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terça-feira, 11 de abril de 2017

EUA tentaram persuadir governo Lula a se posicionar contra a Venezuela




Governo brasileiro, à época, se recusou a apoiar manobras de Washington para desestabilizar o governo de Hugo Chávez

Eduardo Vasco, Pravda.Ru

O jornalista, escritor e pesquisador norueguês Eirik Vold apresentou no último dia 31 de março em Caracas parte dos resultados de sua investigação sobre os documentos desclassificados e publicados pelo Wikileaks entre 2004 e 2010, que revelam as tramas dos EUA para derrubar o governo do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez.

Uma delas foi a tentativa de convencer o governo brasileiro a apoiar as ações de Washington na América do Sul contra a Venezuela.

Um relatório enviado em março de 2005 aos EUA pelo então embaixador do país em Brasília, John Danilovich, descreve uma conversa deste com o chanceler brasileiro na época, Celso Amorim.

O chefe do Itamaraty, ao ser assediado pelo embaixador, afirmou que "Chávez havia sido eleito democraticamente e depois reafirmado em um referendo, que disfrutava de apoio doméstico substancial".

Amorim também argumentou que o presidente venezuelano "era uma figura popular na esquerda internacional e líder de uma potência principal no continente", segundo os documentos apresentados por Vold, que é especialista em geopolítica internacional e estudioso da relação entre os EUA e os governos progressistas da América Latina.

No final da mensagem, Danilovich expressou seu desapontamento sobre a posição do governo brasileiro.

Entretanto, os EUA não deixaram de planejar alianças contra a Venezuela. Um relatório de 2007 coloca Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai como possíveis aliados da Casa Branca para abalar o governo bolivariano.

Segundo Vold, em sua explanação por videoconferência durante o evento Venezuela Digital 2017, os EUA tentaram por diversas formas "derrubar o governo eleito com a ajuda de ONGs e de financiamento externo", além de apoiar partidos de oposição.

Um telegrama de novembro de 2006 descreve que, em 2004, o embaixador estadunidense na Venezuela relatava uma estratégia de cinco pontos que guiariam os esforços dos EUA naquele país no período 2004-2006.

"1º: fortalecer instituições democráticas; 2º: penetrar a base política de Chávez; 3º: dividir o chavismo; 4º: proteger os interesses econômicos dos EUA; 5º: isolar Chávez internacionalmente", citou o pesquisador.

Ainda segundo suas investigações, tanto a embaixada estadunidense em Caracas como outras sedes diplomáticas em toda a América Latina foram utilizadas pelos Estados Unidos para desestabilizar o governo venezuelano.

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Mito da Doutrinação: Serás um Pateta nas Mãos da Abin e da Oligarquia Tupiniquim?



Mito da Doutrinação: Serás um Pateta nas Mãos da Abin e da Oligarquia Tupiniquim?

Em agosto de 2016, o jornalista e economista norte-americano Paul Craig Roberts, secretário-adjunto do Tesouro para a Política Econômica dos Estados Unidos na administração do presidente Ronald Reagan em 1981, escreveu em Serás um Pateta nas Mãos da CIA?

Edu Montesanti

"A expressão 'teoria da conspiração' foi inventada e posta a circular no discurso público pela CIA, em 1964, a fim de desacreditar os muitos cépticos que contestavam a conclusão da Comissão Warren de que o presidente John F. Kennedy fora assassinado por um pistoleiro solitário chamado Lee Harvey Oswald, o qual por sua vez foi assassinado enquanto sob a custódia da polícia antes que pudesse ser interrogado. A CIA utilizou seus amigos nos media para lançar uma campanha a fim de tornar suspeições do relatório da Comissão Warren alvo de ridículo e hostilidade. Esta campanha foi "uma das iniciativas de propaganda de maior êxito de todos os tempos".

Atualizada nos Estados Unidos, o rótulo de conspiracionista vale hoje também a todos aqueles que questionam a insustentável versão oficial envolvendo os atentatos terroristas de 11 de setembro de 2001.

No Brasil, a estratégia de se rotular ameaças ao poder estabelecido se dá contra defensores de políticas sociais, rotulados agressivamente de doutrinadores" ou "ideólogos". E milhões de cidadãos desavisados embarcam nesta mediocridade que tem polarizado cada vez mais a historicamente rachada sociedade brasileira, enquanto políticos oportunistas aplicam suas ideologias corruptas e anti-sociais indiscriminadamente.

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) foi criada em 1999 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, é uma reedição do Serviço Nacional de Informações (SNI) criado pela ditadura militar brasileira sob supervisão da CIA em 1964, para vigiar e controlar a sociedade brasileira, especialmente movimentos sociais e trabalhadores grevistas. E esta prática tem crescido assustadoramente nos últimos anos, mesmo nos do PT no governo federal.

Dentro do contexto atual de vigilância doméstica, de caça às bruxas contra setores progressistas brasileiros, e da forte influência da própria CIA à Polícia federal, à própria Abin já que esta é uma extensão de seu antecessor, o SNI, e aos assuntos políticos, econômicos e sociais do Brasil, tudo leva a crer que essa onda de ataques sistemáticos a ideias progressistas trata-se de mais uma produção dos laboratórios da Abin, bem ao estilo norte-americano que exporta seus métodos de controle social, como exemplifica a Escola das Américas.

As lista de evidências da fragilidade, ou da estupidez de se rotular os defensores de políticas sociais de "ideólogos" é tão vasta, que fica difícil optar por apenas algumas delas. Pois o mais recente exemplo vem do político com capacidade marqueteira de poucos atualmente, o prefeito paulistano João Dória que, apoiando-se na despolitização por que seu setor reacionário tanto preza para dominar e gozar dos privilégios do poder sobre uma massa alienada, tem retirado os poucos direitos sociais na maior cidade da América latina, sem que a sociedade se de conta, distraída com aquele que se intitula "gestor" e não político. 

Chama a atenção que os mesmos que achincalham programas como o Bolsa Família de Lula (que Aécio Neves afirmou, na campanha presidencial de 2014, manter, na verdade criada por Fernando Henrique Cardoso com o nome de Bola Escola), regozijam-se com o assistencialismo de Dória, que tem doado o salário a instituições de caridade; pois o mais contraditório é que, ao mesmo tempo que faz isso, o "gestor alegadamente "sem ideologias" corta indiscriminadamente verbas da saúde, educação e privatiza até parques municipais. Mas é claro: o "apartidário" de turno, que reza perfeitamente a cartilha de seus padrinhos do PSDB e arranca suspiros dos eleitores de São Paulo, é paulistano e oriundo das classes dominantes, não um nordestino da roça.

Enfim, o último exemplo do quanto a sociedade brasileira em geral tem se prestado a fazer o papel de pateta da Abin, que representa os interesses das oligarquias nacionais, é que em nome da "neutralidade" Dória pretende disseminar nas escolas da cidade de São Paulo livros de economia do Instituto Mises Brasil, que promovam os princípios de livre mercado.

Ludwig von Mises (1881-1973) foi um dos fundadores da Escola Austríaca de Economia, e defendeu o combate à intervenção estatal. "Aprender economia é essencial na vida das pessoas", disse recentemente o prefeito paulistano, ao mesmo tempo que condenou aquilo que chama de "doutrinação" nas escolas. Pois... a que nível chegou o "debate" tupiniquim: os materiais de Mises não contêm uma linha ideológica, bem clara?

O que se está fazendo é, como nos piores anos da Guerra Fria, criminalizar visões progressistas e até a política ao negá-la (com fins ditatoriais, de aniquilação do pouco que há de Estado de direito) sob auto-rótulo de "gestor" ou coisa que o valha. 

Na era da Internet, é grave que milhões de indivíduos caiam tão facilmente neste engodo; a sociedade é, cada vez mais, responsável pelas informações que consome, e pelo destino do país. Cada vez menos, pode ser considerada "vítima" da imposição da ignorância pelos donos do poder.

Porém os agressivos fundamentalistas da ideologia que prega políticas elitistas, travestidos de "apolíticos" sem criatividade que nunca renovam suas artimanhas de dominação, de exploração e da roubalheira indiscriminada, tem obtido sucesso, inversamente proporcional ao nível desta paupérrima "engenharia intelectual" de "combate à ideologia", em promover a alienação de indivíduos que, por comodidade, por medo ou por uma combinação de ambos, preferem se manter despolitizados, sem posição clara e indiferentes, seguindo a corrente predominante que não é nem nunca foi pautada pelos interesses da maioria da sociedade, senão do 1% dominante (ao qual o enodo Dória pertence). 

