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Advogado - Nascido em 1949, na Ilha de SC/BR - Ateu - Adepto do Humanismo e da Ecologia - Residente em Ratones - Florianópolis/SC/BR

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

DE VOLTA AO TRABALHO

Mesmo com setenta e tantos...não me encorajo ao ócio, que muitos da minha idade (ou até bem menor) consideram merecido.
A letargia do ócio causa desalento, nostalgia, pensamentos destrutivos. 
Não quero isso. Prefiro morrer ativo, trabalhando, sentindo-me útil, em vez de ficar indagando, quais os níveis de ácido úrico, de colesterol, de PSA, o escambau.
TAUNAY (Memórias), quando já em adiantada idade, escreveu, com sobras de razão: o descanso é a atonia, a tristeza, o desalento! Trabalhar, trabalhar de qualquer modo, eis o lenitivo único aos desgostos, às decepções, ao desconsolo supremo, à acabrunhadora e letal melancolia!...

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Notícias sobre as Caldas do Cubatão (Santo Amaro da Imperatriz)

Num dos primeiros livros sobre história do nosso estado, de autoria do Major MANOEL JOAQUIM D'ALMEIDA COELHO (Memória Histórica da Província de Santa Catharina), publicado em 1877, nas páginas 161 e seguintes, pode-se encontrar notícias sobre a estação balneária de águas termais mais próxima da Capital.
A notícia começa assim:  Pela Lei Provincial n. 231 de 21 de Maio de 1854 foi desmembrado o territorio do Cubatão da parochia de S. José para formar uma nova Freguesia com a denominação  de Santo Amaro. 
É no districto desta Villa, e quasi 5 legoas ao Sul, que existem as Caldas do Cubatão (...) (português da época)

Novos "turistas"

Tendo ido à Praia de Canasvieiras notei algo que, para mim, é novidade: a presença de pombos e pardais na faixa de areia, a catar migalhas deixadas pelos frequentadores, na maior tranquilidade. 
Sabendo-se que pombos transmitem doenças (se pardais também, não sei), sem querer ser alarmista, é preciso que as pessoas se conscientizem e evitem dar alimentos para as aves ou deixar restos de comida na praia.
Bom não esquecer que preocupação com saúde pública é dever de todos.  Não somente dos gestores públicos.

LIMPEZA DE PRAIA

Quando a praia de Cansvieiras era estreita, a área a ser limpa pela Comcap era uma. 
Agora que a dita faixa foi alargada para 50 metros, o trabalho quadruplicou, isto porque incivilizados frequentadores não se dão ao trabalho de jogar suas imundícies nas lixeiras. 
Povo inculto é uma coisa triste.

CABEÇA D'ÁGUA


OUTROS DENOMINAM O FENÔMENO DA CHEIA REPENTINA EM RIO ENCACHOEIRADO DE "TROMBA D'ÁGUA", MAS SÃO OCORRÊNCIAS DIFERENTES.
O jornal Correio Braziliense, coincidentemente, trouxe notícia de idêntica ocorrência em MG - https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/01/01/interna-brasil,817736/video-tromba-d-agua-arrasta-turistas-e-mata-tres-em-parque-de-mg.shtml
Outras notícias semelhantes:

Fonte: http://www.petropolitano.org.br/artigos/consideracoes-a-cerca-do-fenomeno-cabeca-d-agua


- https://www.youtube.com/watch?v=3SoqsqiGcIA

-https://www.youtube.com/watch?v=RIulUjTqCk4


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Bombeiros resgatam 14 pessoas de cachoeira em Santo Amaro da Imperatriz

