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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Reputação será moeda no mundo pós-financeiro


NELSON DE SÁ
DE SÃO PAULO

Joshua Klein, 39, se descreve como "hacker" de tudo.

Mestre em tecnologia interativa pela Universidade de Nova York, está lançando nos EUA "Reputation Economics" (economia da reputação, em tradução livre; Palgrave Macmillan), em que prenuncia a substituição das moedas por um comércio em plataformas com sistemas de troca que passam longe das finanças.

Nesse mundo pós-financeiro, em que a privacidade é comercializada, afirma o consultor de firmas como Microsoft e Oracle, a reputação atestada por pares ou por especialistas ganha, cada vez mais, valor de dinheiro --cobiçada por aqueles que querem vender ou trocar mercadorias, serviços ou interesses.

Folha - O sr. diz que a privacidade não é mais um direito e que há formas de lucrar abrindo mão dela. Como vê as revelações do ex-técnico de segurança do governo americano Edward Snowden sobre vigilância governamental?

Joshua Klein - É interessante ver a reação das pessoas ao volume de informações monitoradas. De muitas formas, o que o governo faz é uma extensão do que tínhamos permitido às empresas fazer.

Se você usa Gmail, já deu ao Google o direito de analisar todos os seus e-mails: com quem você fala, com que frequência, sobre o quê, que palavras usa, quantos pronomes ou adjetivos emprega, todos os documentos.

Todos os "serviços gratuitos" fazem isso --o Facebook faz, o Twitter, a Amazon-- porque permite que vendam de forma mais eficaz. O problema é que as pessoas não são realmente conscientes de que fizeram esse acordo.

Há possibilidade de voltarmos ao tempo em que as pessoas ainda tinham privacidade?

Estamos num momento de virada como sociedade. Sabíamos que havia algo estranho nesse acordo: estávamos ganhando quantidades imensas de tecnologia de graça --ou que pensávamos ser de graça-- em troca de nos dispormos a ver publicidade.

Mas esse não é o acordo de fato. O acordo é que as pessoas nos dão essas coisas e, em retribuição, temos que comprar outras. E essas empresas farão tudo para serem o mais eficazes possível e nos venderem o que puderem.

Acredito que as pessoas começaram a tomar consciência ao verem o governo fazê-lo, pois se ergueu o espectro do Grande Irmão. Vender é algo com contornos bem definidos. O problema é que esses dados podem ser usados para outras coisas.

Não há como mudar a forma de agir na internet?

Se as pessoas admitirem que fizeram um contrato faustiano e começarem a usar criptografia e forem mais cuidadosas com os contratos de licença que assinam... Se gente o bastante fizer isso, as empresas começarão a pensar: "Para termos acesso aos dados, temos que fazer um acordo aberto, mais claro".

Se isso acontecer, então, sim, vamos ver mudança. As empresas vão aceitar que os indivíduos tenham mais responsabilidade e controle sobre suas coisas. Mas acho que o mais provável é que uma minoria de pessoas faça isso --e elas terão acesso a menos serviços ou terão de pagar mais caro por eles.

E veremos mais abusos dos dados coletados.

Há uma frase de Andrew Lewis, no blog comunitário MetaFilter, sobre a internet: "Se você não está pagando pelo produto, você é o produto que está sendo vendido".

[Risos] Sim. O objetivo da grande maioria dos serviços on-line hoje não é fornecer algo divertido ou interessante. Isso é acessório. O objetivo real é vender de forma eficaz.

"Reputation Economics" também reflete isso?

Um dos pontos do livro é que estamos estabelecendo plataformas, hoje, que possibilitam sistemas de troca livre das finanças. Por outro lado, as empresas grandes são cada vez mais eficientes em ganhar nosso dinheiro.

Daí a precificação hiperdinâmica: você entra on-line para comprar queijo, a empresa que vende o queijo reconhece que você tem um blog sobre isso e dá um desconto de 30%, na esperança de que você compre e depois diga algo bom do queijo.

Os indivíduos precisam agora escolher: Querem só ficar com o que é dado? Ou querem ferramentas e tecnologias que permitem que gerenciem seu valor? Creio que veremos mais da última, mas não estou certo ocorrerá.

A edição registra que você fez trabalhos para a comunidade de inteligência. O que foi?

Foi sobretudo pelo Escritório do Diretor de Inteligência Nacional, que fez um programa tipo "think tank" [centro de estudos] em que muitos colaboramos, num retiro de um mês. Foi interessante por permitir contato com algumas das mentes mais brilhantes da NSA [agência de segurança nacional], CIA [agência de inteligência dos EUA] e um "insight" sobre as capacidades que têm ou tinham.

Desde então, todos ganhamos uma consciência muito maior do que se trata [devido às revelações de Snowden].

O mais importante foi ver que aquilo tinha enorme potencial, não totalmente conhecido. Em relação ao trabalho de consultoria que presto para empresas, ficou claro que o mercado baseado em "big data" se tornaria cada vez maior. A questão já era, então, qual o efeito disso sobre o indivíduo.

O livro destaca que "quem você conhece" vale mais, hoje, do que "o que você possui".

O que isso aponta é que, cada vez mais, as plataformas on-line estão permitindo obter informações de reputação sobre as pessoas. Se eu quiser descobrir se devo emprestar meu carro a você, posso dar um Google e ver se você é digno de confiança.

Esse tipo de informação de reputação levou ao surgimento de uma economia de reputação on-line, que está mudando como os indivíduos compartilham valor.

Ou seja, o compartilhamento não é mais só financeiro. A economia de reputação me permite descobrir a pessoa para quem a troca é útil. Esse tipo de situação agora está disponível por todas essas plataformas on-line.

Esse é um aspecto. Outro é que as pessoas têm cada vez menos capacidade de alavancar suas finanças. Os sistemas financeiros vêm com problemas há muito tempo, as maiores economias do mundo estão se debatendo, então as pessoas começam a perceber: "Ei, posso entrar no Skillshare, começar a ensinar as pessoas este hobby de mergulho e conseguir dinheiro".

Ou: "Só uso meu carro nos fins de semana, eu posso inscrevê-lo no [site] Rideshare e ter pessoas que me paguem para usá-lo na semana".

