‘Que não role a bola!’: Movimentos populares do México convocam boicote à Copa do Mundo FIFA 2026
CNTE, estudantes camponeses, mães buscadoras, comunidades em resistência e coletivos populares levantam a palavra de ordem “Que não role a bola!” contra o velho Estado mexicano e o imperialismo.
por Redação de AND
10 de junho de 2026·
Bandeira da Liga Anti-imperialista Internacional (LAI) em meio aos protestos contra a Copa do Mundo 2026 no México. Foto: ReproduçãoMovimentos populares, organizações sindicais, estudantes, mães buscadoras, comunidades em resistência e coletivos populares no México vêm impulsionando uma campanha de boicote à Copa do Mundo FIFA 2026, que terá o país como uma das sedes ao lado de Estados Unidos e Canadá. Segundo publicações do Periódico Mural, a consigna “Que não role a bola!” ganhou força no marco da Greve Nacional iniciada pela Coordenadora Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) em 1º de junho.
A campanha denuncia que, enquanto o velho Estado mexicano prepara grandes obras, operações policiais e propaganda oficial para o Mundial, milhões de trabalhadores e setores populares seguem enfrentando baixos salários, carestia, desaparecimentos, despejos, falta de serviços básicos, repressão e abandono. Para o Periódico Mural, o torneio tornou-se uma conjuntura para unificar diferentes lutas contra o velho Estado e o imperialismo, principalmente ianque.
Em nota publicada em 4 de junho, o periódico afirmou solidariedade às demandas dos setores em luta e divulgou um vídeo enviado à sua redação, em apoio ao boicote. A publicação levantou as palavras de ordem: “Que não role a bola!”, “Boicote ao Mundial FIFA 2026, contra o velho Estado e o imperialismo!” e “Greve Geral de Resistência Nacional!”.
Vídeo publicado pelo Periódico Mural: “México grita: Boicote ao Mundial FIFA 2026!”
CNTE inicia greve e amplia chamado ao boicote
A mobilização ocorre no contexto do paro indefinido sustentado desde 25 de maio pelo magistério democrático da Seção XXII da CNTE, no estado de Oaxaca, em preparação à Greve Nacional iniciada em 1º de junho. Segundo o Periódico Mural, a CNTE exige a revogação da Lei do ISSSTE de 2007, da chamada “reforma educativa” de Enrique Peña Nieto e AMLO, aumento salarial para os trabalhadores da educação e construção de infraestrutura para escolas públicas.
Magistério democrático instalou plantões em Oaxaca e na Cidade do México e convocou os trabalhadores a preparar a Greve Geral
O suplemento especial publicado pelo Periódico Mural em maio afirma que a presidente Claudia Sheinbaum se nega a atender o magistério democrático, enquanto se reúne com magnatas como Carlos Slim. A publicação denuncia que o governo administra o conflito em favor da oligarquia e prepara a repressão contra os protestos que devem ocorrer nas cidades-sede do Mundial.
A partir de 1º de junho, as seções da CNTE instalaram um plantão nacional no Zócalo da Cidade do México. A mobilização se soma a outras forças populares que preparam ações contra o Mundial e em defesa de suas reivindicações próprias.
Foto: Periódico Mural/Reprodução
Foto: Periódico Mural/ReproduçãoEstudantes, mães buscadoras e comunidades em resistência
Entre os setores que aderiram ao chamado estão a Federação de Estudantes Camponeses Socialistas do México (FECSM), as mães e famílias buscadoras, comunidades e povos em resistência contra megaprojetos, coletivos contra a gentrificação e sindicatos com greves ou locais de greve.
A FECSM reivindica respeito à autonomia e à organização interna das escolas normais rurais, aumento de orçamento e melhores condições de vida para seus estudantes, em sua maioria filhos do povo e oriundos de comunidades pobres. O Periódico Mural recorda que os normalistas rurais enfrentam perseguição permanente do Estado mexicano, citando como exemplo a desaparição forçada dos 43 estudantes de Ayotzinapa, em 26 de setembro de 2014, crime que segue sem verdade e justiça.