Grande volume de chuva nas nascentes do rio causa aumento repentino no volume das águas, surpreendendo os banhistas no local
Redação ND, Florianópolis 01/01/2020 às 22h07
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O helicóptero Arcanjo 1 e uma guarnição terrestre do Corpo de Bombeiros resgataram 14 pessoas que estavam na Cachoeira Cobrinha de Ouro, em Santo Amaro da Imperatriz, na Grande Florianópolis, no fim da tarde desta quarta-feira (1).
Por causa do grande volume de chuva nas nascentes do rio Cubatão houve um aumento repentino no volume das águas. Foi o que acabou surpreendendo os banhistas. Eles não conseguiram deixar o local, no entanto, puderam ficar ilhados em cima de pedras.
O Centro de Operação dos Bombeiros recebeu o chamado por volta das 17h30. De acordo com o chamado, havia pessoas ilhadas sob risco. Imediatamente equipes de salvamento e resgate foram deslocadas.


Equipe do helicóptero resgatou nove pessoas e a guarnição terrestre, outras cinco – Foto: Arcanjo1, divulgação ND

Crianças
De acordo com o sargento Duarte, do Arcanjo 1, a equipe do helicóptero resgatou nove pessoas e a guarnição terrestre, outras cinco, entre elas duas crianças, uma de um ano e meio e outra de dois anos.



Equipes encontraram dificuldades, no entanto, retiraram um a um os banhistas- Foto: Arcanjo 1, divulgação ND

“Os pais estavam desesperados. Achavam que iriam perder os filhos”, contou Duarte. As equipes entraram no rio com os equipamentos de resgate, como sling, cabo de salvamento em altura e boias para salvamento aquático e foram retirando uma a uma.



De acordo com os bombeiros, os banhistas ficaram desesperados no momento em que as águas começaram a subir. Foto: Arcanjo 1, divulgação ND


O trabalho de resgate envolveu 13 bombeiros e só terminou por volta das 19h.. “Todos foram salvos e ninguém se feriu. Foi comovente. As pessoas nos agradeceram muito”, acrescenta.

Populares que estavam às margens do rio também aplaudiram o trabalho das equipes de salvamento.



Cachoeira Cobrinha de Ouro, bela, entretanto, perigosa após o aumento do volume de águas – Foto: Arcanjo 1, divulgação ND

Fonte: https://ndmais.com.br/noticias/video-bombeiros-resgatam-14-pessoas-de-cachoeira-em-santo-amaro-da-imperatriz/

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

HORTICULTURA NA ILHA DE SANTA CATARINA



- CRISPIM MIRA - Terra Catarinense/PZZ Edit./SP/2008, p. 142:

Colonização da Ilha

A capital de Santa Catarina está, como se sabe, assentada na ilha do mesmo nome, com duas barras, uma ao norte, outra ao sul. Essa ilha que é, em recantos, no pitoresco maravilhoso das suas praias e na variedade empolgante das suas paisagens, uma das mais lindas partes do Brasil, tem 170 km de perímetro e superfície total de 504 km2.

Como os novos elementos da vida, nacionais ou estrangeiros, tenham preferido instalar-se na terra firme, verificou-se uma grande decadência na população da ilha.

Em vista disso, o atual governador, Hercílio Luz, está promovendo a colonização da mesma, pretendendo que o governo conceda, a cada família, um lote de 5 a 10 hectares, a preço módico e prazo de dez anos sem juros, aparelhamento agrário e garantia de subsistência até a primeira colheita.O pensamento do referido administrador é desenvolver na ilha a horticultura, assim como a cultura da vinha e de várias frutas de grande consumo.

POR QUE A FCAM NÃO ESTÁ ENVOLVIDA NESTA BELA INICIATIVA?

"A Fundação Cambirela do Meio Ambiente - FCAM tem por objetivo executar a política de preservação, fiscalização e policiamento ambiental, na forma estabelecida em lei". 
É o órgão ambiental municipal oficial de Palhoça, não sendo possível compreender a razão de não se envolver nessa frente formada para a superação dos estragos causados pelos incêndios florestais que atingiram uma área tão importante para o meio ambiente da região. 
O presidente da FCAM e o prefeito Camilo Martins estão a dever uma explicação à sociedade,  a respeito de tal ausência.