Você entende "hacking" como quebrar regras, em geral. O novo livro reflete essa ideia?

Sim e não. Uma das coisas que abordo é o "momento Napster" das finanças. Há um bocado de mudanças tecnológicas acontecendo agora, algumas beneficiam indivíduos, outras, empresas e outras concorrem entre si.

Onde entra a palavra "hacking"? Por exemplo, quando o Napster foi derrubado pela RIAA [Associação Americana da Indústria Fonográfica], a internet como um todo não se convenceu de uma hora para outra de que não podia mais baixar músicas de graça.

Em vez disso, foi inventado o protocolo BitTorrent [para transferência de grande volume de dados entre usuários].

Quando a RIAA começou a derrubar sites de BitTorrent, surgiram clubes de compartilhamento de arquivos e uma criptografia melhor. Essas são forças de "hacking" que sempre tivemos: as mudanças serão apoiadas e reforçadas pelas comunidades on-line, sejam ou não legais ou desejáveis pelo ambiente regulatório e financeiro.

Em "Hacking Work", de 2010, você apoia romper regras para alcançar resultados melhores nas empresas privadas.

Em todas as empresas às quais dei consultoria sobre inovação e como usar tecnologia de maneira mais eficaz e mudar modelos de negócio, via que implantar mudança ou evolução numa organização é quase impossível, porque a cultura é reativa.

Com o passar do tempo, a empresa vai ganhando uma série de regras que limitam as pessoas. Parte do que você encontra nas "start-ups" [empresas iniciantes] que as torna tão eficientes é não terem, ainda, regras. Elas fazem tudo o que for necessário para serem eficientes.

O livro não sugere jogar tudo que se sabe fora. Ele propõe encontrar instâncias específicas em que você está sendo impedido de ser mais efetivo e focar métodos alternativos para quebrar o molde e termais sucesso, ajudando a empresa e até sua carreira.

Sua série de TV para o National Geographic, "The Link", de 2012, é transmitida aqui. Ela explora conexões entre diferentes saltos tecnológicos pela história. Qual é o vínculo entre a série e o novo livro?

O programa influenciou o livro, no sentido de estarmos num momento incomum da história em que algumas mudanças terão efeitos enormes e inesperados. Estamos começando a desenvolver modelos pré-financeiros para comércio, como [a moeda virtual obtida com a cessão de poder de processamento do seu computador] Bitcoin ou o [site para aluguel e sublocação direta de apartamentos para temporadas] Airbnb.

Nos próximos 5 ou 20 anos, veremos boa parte dos dois terços da humanidade que ainda não estão na internet aparecerem on-line, e eles vão querer usar métodos mais flexíveis de comércio. Essas pessoas estão hoje em grande parte no chamado "mercado negro", que gira US$ 10 trilhões.

Nos próximos 20 anos, esse será o método majoritário de comércio do planeta.

O que acontece quando a economia do mundo é ocupada, de uma hora para outra, por uma população que não usa instrumentos financeiros tradicionais? Ela vai alavancar uma série de plataformas que, hoje, são bonitinhas e divertidas. Não sabemos como será, mas sabemos que pode ser muito desestabilizador.

Fonte: FOLHA DE SP

domingo, 1 de dezembro de 2013

Reza Aslan: "Jesus era como os outros messias"


Autor de um polêmico livro sobre a vida de Jesus Cristo, o americano Reza Aslan afirma que o filho de Maria foi o maior revolucionário de todos os tempos

RODRIGO TURRER

 
POLÊMICO
Aslan em sua casa, na Califórnia. Para ele, Jesus era um
revolucionário (Foto: Ramin Talaie/Ramin Talaie/Corbis)

O historiador iraniano-americano Reza Aslan ficou mundialmente famoso após bater boca com Lauren Green, âncora da emissora americana Fox News, em julho deste ano. Ele fora convidado a falar sobre seu livro Zelota – A vida e a época de Jesus de Nazaré (308 páginas, Zahar editora, R$ 36), um polêmico ensaio em que afirma que Jesus foi um revolucionário. 
Aslan teve de explicar por que um muçulmano como ele escrevera sobre Cristo. Há mais de 20 anos, ele se dedica à pesquisa de religiões, com foco na vida de Jesus. “Entendo de onde a Fox News e Lauren Green vieram”, afirmou Aslan a ÉPOCA. “Há um sentimento antimuçulmano em níveis sem precedentes nos Estados Unidos.”

ÉPOCA – O senhor defende em seu livro uma tese polêmica: o Jesus histórico foi um revolucionário. O senhor acredita que Jesus estava mais para Che Guevara que para Ghandi?

Reza Aslan – Jesus foi o maior revolucionário de todos os tempos. As pessoas têm dificuldade de compreender isso porque veem o Cristo da religião com o olhar do nosso tempo. No tempo de Jesus, não havia separação entre política e religião. Ambas eram a mesma coisa. É incorreto dizer que Jesus era só um líder espiritual ou só um líder político. Ele era os dois. Toda e qualquer palavra proferida por Jesus tinha implicações políticas, por mais espirituais que fossem. Nesse livro, tento tirar as camadas de teologia, misologia, lenda e doutrina que se sobrepuseram ao Jesus histórico. Quis compreender o mundo em que Jesus viveu. Meu livro é sobre as implicações das palavras de Jesus em seu mundo, em seu tempo. É também sobre as diferenças entre Jesus de Nazaré e o Cristo da fé, criado pelos Evangelhos e pela Igreja.

ÉPOCA – Qual a diferença entre o Cristo histórico e o da fé?
Aslan – O Jesus da história era um judeu pregando o judaísmo para outros judeus. O Cristo da fé, aquele que lemos nos Evangelhos e na teologia cristã, é alguém divorciado do judaísmo, alguém pregando uma nova fé, uma nova religião. Jesus proclamava-se o messias, mas, quando dizia isso, se referia ao messias do judaísmo. Se Jesus de fato pensasse ser o Deus encarnado, teria sido o primeiro judeu da história a pensar assim. Porque o conceito de um homem divino viola 5 mil anos de história, tradição e religião judaicas. Isso quer dizer que é impossível que Jesus se considerasse um Deus encarnado? Não. Só não é plausível. Sobram duas opções: Jesus nunca disse isso e era como todas as outras centenas de messias de seu tempo. Ou então Jesus acreditava nisso e era absolutamente único, diferente de todos os judeus que vieram antes ou depois dele. Como historiador, acredito que Jesus era como todos os outros messias de seu tempo e nunca disse ser o Deus encarnado do Novo Testamento.