Por que Jair Bolsonaro pode defender que cada cidadão tenha uma pistola em casa, sendo considerado livre de ideologias, ao passo que quem defende o desarmamento deve ser tachado de "ideólogo"? Por que um professor pode (e com Dória deve) ensinar as leis do livre mercado (neoliberalismo), enquanto um professor que questiona este sistema deve ser criminalizado e responder na Justiça pelo crime"? Por que Dória pode cortar um orçamento já pequeno da Prefeitura para a cultura, na ordem de 0,8% do total da gestão anterior (quando a UNESCO recomenda um mínimo de 1%), agora sofrendo corte de 45% que praticamente zera os recursos para programas e projetos culturais, enquanto quem se opõe a isso defendendo fortes investimentos em educação e cultura, é considerado "doutrinador"? Por que novamente ele, Bolsonaro pode alegar que negro quilombola e índio "não serve nem para procriar", enquanto um professor que defende justiça social e igualdade de direitos deve ser ameaçado e até chegar a apanhar de pais de alunos, além de ser fortemente discriminado pelo terrorista Estado brasileiro? 

Por que este autor merece ser, aos gritos, ameaçado de agressão física por, "comunista comedor de criancinhas", defender os direitos dos refugiados haitianos, agredidos e assassinados no Sul branco do País, enquanto os mesmos que ameaçam este autor são considerados a nata intelectual e moral brasileira, "livres de ideologias? Quando a sociedade brasileira vai despertar para o que anda ocorrendo?

Até onde vai este papel de pateta nas mãos das oligarquias nacionais que grande parte da sociedade brasileira tem se prestado a fazer? Outro exemplo claro de que não há nada de apartidário nem de democrático neste pobre conteúdo reacionário, que só engana os mais ignorantes, é o próprio caráter profundamente agressivo que cerceia a discussão de ideias e a liberdade de expressão que permeia todos os setores da sociedade, muitas vezes valendo-se de agressões físicas pelos mais banais motivos.

Nunca, após 1964, a democracia brasileira correu tanto risco nas mãos de subprodutos de um Estado autoritário, como João Dória, Jair Bolsonaro, e outros elementos deste tipo, de péssimo gosto moral e intelectual.




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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Rádio Ratones - Música judaica

A MATZÁ E A HUMILDADE


Por Daniela Kresch
Jornalista
direto de Israel

TEL AVIV – Para o rabino Zev Slavin, diretor do orfanato modelo Ohr Simcha, em Kfar Chabad, a alguns quilômetros de Tel Aviv, Pessach é um momento de humildade. E a matzá é o símbolo dessa modéstia.
“Uma vez por ano, nós somos quem somos, sem máscaras, sem o ego que nos faz pretensiosos. A matzá é o pão humilde, que não fermentou. E nós, em Pessach, temos que ser nós mesmos, sem pretensões. Temos que aprender humildade”, diz o rabino.
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O rabino Zev Slavin no orfanato Ohr Simcha
(Crédito Daniela Kresch)
Escutei essas palavras do rabino Slavin – ao visitar o orfanato – como se fosse a primeira vez que ouvia falar no pão ázimo que se come na Páscoa judaica, o feriado que simboliza a liberdade, a busca pelo lar e pela união de um povo (e dos povos, em geral).
Tudo fez sentido: a matzá achatada e quadrada (ou redonda, como se faz em Kfar Chabad) é um pão destituído de glamour, de cor, de condimentos, de glúten... É um pão simples, assim como deve ser a alma de quem acaba de deixar a escravidão e recomeça a vida.
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As matzot redondas da fábrica de Kfar Chabad
(Crédito Daniela Kresch)
Mas, depois do orfanato de Kfar Chabad, fui visitar o fábrica de matzot (plural de matzá) da cidade. Lá, vi como dezenas de chabadnikim (muitos voluntários e muitas crianças) frenéticos correm contra o tempo para produzir a aparente simplicidade que é uma matzá.
Para que a matzá passe pelo crivo religioso, ela tem que ser assada em menos de 18 minutos. Se passar disso, a massa do pão ázimo começa a fermentar. A correria na fábrica de matzot de Kfar Chabad é de enlouquecer. No momento em que a massa do pão ázimo entra em contato com a água, há uma corrida contra o tempo para trabalhar a massa, cortá-la e levá-la ao forno.
O corre corre em busca da matzá perfeita, singelamente achatada, que não fermenta nem um pouquinho, me pareceu dicotômico. Por um lado, a matzá é o “pão humilde”, simples, sem egos (fermento). Por outro, no entanto, a matzá tem que ser “perfeita” em sua aparente “simplicidade”. Se passar de 18 minutos, não vale mais.
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O corre corre na fábrida de matzot de Kfar Chabad (Crédito Daniela Kresch)
Esse yin-yang, esse dualismo, me fez pensar no embate dos últimos dias, no Rio, entre membros da comunidade judaica carioca, divididos, segmentados, fraccionados por causa da palestra de um político detestável na Hebraica. Os que convidaram dizem buscar o pluralismo. Os que protestaram dizem renegar o fascismo. O embate interno (que, infelizmente, vazou para fora da comunidade) é tipicamente judaico. Assim como a matzá, que é, ao mesmo tempo, simples e complicada.
Tudo no judaísmo é repleto de nuances. Como é que se diz? “Para cada dois judeus, há três opiniões”. Mas, acima de tudo isso, deveria pairar o espírito de Pessach – o evento mais emblemático da Torá. O espírito da busca pela liberdade e pela união do povo. Quem presta atenção na Hagadá de Pessach percebe como há discussões acaloradas entre sábios, como os quatro filhos pensam tão diferente uns dos outros. Como as pragas do Egito são, ao mesmo tempo, geniais e cruéis. Mas a moral da história é que o povo, unido, não foi vencido.
Estou longe de ser especialista na Torá ou nos sentidos e ensinamentos da Hagadá. Mas pego emprestado o que disse o rabino Slavin, de Kfar Chabad, um pequeno vilarejo de 6 mil pessoas criado em 1949 pelo rabino Yosef Yitzhak Schneersohn, querido por muitos por sua sabedoria, caridade e ajuda humanitária. Pessach deve ser um momento de humildade, de falta de ego e de arrogância. Pessoalmente, eu preferia que o tal político não tivesse entrado na Hebraica. Mas deixo minha posição pessoal de lado na busca por um Pessach de consenso e paz. Chag Sameach.

Rádio Ratones - Música deliciosa

III Guerra Mundial como Estratégia Imperialista


10.04.2017
 
III Guerra Mundial como Estratégia Imperialista. 26348.jpeg
Prenunciam-se novas tragédias no Oriente Médio, mais golpes na América Latina e escalada da tensão nas relações EUA-Rússia. Antigo plano de Washington é invadir sete países: Iraque, Síria, Somália, Líbia, Sudão, Irã e Iêmen. Nada muda com Trump, como sempre esteve claro que ocorreria. Nada mudou com os maiores lobistas da política norte-americana: os sionistas que felicitam Tio Sam agora, por mais um crime de guerra contra a Síria. A III Guerra Mundial está na agenda do dia, e não eclodirá por mero acidente
Edu Montesanti
Donald Trump não se importa com o fato de que a comunidade internacional tenha condenado os ataques norte-americanos com 59 mísseis à base aérea síria da cidade de Homs que, na última sexta-feira (7), deixaram como saldo nove mortos, incluindo quatro crianças: a ofensiva foi unilaterais, isto é, não recebeu prévia autorização da ONU nem do Congresso dos Estados Unidos. O presidente norte-americano tampouco dá a mínima importância ao fato de que não haja nenhuma prova de que os ataques com armas químicas no último dia 4, ali mesmo, tenham partido do governo sírio conforme acusação irredutível da Casa Branca. 
Pois a administração de Trump vai além do ataque inconstitucional e contra as leis internacionais: um dia dia depois dos ataques, anunciou embargo econômico à Síria. Eis que o filme iraquiano de invenção de armazenamento de armas químicas e de unilateral embargo repete-se, tragicamente. Repete-se tragicamente na Síria hoje, com o ataque de dezenas de mísseis à base aérea na cidade de Homs, as mesmas manipulações envolvendo o "combate ao terror" no Afeganistão, na Líbia e, especialmente, no Iraque quando, em 2003, os Estados Unidos contrariaram a ONU e todas as evidências (até afirmações de Saddam Hussein quem, em determinados momentos, colaborou com inspetores da ONU) e invadiram o país sob pretexto de que o governo local armazenava armas químicas e biológicas. O Império mais terrorista da história, irregenerável e sem limites.
Assim como George Bush, que se denominava "o presidente da guerra", Trump aumentou em 54 bilhões de dólares os gastos militares para este ano fiscal, que alcançará 658 bilhões de dólares no final de 2017, enquanto corta drástica e raivosamente investimentos sociais como nas áreas de saúde, educação e assistência social.