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IMA lança plano de ação para o Parque do Tabuleiro
Grupo técnico foi formado por representantes de várias instituições

Publicado em 23/12/2019

por Palhocense / Cotidiano Foto: DIVULGAÇÃO/IMA

O Instituto do Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina (IMA), por meio do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e instituições parceiras, lançou, na sexta-feira (13), no Centro de Visitantes do Parque, em Palhoça, o Plano de Ação para a Restauração Ecológica da Baixada do Maciambu.

Os incêndios ocorridos neste ano na Baixada do Maciambu levaram à criação do Grupo Técnico Científico de Apoio à Restauração Ecológica da Baixada do Maciambu, constituído por instituições públicas, gestores, sociedade civil, moradores, pesquisadores, professores, estudantes universitários e comunidade guarani do Morro dos Cavalos.

Diante da relevância ecológica e social da região e as ameaças e impactos que a atingem, o Grupo de Apoio Técnico Científico elaborou o plano de ação para a proteção e restauração da maior área protegida de restinga de Santa Catarina e sua biodiversidade inserida nos limites do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.

As ações propostas no plano têm como objetivo a restauração do ambiente de restinga incendiada, principalmente em áreas do parque, como forma de ampliar a resiliência das espécies de fauna e flora e proteger os rios e banhados, considerando os cenários futuros de mudanças climáticas com indicação de possíveis estiagens prolongadas como a que ocorreu no ano de 2019.
 
A preservação desses ecossistemas concorre, ainda, para a melhoria da qualidade de vida e a segurança alimentar para as populações que vivem na região. Além das propostas de restauração ecológica, monitoramento ambiental e erradicação de espécies exóticas invasoras, estão previstas ações de extensão e de comunicação.

O Grupo de Apoio Técnico Científico conta com pesquisadores reconhecidos na área da botânica e restauração ambiental com longa experiência na área: Centro de Formação Tataendy Rupá, Herbário Barbosa Rodrigues, Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade do Vale do Itajaí, Rede de ONGs da Mata Atlântica, Instituto Çarakura, Instituto Tabuleiro, Fundação Mata Atlântica e Ecossistemas e Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina.
 
Fonte: http://www.palhocense.com.br/noticias/cotidiano/ima-lanca-plano-de-acao-para-o-parque-do-tabuleiro

OS DOIS PAPAS - Um filme cheio de mensagens contundentes

Uma grata surpresa. Apesar de saber que o Papa atual é o maior craque em marketing que conheço - o que sempre me deixa com "um pé atrás" - , entronizado que foi para tentar reverter a fuga alarmante de fiéis da "hidra papista", decidi ver o filme e, sinceramente, agradou-me bastante.
Recomendo-o. Está na Netflix.

Um aborto a cada quatro grávidas: a cidade em que o glifosato mata quem não nasceu


Veneno da Bayer Monsanto, que garante riqueza dos fazendeiros, contamina leite materno e provoca epidemia de intoxicação
Nayara Felizardo, do The Intercept Brasil


The Intercept Brasil, 17 de Setembro de 2018 às 12:07
Ultrassom que constatou a má-formação no filho de Maria Félix. Ele morreu ainda no útero, com 25 semanas, por causa de má-formação / João Brizzi/The Intercept Brasil

O filho de Maria Félix, de 21 anos, resistiu pouco mais de seis meses de gestação. Morreu ainda no ventre, com apenas 322 gramas. A causa do aborto, que aconteceu com 25 semanas de gravidez, foi má formação: o bebê tinha o intestino para fora do abdômen e também problemas no coração. Não é incomum que as mães da região percam seus filhos precocemente. O bebê de Maria, ao que tudo indica, foi mais uma vítima precoce do agrotóxico glifosato, usado em grandes plantações de soja e de milho em Uruçuí, a 459 km de Teresina, no Piauí.