ÉPOCA – E por que Jesus inspirou tantos a segui-lo?
Aslan – Isso tem menos a ver com espiritualidade e mais com os ensinamentos de Jesus. São ensinamentos únicos e extraordinários. Jesus teve uma visão de uma nova ordem mundial, em que ricos e pobres trocariam de lugar. Os primeiros se tornariam os últimos, e os últimos se tornariam os primeiros. O apelo dessa mensagem depois da morte de Jesus se perpetuou menos pelo que Jesus disse ou fez e mais pelo que seus discípulos escreveram e disseram sobre ele.

ÉPOCA – Então a mensagem de Cristo foi reinventada?
Aslan – Os seguidores de Jesus, os homens que escreveram os Evangelhos anos ou décadas depois de sua morte, tentaram esconder ou amenizar o aspecto político da vida de Jesus. Primeiro, porque Jesus falhou em sua missão. O que sabemos de fato sobre Jesus? Que ele era judeu, que começou um movimento judaico no século I e, como resultado desse movimento, foi condenado à morte na cruz por crimes contra o Estado (Roma). As ambições políticas de Jesus falharam. A definição de messias, no tempo de Jesus, era um descendente do rei Davi, que restabeleceria o Reino de Davi na Terra. Se você diz ser um messias e morre sem restabelecer o Reino de Davi, você não é um messias. Todos os outros messias, e foram centenas, prometeram restabelecer o reino de Davi. Foram tão bem-sucedidos quanto Jesus. Nenhum cumpriu a promessa, e todos foram chamados de falsos messias. A diferença é que os seguidores de Jesus tentaram dar sentido a sua falha, mudaram o significado de messias, o deixaram menos judeu, mais espiritual. Quando fizeram isso, o tornaram mais atraente para os não judeus.

ÉPOCA – De que forma?
Aslan – Jesus foi condenado à crucificação por crimes contra o Estado. Roma reservava a crucificação a crimes contra o Estado. Como convencer Roma a aceitar um movimento de um homem que pretendia tirar Roma do poder? Basta dizer que o reino prometido por Jesus não era o terreno, mas sim o divino, que Jesus não tinha ambições políticas, não ameaçava o Império Romano. Assim, você diz que é possível ser cristão sem ser uma ameaça ao Estado. Todas essas mensagens foram incorporadas ao cristianismo e ajudaram em sua expansão. Décadas depois da morte de Jesus, os seguidores não judeus de Cristo superaram os seguidores judeus. Cem anos depois, não havia quase ligação alguma entre cristianismo e judaísmo. E, pelos últimos 2 mil anos, o cristianismo tem sido uma religião que confortavelmente se casa com o Estado. Como faz isso? Proclamando que não tem interesse em governar este mundo, não se apega às coisas terrenas.

"Os Evangelhos não são história, não
são fato. São argumentos teológicos"

ÉPOCA – As críticas mais contundentes a seu livro dizem que o senhor usou as fontes de pesquisa que melhor se adaptavam a suas teses e descartou as demais. Qual foi seu critério?
Aslan – Essa é uma crítica feita por não especialistas. Os leigos olham para os Evangelhos e acham que tudo o que está escrito em Mateus, Marcos, Lucas e João é igualmente válido. Isso é absurdo. Há 200 anos definiu-se uma metodologia de estudo para saber o que é confiável do ponto de vista histórico nos Evangelhos. Para o leigo, parece que escolho apenas o que me interessa. Mas fui metódico. Não usei os Evangelhos de João como fonte de pesquisa, porque ele são tardios, escritos quase um século depois da morte de Jesus. Usei apenas o Evangelho de Marcos, visto universalmente como o mais preciso historicamente. Os Evangelhos não são história, não são fato. São argumentos teológicos. Minhas fontes foram os documentos históricos sobre o tempo em que Jesus viveu e partes comprováveis dos Evangelhos. Rejeito as histórias da natividade, a fuga da família de Jesus para o Egito e outros acontecimentos imprecisos. Tais histórias são lendas e mitos.

ÉPOCA – Sua entrevista na Fox News se espalhou pela internet. O que o senhor pensou quando Lauren Green perguntou sobre um muçulmano escrever sobre Jesus?
Aslan – Fiquei surpreso, mas depois entendi. Você pode falar o que quiser sobre democracia e liberdade nos Estados Unidos, mas, neste momento, há um sentimento antimuçulmano em níveis sem precedentes na história do país. Em nenhum lugar isso é mais óbvio que na Fox News. É uma emissora que alimenta o medo como receita de sucesso. Mas é apenas reflexo do que milhões de americanos pensam. Entendo de onde a Fox News e Lauren Green vieram. Existem milhões de pessoas que não conseguem compreender que a religião é um estudo acadêmico. São pessoas que confundem o estudo da religião com a fé individual. Religião também é uma disciplina acadêmica. Uma disciplina em que muçulmanos escrevem sobre hindus, hindus escrevem sobre cristãos e cristãos escrevem sobre judeus. Isso é totalmente normal. Somos historiadores.

ÉPOCA – Como muçulmano e iraniano criado nos EUA, como o senhor encara as tentativas de negociação entre Estados Unidos e Irã?
Aslan – Sou otimista. Acredito que estamos próximos de um acordo. Isso pavimentará uma solução diplomática sobre o programa nuclear iraniano. O problema não é o Irã. Lá, a decisão caberá ao aiatolá Ali Khamenei, e ele autorizou o presidente Hassan Rouhani a negociar. Meu temor é em relação ao Congresso dos Estados Unidos, que terá de aprovar um acordo. Se você conhece um pouco do Congresso americano, sabe que ele é disfuncional, um enorme desperdício de espaço. Os congressistas só se interessam em ser reeleitos, não ligam para o bem-estar do país. Querem apenas voltar ao Colorado e ao Tennessee e poder dizer: fui duro com o Irã, combati o terrorismo.