Pouco depois do anúncio do aumento em defesa, em 4 de abril o novo inquilino da Casa Branca cortou o financiamento dos Estados Unidos junto ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em inglês), em favor da redução das desigualdades sociais em todo o mundo, especialmente dos setores mais vulneráveis como mulheres e crianças.
Palhaço Assassino na Casa Branca

Procurada em uma conversa particular com este autor logo que Trump vencera as eleições presidenciais em novembro do ano passado, a líder da Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA, na sigla em inglês) que se identifica apenas como Friba para sua segurança, já que a RAWA atua na clandestinidade, demonstrava desconfiança total em relação ao presidente eleito nos EUA pois, segundo a ativista afegã pelos direitos humanos, "o presidente dos Estados Unidos tem pouco ou nenhum efeito sobre a política externa do país, especialmente nos países que ocupa hoje. A administração Obama não era diferente de George Bush, e Trump não será diferente de ambos os presidentes".

Friba, quem garante que a Operação Liberdade Duradoura dos Estados Unidos no Afeganistão "causa um 11 de Setembro todos os dias" em seu país, ressaltou diversas vezes na conversa particular que Trump seria, assim como todos os inquilinos da Casa Branca, mero instrumento de um sistema imperialista. "Nenhum presidente dos Estados Unidos tem autoridade real, mas todas as políticas são estabelecidas pelas grandes corporações, pela CIA, pelo Pentágono e pelos chefes do Exército. O presidente é apenas um boneco em suas mãos. Não é uma questão de escolha de Trump nem de qualquer outro presidente dos Estados Unidos suspender a guerra".

À época Friba não apenas previa que Trump aumentaria a intensidade da guerra em seu pais, como também na própria Síria, no Iraque e na Líbia. "O Afeganistão não verá nenhuma mudança positiva, e o sírios, iraquianos e líbios sofrerão ainda mais". Pois não tardou sequer uma semana para que a voz afegã, conhecedora como poucas das "intervenções humanitárias" dos Estados Unidos, se mostrasse, desgraçadamente, certeira.

Desde que chegou à Casa Branca, aquele que se apresentava, entre profundas contradições nos ditos e feitos, como futuro dialogador internacional, em três meses de governo já apresenta média de ataques por drones e contra civis no Oriente Médio que supera as de George W. Bush e Barack Obama.

Logo em seu primeiro final de semana, Trump mostrou a que veio através de dois ataques com drones no Iêmen, que matou dez pessoas: um atingiu três pessoas em uma moto, e o outro atingiu sete pessoas que se moviam dentro de um carro. Uma semana depois da posse, Trump lamentou a morte de um Seal da Marinha dos Estados Unidos em um ataque ordenado pessoalmente por ele no sul do Iêmen. Trump não mencionou as 30 pessoas, incluindo ao menos dez mulheres e crianças, mortas pelos bombardeiros de seu Exército. O ataque causou graves danos a um centro de saúde, a uma escola e a uma mesquita.

Uma semana após a posse, Trump lamentou a morte de um Seal da Marinha dos Estados Unidos em uma invasão ordenada por ele no sul do Iêmen. Trump não mencionou as 30 pessoas, incluindo pelo menos 10 mulheres e crianças mortas pelos bombardeiros dos EUA. O ataque causou estragos graves um centro de saúde, em uma escola e em uma mesquita.

"Quase mil mortes de não combatentes já foram registradas devido a ações da coalizão em todo o Iraque e na Síria em março - um registro recorde", de acordo com aAirwars, organização não-governamental que monitora vítimas civis de ataques aéreos no Oriente Médio.

Apenas na segunda quinzena de março contabilizaram-se nada menos que 300 mortes de civis no Oriente Médio, vítimas dos bombardeios norte-americanos. Na Síria foram 100: ao menos 47 pessoas morreram em uma mesquita em Aleppo; 20 mortes vítimas de bombardeios sobre casas, uma escola e um hospital em Tabqah; e pelo menos 33 mortos em uma escola que abrigava 50 famílias deslocadas pelos combates, perto de Raqqa. Em Mosul, foram 200 "baixas civis" (eufemismo para assassinato), vítimas do "efeito colateral" (crime de guerra) das "bombas inteligentes" (enriquecedoras da indústria bélica em nome dos interesses econômicos e estratégicos) dos Estados Unidos.

Segundo relatório da Anistia Internacional, as forças da coalizão têm se utilizado de fósforo branco em Mosul, arma química que rasga o corpo do individuo vivo, e queima até os ossos. A revista norte-americana relatou recentemente que o próprio Comando Central dos EUA confirmou o uso de urânio empobrecido contra o Estado Islamita no Iraque, "indiscutivelmente crime de guerra" segundo a renomada jurista estadunidense, Marjorie Cohn.

Abu Ayman, residente em Mosul, disse à Reuters que viu várias casas demolidas e os corpos de seus moradores cortados, espalhados. "Corri para a casa do meu vizinho e, com outros cidadãos, conseguimos resgatar três pessoas, mas pelo menos outras 27 na mesma casa foram mortas incluindo mulheres e crianças de parentes que haviam fugido de outros distritos", disse ele. "Nós tiramos alguns do meio dos escombros usando martelos e pás para remover detritos. Não podíamos fazer nada para ajudar os outros, pois estavam completamente enterrados sob o telhado desmoronado". Um outro morador de Mosul disse: "Agora, parece que a coalizão está matando mais pessoas do que o Estado Islamita".
'Combate ao Terror': Diálogo de Surdos

Friba foi procurada novamente após os ataques dos EUA à base aérea síria no último dia 7. "Sem guerra, a superpotência não pode durar muito tempo nem superar a crise financeira doméstica. É a guerra que gira as rodas do seu sistema econômico", afirmou indignada a líder da RAWA. "Quem se senta na Casa Branca serve o 1% dos poderes corporativos, o que significa espalhar a guerra por todo o mundo para pilhar petróleo e matérias-primas de nações pobres, mantendo a hegemonia dos Estados Unidos e derrotando seus rivais".

Marjorie Cohn também foi contactada por esta reportagem, a fim de comentar se violam ou não a Constituição dos Estados Unidos os últimos ataques com mísseis por parte dos "policiais do mundo", como disse igualmente indignado o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, no mesmo dia dos bombardeios à Síria. A Constituição norte-americana proíbe as guerras preventivas, ou seja, sem que os Estados Unidos tenham sido anteriormente atacados por algum Estado. Segundo Marjorie, a Constituição prevê o uso da força militar apenas no caso de "emergência nacional criada por ataque aos Estados Unidos, aos seus territórios ou a suas posses, ou a suas Forças Armadas", o que ela aponta que não ocorreu neste caso.

Porém, a legista afirma que existe, legalmente, a possibilidade de que os Estados Unidos ataquem outro Estado sem ter sido previamente atingido através da Resolução de Poderes de Guerra (War Powers Resolution), que pode ser aplicada apenas nas seguintes situações: "Primeiro, após o Congresso ter declarado guerra, o que não aconteceu neste caso. Segundo, quando há 'autorização estatutária específica' através de uma Autorização para o Uso da Força Militar (Authorization for the Use of Military Force, AUMF) o que, novamente, não ocorreu". Pois o presidente Trump justificou os ataques com mísseis à Síria, exatamente, sobre a AUMF.

Outra renomada jurista ouvida por esta reportagem, Azadeh Shahshahani, ativista pelos direitos humanos e diretora do Projeto de Segurança Nacional pelos Direitos dos Imigrantes da União Americana de Liberdades Civis (ACLU, na sigla em inglês), lembra que "houve aplicação de AUMF no caso da guerra contra o Afeganistão, e uma resolução do Congresso no caso da guerra contra o Iraque. Continua sendo debatida a questão em relação a onde essas bases eram suficientes para se declarar guerra". Azadeh diz concordar com Marjorie, em que "não existem justificativas para o ataque à Síria, e que Trump excedeu a autoridade".

Quanto às leis internacionais, o presidente Trump passou por cima da Carta das Nações Unidas, tratado ratificado pelos próprios Estados Unidos que requer duas justificativas para uso da força militar contra um Estado soberano, sem o prévio consentimento deste, ou seja, uma declaração de guerra: que o país atacante, alegando autodefesa, tenha sido atacado antes em seu território, ou que tenha sido autorizado pelo Conselho de Segurança da ONU. Como no caso das leis norte-americanas, nenhum destes elementos estiveram em vigor nos ataques perpetrados pelas forças norte-americanas à base aérea síria do último dia 7, já que a ONU não autorizou o ataque e o impedimento do suposto uso de armas químicas, alegação da administração de Trump, não configura auto-defesa.