O mesmo veneno que garante a riqueza dos fazendeiros da cidade, no sul do estado, está provocando uma epidemia de intoxicação com reflexo severo em mães e bebês. Estima-se que uma em cada quatro grávidas da cidade tenha sofrido aborto, que 14% dos bebês nasçam com baixo peso (quase do dobro da média nacional) e que 83% das mães tenham o leite materno contaminado. Os dados são de um levantamento do sanitarista Inácio Pereira Lima, que investigou as intoxicações em Uruçuí na sua tese de mestrado em saúde da mulher pela Universidade Federal do Piauí.



Laudo do ultrassom que constatou a morte do bebê. ‘A principal consequência é a atrofia de alguns órgãos’, diz o médico. (Reprodução)


Conheci a história de Maria Félix Costa Guimarães na maternidade do hospital regional Tibério Nunes, na cidade de Floriano. É para lá que as mulheres de Uruçuí são encaminhadas quando têm problemas na gravidez. Nos primeiros exames, feitos em julho, já havia sido identificada a má-formação no feto. Em setembro, no leito do hospital, encontrei a jovem, que lia a Bíblia e se recusava a comer. Carregava um olhar entristecido, meio envergonhado. Ela tinha sofrido o aborto no dia anterior e aguardava o médico para fazer uma ultrassom e se certificar de que não seria necessária a curetagem (cirurgia para retirada de restos da placenta).

Maria não tinha condições emocionais para conversar, por isso falei com a sua tia, a funcionária pública Graça Barros Guimarães. Ela não sabia sobre a pesquisa realizada em Uruçuí, mas acredita nos resultados apontados por Lima. “Se a gente for avaliar, o agrotóxico causa problema respiratório e de alergia. Então é claro que se a mulher tiver grávida, o bebê pode se contaminar também”.

Graça me contou que a sobrinha sempre esteve rodeada de fazendas de soja. A casa onde vive, em Uruçuí, fica a cerca de 15 km de uma plantação. Antes, ela morava na zona rural do município de Mirador, no Maranhão, onde também há plantio de soja. “Os fazendeiros tomaram conta de tudo.”

Em meados de agosto estive em Uruçuí para conversar com profissionais da saúde e com os trabalhadores agrícolas. Eu queria entender como viviam as pessoas no município contaminado pelo glifosato, e se elas tinham noção de que o problema existe. Também liguei para o pesquisador Inácio Pereira Lima, que culpa o agronegócio pelo adoecimento das pessoas. “Tudo isso é consequência do modelo de desenvolvimento econômico em que só o lucro está em foco, independente das consequências negativas para a população”, ele me disse.

Epidemia de glifosato

O glifosato é o agrotóxico mais usado no Brasil. É vendido principalmente pela Monsanto, da Bayer, com o nome comercial de Roundup. Seus impactos na saúde humana são tão conhecidos que o Ministério Público pediu que sua comercialização fosse suspensa no Brasil até que a Anvisa fizesse sua reavaliação toxicológica. Em agosto, a justiça aceitou e o glifosfato foi proibido. A suspensão foi classificada como um “desastre” pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e foi duramente combatida por ruralistas e pela indústria.

A decisão, no entanto, foi derrubada pela justiça em segunda instância poucas semanas depois. Maggi – que também é conhecido como “rei da soja” – não escondeu o seu entusiasmo com a liberação do agrotóxico:



A Monsanto diz que o produto é seguro, mas e-mails da empresa divulgados no ano passado mostram que ela pressionou cientistas e órgãos de controle nos EUA para afirmarem que o glifosato não causa câncer. Isso não impediu a Monsanto de ser condenada a pagar mais de R$ 1 bilhão a um homem que está morrendo de câncer nos Estados Unidos. Cerca de 4 mil ações parecidas estão em curso naquele país.