(Esta entrevista foi feita antes do anúncio do acordo entre Irã, Estados Unidos e cinco potências e publicada na edição de ÉPOCA que foi às bancas no dia 23 de novembro.)

ÉPOCA – A Síria é um dos poucos aliados do Irã no Oriente Médio. Uma vitória de Bashar al-Assad será positiva para o Irã?
Aslan – Assad já ganhou a guerra. Está claro como o dia que Assad não apenas continuará no poder, como sairá dessa guerra civil sem sequer negociar com os rebeldes. Cada dia a oposição está mais fraturada, e não existe uma solução política para isso. O mais deprimente é que isso tenha acontecido logo depois do uso de armas químicas contra os sírios. Assad queria assustar os rebeldes e testar a paciência da comunidade internacional, mas conseguiu um acordo vantajoso, que praticamente assegura sua vitória na guerra civil. A comunidade internacional meteu os pés pelas mãos, demorou a agir, negociou com o ditador, armou os rebeldes radicais. É triste, mas nada positivo pode surgir dessa guerra.

Crimes cometidos por idosos disparam no Japão


Pobreza e isolamento social estimulam delitos entre população acima de 65 anos

CLAUDIA SARMENTO, CORRESPONDENTE(EMAIL)


Amargo fim. Idosos detentos voltam para suas celas na prisão de Onomichi, no Japão, que tem uma ala exclusiva para internos com mais dos 65 anos 
KO SASAKI / NYT


TÓQUIO - O Japão tem um dos menores índices de criminalidade do mundo - algo que se percebe facilmente nas ruas de Tóquio, onde é possível andar até de madrugada sem susto. Nos últimos dez anos, as ocorrências criminais, que já eram baixas, caíram 17%. Um índice, no entanto, vem subindo, revelando uma face sombria da disciplinada sociedade japonesa. Os crimes cometidos por pessoas acima dos 65 anos dispararam. Segundo o Ministério da Justiça, 8,8% dos acusados presos em 2012 estavam nessa faixa etária. Há uma década, o percentual não passava de 3,6%.

A população japonesa é uma das mais velhas do planeta (23% têm 65 anos ou mais), mas o aumento da criminalidade entre idosos é proporcionalmente maior que o envelhecimento populacional. A maior parte dos delitos não é violenta; furtos correspondem à mais da metade das condenações. Ainda assim são números que surpreendem as autoridades. A maioria dos produtos furtados em lojas no Japão - crime, em geral, relacionado a delinquentes juvenis - é levada por pessoas que já passaram da idade da aposentadoria. O problema não envolve apenas homens. A delinquência também cresce entre mulheres idosas.

A estagnação econômica dos últimos anos é a causa mais evidente do problema. A polícia reconhece, porém, que há um outro fato levando os mais velhos ao crime: o isolamento social. Embora não sofra com altos índices de desemprego, como alguns países europeus, o Japão passa por mudanças sociais e econômicas dolorosas, que acabaram com a certeza dos empregos vitalícios, aumentaram os níveis de pobreza e modificaram a estrutura familiar tradicional. As famílias estão encolhendo e a expectativa de vida, crescendo. Os idosos vivem cada vez mais sozinhos, sem contato com parentes ou mesmo com vizinhos, segundo uma série de pesquisas recentes. Pequenos roubos e furtos são, em muitos casos, um pedido de socorro de quem precisa de cuidados e atenção.

- Para entender o fenômeno e buscar saídas é preciso realizar estudos mais detalhados. Mas ainda não há um debate intenso na sociedade. Os japoneses, assim como outros povos asiáticos, seguem os preceitos confucionistas. Tradicionalmente, os mais velhos são figuras respeitáveis. Falar sobre a criminalidade entre eles é um assunto incômodo para os japoneses - explica Hiroyuki Murata, professor da Universidade de Tohoku e especialista em envelhecimento populacional.

Murata acredita que quem se vê sem trabalho, família e responsabilidades, perde sua identidade social. São casos como o de Fumyo Kageyama. Depois de quatro décadas trabalhando honestamente na construção civil, ele se aposentou. Em 2008, aos 67 anos, roubou um passageiro alcoolizado no metrô. Réu primário, teve a pena suspensa. Dois meses depois, furtou um prato pronto de arroz com carne de porco num supermercado. Pegou dois anos de cadeia. Em 2011, já em liberdade, foi condenado pelo furto de um cachorro-quente. Sua história acabou nos jornais como exemplo de alguém que não sabia explicar seus atos e não se importava com a prisão.

Mais presos por furtos

O número de idosos japoneses envolvidos em crimes no ano passado foi de 48,5 mil (16,9%). Uma boa parte (28.673) foi presa por furto - 46% a mais que os jovens detidos pelo mesmo motivo. Em 2012, 2.2 mil mulheres foram presas. Cerca de 12% tinham 65 anos ou mais, um percentual dez vezes maior que o de vinte anos atrás.

Luiza Frischeisen, procuradora regional da República em São Paulo e membro do Conselho Nacional de Justiça, visitou um presídio feminino no Japão durante um curso promovido pelo Unafei, o organismo da ONU que trata da prevenção ao crime e tratamento de delinquentes na Ásia e Extremo Oriente. Ela conta que a grande quantidade de detentas idosas - o que não é comum nos presídios brasileiros - chamou sua atenção.

- O sistema prisional no Japão reflete a disciplina da sociedade. O trabalho é obrigatório, mas a presença de idosos traz novos desafios, como tratamento médico, alimentação e formas de trabalho adequadas. Talvez seja necessário desenvolver uma política de assistência específica para esses casos - diz.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com

HUNGRIA: “Entra em cena o partido cigano”


Népszabadság, 29 novembro 2013


O Partido Cigano da Hungria (Magyarországi Cigány Párt, MCP), que diz ter cinco mil militantes, decidiu apresentar candidatos em todos os círculos eleitorais nas legislativas de 2014, anuncia o jornalNépszabadság.

Citado pelo diário, o MCP garante que não fará nenhuma aliança porque “chegou a altura de os ciganos se darem conta de que não pertencem nem à direita nem à esquerda, porque ninguém quer saber de nós, os ciganos”.