As questões legais são apenas uma introdução ao diálogo de surdos imposto pelos poucos tomadores de decisão de Washington, quando o assunto é "Guerra ao Terror". Conforme abordado em Pravda Brasil na reportagem Relações Rússia-EUA: Escalada das Tensões sob Risco de Guerra Nuclear , é fato comprovado que o Estado Islamita (EI, ou Daesh ou ainda ISIS) e a Al-Nusra, filiada à Al-Qaeda no Iraque, têm atacado com armas químicas fornecidas por Washington.

Quem tem confirmado essa informação, entre diversos meios de comunicação como o New York Times, são inspetores da ONU e o próprio Departamento de Estado dos Estados Unidos, quem reconhece que não existem "rebeldes moderados" na Síria. No que diz respeito ao governo sírio, jamais foi provada nenhuma acusação de Washington e seus aliados ao longo dos anos, nem neste caso específico da semana passada que Bashar al-Assad utilizou-se de armas químicas. "Não ataco com armas químicas sequer os terroristas, muito menos faria isso contra civis", tem afirmado o presidente sírio.

O EI, assim como a Al-Qaeda e suas franquias, nada mais é que um dos tantos subproduto das invasões dos Estados Unidos no Oriente Médio, inconstitucionais e contrárias às leis internacionais: passou a existir no Iraque pós-invasão norte-americana em 2003, por jovens radicalizados pela invasão ocidental que acabaram se espalhando pela região.

Contudo, um breve histórico da ocupação norte-americana no Oriente Médio (ocultada por Washington e por seus porta-vozes da grande mídia internacional) traz a compreensão de que a denominada Guerra ao Terror foi arquitetada bem antes dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 (cuja versão oficial é insustentável), para ser infinita e servir como pretexto para a permanência das bases militares norte-americanas na região mais rica em petróleo do mundo. E como consequência, por que este diálogo supostamente em prol do combate ao terrorismo internacional, do jeito que está imposto pelas grandes potências e pela mídia, não leva a lugar nenhum enquanto apoiado na desinformação, na total inversão de papeis.

A versão oficial diz que a União Soviética invadiu primeiro o Afeganistão em 1980, e que posteriormente os Estados Unidos saíram em defesa do país centro-asiático. Porém, ao contrário do que dizem até hoje os livros de História e a narrativa da própria mídia predominante, a invasão da CIA ao Afeganistão precedeu à soviética. Nas palavras de Zbigniew Brzezinski, conselheiro de Segurança Nacional do então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter (1977-81), a intenção da Casa Branca era "dar à União Soviética o seu Vietnã, e atolá-la no Afeganistão" (vídeo de Brzezinski incentivando afegãos a combater inimigos em nome de Alá, em 1979).

"De acordo com a versão oficial, o apoio da CIA aos mujahideen (combatentes) começou em 1980, ou seja, depois da invasão do Afeganistão pelo exército soviético em 24 de dezembro de 1979. Mas a realidade, mantida em segredo até hoje, é completamente diferente: foi em 1979 quando o presidente Carter assinou a primeira diretriz para o apoio secreto da oposição contra o regime pró-soviético, em Cabul. E no mesmo dia eu escrevi uma nota, na qual expliquei ao presidente que esse apoio levaria, na minha opinião, a uma intervenção militar dos soviéticos", afirmou Brzezinski em 1997 ao jornal francês Le Nouvel Observateur (entrevista reproduzida dias depois pela rede de notícias norte-americana CNN, para nunca mais se tocar no assunto).

A partir daquele momento, a USAID, conhecida ONG de fachada da CIA, passou a estabelecer as madrassas (escolas de guerra religiosa, ou a nova jihad, versão norte-americana) em solo afegão e paquistanês com livros didáticos made in Nebraska, ensinando a jihad violenta aos meninos, jovens e adultos locais.

Procurada para comentar também sobre as madrassas, Friba confirma as informações oficiais dos Estados Unidos, ao afirmar que "muitas dessas escolas e universidades operam abertamente e propagam o extremismo religioso ainda hoje, e recebem grandes fundos dos políticos. Tudo isso é aceito pelo establishment paquistanês". O ISI (Inter-Services Intelligence), inteligência paquistanesa, opera em estreita parceria com a CIA desde a década de 1970. "O complexo de inteligência militar do Paquistão controla o nascimento e a nutrição dessas escolas islamitas para promover seus planos odiosos, tanto no Paquistão como no Afeganistão. O Paquistão tem promovido seus interesses no Afeganistão por décadas, através de fundamentalistas treinados e educados em suas madrassas; os talibans são, puramente, subprodutos dessasmadrassas", acrescenta Friba.

O próprio sítio Council on Foreign Relations, famoso think tank dos "falcões (hawks) norte-americanos tais como o senador republicano John McCain (político norte-americano que mais recebe verbas do lobby armamentista), publicou em 2009:

"O relatório da Comissão do 11 de Setembro, divulgado em 2004, afirmou que algumas das escolas religiosas do Paquistão, ou madrassas, serviram como "incubadoras de extremismo violento. (...) Novas madrassas brotaram, financiadas e apoiadas pela Arábia Saudita e pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA, onde os estudantes foram encorajados a se juntar à resistência afegã. O Taliban foi formado no início da década de 1990 por uma facção afegã de mujahideen, combatentes islamitas que tinham resistido à ocupação soviética do Afeganistão (1979-1988) com o apoio secreto da Agência Central de Inteligência dos EUA e sua contraparte paquistanesa, a Inteligência Inter-Serviços (ISI). Eles foram acompanhados por tribos pashto mais jovens que estudaram em madrassas paquistanesas, ou seminários; Taliban, no idioma pashto, significa 'estudante'."

O documento intitulado USAID REPORT 1994 - Missão no Paquistão e Afeganistão, Projeto de Apoio à Educação, de 1994, afirma que, através de mais esta "ajuda humanitária" dos norte-americanos, criou-se os materiais didáticos que ensinam uma guerra religiosa que, hoje, Washington tanto condena. Como parte do "apoio à educação", na realidade à resistência afegã à invasão soviética inculcando o fundamentalismo religioso, a USAID gastou 50 milhões milhões de dólares em um projeto de "alfabetização jihad (guerra religiosa)" entre 1986 e 1992.

Em 2002, o jornal norte-americano The Washington Post informou: "Até mesmo os talibans usaram os livros produzidos nos Estados Unidos". Mais tarde, em julho de 2014, o mesmo Post lembrou: "Impresso em pashto e em dari, as duas principais línguas do Afeganistão, livros como O Alfabeto para a Alfabetização Jihad foram produzidos sob os auspícios da Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID), pela Universidade de Nebraska, e contrabandeados para o Afeganistão através de redes construídas pela CIA e a agência de inteligência militar do Paquistão, o ISI. (...) De acordo com pelo menos um estudioso norte-americano, esses antigos textos anti-soviéticos ainda estão em circulação. (...) A versão em pashto inclui ilustrações para crianças, tais como 'T' para 'topak', ou arma em pashto. Como você usa a palavra? 'Meu tio tem uma arma', diz a ilustração. 'Ele faz jihad com a arma''.

Outras lições ensinam que Cabul pode ser governada apenas por muçulmanos, e que todos os russos e invasores são descrentes. 'Nossa religião é o Islã. Muhammad é nosso líder. Todos os russos e infiéis são nossos inimigos', relatou a Al-Jazeera em dezembro de 2014 sobre os livros didáticos jihadistas patrocinados pelos EUA. "Cabul é a capital do nosso querido país", diz a ilustração da letra 'K'. 'Ninguém pode invadir nosso país. Só os afegãos muçulmanos podem governar este país'".

De acordo com Dana Burde, autora e professora de Educação Internacional na Universidade de Nova Iorque em entrevista a WYSO.org em dezembro de 2014, um livro didático nos EUA para ensinar a guerra religiosa a alunos de primeiro grau em pashto, inclui: "Letra 'M' (M maiúsculo e pequeno m): (Mujahid): 'Meu irmão é Mujahid [combatente]. afegão. Os muçulmanos são Mujahideen. Eu faço jihad com eles. Fazer jihad contra os infiéis é nosso dever'".

Ainda segundo Burde, o governo dos EUA pagou e aprovou materiais curriculares para crianças pequenas que enfatizavam a guerra religiosa. Os livros foram reimpressos e permaneceram em larga circulação até meados dos anos 2000, quando o governo afegão pós-invasão introduziu versões revisadas. Mas Dana Burde comprou o livro que contém a passagem acima em um mercado em Peshawar, Paquistão, em fevereiro de 2013.

Desta maneira, foi o Império mais terrorista da história quem financiou, armou e treinou os jihadistas (prática nova na região, onde judeus e islamitas viveram secularmente em paz, muito mais que em relação aos próprios cristãos), entre eles Osama bin Laden e Saddam Hussein a fim de defender os interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos na região. Os combatentes afegãos, senhores da guerra chamados de mujahideen, foram recebidos na Casa Branca por ele, ele mesmo!, Ronald Reagan em 1985, quem então comparou os belicistas islamitas com os "pais fundadores dos Estados Unidos por seu comprometimento com a liberdade e com a paz" (imagem do sacrossanto encontro de Reagan com os senhores da guerra afegãos, em Reagan Archives; vídeo, aqui).

