura de Bernie Sanders.

Em resumo, a órbita dos EUA sempre diz 'salve os bancos, não a economia.' O problema é que o volume dos juros das dívidas cresce exponencialmente. Significa que as dívidas cresceram exponencialmente. Com isso, os países devedores serão sempre obrigados a impor arrocho [não é 'austeridade': é arrocho] cada vez mais apertado. E as economias às quais se impuser arrocho sem fim reagirão como a Rússia, nos anos 90s, ou Latvia ou a Grécia: haverá emigração em massa, queda nos índices de natalidade, aumento nos índices de mortalidade e crescimento de incidência de doenças muitas das quais já erradicadas. Os mercados encolherão, ao ritmo em que a economia dos países devedores for sendo sufocada.

A grande luta que se trava hoje é sobre salvar os bancos ou salvar a economia. No final, os bancos não podem ser salvos eternamente, porque s cada dia mais dívidas tornam-se impagáveis. A posição dos EUA de fato é bem clara: 'Pouco importa que as dívidas sejam impagáveis, porque sempre há patrimônio dos estados que poderá ser vendido a preço de liquidação a empresas norte-americanas interessadas'.

Portanto, o que se vê hoje, é um vasto processo global pelo qual bancos credores tomam propriedades de devedores inadimplentes [ing.foreclosure process].

Os credores e acionistas, de fato, estão cobrando o que lhes é oficialmente devido, à moda Máfia, confiscando estradas, sistemas de transporte, sistemas de comunicações, sistemas de água e esgoto e todo o tipo de infraestrutura. Chamo a isso "neofeudalismo". É forçar o capitalismo industrial a regredir. Estão forçando os mercados a encolher e toda a economia é 'desidratada': é o neofeudalismo.

Isso, precisamente, é a economia rentista. É economia de extração de rendas, não é economia que gere crescimento porque produza sempre mais e contrate mão-de-obra para fazer a economia expandir-se. É o contrário. É a dinâmica reversa do capitalismo, como se pensava o capitalismo há cem anos passados.

Bonnie Faulkner: Michael Hudson, obrigada pela entrevista.

Michael Hudson: É sempre muito bom participar de seu programa. É ótimo que você esteja de volta, Bonnie.*****


* Desde 2003, o Brasil não mais tomou empréstimos do FMI; em 2005, na gestão do ministro Palocci no Ministério da Fazenda do governo do presidente Lula, o país pagou todas as suas dívidas e tornou-se credor do FMI (mais sobre isso em Exame, 10/2/2005).

Agora, em 2016, Brasil passará a ser 10º maior cotista do FMI. Pela 1ª vez, 4 emergentes - Brasil, Rússia, Índia e China - estarão entre os dez maiores cotistas do fundo (mais sobre isso em 
O Globo, 22/2/2016) [NTs].
[1] "Rússia e China estão fazendo, simplesmente, o que EUA fazem há muito tempo: usar laços comerciais e de crédito, para cimentar a própria diplomacia geopolítica. Mas a novidade chinesa é uma mudança geopolítica tectônica, e ameaça de dimensões copernicanas à ideologia da Nova Guerra Fria.

Em vez de a economia mundial gravitar em torno dos EUA (a ideia ptolomaica segundo a qual os EUA seriam "a nação indispensável) pode acontecer de ela passar a gravitar em torno da Eurásia. Enquanto a sede papal continuar plantada em Washington nos gabinetes do FMI e do Banco Central, aquela mudança no centro de gravidade seria combatida com a fúria total da Inquisição do Século Norte-americano (de fato, Inquisição do Milênio Norte-americano)." HUDSON, Michael, "FMI altera regras, para isolar China e Rússia", traduzido em Patria Latina [NTs].
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