Aladár Horváth, o porta-voz do partido que é, também, o presidente da Associação para os Direitos Cívicos dos Ciganos, defende que a situação do seu povo se deteriorou desde a chegada ao poder de Viktor Orbán. Segundo ele, foram “separados da maioria da nação” e “a discriminação racial e social está institucionalizada na administração e é omnipresente no dia-a-dia”.

Apesar do seu nome, o partido quer representar todos os pobres húngaros porque “atualmente, aos olhos do poder, todos os pobres são ciganos”.

Fonte: PRESSEUROP

Nazistas de volta ao poder na Europa

Marian Kotleba criou uma milícia para expulsar ciganos na Eslováquia (Bloco Internacional Europeu)

A eleição do dirigente neonazi Marian Kotleba para o cargo de governador de uma região da Eslováquia é o último exemplo da ascensão da extrema direita na Europa.

Há poucos dias, radicais ultranacionalistas poloneses deitaram fogo a uma instalação artística no centro de Varsóvia e logo depois incendiaram uma guarita junto à Embaixada da Rússia. Agora, o seu confrade eslovaco Marian Kotleba conseguiu ir mais longe. No último fim de semana venceu as eleições regionais e tornou-se zupan (governador) da região de Banska Bystrica.

À frente de uma das oito regiões em que se divide administrativamente a Eslováquia está um admirador da Eslováquia fascista e da expulsão dos judeus, que gosta que lhe chamem “vudcer” (líder), criador de uma milícia contra os ciganos, a exemplo das SA de Hitler e, mais recentemente, do Jobbik húngaro, e chefe do partido “Nossa Eslováquia”, cujo programa se resume como “uma improvisação populista com elementos neonazis”.

A chegada de Kotleba ao segundo turno proporcionou uma afluência às urnas mais elevada do que a verificada nas outras regiões. Os resultados irão catapultar Kotleba para as presidenciais e o seu partido para as eleições locais do próximo ano, as consultas a realizar antes das eleições gerais de 2016.

O primeiro ministro, Robert Fico, dedicou-se a combater o alegado “perigo húngaro” nas regiões de Nitra e Trnava apoiando diretamente os candidatos do Smer, o seu partido. No entanto, não realizou qualquer esforço no mesmo sentido na província de Banska Bystrica contra Kotleba. A direita conservadora, por seu turno, recusou-se a apoiar o candidato de Fico no segundo turno, o que abriu caminho à vitória neonazi.

O sociólogo Michal Vasecka considera que existe na sociedade eslovaca, face à crise econômica, às pressões de Bruxelas e às frustrações acumuladas após a independência, um vasto eleitorado com tendências autoritárias, como demonstram êxitos anteriores do Partido Nacional Eslovaco e do HZDS de Meciar. Ideia comum a este extrato populacional é a revisão da história no sentido de negar a cumplicidade entre o Estado Eslocavo fascista de Jozef Tiso e o Holocausto. Vasecka considera que esta corrente tem vindo a ganhar peso desde meados dos anos noventa também devido à influência de uma hierarquia católica extremamente conservadora.

Os analistas explicam que Marian Kotleba soube aproveitar o facto de os partidos que têm ocupado o poder desde a independência não saberem como lidar com a comunidade cigana, que representa cerca de dez por cento da população. Tal como Kotleba, os partidos do poder consideram a questão cigana como um assunto de segurança e não de direitos humanos ou sociais, mas o dirigente neonazi decidiu agir através de uma estratégia de terror: comprou uma área onde está instalado um acampamento de ciganos e prepara-se para o desmantelar, expulsando os ocupantes, o que pretende fazer a título de exemplo para outros acampamentos.

Martin Butora, antigo dirigente do Partido Nacional Eslovaco, direitista mas que nunca se declarou admirador do nazismo e da sua vertente eslovaca, considera que a eleição de Marian Kotleba “é um caso mais sério do que parece”. Analistas políticos de Bratislava admitem que perante o perigo há duas atitudes a tomar pelos principais dirigentes políticos: tratar Kotleba como um pária, o que acabará por jogar a favor deste; ou desacreditá-lo como político no desempenho do cargo de governador. Esta opção, contudo, tem muito poucos adeptos.


Pressão de religiosos prejudicou a campanha de prevenção a aids, diz especialista

Thais Araujo
Repórter da Agência Brasil

Brasília - O Brasil precisa adotar uma postura mais incisiva na área da prevenção e da infecção por HIV para recuperar o protagonismo mundial no enfrentamento à doença. A opinião é do médico sanitarista e epidemiologista Pedro Chequer. Considerado um dos principais especialistas no tema no país, ele acredita que o Brasil sofreu um "grande retrocesso" nos últimos anos por, entre outras razões, ceder à pressão de grupos religiosos na condução das ações de resposta à epidemia.
Entre as medidas que simbolizam esse recuo, segundo ele, estão a suspensão pelo governo federal, em março deste ano, da distribuição de material educativo para prevenção da aids dirigido a adolescentes. O kit, formado por revistas de histórias em quadrinhos, abordava temas como gravidez na adolescência, uso de camisinha e homossexualidade.

"O Brasil pautou seu programa de aids na fundamentação científica e sempre foi exemplo para o mundo, promovendo campanhas de prevenção abertas, diretas e objetivas, voltadas principalmente às populações mais vulneráveis. De repente, vemos esse grande retrocesso e o Brasil sofre um revés político, deixando de ser vanguardista na área da prevenção e de campanhas", disse Chequer, que coordenou a política de aids do Ministério da Saúde e dirigiu o Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV e Aids (Unaids) no Brasil.

Ele ressaltou que ainda não é possível calcular o impacto dessas medidas, já que, diferentemente de outras doenças como o sarampo ou o cólera, os sintomas da infecção por HIV podem levar um longo período para se manifestar. O especialista destacou, também, que o Brasil vem promovendo avanços para ampliar a oferta de tratamento gratuito contra a aids para todos os adultos que sejam diagnosticados soropositivos, independentemente do estágio da doença. Há cerca de dois meses, o Ministério da Saúde submeteu à consulta pública um protocolo de atendimento prevendo que o tratamento seja fornecido ao paciente com aids, que tiver CD4 (células de defesa do organismo) acima de 500 para cada milímetro cúbico de sangue e que não apresentam os sintomas da doença. Pela regra atual, a rede pública de saúde fornece tratamento ao paciente com aids que tiver CD4 abaixo de 500 para cada milímetro cúbico de sangue.