O capítulo V do Project for the New American Century, denominado Rebuilding America's Defenses: Strategy, Forces and Resources for a New Century Rebuilding America's Defenses e elaborado no final dos anos de 1990 pelos que comporiam a equipe de governo de George W. Bush (filho), previa que apenas um novo Pearl Harbor seria capaz de servir como justificativa para se concluir a empreitada norte-americana no Iraque, de derrubar Saddam Hussein, e reafirmar o domínio militar dos Estados Unidos na região. Para isso, o 11 de Setembro serviu perfeitamente. Como parte da criminosa "Guerra ao Terror", vieram Afeganistão de novo, Iraque novamente, além de Líbia e Síria na lista imperialista de "intervenções humanitárias".

Apenas de 1991 para cá, as "intervenções humanitárias" dos Estados Unidos ao Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria custaram dezenas de trilhões de dólares aos contribuintes norte-americanos e mais de cinco milhões de vítimas dos bombardeios, e também do embargo econômico imposto ao Iraque na década de 1990 que, apenas este, levou mais de 200 mil mulheres, crianças e idosos à morte, por fome e doenças facilmente tratáveis. 

O que ocorre e os meios de comunicação de imbecilização das massas não permitem que seja compreendido, é que não há "conflito" no Oriente Médio. Há, sim, rivalidades, títeres, líderes sanguinários e organizações terroristas artificialmente produzidas pelas grandes potências com o fim de se expandir bases militares, e dominar a região mais rica em petróleo do planeta. E de quebra, em nome de um inexistente choque de civilizações e de valores, eliminar a religião que representa maior ameaça ao sistema capitalista: o Islã (o Evangelho de Jesus, tal como é, deveria ser parte desta ameaça se as respectivas confrarias religiosas não estivessem dominadas pelos escusos interesses e pelas garantias dos privilégios do poder, além de fortemente influenciadas pelos porões do poder que avançam secretamente em direção ao domínio global).

Em 2007, o General Wesley Clark afirmou na rede norte-americana de notícias Democracy Now! que o plano de Washington, logo após a queda das Torres Gêmeas, era invadir sete países em cinco anos: Iraque, Síria, Somália, Líbia, Sudão, Irã e Iêmen. Nada mudou com Trump. E sempre esteve claro que não mudaria.

Friba tem uma explicação bastante clara e simples para o diálogo de surdos entre matança indiscriminada: "Quem se senta na Casa Branca, seja quem for, serve à guerra em favor do 1% das classes dominantes em todo o mundo, a fim de manter a supremacia dos Estados Unidos". Por isso, segundo a ativista afegã, as grandes potências ocidentais não têm o interesse de combater grupos terroristas do Oriente Médio, pelo contrário: "Criaram e deram as mãos a eles. Em nome da 'Guerra ao Terror', os Estados Unidos na verdade apoiam terroristas e usam o terrorismo como arma para derrotar seus rivais, tais como Rússia e China".

III Guerra Mundial Iminente

Bem ao estilo baby Bush "estão ao nosso lado ou contra nós", o mandatário norte-americano conclamou as "nações civilizadas" a se unir no ataque à Síria. Como nem poderia ser diferente, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu foi um dos primeiros a se pronunciar, entusiasmado, com a empreitada belicista de seu maior aliado: "O presidente Trump enviou hoje uma mensagem forte e clara de que o uso e a proliferação de armas químicas não será tolerada", disse Netanyahu deixando passar desapercebido que o Estado de Israel constantemente, portador de bombas nucleares, constante e indiscriminadamente, ataca civis palestinos com fósforo branco e outras armas químicas.

Em defesa do ataque de Trump têm saído também o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, o presidente da França, François Hollande, a primeira-ministra britânica Theresa May, e os chefes de governo de Austrália e Turquia, Malcolm Turnbull e Recep Tayyip Erdoğan, respectivamente.

O presidente russo Vladimir Putin considerou o ataque "uma agressão contra um país soberano", que atenta "contra as normas internacionais com uma desculpa fictícia", declarou seu portavoz Dmitri Peskov. 

"Por causa do ataque à base aérea da Síria, a interação da Rússia com os Estados Unidos pode ser interrompida.Acreditamos que este é um ato de agressão, não podemos olhá-la de outra forma. 59 bombas foram despejadas no aeroporto de Shayrat. Tudo o que Donald Trump disse sobre a Síria, perdeu o significado. O ato está feito, e eu não entendo mesmo qual a jogada ali.Mas vamos responder a isso", disse Viktor Ozerov, presidente da Comissão de Defesa e Segurança do Conselho da Federação Russa, a Pravda.Ru nesta sexta-feira (7).

"A Rússia terá de mostrar alguma reação a isso, de alguma forma. O nível da escalada é extremamente elevada.Tendo lançado o ataque de mísseis sobre a Síria à noite, Trump mostrou que é um político irresponsável, que não tem experiência política nem cultura política. Isso pode levar a um agravamento muito sério das relações entre nossos dois países, às conseqüências mais imprevisíveis". Opinião do especialista de Alexander Bedritsky, diretor do Tauride Information and Analytical Centre, a Pravda.Ru no mesmo dia.

O Irã também considerou que "estas medidas apenas fortalecem os terroristas na Síria e que, consequentemente, complica a situação no país na región" do Oriente Médio.

A Bolívia solicitou, junto da Rússia uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU imediatamente após o lançamento dos 59 mísseis norte-americanos contra a base de Shayrat. Na sessão extraordinária desta sexta-feira, o representante permanente da Bolívia no Conselho de Segurança das Nações Unidas, Sacha Llorenti, afirmou que o ataque à Siria por parte dos Estados Unidos representa uma violação "escandalosa" da carta da organização, e "uma ameaça à paz e á segurança" internacional.

Representando uma guinada no "quintal" dos Estados Unidos, o governo boliviano tem sido seguido pelo da Venezuela - sem dúvida, seria seguido também pelos presidentes Fernando Lugo, Manuel Zelaya, Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, o que é altamente improvável que ocorra com os fantoches de Tio Sam: Horacio Cartes, Juan Orlando Hernández Alvarado, Michel Temer e Mauricio Macri. Tais posturas explicam perfeitamente os golpes à democracia travestidos de Primaveras sociais e limpeza ética por sistemas judiciários mal disfarçados, em uma região de suma importância às relações internacionais e cujos governos progressistas das últimas décadas têm (ou tinham) prezado pela soberania.

Al-Assad não atende aos interesses hegemônicos dos Estados Unidos, além de grande aliado de Rússia e Irã, o que explica o antigo desejo de neutralizá-lo enquanto fazem vistas grossas a, por exemplo, Arábia Saudita, regime entre os maiores violadores dos direitos humanos em todo o mundo - aliada histórica dos interesses de Washington na região. China Rússia e em si já são consideradas entraves para os almejos imperialistas de Tio Sam, de maneira que guerras a distância, ou proxy wars como se tem dito pelo mundo em inglês, são na concepção dos estrategistas de guerra norte-americanos uma maneira de desgastar China e Rússia, evitando o confronto direto com as temidas nações: no caso da segunda, possui as bombas mais sofisticadas do planeta e território geograficamente mais favorável no caso de uma invasão. Pois exatamente a Rússia tem, nos últimos anos, modificado as relações internacionais fazendo com que os EUA recuem em muitos casos, como no da própria Síria nos últimos anos, quando o regime de Obama esteve na iminência de intervir militarmente, e derrubar Assad. O Irã, desafeto regional dos EUA e de Israel, também é aliado sírio. 

Trump não descarta o uso de armas nucleares, enquanto prossegue sua "Guerra contra o Terror". Em entrevista á rede de notícias norte-americana MSNBC, ele se questionou: "Alguém nos atinge, de dentro do Estado Islamita: você não iria revidar o ataque com uma arma nuclear?". Não sem razão, na virada do ano o Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos) dos EUA divulgou, em seu anual Doomsday Clock (Cronômetro do Dia do Juízo), o pior índice em 70 anos em relação aos riscos de ataques nucleares exatamente pela ocasião da eleição de Donald Trump , situação ainda mais dramática que os mais sombrios dias da Guerra Fria.

Provocar uma guerra generalizada é do interesse dos poucos tomadores de decisão global, também pela situação econômica mundial e porque veem seu poder diminuindo gradativamente: as relações internacionais são cada vez mais multipolares. As sociedades globais se fortalecem na era da revolução da informação, através de uma Internet cada vez mais vigiada. Para cercear fortemente as liberdades civis, qual a mais apropriada justificativa para os poderosos que o conflito permanente, e o medo constante?

