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Advogado - Nascido em 1949, na Ilha de SC/BR - Ateu - Adepto do Humanismo e da Ecologia - Residente em Ratones - Florianópolis/SC/BR

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sábado, 29 de agosto de 2026

CHAMA CRIOULA E FARROUPILHA NA ILHA DE SC

Se poucas afinidades existem entre as culturas dos gaúchos e a dos ilhéus, o evento serve, no mínimo, para mostrar o empenho dos rio-grandenses em divulgarem suas tradições, enquanto nós, os descendentes de açorianos (ou de judeus da península ibérica), negligenciamos no tocante a tão importante aspecto.

Até em Ratones, no interior da ilha (único distrito sem praia) pode-se encontrar uma associação que se autodenomina "Ilha Chucra", cujo escopo, salvo melhor juízo, é o culto às tradições do Continente de São Pedro.

Não estou a lamentar ou a invejar a mobilização persistente dos gaúchos, mundo afora, para manter a chama da cultura tradicionalista acesa, viva.  Não considero perniciosa essa interação de cultura gaúcha com o ambiente ilhéu. Muito pelo contrário. Afinal, dizem que a fundação de Porto Alegre (inicialmente Porto dos Casais que teriam vindo dos Açores) torna induvidoso o imbricamento entre nossos povos. 

Sejam benvindos os gaúchos, venham "de a cavalo" ou "de auto" ou "de a pé", salvo os que possam atrever-se a vir com a "xerenga" nos dentes ou de "terçado" em punho, para cruzar ferros conosco. 

Venham em paz, de espírito desarmado, sem querer impor nada (não dá para entrar no mar de chapéu tapeado, bombachas, botas e  chilenas, com "mango" preso ao pulso), sem valorizar sua cultura, em detrimento da nossa. 

Venham tomar chimarrão nas praias, mas não depreciem o café  dos paulistas, que deram início à povoação da ilha, assim como à de Laguna, à de São Francisco do Sul e de tantas outras comunidades catarinenses. Dias Velho e Domingos de Brito Peixoto eternizaram suas influências por aqui, de maneira marcante, sempre é bom lembrar.

A influência gaúcha nos nossos costumes e falares já é marcante há muito tempo, isso porque a nossa cultura, negligenciada, anda como um cavalo bastante desavalorizado, por deformado - pescoço invertido, lombo arqueado e garupa "descaída" (*) - , por obra do advento de compatriotas de tantos rincões diferentes. Gaúchos e catarinenses  com cuias de chimarrão nas mãos, a sorver o mate amargo é coisa bastante comum na ilha e adjacências. Falares apaulistados, ou com gírias de cariocas, fazem companhia marcante ao nosso "falar agalegado" (**)

Há tempos ganhei de uma namorada de Santa Maria da Boca do Monte (salve Yarinha Nie...) um livreto com pajadas de Jayme Caetano Braun ("Potreiro de Gauchos") e o conservo com carinho, porque a pequena obra fez-me despertar para a peculiar linguagem da Pampa, para o espírito gauchesco e suas particularidades quixotescas. Desde a leitura do livreto de Braun, dilatei minhas leituras de livros do gênero, principalmente interessado na vida campeira, da qual o cavalo é partícipe inarredável, mesmo nos tempos em que vivemos, com a tecnologia invadindo todas as áreas. 

Fui atrás da origem do vocábulo "gaúcho", dentre muitos outros aspectos da cultura sob exame e não me arrependo, nem um tantinho, de tê-lo feito. É um mundo à parte e assaz interessante. 

Verdade que tem muito vivente gabola por aqui, dizendo-se gaúcho, sem saber sequer o "lado de montar" e/ou o "lado de laçar"(#), mas esses não chegam a desmerecer a grande maioria, que tem um apego (querência) sentimental louvável ao seu "pago",do latim pagus (***). 

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(*) garupa descaída  é expressão que encontrei na tradução de uma famosa obra de TOLSTOI -  Ana Karenina.

(**) VISCONDE DE TAUNAY, que chegou a ser presidente da nossa província, usou a expressão "falar agalegado" (proximidade fonética e rítmica com o galego - da Galiza, no norte da Espanha - ou com os dialetos do norte de Portugal, de onde o sotaque açoriano herdou características marcantes. Isso inclui o ritmo rápido, a entonação cantada e a pronúncia peculiar de certas vogais e consoantes., para referir-se ao nosso jeito "cantado" de manifestação oral.

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Sobre "querência", nas minhas leituras achei e guardei o que segue:

- f. Bras. do S. Lugar, onde o gado se cria ou anda pastando, ou onde costuma parar por ter afeição a esse lugar. Cp. querença. (Cast. querencia) – C. FIGUEIREDO

- ANDREW WHEATCROFT - Infiéis (...) - p. 393, nota de nº 50: O espanhol reteve um rico vocabulário de LOCALIDADE, que talvez ecoe essa tradição de segmentação: barrio (bairro), rincón (lugar retirado ou afastado), querencia (lugar predileto; hoje, em geral, um termo de tauromaquia).

- É a paragem onde o gado costuma pastar, da qual nunca se afasta ou à qual instintivamente volta - Pe. CARLOS TESCHAUER – História do Rio Grande do Sul/Dos dois primeiros séculos - Edit. UNISINOS/São Leopoldo-RS/2002, Vol. II - pág. 257, nota de rodapé nº 15.

— Carência — é aquêle sítio, ou lugar, a que estão acostumados já por alguns tempos, as boiadas e cavalhadas, sendo tal o apego que tomam os animais à sua residência, que se por acaso podem escapar depois de qualquer número de léguas de viagem, cuidadosamente a tornam a procurar. - JEAN LACOUTURE - Montaigne a cavalo - Edit. Record/1996, p. 244: (...) tal como os touros que obrigam os homens a virem combatê-los em suas querências, em seu refúgio (...)

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(***) -‌ ‌‌RICARDO‌ ‌GUIRALDES‌ ‌-‌ ‌‌Dom‌ ‌Segundo‌ ‌Sombra‌ ‌-‌ ‌‌L&PM‌ ‌Editores/RS‌ ‌e‌ SP/1997,‌ ‌p.‌ ‌251:‌  Pagos‌ ‌são‌ ‌pátria‌ ‌pequena,‌ ‌e‌ ‌por‌ ‌mais‌ ‌que‌ ‌nos‌ ‌tornemos‌ ‌independentes,‌ ‌ficam-nos‌ ‌encravadas‌ ‌cunhas‌ ‌de‌ ‌gozo‌ ‌e‌ ‌dor,‌ ‌já‌ ‌feitas‌ ‌carne‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌tempo.‌

(#) VICENTE ROSSI -  El gaucho -  Edit. Imprenta Argentina/1921, ps. 95 e 96, discorreu sobre EL LAZO. - RAUL ANNES GONÇALVES -  Mala de garupa -  Martins Livreiro Editor -  P. Alegre-RS/2004, p. 41, também deteve-se a falar sobre o tema. Até CHARLES DARWIN - Viagem de um naturalista ao redor do mundo, considerou o assunto interessante.



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