Desde o início de 2013, também podem receber o tratamento casais sorodiscordantes - aqueles em que um dos parceiros tem o vírus e o outro não - com CD4 acima de 500 células para cada milímetro cúbico de sangue, pacientes que convivem com outras doenças, como tuberculose e hepatite, e pacientes assintomáticos com CD4 menor de 500.

A validação das proposições recebidas e a elaboração da versão final consolidada do protocolo será coordenada pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, que deve finalizar o documento ainda este ano. Segundo o ministério, estudos internacionais mostram que o uso precoce de antirretrovirais reduz em 96% a taxa de transmissão do HIV.

"Ampliar a cobertura de tratamento é fundamental porque na medida em que as pessoas são tratadas, elas praticamente não transmitem o vírus. Quando não há transmissão, não há novas infecções. Mas isso [só vai ocorrer] se forem implantados serviços [de saúde] nas regiões mais distantes e criados processos de mobilização com campanhas na mídia, nas redes sociais, nos serviços comunitários e de saúde para promover a testagem", disse.

O Ministério da Saúde estima que atualmente cerca de 700 mil pessoas vivam com HIV e aids no país, mas 150 mil não sabem que têm o vírus ou a doença. Ao todo, 313 mil recebem tratamento com medicamentos antirretrovirais gratuitos. O Brasil registra, em média, cerca de 38 mil casos de aids por ano. Desde os anos 80, quando teve início a epidemia, foram contabilizados 656 mil casos. Procurada pela reportagem, a assessoria do Ministério da Saúde não comentou as críticas feitas pelo especialista.



Edição: Marcos Chagas

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

sábado, 30 de novembro de 2013

OS TRAMBIQUES DA FAMÍLIA DE MÁRIO COVAS


Consultoria ligada a cartel doou para tucanos
Empresa de indiciado no escândalo foi a segunda maior doadora da campanha de filho de Covas


Fausto Macedo, Fernando Gallo, Ricardo Chapola - O Estado de S. Paulo


SÃO PAULO - A Focco Tecnologia, empresa de ex-diretores da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) suspeitos de envolvimento com o cartel metroferroviário em São Paulo, foi a segunda maior doadora da campanha do vereador tucano Mário Covas Neto, o Zuzinha, em 2012.

A consultoria também deu dinheiro, em menores quantidades, a outros políticos do PSDB na campanha de 2010, que hoje estão no primeiro escalão do governo Geraldo Alckmin (PSDB): o secretário estadual de Meio Ambiente e deputado estadual licenciado Bruno Covas e o secretário estadual de Energia e deputado federal licenciado, José Aníbal.

Sócios da empresa, os ex-diretores da CPTM João Roberto Zaniboni e Ademir Venâncio de Araújo foram indiciados pela Polícia Federal sob suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro, formação de cartel e crime financeiro. Zaniboni foi condenado pela Justiça da Suíça por lavagem de dinheiro.

A Focco já recebeu R$ 32,9 milhões do governo paulista entre 2010 e 2013 por serviços de consultoria. Ela assinou contratos para "supervisão de projetos" com CPTM, Metrô, Agência Reguladora de Transportes do Estado (Artesp), Secretaria de Transportes Metropolitanos e Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU).

A PF aponta Zaniboni e Araújo como "intermediários no pagamento de propinas" para beneficiar cartel no sistema metroferroviário suspeito de atuar nos governos tucanos de Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra.

Zuzinha e Bruno Covas são, respectivamente, filho e neto do ex-governador Mário Covas. Este era o governador em 1998, ano em que a multinacional alemã Siemens sustenta ter começado a operar o cartel no setor metroferroviário do Estado. Covas morreu em 2001, foi sucedido pelo então vice, Alckmin, atual governador, que terminou o seu mandato.

A Focco doou R$ 50 mil para Zuzinha em 2012, ano da primeira campanha do filho de Covas. Era a segunda maior doadora do total de R$ 904,7 mil que o vereador declarou ter recebido. Ele ficou em oitavo lugar nas eleições, com 61 mil votos, e assim conquistou uma das 55 cadeiras do Legislativo municipal.

Em 2010, a consultoria de Zaniboni e Araújo já havia doado para as campanhas do sobrinho de Zuzinha, Bruno Covas, e de José Aníbal. Bruno acabaria se tornando o deputado estadual mais votado, com 239.150 votos. Ele contou com uma doação de R$ 2 mil, e Aníbal com uma de R$ 4 mil.

O atual secretário de Energia do Estado ainda recebeu uma doação de R$ 2 mil do consultor Arthur Teixeira, apontado pelo Ministério Público como lobista do cartel. Aníbal foi eleito como o 19.º deputado federal mais bem votado, com 170.957 votos.

Todos dizem que as doações foram regulares e atenderam às exigências da Justiça Eleitoral.

Desligamento. Zaniboni e Araújo, sócios da Focco, foram os primeiros agentes públicos a serem indiciados pela Polícia Federal no inquérito que investiga o cartel dos trens - há outros indiciamentos envolvendo o cartel, mas no setor de energia.

Zaniboni foi diretor de Operações e Manutenção da CPTM entre 1999 e 2003, e Araújo foi diretor de Obras e Engenharia da estatal entre 1999 e 2001. Zaniboni se tornou sócio da Focco em 2008, quando já estava fora da estatal do governo tucano. Após ter seu nome envolvido com o escândalo do cartel, em agosto deste ano, ele deixou a sociedade com Araújo.
Fonte: ESTADO DE SP

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Cientistas identificam 'arma secreta' de ataque dos cavalos marinhos



Cavalos marinhos não são tão lentos e estranhos como imaginávamos. Segundo uma pesquisa feita por cientistas americanos, esses animais são na verdade engenhosos e cruéis predadores.

Essas belas criaturas são famosas por serem péssimas nadadoras, mas elas escondem uma arma secreta que as permite se aproximar bem devagar de suas presas, sem despertar atenção.

Seu focinho peculiar é moldado para criar poucas ondulações na água, disfarçando sua aproximação a pequenos crustáceos.

Para suas vítimas, os cavalos marinhos são como monstros do mar, dizem os cientistas da Universidade do Texas, em Austin, responsáveis pela pesquisa.