O produto representa quase a metade de todos os agrotóxicos comercializados no Piauí. O pesquisador Lima explicou que a presença da substância no leite materno indica a contaminação direta ou que as quantidades utilizadas na atividade agrícola da região são tão elevadas, que o excesso não foi degradado pelo metabolismo da planta. As mulheres estudadas por ele sequer trabalham nas lavouras: elas estão intoxicadas porque fazem limpeza, cozinham nas fazendas ou porque comeram o herbicida nos alimentos. Lima, em sua tese, explica que o organismo é contaminado pela pele e vias respiratória e oral.

Mulheres, as maiores vítimas

Pelos registros do hospital regional de Uruçuí, os abortos ocorrem geralmente em mulheres entre 20 e 30 anos, que chegam até a 10ª semana de gestação. O número elevado de casos é citado por Iraídes Maria Saraiva, enfermeira plantonista. “São muitas as mulheres que chegam com sangramento ou já com o ultrassom mostrando que o feto não tem batimentos cardíacos. A maioria desses abortos são espontâneos”, me disse.

Muitas mulheres têm a gravidez interrompida logo nas primeiras semanas. Sem saber que estão grávidas, elas seguem trabalhando cercadas pelo glifosato. Quando descobrem, já não há mais o que fazer. “Dificilmente é a primeira gravidez e elas não têm doenças pré-existentes. Quer dizer, são mulheres jovens que aparentam ser saudáveis”, observou a enfermeira.

Há ainda as que sabem que estão esperando um filho mas não podem deixar o trabalho, simplesmente porque dependem do salário. As que passam da fase mais crítica e levam a gravidez até o fim correm alto risco de ter má formação do feto.

Na maternidade de Floriano, o coordenador do setor de obstetrícia Luiz Rosendo Alves da Silva já viu muitos casos de aborto e de má-formação. Ele acredita na culpa dos agrotóxicos. “É uma contaminação lenta, gradual e diária. A principal consequência é a atrofia de alguns órgãos, principalmente coração e pulmão”.

Alanne Pinheiro, enfermeira do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest), observa que as mulheres estão expostas aos agrotóxicos de forma mais perigosa do que os homens que trabalham diretamente na aplicação do veneno. “Elas ficam na cozinha ou fazem a limpeza das fazendas e acabam inalando o agrotóxico de forma indireta. Como não usam roupas especiais, sofrem mais o efeito da intoxicação passiva.”

PIB alto, salário baixo

A cidade de 21 mil habitantes tem as características comuns do interior, onde a vida acontece sossegada e todo mundo se conhece. Quase um terço da população vive na zona rural. No percurso de 40 km do centro até o Assentamento Flores – onde moram muitos dos trabalhadores com quem eu pretendia conversar – quase não há árvores, exceto em pontos isolados ao redor da casa grande, a sede da fazenda. A sensação é de um enorme deserto e uma riqueza distribuída entre poucos.


Na pacata Uruçuí, mesmo quem não trabalha diretamente na agricultura está sendo contaminado. (Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Uruçuí)

Uruçuí não é um município pobre. O PIB per capita, de R$ 49 mil, era o 2º maior do Piauí em 2015, último ano da pesquisa do IBGE. Perdia apenas para a cidade vizinha, a também agrícola Baixa Grande do Ribeiro. Mas na prática, o salário dos trabalhadores é de R$ 1.900 por mês, em média.

Quem enriquece de verdade são os fazendeiros. A maioria deles saiu do sul do Brasil para o cerrado piauiense em busca de terras e do clima ideal para o plantio de suas lavouras. Outros ocupam ou já ocuparam cargos na política como deputados ou vereadores. É o caso do ex-deputado estadual Leal Júnior, eleito três vezes para o mesmo cargo, e da vereadora de Uruçuí Tânia Fianco.

‘Não fale com eles’

Joana* trabalhou como cozinheira na Fazenda Serra Branca há sete anos. Ela conta que o cheiro do agrotóxico chega até as trabalhadoras, mesmo quando elas não estão nos locais onde o veneno é aplicado. “Dependendo da posição do vento, a gente sentia. E se tivesse aplicando com o avião, era mais forte. Às vezes eu chegava em casa com dor de cabeça e sabia que era do veneno”, lembra ela, que prefere não se identificar. “Sabe como é, né? A gente depende das fazendas”, conforma-se. O marido ainda trabalha no agronegócio.

