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sábado, 3 de outubro de 2026

A atualidade de uma proposição do século XVIII -- Ou Padre bom é padre arrependido (à memória do padre JEAN MESLIER)

As religiões prometem a salvação da alma, em troca de indulgências (o perdão dos "pecados", ou seja, das nossas faltas, dos nossos deslizes morais, como se os religiosos, estelionatários que são, tivessem moral) e de dízimos, quando não de heranças.

O Estado, sempre imbricado com as religiões (o trono e o púlpito sempre de mãos dadas), no interesse eleitoreiro dos poderosos (aos quais as religiões incensam e protegem, numa troca de interesses descarada e repugnante) e da segurança dos mesmos, fazendo os diversos credos o papel de anestésico das consciências dos crentes, mantendo-os mansos e conformados (por se acharem em dívida moral) ante a incompetência e/ou as falcatruas dos executivos, dos legisladores e dos magistrados. O  Estado (União, Unidades federativas e Municípios) prometem implementar e manter políticas sociais, voltadas para a segurança (física) do povo, extorquindo tributos os mais variados e, não raramente,  bi-tri-tributando e a arrecadação vai parar, em grande parte, nos cofres ávidos dos financistas que adiantam recursos para a aplicação de tais políticas, perdendo-se a maior parte do dinheiro nas mãos dos corruptos e por via do desperdício.

Por seus papéis enganadores, igrejas e Estado dão-se muito bem (são unha e carne, sempre em alianças espúrias e indecentes), ganhando muito os pregadores e até um estado estrangeiro (o famigerado Vaticano) com a exploração descarada das riquezas de outras nações. O Vaticano mantém incontáveis colônias mundo afora, sem que os povos colonizados se rebelem, por temor às ideias de existência de um "deus", inferno e outros embustes.

E qualquer cidadão que, tendo os olhos abertos, disperte para tais indecências, rebelando-se contra o pagamento de tributos que considere exagerados, é enquadrado como herege, ateu,  sonegador e até subversivo. Quem não "engole os sapos", vê-se perseguido, constrangido e estigmatizado como criminoso.

Tinham razão alguns revolucionários franceses (dentre eles um ex-abade jesuíta - RAYNAL, lá nos idos de 1789), mentes privilegiadas (inspiradas por outro padre JEAN MESLIER) e dignas de todas as reverências,  quando se debatiam contra as injustiças do mundo, dizendo que era necessário enforcar o último rei com as tripas do último padre, ou algo semelhante, para a liberdade do ser humano, uma afirmação contundente, mas que se afigura como a solução mais plausível para fazer-se cessar a indecente exploração da humanidade, sendo certo que onde se lê rei, deve-se ler, obviamente, rentistas, políticos e certos magistrados, bem como, onde se lê padres, leia-se também papas, cardeais, bispos, pastores, pais de santos, aiatolás, rabinos e outros que se dedicam à exploração inescrupulosa da ingenuidade alheia, valendo-se da hipótese remota (e cheia de má-fé) da existência de um "deus", que teria concentrado a ideia de muitos outros deuses dos panteãos egípcio, romano e gregos, por exemplo. 

Sobre a frase acima (em itálico):

A autoria original da ideia por trás dessa frase é do padre ateu francês Jean Meslier (1664–1729), escrita em seu manuscrito Testamento. Posteriormente, o filósofo iluminista Denis Diderot adaptou a frase em versos no poema Les Éleuthéromanes, escrevendo sobre "enforcar o último rei com as tripas do último padre". [1, 2, 3]
A menção ao padre Raynal (Guillaume-Thomas Raynal) gera confusão, pois ele foi outro importante filósofo e clérigo iluminista da mesma época, que colaborou estreitamente com Diderot em obras famosas como a História das Duas Índias. No entanto, a frase célebre do anticlericalismo e do combate ao absolutismo não pertence a Raynal, mas sim a Meslier e Diderot. [1, 2, 3, 4]
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Para explorar esse período fascinante do Iluminismo, vamos detalhar tanto a origem da frase radical quanto a surpreendente parceria entre Diderot e o Padre Raynal:
1. O Testamento de Jean Meslier: A Origem Radical
Jean Meslier foi um padre católico de uma paróquia rural na França que viveu uma vida pacata e aparentemente devota. No entanto, após sua morte em 1729, foi descoberto um manuscrito secreto de sua autoria com mais de mil páginas: o seu "Testamento".
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Jean Meslier (Mazerny, 15 de junho de 1664 – Étrépigny, 17 de junho de 1729) foi um sacerdote católico francês. Sua notoriedade se deve à autoria de um tratado filosófico promovendo o ateísmo, descoberto após sua morte. Apresentado como um "testamento" aos seus paroquianos e a toda humanidade, o texto denuncia a "falsidade e vaidade de todas as divindades e de todas as religiões do mundo".[1][2]