Quando, há um ano e dois meses este autor estreava em Pravda Brasil afirmando que não apenas o mundo caminhava a passos assustadoramente largos rumo a uma III Guerra Mundial, mas que esta era a estratégia dos porões do poder imperialista globais identificados como a casta sionista e suas marionetes de Washington, um mar de leitores apontando histericamente o profundo exagero e muitos até indignados com a "blasfêmia" do autor, não poupado de xingamentos e acusações, foi testemunhado na publicação Israel Provoca Brasil com Vistas à III Guerra Mundial.

Logo que Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos prometendo cooperação internacional, especialmente com a Rússia, este autor repetia constantemente o engodo de Donald Trump em relação à cooperação internacional. Na realidade, estas observações se davam desde a circense campanha presidencial da melhor democracia que o dinheiro pode comprar (e cuja maior lobista é exatamente a AIPAC). Na reportagem intitulada Relações EUA-Rússia: Escalada das Tensões sob Risco de Ataques Nucleares, lê-se: 

Embora seja muito elogiado pelas promessas de campanha de se aproximar da Rússia e reverter este sombrio cenário global, o presidente norte-americano recentemente eleito, Donald Trump, traz em seu histórico, no contexto de seus discursos, na equipe de governo que tem montado e na própria realidade politicamente histórica de seu país, sérias dúvidas se realmente seguirá por esse caminho.

A Guerra Civil síria é muito mais perigosa que qualquer momento da Guerra Fria, incluindo a famosa Crise de Mísseis de Cuba de 1962. Hoje, o potencial de conflito nas relações russo-americanas é maior do que na segunda metade do século passado.

A mencionada reportagem foi finalizada desta maneira: "Nada indica que Trump, por inaptidão ou falta de vontade política, mudará este cenário de III Guerra Mundial sob sério risco de ataques nucleares".

A agenda imperialista é uma só: dividir para conquistar, jogar cidadão contra cidadão, nação contra nação, aterrorizar, cercear liberdades civis, aplicar golpes e políticas de linha-dura, exterminar indivíduos e dizimar povos que estejam em seu caminho (como os palestinos, os iraquianos, os sírios, os índios mapuche no Chile, únicos povos originários a resistir à metrópole em toda a história, sem serem jamais vencidos) e, desta maneira, ampliar seu domínio global.

Diante disso tudo, está claro que o maior erro do Kremlin ultimamente, em sua exitosa empreitada contra os terroristas na Síria em conjunto com o governo local, foi ter depositado confiança na administração de Trump desde a campanha presidencial. O presidente russo Vladimir Putin deveria ter se lembrado que a sobrevivência do sistema norte-americano depende da indústria armamentista, que o terrorismo internacional é peça-chave no tabuleiro imperialista a fim de fazer avançar sua agenda enquanto justificativa para suas política coercitivo-expansionista, e das sábias palavras de Che Guevara: "Não se pode confiar no Império, nem um tantinho assim".

Talvez seja tarde demais para se tentar salvar a humanidade de mais uma catástrofe made in USA: o cenário de III Guerra Mundial já está há muito montado e um confronto direto entre as grandes potências parece, agora, irreversível; é tudo o que o agonizante establishment norte-americano-sionista precisa para tentar paralisar o avanço de um mundo multipolar, e salvar a combalida economia capitalista do norte econômico
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Lava Jato: 645 processos em três anos no TRF4







Desde o dia 7 de fevereiro de 2014, data em que o primeiro recurso relativo à Operação Lava Jato ingressou no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), a rotina do gabinete do desembargador federal relator dos processos no segundo grau, João Pedro Gebran Neto, não foi mais a mesma. Nos três anos e quase dois meses, 645 processos envolvendo recursos contra decisões do juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba já chegaram para análise do magistrado relator dos processos na 8ª Turma. A demanda imprime um ritmo de trabalho ainda mais forte para a equipe do desembargador, que não tem distribuição exclusiva de processos da Lava Jato e julga também outras ações criminais.

O volume é proporcional à complexidade dos processos. Para dar conta, cinco servidores do gabinete do relator estão com dedicação exclusiva para analisar os recursos da Lava Jato. São ações que envolvem, por exemplo, pedidos de liminares, exceções de suspeição e apelações de sentença de mérito que ingressam continuamente. “O ritmo é constante ao longo dos três anos em decorrência de cada nova fase da operação deflagrada pela Polícia Federal. Estamos analisando simultaneamente os processos de mérito do início da Lava Jato e, também, os habeas corpus que chegam das prisões das novas operações” explica Gebran.

Julgamentos 

Dos 645 processos que já chegaram ao TRF4, 419 são relativos a pedidos de habeas corpus, envolvendo não só soltura de réus presos como indeferimento de provas, por exemplo. Destes, 365 já foram analisados e baixados e 54 estão em tramitação.

Até agora, a 8ª Turma, composta por Gebran e pelos desembargadores federais Leandro Paulsen e Victor Luiz dos Santos Laus, julgou oito apelações de sentença. “Esses processos de mérito são de grande complexidade, pois dizem respeito a sentenças condenatórias e absolutórias. São extensos, com diversas fases e réus. Cada parte faz um recurso que muitas vezes pode chegar até a 300 páginas, demandando um esforço de todo o gabinete, que pode levar meses para examinar um único processo”, analisa o relator.

“Dentro dessa realidade processual, a 8ª Turma tem julgado com a maior rapidez possível. Analisamos com profundidade e serenidade caso a caso, reconhecendo a importância de todos eles. A minha preocupação e dos demais desembargadores é entregar a melhor jurisdição", afirma Gebran.

Apelações

Nas análises de mérito, o TRF4 tem modificado em parte as sentenças de primeiro grau, seja para absolver, aumentar ou diminuir penas, ou mantido algumas decisões. A primeira apelação da Lava Jato julgada no tribunal foi em setembro de 2015 (5025687-03.2014.404.7000). Foram mantidas as condenações de primeiro grau em relação a três réus, incluindo Alberto Youssef. Já André Catão de Miranda foi absolvido pela maioria da 8ª Turma.

O segundo julgamento de apelação ocorreu em dezembro de 2015 (5026243-05.2014.404.7000), envolvendo seis réus condenados no primeiro grau por organização criminosa, evasão de divisas, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Maria Dirceu Penasso, mãe da doleira Nelma Kodama, foi absolvida de todas as imputações no TRF4. Já Nelma e Cleverson Coelho de Oliveira foram absolvidos somente em relação a um dos crimes. O processo já se encerrou, com baixa definitiva.

A apelação de Nestor Cerveró (5007326-98.2015.4047000), também julgada em dezembro de 2015 e já baixada, reformou a condenação do juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba somente para acrescentar à condenação a proibição de exercer cargo ou função pública.

Em 2016, foram julgadas quatro apelações de mérito. Em uma delas, envolvendo Fernando Soares (Baiano) e Nestor Cerveró (5083838-59.2014.404.7000), houve aumento de penas no tribunal para os dois réus. Em outra (5083376-05.2014.404.7000), com oito réus, dois foram absolvidos e quatro tiveram penas majoradas.

Nos julgamentos do final do ano passado, em uma das apelações (5026212-82.2014.404.7000) houve reforma de pena para três réus, absolvição de um dos fatos em relação a dois e manutenção de sentença para outros dois. Já na ação 5023162-14.2015.404.7000, o réu Luiz Correia Argolo dos Santos, acusado de três crimes, teve as penas aumentadas. Na apelação envolvendo Carlos Habib Chater e mais três réus (5047229-77.2014.404.7000), acusados de lavagem de dinheiro e uso de documento falso, também foram modificadas as penas no TRF4.

O próximo julgamento de apelação no tribunal será hoje (5/4). A estimativa do relator é de que até o meio do ano mais oito apelações sejam pautadas. “A tendência é que ganhemos mais velocidade, porque muitas das teses jurídicas de boa parte dos réus já foram mapeadas e examinadas, o que de forma alguma exime o julgamento detalhado de caso a caso”, conclui Gebran.

Como é o trâmite dos processos na Turma

Até chegar ao julgamento, o processo é distribuído para o gabinete do relator que, na maioria das vezes, abre prazo para os réus apresentarem razões de apelação, prosseguindo com a abertura de prazo para as manifestações do Ministério Público Federal (MPF).

Após, o magistrado começa a preparar o voto. São elaborados um relatório e uma proposta de voto. João Pedro Gebran Neto explica que o tribunal está distante da instrução do processo e, por isso, “há a exigência de reexame de cada depoimento e de todas as provas produzidas, o que demanda bastante cuidado e muito tempo”.