Se os males causados pelos agrotóxicos se limitassem às mães e aos seus bebês, o problema já seria grave o bastante, mas o sanitarista Inácio Pereira Lima faz um alerta. “Como minha pesquisa foi voltada para a mulher, coletei amostras biológicas exclusivas; por isso foi o leite. Mas, se a pesquisa fosse da população em geral, poderia optar por outro tipo de amostra como sangue ou urina. E talvez chegasse a esses mesmos resultados. Ou seja, toda a população está sob risco, e não só as mães que amamentam”, me explicou o pesquisador.

Ouvi de muitas pessoas da cidade que alguns fazendeiros não são simpáticos com quem os contraria. O conselho que todo mundo me deu foi: “Não fale com eles”. As fazendas têm seguranças armados.

Decidi ir ao escritório da Fazenda Canel, administrada pelas famílias Bortolozzo e Segnini, originárias de Araraquara, no interior de São Paulo. Eles se instalaram no Piauí há 30 anos e são os pioneiros no plantio de soja no estado. Eu queria entender a posição deles. Todos se negaram a conversar comigo. Funcionários justificaram que os responsáveis estavam “viajando para o exterior”.
Mais medo de demissão do que de doença

Na cidade onde quase todo mundo se conhece, o mesmo segredo é compartilhado. Ninguém fala para os profissionais de saúde quando sente os efeitos do agrotóxico no organismo, e dificilmente o hospital é procurado. Se a intoxicação for mais grave, os trabalhadores escondem dos médicos sua possível causa. É muito difícil detectar laboratorialmente doenças causadas por agrotóxico. Se o paciente não fala, muitas internações provocadas pelos químicos não caem na conta deles.

A enfermeira Alanne Pinheiro me disse que as pessoas têm medo de perder o emprego. “Se eles disserem que estão doentes por causa dos agrotóxicos, aquilo pode repercutir na cidade e ficar mal pro fazendeiro. Os trabalhadores têm mais medo de demissão do que de uma doença.”

Há ainda a falta de conhecimento sobre os riscos dos agrotóxicos. “Eles nem acreditam que possa acontecer algum problema grave porque os danos só aparecem a longo prazo. Não existe a percepção de que os males se acumulam e podem trazer doenças irreversíveis, como um câncer que já se descobre em metástase”, diz Alanne.

Um possível exemplo é João, marido de Helena. Conversei com ela porque João sai cedo para a Fazenda Nova Aliança e só chega à noite. Este ano, o trabalhador teve uma alergia nos braços, mas decidiu tratar em casa. Sem avaliação médica e sem exames, João se auto-medicou. “Acho que não foi agrotóxico, porque ele é pedreiro e não mexe com veneno. Deve ter sido por causa do cimento”, opina a mulher.

É comum que os moradores atribuam os sintomas da intoxicação a outras causas. “Os pacientes chegam com queixas vagas, como ardência nos olhos. Mas, quando a gente começa a investigar, eles não falam tudo”, comenta a enfermeira Iraídes. Nas raras vezes em que vão ao hospital, são levados por algum funcionário da fazenda. Com essa vigília, o medo de perder o emprego é maior e a saúde fica em segundo plano.

O Centro de Referência em Saúde do Trabalhador está tentando evitar o alto índice de subnotificação: eles treinam os enfermeiros e médicos para que notifiquem os casos de intoxicação quando perceberem os sintomas, independente do que afirmam os pacientes.

Tecnologia para o lucro

Geivan Borges da Silva é técnico em agropecuária e presta assessoria para muitos fazendeiros de Uruçuí. Ele defende que o uso de sementes transgênicas reduz a necessidade de agrotóxicos. “Quase 100% das áreas plantadas aqui são de variedades transgênicas, resistentes a muitos tipos de praga e ervas daninhas”, ameniza.