"O cavalo marinho é um dos peixes mais lentos que conhecemos, mas é capaz de capturar uma presa que nada a uma velocidade incrível", disse Brad Gemmell, autor do estudo divulgado na publicação científica Nature Communications.

As presas, nesse caso, são copépodes, crustáceos muito pequenos que são a comida favorita dos Syngnathidae, a família de peixes que incluí os cavalos marinhos e os peixes-agulha.

Quando os copépodes detectam ondas formadas por seus predadores, eles fogem à velocidades de mais de 500 comprimentos corporais por segundo - o equivalente a um humano de 1,80m nadando a 3.200 km/h.

Ataque mortal

"Os cavalos-marinhos conseguem surpreender o fujão mais talentoso do mundo aquático", diz Gemmell.

"Em condições calmas, eles capturam presas em 90% das tentativas. É uma taxa muito elevada, e queríamos saber o porquê."

Cavalos marinhos usam um método conhecido como alimentação pivô: seus longos pescoços agem como uma mola, que lhes permite girar rapidamente a cabeça e aspirar sua presa.

Mas essa aspiração só é eficaz em distâncias curtas, de cerca de um milímetro. E o ataque ocorre em menos de um milissegundo.

Até agora era um mistério como essas criaturas de olhar manso conseguem se aproximar de suas presas sem serem detectadas.

Para resolver esse dilema, Gemmell e seus colegas estudaram o cavalo-marinho anão (Hippocampus zosterae), das Bahamas e dos Estados Unidos.

Os cientistas estudaram o 'Hippocampus zosterae' para entender a alimentação pivô

Eles filmaram em 3D o movimento da água em torno deles, usando a técnica de holografia, com um microscópio equipado com uma câmera digital a laser e de alta velocidade.

Eles descobriram que o formato do focinho dos cavalos-marinhos minimiza o movimento da água na frente de sua boca antes do ataque.

Outros peixes pequenos com cabeças mais arredondadas, como peixes esgana-gata (Gasterosteus aculeatus), não têm essa vantagem, dizem os pesquisadores.

"É como uma corrida armamentista entre presa e predador, e o cavalo marinho desenvolveu uma boa maneira de chegar perto o suficiente e tornar a distância para o ataque bastante curta", diz Gemmell.

"Em geral as pessoas não pensam em cavalos marinhos como predadores incríveis, mas eles realmente são."

Fonte: BBC

Hidrelétricas 'impulsionam desmatamento indireto' na Amazônia


João Fellet
Da BBC Brasil em Brasília


Floresta foi desmatada no entorno das usinas de Jirau, Santo Antônio e Belo Monte (foto)

Ao defender a construção de hidrelétricas na Amazônia, o governo federal costuma citar o argumento de que essas usinas são menos poluentes e mais baratas que outras fontes energéticas capazes de substituí-las.

Entre ambientalistas e pesquisadores, porém, há cada vez mais vozes que contestam a comparação e afirmam que o cálculo do governo ignora custos e danos ambientais indiretos das hidrelétricas. Para alguns, esses impactos colaterais influenciaram no aumento da taxa de desmatamento da Amazônia neste ano.

Há duas semanas, o governo anunciou que, entre agosto de 2012 e julho de 2013, o índice de desflorestamento na Amazônia cresceu 28% em relação ao mesmo período do ano anterior, a primeira alta desde 2008.

Paulo Barreto, pesquisador sênior da ONG Imazon, atribui parte do aumento ao desmatamento no entorno das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, e da usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará.

Segundo ele, as hidrelétricas atraem migrantes e valorizam as terras onde são implantadas. Sem fiscalização e punição eficientes, diz ele, moradores se sentem encorajados a desmatar áreas públicas para tentar vendê-las informalmente.

No caso de Belo Monte, Barreto afirma que o desmatamento em torno da usina seria menor se o governo tivesse seguido a recomendação do relatório de impacto ambiental da obra para criar 15 mil km² de Unidades de Conservação na região.

Uma pesquisa do Imazon, da qual Barreto é coautor, estima que o desmatamento indireto causado pela hidrelétrica atingirá 5.100 km² em 20 anos, dez vezes o tamanho da área a ser alagada pela barragem.

Na bacia do Tapajós (PA), onde o governo pretende erguer uma série de usinas, ele diz a área desmatada indiretamente chegará a 11 mil km².

Fórmula do desmatamento

O engenheiro Felipe Aguiar Marcondes de Faria desenvolve em seu projeto de PhD na Universidade Carnegie Mellon (EUA) uma fórmula complexa. Ele pretende incluir os efeitos indiretos da construção de hidrelétricas na Amazônia – como o desflorestamento gerado por imigração ou especulação fundiária – no cálculo das emissões de carbono das obras.

Desmatamento indireto causado por Belo Monte pode atingir até 5.100 km² em 20 anos, diz estudo

A conta, que mede a liberação de gases causadores do efeito estufa, normalmente leva em conta somente as emissões geradas pela perda de vegetação e pela degradação da biomassa na área inundada pelas barragens.

"Se a construção de uma hidrelétrica implicar taxas de desmatamento superiores às de locais onde não existem tais investimentos, nós poderemos acrescentar esse desmatamento extra ao balanço de carbono do projeto".

O pesquisador diz ainda que, além de valorizar terras e atrair imigrantes, a construção de hidrelétricas pode estimular o desmatamento ao melhorar as condições de acesso à região, expondo florestas antes inacessíveis.

Faria também questiona os cálculos que exaltam o baixo preço das hidrelétricas em comparação com outras fontes de energia. "As diferenças não consideram adequadamente os custos socioambientais desses empreendimentos".

Ainda assim, avalia que o Brasil não pode excluir a hidroeletricidade de seus planos de expansão do sistema energético. Para ele, a modalidade oferece grandes vantagens em relação a outras fontes de energia, como flexibilidade para atender à variação da demanda e dispensa de importação de matérias-primas.

Faria defende, no entanto, que o governo mude sua postura quanto às hidrelétricas na Amazônia.