Dele é a conhecida frase erroneamente atribuída a Voltaire: "O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre", encontrada no livro Extrait des sentiments de Jean Meslier, editado por Voltaire.

Biografia

Jean Meslier nasceu em Mazerny, nas Ardenas. Era filho de Gerard Meslier, um agricultor com certa notoriedade dono de algumas terras e comerciante de tecidos,[3] que fazia parte da pequena e média burguesia, dedicando seu esforço ao trabalho agrário.[4] Sua infância carece de registro a não ser por sua assinatura como padrinho de batismo de sua irmã aos 8 anos de idade.[5]

Iniciou os estudos de latim com um padre do bairro a partir de 1678, e ingressou aos 20 anos no seminário de Reims, onde estudou durante 5 anos. Mais tarde alegou no prefácio de seu testamento que isso foi feito para agradar seus pais. No final de seus estudos recebeu as Ordens Sagradas e, em 7 de janeiro de 1689, tornou-se padre em Étrépigny, em Champagne.

Meslier exerceu seu cargo sem queixa ou problema por 40 anos, salvo por um desentendimento público com um nobre local. No entanto, ele foi repreendido duas vezes pelas autoridades clericais por empregar inadequadamente jovens servas, a quem o ateu e biógrafo de Meslier Michel Onfray especula que ele predava sexualmente.[6] "Discreta e secretamente, o cura teve que praticar a alegria do amor livre defendida em seu trabalho", escreve Onfray. [6] Ele vivia como um mendigo, e cada centavo que sobrava era doado aos pobres.[7]

Em 1689, Meslier torna-se padre da paróquia de Etrépigny, onde seguiu sua carreira como abade por 4 décadas até sua misteriosa morte em 1729. Em 1716, Antoine de Touly – acusado por Meslier de despotismo e de cometer iniquidades contra seu servos - reclama para o arcebispo François de Mailly a recusa do abade de citá-lo na homilia. Convocado a retratar no domingo seguinte o padre declarou em tom irônico: 

"Eis a sorte ordinária dos pobres curas; os arcebispos, que são grandes senhores, desprezam-nos e não os escutam, só têm ouvidos para a nobreza. Oremos pois pelo senhor deste local. Roguemos a Deus por Antoine de Touly; que Ele o converta e lhe conceda a graça de não maltratar o pobre e despojar o órfão."[8]

Com isso, Touly mais uma vez se queixa ao arcebispo, que condena Meslier a um mês de reclusão no seminário de Reims.

Após seu falecimento, foram encontrados em seu cômodo uma carta dirigida aos párocos da vizinhança, seu testamento posteriormente chamado de Memorias e um pequeno texto intitulado como Anti-fenelon.[9]

Quando Meslier morreu, em Étrépigny, foram encontrados em sua casa três cópias de um manuscrito octavo de 633 páginas, no qual a curadoria da vila denuncia a religião organizada como "simplesmente um castelo no ar" e a teologia como "somente a ignorância sobre as causas naturais reduzida a um sistema".