Na verdade, as provas científicas dizem o contrário. O dossiê sobre agrotóxicos da Abrasco, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, mostra que o uso de transgênicos aumentou a necessidade de defensivos agrícolas. É só olhar para a soja, campeã no uso de agrotóxicos: 93% da safra é transgênica, e a quantidade de litros de produtos químicos aumentou mesmo assim.

Na região sul do Piauí, as sementes de milho, soja e algodão também são vendidas pela Monsanto, a mesma que fornece o glifosato, de acordo com o cadastro de junho de 2018 da Agência de Defesa Agropecuária do Piauí, a Adapi.

Outra tecnologia defendida por Silva é a que minimiza a disseminação do agrotóxico no ar: usa-se um produto que aumenta o peso da gota, fazendo com que ela desça diretamente na planta e não disperse com o vento. “Tudo é agricultura de precisão para reduzir os custos”, argumenta.

É certo que essas tecnologias otimizam a produção agrícola, mas elas foram incapazes de evitar a intoxicação de Emanuel*, que trabalha como operador de máquina de aplicação de agrotóxico na Fazenda Condomínio União 2000.

Após um ano trabalhando, Emanuel sentiu tontura, fraqueza, ardência nos olhos e chegou a vomitar. Quem conta essa história é a esposa dele, Rosa*. “Nós fomos pro hospital e quando saiu o resultado do exame, deu que tinha agrotóxico no sangue. A médica passou remédio, mandou ele se afastar do trabalho por um tempo e tomar muito leite”.

Emanuel melhorou, mas há três anos voltou para o mesmo ofício. “Ele já me disse que só fica até o final desse ano. Não vale a pena perder a saúde por causa de dois mil por mês”, diz Rosa. Eram 18h quando me despedi. O marido dela ainda não tinha chegado. Ele trabalha para a vereadora Tânia Fianco, do PSDB.

No Brasil, o Projeto de Lei conhecido como PL do Veneno pretende liberar mais rapidamente vários produtos, entre eles muitos que são à base de glifosato. O lobby da indústria é pesado, e ataca sobretudo a Anvisa, agência reguladora suscetível a todo tipo de pressão e que já mostrou que está disposta a fazer o jogo das grandes corporações.

*Os nomes dos trabalhadores foram alterados para preservar suas identidades.

Edição: The Intercept Brasil

https://www.brasildefato.com.br/2018/09/17/um-aborto-a-cada-quatro-gravidas-a-cidade-em-que-o-glifosato-mata-quem-nao-nasceu/

Jesus não morreu pelos “nossos pecados” e sim por enfrentar o sistema


Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres
Alberto Maggi


Outras Palavras, 31 de Março de 2018 às 16:47
Cruz (detalhe), Igreja do Espírito Santo e de S. Alessandro Mártir, Arquidiocese de Portoviejo, Equador / Arcabas (Jean-Marie Pirot)

Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13).

Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura. Sendo assim, é inevitável que olhando para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, qualquer um se sinta culpado … o Filho de Deus acabou no patíbulo pelos nossos pecados! Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da psiquê humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios.

No entanto, basta ler os Evangelhos para ver que as coisas são diferentes. Jesus foi assassinado pelos interesses da casta sacerdotal no poder, aterrorizada pelo medo de perder o domínio sobre o povo e, sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada às custas da fé das pessoas.

A morte de Jesus não se deve apenas a um problema teológico, mas econômico. O Cristo não era um perigo para a teologia (no judaísmo havia muitas correntes espirituais que competiam entre si, mas que eram toleradas pelas autoridades), mas para a economia. O crime pelo qual Jesus foi eliminado foi ter apresentado um Deus completamente diferente daquele imposto pelos líderes religiosos, um Pai que nunca pede a seus filhos, mas que sempre dá.