"O desenvolvimento hidrelétrico na Amazônia deveria ser visto não como uma barragem no rio, mas sim como uma chance de criar um novo paradigma de desenvolvimento sustentável"


Felipe de Faria, engenheiro

"O desenvolvimento hidrelétrico na Amazônia deveria ser visto não como uma barragem no rio, mas sim como uma chance de criar um novo paradigma de desenvolvimento sustentável para uma região, que crie condições para a manutenção das unidades de conservação e terras indígenas, investimentos em educação e ciência e melhora na saúde da população."

Porém, para o procurador-chefe do Ministério Público Federal no Pará, Daniel César Azeredo Avelino, a construção de hidrelétricas na Amazônia não tem sido acompanhada pela manutenção de áreas protegidas.

Nos últimos anos, o governo reduziu Unidades de Conservação para facilitar o licenciamento das hidrelétricas no rio Madeira e das futuras usinas no Tapajós. Segundo ele, simples sinalizações de que se pretende reduzir essas áreas já motivam o desmatamento.

Em 2012, diz Avelino, um mês após jornais divulgaram que o governo estudava diminuir a Floresta Nacional Jamanxim, no sudoeste do Pará, houve um surto de desmatamento na região.

"Quando se fala em reduzir Unidades de Conservação para hidrelétricas, alimenta-se a ideia de que poderá haver novas reduções, o que encoraja o desmatamento."
Governo responde

No entanto, segundo Francisco Oliveira, diretor do Departamento de Combate ao Desmatamento do Ministério Ambiente, a destruição dentro de áreas protegidas corresponde a menos de 10% do desflorestamento na Amazônia.

Quanto ao desmatamento recente no Pará e em Rondônia, diz que não se deveu necessariamente às hidrelétricas. Oliveira afirma que o desflorestamento em um raio de 50 quilômetros de Belo Monte passou de 380 km², em 2011, para 41 km² em 2013.

Em Rondônia, ele diz que também tem havido redução no ritmo do desmate em áreas próximas às usinas.

Segundo Oliveira, as principais causas para o maior desmatamento na Amazônia no último ano foram: no Pará, a apropriação ilegal de terras (grilagem) na região de Novo Progresso; no Mato Grosso, a expansão da agropecuária; e em Rondônia, a expansão da pecuária.

Oliveira afirma, porém, que, apesar da alta, o índice de desflorestamento em 2013 foi o segundo menor desde que começou a ser medido, há 25 anos.

Não vejo notícias de Maduro mexendo com o lucro do sistema financeiro venezuelano

Serão os bancos comedidos na sua ânsia de lucros, lá no vizinho país?
Duvido muito!!!
Dizem que na gestão de Chavez os bancos também não foram incomodados e ganharam "horrores de dinheiro". 


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Maduro decreta leis para controlar lucros e centralizar entrega de divisas


Segundo presidente venezuelano, dispositivo ordena economia; associação empresarial pede "diálogo"



Dois dias após receber “poderes especiais” da Assembleia Nacional venezuelana para governar por decretos durante um ano, o presidente Nicolás Maduro assinou, na noite desta quinta-feira (21/11), duas leis como parte da “guerra econômica” que alega ser promovida por setores empresariais e da oposição contra sua gestão.


"A burguesia achava que eu estava brincando? Não estamos brincando com a proteção dos que trabalham", disse o chefe de Estado, na assinatura do primeiro dos decretos: uma Lei Orgânica de Controle dos Preços, Custos e Lucros. "Essa lei tem só um objetivo central, que é proteger as liberdades econômicas e os direitos econômicos e sociais do povo trabalhador", expressou, durante um ato no estado venezuelano de Zúlia.


Agência Efe


Nicolás Maduro anuncia "ofensiva estremecedora" contra a corrupção durante discurso em Caracas

De acordo com ele, o novo texto soma normativas já existentes no campo de preços e custos e será remitido ao Supremo Tribunal de Justiça do país para que a instância estude e ratifique seu caráter orgânico. “É uma lei para ordenar a economia e estabelecer um piso sólido, de ordem”, disse ele, sem especificar as porcentagens mínimas e máximas de lucro previstas no decreto. Há uma semana, o chefe de Estado afirmou que estas seriam estabelecidas entre 15 e 30% no decreto.

“Quem produz, que produza. Quem compra e distribui, serve de atacadista, que o faça corretamente de acordo com a lei, sem especular sobre o varejista ou o comerciante. E quem está no fim da cadeia da economia e tem um comércio do tamanho que seja, pequeno ou médio, que respeite a lei também e a cumpra diretamente, estabelecendo o equilíbrio entre o custo de cada produto, o lucro e os preços justos, que como conceito os estabelecemos com muita clareza e fortaleza nesta primeira Lei Orgânica da habilitante”, afirmou.

A segunda lei decretada por ele se refere à criação do Centro Nacional de Comércio Exterior e da Corporação de Comércio Exterior para “ordenar a atividade” do país quanto a importações e exportações e centralizar a administração das divisas que entrem no país pela renda petrolífera. “Essa lei é fundamental. Com ela vou mudar tudo o que tiver que mudar em todos os processos de uso das divisas do país para importar o que temos que importar”, disse.

De acordo com Maduro, este decreto prevê que empresas que solicitem e obtenham os dólares pelo Estado ao valor oficial, atualmente em 6,30 bolívares, para importações, deverão demonstrar sua solvência econômica, domicílio e atuação, além de “assinar um contrato de fiel cumprimento do uso dos dólares que são entregues e comprovar o final do processo do produto que trará pra Venezuela”, disse, esclarecendo que as divisas somente serão depositadas em contas bancárias no país no momento de pagamento dos produtos.


A assinatura dos decretos com força de lei é realizada durante uma ofensiva econômica promovida pelo governo contra a inflação. De acordo com Maduro, na primeira fase de um operativo de fiscalização de preços iniciado há duas semanas, 1.400 estabelecimentos foram inspecionados e somente cinco destes vendiam produtos importados a “preços justos”. Segundo o governo, sobrepreços de mais de 1.000% foram identificados.

O presidente da Fedecámaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela), Jorge Roig, pediu nesta quinta (21/11) ao presidente que dialogue com os empresários, que segundo ele, são os verdadeiros “geradores de riquezas do país”. “É um momento de conciliação”, disse, em entrevista à imprensa local. Para Maduro, as câmaras empresariais estão por trás da “guerra econômica”.

Fonte: ÓPERA MUNDI