Pensamento

Em seu Testamento, Meslier repudia não apenas o Deus do cristianismo convencional, mas também o Deus genérico da religião natural dos deístas.[10] Para Meslier, a existência do mal é incompatível com a ideia de um Deus bom e sábio.[11] Nega que qualquer valor espiritual possa ser obtido do sofrimento,[12] e usa o argumento deísta do desígnio contra deus, mostrando os males que ele havia permitido neste mundo.[13] Para Meslier, as religiões são invenções fomentadas pelas elites dominantes; embora os primeiros cristãos tenham sido exemplares na partilha de seus bens, o cristianismo há muito degenerou em encorajar a aceitação do sofrimento e a submissão à tirania como praticada pelos reis da França: a injustiça é explicada como sendo a vontade de um ser onisciente.[14] Nenhum dos argumentos usados ​​por Meslier contra a existência de Deus é original. Na verdade, deriva-os de livros escritos por teólogos ortodoxos no debate entre os jesuítas, cartesianos e jansenistas. Sua incapacidade de concordar com uma prova da existência de Deus é vista por Meslier como uma boa razão para não presumir que haja motivos persuasivos que justifiquem a crença em Deus.[10]

A filosofia de Meslier é a de um ateu.[15] Nega também a existência da alma e descarta a noção de livre-arbítrio. No capítulo V, o sacerdote escreve: "Se Deus é incompreensível para o homem, pareceria racional nunca pensar n'Ele". Meslier mais tarde descreve Deus como "uma quimera" e argumenta que a suposição de Deus não é um pré-requisito para a moralidade. De fato, ele conclui que "Existe um Deus ou não [...] os deveres morais dos homens serão sempre os mesmos enquanto eles possuírem sua própria natureza".[16]

Nos capítulos XXXIII e XXXIV, Meslier desafia a saúde mental de Jesus, insinuando que Jesus "era realmente um louco, um fanático" (étoit véritablement un fou, un insensé, un fanatique).[16][17]

Em sua citação mais famosa, Meslier refere-se a um homem que "desejava que todos os grandes homens do mundo e toda a nobreza pudessem ser enforcados e estrangulados com as tripas dos padres".[18] Meslier reconhece a truculência do desejo, mas assevera que é exatamente o que merecem os sacerdotes e a nobreza, não por vingança ou ódio, mas por amor à justiça e à verdade.[19]

Igualmente conhecida é a versão de Diderot: "E [com] a coragem do último padre vamos estrangular o pescoço do último rei."[20] Durante a agitação política de maio de 1968, os estudantes radicais do Comitê de Ocupação da Sorbonne parafrasearam o epigrama de Meslier, afirmando que "a humanidade não será feliz até que o último capitalista seja enforcado com as tripas do último burocrata".[21]

Meslier também ataca com veemência a injustiça social e esboça uma espécie de protocomunismo rural.[15] Todas as pessoas de uma região pertenceriam a uma comuna em que a riqueza seria mantida em comum e todos trabalhariam. Fundadas no amor e na fraternidade, as comunas aliar-se-iam para prestarem auxílio umas às outras e preservar a paz. [22]