As mães e famílias buscadoras também são destacadas como um dos setores mais golpeados pelo regime. O suplemento menciona mais de 132,5 mil pessoas desaparecidas, mais de 72 mil corpos sem identificação e milhares de fossas clandestinas espalhadas pelo país. Segundo o Periódico Mural, essas mulheres são obrigadas a fazer o que o velho Estado não faz: procurar seus familiares, enfrentando grupos criminosos e a própria violência estatal.
As comunidades em resistência denunciam a imposição de megaprojetos imperialistas de despojo e morte. O periódico afirma que esses povos enfrentam tanto os aparatos legais do Estado – Exército, polícias, juízes e ministérios públicos – quanto seus braços ilegais, como grupos do narcotráfico, paramilitares e guardas brancas. Em resposta, comunidades em Michoacán, Guerrero, Chiapas e Oaxaca desenvolvem formas de autodeterminação, autogoverno e autodefesa.
Cidades-sede, obras de fachada e repressão
Em outro artigo, intitulado “Que não role a bola! (II)”, o Periódico Mural afirma que novos setores vêm aderindo ao boicote, especialmente nas cidades-sede da Copa. Moradores de bairros e colônias populares denunciam que os governos locais e federal priorizam obras espetaculares para o evento, enquanto comunidades seguem sem água, iluminação pública e serviços básicos.
Coletivos contra a gentrificação também denunciam que a Copa aprofunda o encarecimento da vida, os despejos e a expulsão de moradores pobres de seus bairros. O periódico cita ações como bloqueios de avenidas, partidas de futebol de rua e atos de resistência cultural em defesa do direito dos setores populares a existir e habitar as cidades.

Segundo o Periódico Mural, a resposta dos governos de Clara Brugada, na Cidade do México, e Claudia Sheinbaum, no governo federal, tende a combinar provocação e repressão, com uso de grupos de choque, porros, barras mercenárias, forças antimotim, Guarda Nacional e Exército. Para a publicação, essa estratégia de “blindar o Mundial” conta com o aval de Washington.
Crise econômica e ingerência ianque
No editorial de maio-junho, o Periódico Mural relaciona o chamado ao boicote à crise mais ampla do velho Estado mexicano. A publicação aponta inflação de 4,45%, aumento de preços na cesta básica, nos aluguéis, no transporte público e nos combustíveis, além de queda de 0,8% do Produto Interno Bruto, com retração nos setores primário, secundário e terciário.
O editorial também denuncia o aumento da ingerência ianque no México, citando acusações do Departamento de Estado do país Estados Unidos (EUA) contra políticos de Morena, operações com participação da CIA e a cúpula chamada “Escudo das Américas”, sob comando de Donald Trump. Para o Periódico Mural, os governos da chamada “quarta transformação” não são vítimas desse processo, mas cúmplices da maior ingerência imperialista no país.
Nesse quadro, o chamado ao boicote contra o Mundial FIFA 2026 é apresentado como uma possibilidade de unificar setores explorados e oprimidos em torno da Greve Geral de Resistência Nacional contra o velho Estado e o imperialismo.
Foto: Periódico Mural/Reprodução
Foto: Periódico Mural/Reprodução“Que não role a bola!”
O cartaz divulgado pela campanha resume a consigna central: “Boicote ao Mundial FIFA 2026”, “Contra o velho Estado e o imperialismo” e “Greve Geral de Resistência Nacional”. Nas laterais, aparecem as forças convocadas: CNTE, mães buscadoras, comunidades em resistência, FECSM, IPN, assembleias nacionais contra a gentrificação e vizinhos organizados.
Para o Periódico Mural, a Copa do Mundo colocará os olhos do mundo sobre o México. Por isso, os movimentos populares defendem transformar o evento em tribuna de denúncia contra o velho Estado, a repressão, a exploração, os desaparecimentos, o despojo territorial e a dominação imperialista.
“Que não role a bola!” tornou-se, assim, a síntese de uma campanha que busca reunir diferentes “arroios de luta” em um grande movimento nacional de resistência popular.
Pôster ‘Cortem a mão do agressor ianque!’Fonte: A NOVA DEMOCARCIA

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