O passo seguinte é encaminhar o voto do relator para o revisor das ações da operação na 8ª Turma, desembargador federal Leandro Paulsen. “No sistema colegiado do TRF4, o revisor se debruça sobre o processo à luz da decisão de primeiro grau, dos recursos da apelação e, também, à vista do voto do relator. Mas o revisor faz a sua própria análise das provas, como se fosse um processo novo, verificando a materialidade e a culpabilidade. A revisão implica formar convicção para concordar, divergir total ou parcialmente do relator, elaborando o voto quanto aos pontos contrastantes ou que mereçam reforço”, detalha Paulsen.

É o revisor que pauta o processo, agendando o dia para apresentar na sessão. Entretanto, antes do julgamento, os votos são disponibilizados para que todos os integrantes da turma possam ter ciência do entendimento dos colegas.

Para Paulsen, essa “discussão prévia” permite que o processo chegue na sessão mais “bem trabalhado”, com eventuais ajustes já feitos. “O julgamento colegiado não equivale a uma soma ou mero cotejo dos votos de cada desembargador. O voto do desembargador Victor Luiz dos Santos Laus, que não é relator nem revisor da Lava Jato, tem exatamente o mesmo peso que os demais, sendo que ele também realiza um estudo criterioso”, analisa o revisor. Paulsen salienta que a ideia é ter o julgamento mais completo possível. “O conjunto dos votos se traduz no acórdão da 8ª Turma”, diz o magistrado.


Quando as decisões da turma são por maioria, o réu pode entrar com novo recurso no TRF4 pedindo a prevalência do voto mais favorável. Os embargos infringentes são julgados pela 4ª Seção, que reúne a 7ª e 8ª Turmas, especializadas em matéria criminal. Nesse colegiado composto pelos seis desembargadores das turmas e presidido pelo vice-presidente do TRF4, a relatoria das ações da Lava Jato é da desembargadora federal Cláudia Cristofani.


Independência

Apesar da complexidade, os desembargadores explicam que o trâmite dos processos da Lava Jato no tribunal é exatamente o mesmo que o das demais ações criminais. Paulsen pondera que é rotina para a 8ª Turma lidar com outros casos também difíceis, envolvendo crime organizado, crimes financeiros, de colarinho branco e de evasão de divisas. “A complexidade não é algo exclusivo da Lava Jato. O diferencial é que os números são bem mais expressivos, os valores muito altos e a dimensão social e política da operação é mais evidente”, pontua.

Mesmo assim, e com tantas fases que se renovam e investigações que se desdobram em novas ações, os desembargadores avaliam de forma positiva os processos que chegam para julgamento. “Nunca tivemos um elefante branco tramitando. A operação é gigantesca, sim, mas as ações penais são muito bem delimitadas pelo Ministério Público Federal, que as fragmentou por núcleos, diretorias e empresas. O MPF foi muito inteligente ao segmentar as denúncias para facilitar a análise da Justiça”, reconhece Paulsen. Ele também chama a atenção para o fato de que, do outro lado, atuam os principais escritórios de advocacia do país, que “desenvolvem um trabalho de extrema qualidade, combativo e contundente”, completa.

Para o revisor, a operação tem cumprindo o papel importante de tornar a repressão à corrupção uma realidade. “Os processos revelam uma corrupção sistêmica muito grave para o país, que desvia o Estado do princípio da eficiência e dos seus fins para atender interesses particulares, na contramão do que se espera do serviço público” finaliza Paulsen.

Entretanto, a grande repercussão na sociedade e na mídia não provoca tratamento diferenciado do caso por parte dos desembargadores. “Eu não me sinto pressionado”, garante o relator Gebran. “Os componentes da 8ª Turma julgam a Lava Jato com consciência da nossa responsabilidade de trabalhar com absoluta isenção, imparcialidade e serenidade. Tanto a sociedade, quanto o MPF e os réus podem ter absoluta tranquilidade quanto ao exercício do nosso papel”

domingo, 9 de abril de 2017


Estamos a esgotar as águas subterrâneas - e vamos pagar por isso


© Reuters Photographer / Reuter
A extração excessiva de água para a rega está a esgotar os aquíferos nas maiores regiões produtoras de alimentos do mundo, pondo em risco a sustentabilidade e a segurança alimentar

LEONOR CABRAL CENTENO

Cerca de 43% da água utilizada para regar e cultivar, em todo o mundo, vem de aquíferos subterrâneos. Uma das principais formas de recuperação dos aquíferos dá-se através da recarga feita pela precipitação que, por norma, tende a aliviar os problemas de drenagem. Neste caso, as fontes estão a ser usadas tão rapidamente que a precipitação não consegue repô-las. Ao longo da década de 2000, o uso de águas subterrâneas não renováveis duplicou na China e também aumentou significativamente na Índia e nos EUA. As culturas que utilizam as maiores quantidades desta água são o trigo, o arroz, o açúcar, o algodão e o milho.

Estas são as conclusões de um estudo publicado pela revista Nature. resumidamente, o comércio está a aumentar de forma insuportável a pressão sobre as águas não renováveis, usadas para regar campos de cultivo. Os países que mais exportam alimentos cultivados por estas águas são o Paquistão, os EUA e a Índia. Os investigadores acreditam que se não houver uma medida de prevenção o comércio internacional de produtos agrícolas poderá ficar ameaçado.

Os EUA, México, Irão, Arábia Saudita e China estão entre os 10 maiores usuários de água insustentável na agricultura. O Irão, por exemplo, importa arroz do Paquistão que é regado pelos aquíferos do Alto do Ganges e do Baixo Indus. Estas fontes de água têm taxas de extração até 50 vezes superiores às exigidas para que o uso seja considerado sustentável.

Segundo a especialista Carole Dalin, uma das autoras do estudo, "se as reservas de água acabarem, o preço dos alimentos será afetado e afetará quase toda a população mundial".

Muitos países desenvolvidos estão cientes dos problemas no esgotamento das águas subterrâneas e têm posto em prática algumas medidas de forma a contornarem este problema. Mas em países pouco desenvolvidos os mecanismos para restringir a água podem não existir.

Para Carole Dalin, o Paquistão é o país mais complexo - apesar de ganhar muito dinheiro com as exportações de arroz não consegue imaginar o impacto que está a ter no meio ambiente. E a verdade é que mais tarde ou mais cedo estes problemas afetarão a sua produção.

A única solução, dizem os cientistas, é alertar os consumidores dos países desenvolvidos de forma a que cada vez que comprem alimentos pensem na água que foi gasta a produzi-los. "Os produtos que se compram num supermercado podem ter impactos ambientais muito diferentes, dependendo de onde são produzidos e como são regados", afirma o investigador Yoshihide Wada.

Fonte: http://visao.sapo.pt

O coração é verde




É uma prática milenar, agora em franca expansão. Seja porque 
é mais sustentável para o planeta ou porque é tida como mais saudável, são cada vez mais os que optam por ser vegetarianos



texto


infografia

GETTY

Rita Vlinder, psicóloga de 27 anos que vive em Braga, é vegan há dez anos. No decurso de um gap year nos EUA, uma discussão sobre o uso de peles de animais levou-a a tomar consciência de que o mesmo princípio ético se aplicava à alimentação. De um momento para o outro, retirou da sua dieta todos os produtos de origem animal, tanto por uma questão de “benefício nutricional, como de consciência ecológica”. Ela, que sofria de várias doenças “crónicas e descritas como incuráveis — doença celíaca, fibromialgia, sinusite, anemia, hipotiroidismo, enxaqueca crónica”, garante: “Nunca mais tive uma crise.”

Parece bom demais para ser verdade, mas Rita assegura que passou “muito tempo internada em hospitais”, e depois de enveredar por esta opção alimentar, isso nunca mais aconteceu e por isso atribui as suas melhoras ao veganismo. Explica que é muito mais do que uma dieta alimentar — é antes “um estilo de vida, que pressupõe a 
não-violência em relação aos animais. Além do que comemos, um vegan também tem atenção com o que veste e o que calça, recusa atividades como ir ao circo ou ao jardim zoológico, ou produtos que tenham sido testados em animais”. Se em 2007, era difícil ser vegan em Portugal, agora “é muito fácil, até em Braga”, explica. “Há um restaurante vegan, vários restaurantes vegetarianos, tenho imensos amigos vegan...”, conta. Ela, que fundou a Associação Vegan em Portugal, em 2009, assegura que hoje são seguramente 10.000 a partilhar a mesma opção.