Referências

  1. Piva, P. J. L. Ateísmo e comunismo: o lugar de Jean Meslier na filosofia política das Luzes. Cadernos de Ética e Filosofia Política 7, 2/2005, p. 99-107
  2. Thinker: Jean Meslier. New Humanist Volume 122 Issue 4 July/August 2007 (em inglês)
  3. MINOIS, Georges (2012). História do ateismo - os descrentes no mundo ocidental, das origens aos nossos dias. São Paulo: UNESP. 359 páginas
  4. PIVA, Paulo Jonas de Lima (2006). Ateísmo e revolta - os manuscritos de Jean Meslier. São Paulo: Alameda. 74 páginas
  5. Piva, Paulo Jonas de Lima (2006). Ateísmo e revolta - os manuscritos de Jean Meslier. São Paulo: Alameda. 74 páginas
  6. «Jean Meslier and "The Gentle Inclination of Nature"». New Politics (em inglês). Consultado em 10 de junho de 2022
  7. Meslier, Jean (1864). Le testament de Jean Meslier ... (em francês). [S.l.]: R. C. Meijer
  8. MINOIS, Georges (2012). História do ateísmo - os descrentes no mundo ocidental, das origens ao nossos das. São Paulo: UNESP. 360 páginas
  9. NASCIMENTO, M. das G. de S. (1985). O estranho testamento de um vigário de província: as Memórias de Jean Meslier. São Paulo: Trans/Form/Ação. pp. 71–72
  10. Maria Rosa Antognazza (2006). "Arguments for the existence of God: the continental European debate", pp. 734–735, in Haakonssen, Knud. The Cambridge History of Eighteenth-Century Philosophy, vol. 2. Cambridge University Press.
  11. Fonnesu, Luca (2006). "The problem of theodicy", pp. 766, in Haakonssen, Knud. The Cambridge History of Eighteenth-century Philosophy, vol. 2. Cambridge University Press.
  12. Peter Byrne, James Leslie Houlden (1995), Companion Encyclopedia of Theology, p. 259. Taylor & Francis.
  13. J. O. Lindsay, (1957), The New Cambridge Modern History, p. 86. Cambridge University Press.
  14. John Hedley Brooke (1991), Science and Religion: Some Historical Perspectives, p. 171. Cambridge University Press.
  15. Peter France, (1995), The new Oxford companion to literature in French, p. 523. Oxford University Press.
  16. Meslier, Jean (1864). Le Testament (em francês). 2. Amsterdã: A la Librairie Étrangère, Raison R.C. Meijer. pp. 42–67. LCCN 74194533. OCLC 827215244
  17. Kryvelev, Iosif Aronovich (1987). «Mentally Ill (according to J. Meslier, A. Binet-Sanglé and Ya. Mints)». Christ: Myth or Reality?. Col: Religious studies in the USSR; ser. 2 (em inglês). Moscou: ″Social Sciences Today″ Editorial Board. LCCN 87157196. OCLC 64860072. Consultado em 29 de abril de 2023
  18. Meslier, Jean (1864). Le testament: 1 éd. orig (em francês). [S.l.]: Meijer
  19. George Huppert (1999), The style of Paris: Renaissance origins of the French Enlightenment, p. 108. Indiana University Press.
  20. Diderot, Dithrambe sur Féte des Rois: «Et des boyaux du dernier prêtre serrons le cou du dernier roi.»
  21. "Telegrams" Archived 27 May 2014 at the Wayback Machine, Situationist International Online, accessed 4 July 2013.
  22. "Utopianism in the Renaissance and Enlightenment", in Donald F. Busky (2002), Communism in History and Theory, pp. 54–55. Greenwood.


  • O conteúdo: O texto é considerado um dos primeiros manifestos puramente ateus, materialistas e revolucionários da era moderna.
  • A frase original: Meslier escreveu que desejava ver todos os grandes da Terra e nobres enforcados e estrangulados com as tripas dos padres.
  • O impacto: Anos mais tarde, Denis Diderot e Voltaire tiveram acesso ao manuscrito. Diderot refinou esses pensamentos em seus poemas, transformando a ideia na famosa rima que cruzou os séculos como o símbolo máximo da revolta contra o absolutismo e o poder da Igreja.

2. Denis Diderot e o Padre Raynal: Uma Parceria Explosiva
Ao contrário do que a frase sugere, o Padre Guillaume-Thomas Raynal não era um inimigo dos iluministas, mas sim um deles. Ele era um clérigo jesuíta que abandonou as funções religiosas para se dedicar à literatura e à filosofia em Paris.
  • A grande obra: Raynal publicou, em 1770, a História das Duas Índias (Histoire des deux Indes), uma enciclopédia massiva que criticava ferozmente o colonialismo, a escravidão e a tirania real.
  • A colaboração de Diderot: Diderot foi o principal colaborador anônimo dessa obra. Ele escreveu os trechos mais inflamados, revolucionários e poéticos do livro de Raynal.
  • A ironia histórica: Enquanto Diderot escrevia poemas sobre enforcar reis com tripas de padres, ele passava os dias trabalhando secretamente lado a lado com um padre (Raynal) para criticar as injustiças do mundo.
A obra de Raynal e Diderot foi banida pelo Parlamento de Paris e pela Igreja, e Raynal teve que fugir da França para não ser preso, tornando-se um herói da liberdade intelectual na época.

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