A próspera economia do templo de Jerusalém, que o tornava o banco mais forte em todo o Oriente Médio, era sustentada pelos impostos, ofertas e, acima de tudo, pelos rituais para obter, mediante pagamento, o perdão de Deus. Era todo um comércio de animais, de peles, de ofertas em dinheiro, frutos, grãos, tudo para a “honra de Deus” e os bolsos dos sacerdotes, nunca saturados: “cães vorazes: desconhecem a saciedade; são pastores sem entendimento; todos seguem seu próprio caminho, cada um procura vantagem própria” (Is 56, 11).

Quando os escribas, a mais alta autoridade teológica no país, considerando o ensinamento infalível da Lei, vêm Jesus perdoar os pecados a um paralítico, imediatamente sentenciam: “Este homem está blasfemando!” (Mt 9,3). E os blasfemos devem ser mortos imediatamente (Lv 24,11-14). A indignação dos escribas pode parecer uma defesa da ortodoxia, mas na verdade, visa salvaguardar a economia. Para receber o perdão dos pecados, de fato, o pecador tinha que ir ao templo e oferecer aquilo que o tarifário das culpas prescrevia, de acordo com a categoria do pecado, listando detalhadamente quantas cabras, galinhas, pombos ou outras coisas se deveria oferecer em reparação pela ofensa ao Senhor. E Jesus, pelo contrário, perdoa gratuitamente, sem convidar o perdoado a subir ao templo para levar a sua oferta.

“Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,37) é, de fato, o chocante anúncio de Jesus: apenas duas palavras que, no entanto, ameaçaram desestabilizar toda a economia de Jerusalém. Para obter o perdão de Deus, não havia mais necessidade de ir ao templo levando ofertas, nem de submeter-se a ritos de purificação, nada disso. Não, bastava perdoar para ser imediatamente perdoado…

O alarme cresceu, os sumos sacerdotes e escribas, os fariseus e saduceus ficaram todos inquietos, sentiram o chão afundar sob seus pés, até que, em uma reunião dramática do Sinédrio, o mais alto órgão jurídico do país, o sumo sacerdote Caifás tomou a decisão. “Jesus deve ser morto”, e não apenas ele, mas também todos os discípulos porque não era perigoso apenas o Nazareno, mas a sua doutrina, e enquanto houvesse apenas um seguidor capaz de propagá-la, as autoridades não dormiriam tranquilas (“Se deixarmos ele continuar, todos acreditarão nele … “, Jo 11,48). Para convencer o Sinédrio da urgência de eliminar Jesus, Caifás não se referiu a temas teológicos, espirituais; não, o sumo sacerdote conhecia bem os seus, então brutalmente pôs em jogo o que mais estava em seu coração, o interesse: “Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?” (Jo 11,50).

Jesus não morreu pelos nossos pecados, e muito menos por ser essa a vontade de Deus, mas pela ganância da instituição religiosa, capaz de eliminar qualquer um que interfira em seus interesses, até mesmo o Filho de Deus: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38). O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado, que o Senhor em sua misericórdia sempre consegue apagar, mas o interesse, a conveniência e a cobiça que tornam os homens completamente refratários à ação divina.

* Alberto Maggi, biblista italiano, frade da Ordem dos Servos de Maria, estudou nas Pontíficias Faculdades Teológicas Marianum e Gregoriana de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversos livros, como A loucura de Deus: o Cristo de João, Nossa Senhora dos heréticos

* Francisco Cornélio, sacerdote e biblista brasileiro, é professor no curso de Teologia da Faculdade Diocesana de Mossoró (RN). Fez seu bacharelado no Ateneo Pontificio Regina Apostolorum, em Roma. Atualmente, está em Roma novamente, para o doutorado no Angelicum (Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino), onde fez seu mestrado

Edição: Tradução: Francisco Cornélio
Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2018/03/31/artigo-or-jesus-nao-morreu-pelos-nossos-pecados-e-sim-por-enfrentar-o-sistema/