O tiro no pé
Caciques do PL e aliados do ex-presidente se reúnem para lamentar a sequência de trapalhadas e autodenúncias que selaram a derrota política do grupo

Ediel Ribeiro
Jornalista, cartunista e escritor
242 artigos publicados
Publicado em 27 de outubro de 2026 às 06:30

Flávio Bolsonaro e Valdemar da Costa NetoCrédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado | Marcello Casal Jr/Agência Brasil
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Rio – Às vezes, duvido que existam figuras mais toscas que os seguidores de Jair Bolsonaro.
E não é só porque eles bebem detergente, rezam para pneus e acreditam que ETs vão invadir a Terra para salvá-los do comunismo.
Ao longo dos últimos anos, o cenário político brasileiro registrou diversos episódios em que apoiadores e figuras ligadas ao ex-presidente geraram repercussão e memes na internet ao cometerem gafes ou produzirem, por conta própria, as provas que acabaram servindo para identificá-los e denunciá-los à Justiça.
Nesta eleição, não foi diferente.
Logo que foram apurados os votos e confirmada a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, Valdemar da Costa Neto, bastante irritado, reuniu caciques do PL e aliados próximos do senador Flávio Bolsonaro, em Brasília.
O líder do Partido Liberal começou soltando os cachorros:
– Meu Deus! Quanta gente estúpida!!! Perdemos a eleição por causa daquele idiota de Minas!
– Quem? O Zema? – perguntou um assessor.
– Não, o outro. Aquele da peruca.
– Ah! O Nikolas.
– O cara é tão idiota que, para fazer um filme simulando uma família de nordestinos passando fome, trouxe um homem dono de um carro de luxo. Será que é tão difícil encontrar um nordestino pobre que não tenha uma Hilux? Pior: o ‘making of’ mostrou um diretor de cena mandando esconder a antena parabólica da casa do “pobre”.
– E os generais, que imprimiram a minuta do golpe na impressora do Palácio do Planalto e ainda postaram a cópia no grupo de WhatsApp – completou outro assessor.
– Sem falar nos “kids pretos”, que pesquisaram no Google as armas para matar o Presidente da República – completou um parlamentar.
– E o general da reserva Lourena Cid (pai do ajudante de ordens Mauro Cid), que, ao tentar fotografar joias e um relógio valioso para posterior avaliação e comercialização nos Estados Unidos, registrou o reflexo do seu próprio rosto no vidro da caixa do objeto – disse um assessor, rindo.
– Nem me fale. O golpe de 8 de Janeiro foi uma sucessão de mancadas e cagadas, literalmente. Invadiram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal gravando vídeos em tempo real, sorrindo e mostrando os próprios rostos, enquanto vandalizavam o patrimônio público, e postaram no Instagram, TikTok, Facebook e YouTube – disse Valdemar.
– E a deputada federal Carla Zambelli, que, às vésperas da eleição de 2022, correu pelas ruas de São Paulo atrás de um homem negro com uma arma na mão – lembrou outro político da extrema-direita. Outros episódios recorrentes envolveram grupos cantando o hino nacional para pneus, comemorando uma suposta “intervenção militar” decretada por generais fictícios ou celebrando relatórios falsos das Forças Armadas sobre fraudes eleitorais inexistentes. Mas o meme mais famoso é, certamente, o “Patriota do Caminhão”, que, na tentativa de impedir que um caminhão furasse um bloqueio em uma rodovia em Pernambuco, subiu na frente do para-brisa do veículo em movimento. O caminhoneiro não parou, e o homem andou por quilômetros pendurado na frente do veículo. De repente, um assessor invadiu a reunião gritando:
– Gente, gente! O Eduardo Bananinha aconselhou o Flávio a fugir para os Estados Unidos e o Xandão já pediu a apreensão do passaporte do senador.
– Com um irmão idiota desses, quem precisa de inimigos? – gritou Valdemar.
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