INFOGRAFIA CARLOS ESTEVES

Se somarmos a esses números os do Centro Vegetariano, de 2007, que dão conta de 30.000 vegetarianos em Portugal, obtemos 40.000 portugueses que se recusam a comer carne. Mas o número peca por defeito. Passaram dez anos, e a julgar pela oferta de restaurantes vegetarianos, percebemos que o facto de existirem, só em Lisboa, quase 30 espaços destes reflete certamente a procura. Inegável é que o número de vegetarianos está a aumentar no mundo — só a Índia, o país em que este regime alimentar está mais enraizado, conta 375 milhões de vegetarianos. Seja por uma questão de sustentabilidade do planeta ou por não compactuar com o sofrimento animal, certo é que o fenómeno é crescente.

As preocupações com a saúde não serão alheias a esse crescimento. Cada vez mais estudos científicos associam o consumo elevado de carne (nomeadamente vermelha, fumada ou os enchidos) ao aumento dos cancros do cólon e do reto. Outros, conhecendo algumas das práticas na criação de gado (das rações com antibióticos e hormonas injetadas, para garantir crescimentos mais rápidos), recusam comer carne. E há quem inclua nesta recusa uma série de derivados. Francisco Varatojo, 56 anos, fundador do Instituto Macrobiótico de Portugal, em 1987, garante que alimentos como os produtos lácteos são altamente nocivos para o homem. “A caseína”, explica, “a proteína do leite da vaca, está na origem de muitas doenças modernas. Se mais de 10% da nossa alimentação forem compostos por produtos lácteos, as probabilidades de vir a ter cancros da próstata, dos ovários e da mama aumenta exponencialmente”, defende. “Essa foi, aliás, a razão pela qual a universidade de Harvard retirou os produtos lácteos da sua roda alimentar, em 2013”, assegura. E cita a obra científica “The China Study”, de T. Colin Campbell and Thomas M. Campbell, nutricionistas da Universidade de Cornell (EUA), que analisaram a relação entre o consumo de produtos animais, incluindo lacticínios e doenças como as cardiovasculares, a diabetes, os cancros de mama, próstata e intestinos.
VEGAN, CRUDÍVORO, MACROBIÓTICO

Para quem não conhece os termos exatos e suas implicações, vale a pena explicar alguns conceitos: ser vegetariano significa não comer nenhum tipo de carne, peixe ou marisco. 
Por sua vez, ser vegan é uma opção mais restrita, que exclui qualquer alimento de origem animal — como lacticínios, ovos e mel.

Há ainda os crudívoros, que só comem alimentos crus, germinados ou cozidos até 40 graus Celsius, temperatura que não mata as enzimas. Finalmente, ser macrobiótico é outra coisa. Segundo Francisco Varatojo, “se ser vegetariano é definido pelo que não se come, a alimentação macrobiótica tem na sua base cereais integrais, vegetais e leguminosas, sopas...” Para ele, o essencial é o equilíbrio da dieta alimentar de cada um. De vez em quando, Francisco come peixe. Até porque, diz, “há vegetarianos que fazem uma alimentação saudável — e outros que não”.

Para Varatojo, duas razões principais justificam o crescimento exponencial do vegetarianismo: o surgimento da internet, que ajudou a divulgar os estudos existentes sobre os malefícios do consumo de carne; e a sustentabilidade do planeta. “É muito mais fácil não haver fome no mundo com culturas vegetais”, avança. “Ou há uma inflexão grande dos nossos hábitos de vida, ou estamos metidos num grande sarilho.”

Macrobiótico desde os 16 anos — numa altura em que não se falava de vegetarianismo em Portugal —, tudo começou depois de Varatojo ler um livro sobre nutrição. Praticava muito desporto e por curiosidade começou a mudar a sua alimentação em casa. “Não foi fácil”, assegura. Família e amigos não conheciam aquela prática alimentar, e como tal, reprovavam-na. Tornou-se macrobiótico e foi tirar o curso aos EUA. “Fomos a primeira turma de macrobiótica”, conta. Houve alterações imediatas no seu organismo, recorda. “Cólicas e diarreias intestinais desapareceram completamente, assim como a minha sinusite. Passei a dormir menos horas e a sentir-me muito mais alerta”, resume. Para Varatojo, que nunca provou “um hambúrguer nem uma Coca-Cola”, a própria constituição do homem moderno afasta-nos da carne: “A nossa anatomia não é a de um carnívoro. Temos mão de recoletor, e não temos dentição de carnívoro — só temos quatro caninos, versus 20 pré-molares e molares.”

No seu entender, “a vida social” é a parte mais difícil, e que mais leva as pessoas a desistirem. Mas hoje as opções são muito vastas. Que o diga Duarte Gonçalves, chefe crudívoro há cinco anos. Aos 34 anos, vegetariano há oito, Duarte não tem mãos a medir face aos pedidos de workshops e catering que lhe chegam desde que criou o site, “Projeto Alimento Desperto”, há três anos e meio. Milhares de pessoas já visitaram o site, e muitas procuram os seus workshops. Não há só vegetarianos entre os seus alunos, afiança, e a faixa etária predominante anda entre os 30 e os 50 anos. Cada vez mais pessoas procuram “receitas alternativas, sem glúten ou lactose”. E se pensa que uma alimentação crudívora tem de ser desenxabida e sensaborona, desengane-se. É só “dar nomes que as pessoas conhecem”, com produtos vegetarianos, assegura. Duarte faz hambúrgueres de lentilhas, de amêndoas, de cogumelos, de sementes de girassol, ou de batata doce. A sua alimentação inclui “imensos vegetais, muita fruta – principal fonte de hidratos de carbono —, sementes, germinados, algas, fermentados e sopas, frias ou quentes”. Descobriu alguns produtos ‘milagrosos’: “lentilhas, tahini, cacau cru, sementes de chia, caju, tomate seco ou miso”, uma pasta de cereais fermentados que condimenta e dá sabor à comida. Entre os pratos que mais se vendem, estão a lasanha feita de curgete, com várias camadas (pistáchios e espinafres, tomate fresco e seco, e macadâmia e caju), as sopas e os sumos extraídos a frio, ou o cheesecake de caju, coco e cacau (feito sem queijo, com uma base de trigo sarraceno e tâmaras). Na sua alimentação diária, Duarte não come açúcar, mas inclui vários fermentados, como combucha (um chá fermentado que tem uma bactéria que dá à bebida propriedades probióticas, que ajudam ao trânsito intestinal).
PRATO VEGETARIANO OBRIGATÓRIO

Este ano, numa iniciativa única a nível europeu, o PAN (Partido Pessoas, Animais, Natureza) conseguiu aprovar um projeto-lei que prevê a introdução de um prato vegetariano obrigatório nas cantinas portuguesas. A partir de maio, as cantinas escolares e universitárias, as unidades hospitalares, os estabelecimentos prisionais e os lares terão de ter pelo menos uma refeição “isenta de qualquer produto de origem animal”.

Mas atenção: também há potenciais malefícios numa dieta vegetariana, alerta a médica nutricionista Isabel do Carmo. Se pelo aspeto positivo, este é habitualmente um regime “com pouca gordura — desde que não inclua fritos —, rico em vegetais, logo, com vitaminas e sais minerais importantes, como o ácido fólico, e em proteínas vegetais”, o principal aspeto negativo é “o défice em vitamina B12”, que nem os vegetais nem as leguminosas contêm, explica a médica. “Esta vitamina é necessária para a formação dos glóbulos vermelhos e atua como enzima nos processos de produção de neurotransmissores cerebrais”, continua. “Se forem ovolactovegetarianos, poderão ir buscar alguma vitamina B12 aos queijos e à gema do ovo, mas dificilmente obterão um nível suficiente. Quanto ao ferro, as leguminosas (feijão e soja) são ricas nesse mineral, mas este ferro de origem vegetal é muito mal absorvido pelo ser humano, que não tem no seu intestino a enzima própria dos herbívoros.” Finalmente, “relativamente à soja e ao líquido de soja a que se chama leite, é toda transgénica”, alerta a médica.

“Numa alimentação saudável, devemos ocupar metade do prato com vegetais e só comer carne vermelha duas vezes por semana”, defende Isabel do Carmo. E deixa um truque para se entender qual o melhor critério de consumo de vegetais: “O critério do arco-íris. As cores correspondem a sais minerais ou vitaminas diferentes. Assim, devemos comer cor-de-laranja, amarelo, encarnado, verde, roxo e vários tons de verde.”

Um facto parece inegável. Consumimos, hoje, demasiados recursos face àquilo que o planeta é capaz de produzir. Os mares estão esgotados, castigados pela pesca intensiva, muitas espécies correm risco de extinção e, em terra, há décadas que produzimos espécies animais em cativeiro — algumas em condições degradantes — para alimentar a população mundial. Mesmo assim, vivemos num mundo profundamente desigual, onde a obesidade dos países ocidentais contrasta com o risco de fome de 20 milhões de pessoas em países em vias de desenvolvimento, segundo dados da ONU.

Será que ainda vamos a tempo de repensar isto tudo?

Fonte:
http://expresso.sapo.pt

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