Publicado 03/10/2026 • 08:30 | Atualizado há 1 hora
Por Lara Madeira, com AFP

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O Brasil possui cerca de 2.446 Unidades de Conservação (UCs) somando as esferas federal, estadual e municipal. [1]













A área urbana de Rio Bonito do Iguaçu foi fortemente atingida por um dos tornados. | Crédito: Divulgação/Secom PR
Maria Natividade, produtora agroecológia e integrante do Setor de Saúde do MST falecida em julho deste ano, deu nome à turma. | Crédito: Juliana Barbosa/MST-PR
O curso é resultado da atuação conjunta entre o Setor de Saúde do MST, a Força Nacional do SUS e a Fiocruz, após os tornados que atingiram o Paraná em 2025. | Crédito: Antônio Santos/MST-PR
A Brigada de Solidariedade durou por mais de 40 dias e reconstruiu centenas de moradias, em 2025. | Crédito: Juliana Barbosa/MST-PR
Simulação realizada na manhã de terça-feira (29) garantiu a avaliação da turma. | Crédito: Juliana Barbosa/MST-PRBraguin faz demagogia eleitoral contra LCP e ‘facções’, mas acaba propagandeando consignas da Revolução Agrária
Coronel influencer posa de perseguido, enquanto muros e cartazes no Brasil e no mundo denunciam o assassinato de Raimundo Nonato e defendem a luta pela terra; alarde eleitoral acaba divulgando as consignas da Revolução Agrária.
por Jaílson de Souza
1 de outubro de 2026
Recorte de montagem publicada por Braguin nas “redes sociais” praguejando contra as “facções”, epíteto sob o qual tenta englobar também o movimento camponês. (Imagem: Régis Braguin via Instagram/Reprodução)
Recorte de montagem publicada por Braguin nas “redes sociais” praguejando contra as “facções”, epíteto sob o qual tenta englobar também o movimento camponês. (Imagem: Régis Braguin via Instagram/Reprodução)
Cartazes e pichações que denunciam os crimes contra os camponeses de Rondônia e defendem a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) voltaram a tirar do sério o celerado Régis Braguin. Ex-comandante-geral da Polícia Militar de Rondônia (PM-RO) e candidato a deputado federal pelo Republicanos, o serviçal do latifúndio tenta converter as denúncias em propaganda eleitoral de extrema direita: posa de perseguido e atribui à organização camponesa ações de apoio à Revolução Agrária que se espalham pelo País.
Veículos da “imprensa lixo” rondoniense repercutem em alvoroço o chororô do coronel. O Extra de Rondônia, em texto creditado à “assessoria” e publicado em 26 de setembro, apresentou registros do Pará e do Rio de Janeiro como “ameaças”, embora reconhecesse que a autoria atribuída à LCP pela campanha reacionária não fora confirmada de forma independente. No dia seguinte, o Rondoniagora difundiu a promessa de Braguin de endurecer as leis contra as tomadas de terras. O pau-mandado aproveita as denúncias de seus serviços ao latifúndio para prometer mais serviços ao mesmo patrão.
Na peça de propaganda, Braguin aparece diante de um espelho, colocando munições no pente e vestindo um colete à prova de balas. Os roteiristas da campanha do coronel influencer seguem oferecendo pérolas: desta vez, tentam apresentar uma cena que se assemelha a qualquer série policial clichê norte-americana com a solenidade de quem acredita estar filmando uma obra-prima. O enredo exige que o espectador esqueça os camponeses assassinados e admire o “valentão” que se apetrecha, diante do espelho, para enfrentar cartazes.
“Hoje eu faço reuniões usando colete balístico”, anuncia. A encenação termina com a promessa de ir “para o combate em Brasília”. No meio, procura arrastar o “trabalhador desarmado” para o papel de figurante agradecido ao seu suposto “protetor”. As famílias da Área Valdiro Chagas conhecem bem a “proteção” desse sabujo: helicópteros, tiros e um camponês covardemente assassinado.
Após reivindicar ações de ‘contraguerrilha’ do BOPE contra ‘grupos armados’ camponeses, Braguin lança candidatura e declara guerra à LCP – A Nova Democracia
Ex-comandante afirmou ter colocado tropas especiais na “caça” aos camponeses pobres e reivindicou “contraguerrilha” contra supostos “grupos armados” ligados à LCP. Agora candidato, colocou a organização camponesa na mesma linha de tiro de organizações ligadas ao tráfico de drogas.
Em 8 de agosto de 2025, mercenários do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), sob o comando de Braguin, invadiram a área, em Machadinho D’Oeste, e assassinaram covardemente o camponês Raimundo Nonato. A Associação Brasileira dos Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (ABRAPO) denunciou voos rasantes e disparos que aterrorizaram as famílias. Já os moradores da área recordaram que Raimundo buscava uma terra para trabalhar com a família e foi morto enquanto fazia a guarda dos companheiros.
Braguin correu para as “redes sociais” para apresentar a execução sumária como uma “vitória”. Alegou, com espanto, ter encontrado guaritas, barricadas e pontos de vigilância que seriam “estruturas de guerrilha”, transformando a área camponesa em “território de guerrilha”. O alarde serviu para alimentar sua campanha de demonização da LCP. Mais tarde, já fora do comando, reivindicou o emprego de “contraguerrilha” contra “grupos armados” que associava à organização.
Na entrevista à TV Norte Rondônia, afiliada do SBT, em 19 de maio, o próprio Braguin explicou que a ampliação do patrulhamento rural permitira criar mais fôlego para colocar o BOPE “na caça” daqueles que associava à bandeira da LCP. Reivindicou ainda a “formação de contraguerrilha” e tratou as mortes produzidas pelas operações como “neutralizações”.
A mesma falsificação atravessa sua campanha. Em outra peça, o obtuso disparou contra alvos com as siglas “CV”, “PCC” e “LCP”, tentando equiparar a organização camponesa a grupos ligados ao tráfico de drogas. Antes, já defendera que a Liga fosse tipificada como terrorista. A montagem dos alvos revela a intenção do coronel; nada demonstra sobre a LCP.
‘Nossa guerra é sagrada!’: aos 31 anos de Santa Elina, LCP reafirma que ataques da reação ‘não podem deter a Revolução Agrária!’ – A Nova Democracia
Declaração destaca que “a luta pela terra é uma guerra” e acusa o ex-comandante da PM-RO Régis Braguin de organizar serviços de pistolagem para latifundiários, caracteriza a Operação “Godos” como ação de contrainsurgência e denuncia negociatas com terras públicas no Incra-RO.
O patrão e o pau-mandado
O servilismo de Braguin ao latifúndio vem de longe. O próprio coronel se gaba de combater a LCP desde 2010, quando atuava na região de Buritis. Na declaração pelos 31 anos da Heroica Resistência Camponesa de Santa Elina, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres denunciou que ele organizava escalas e folgas para que policiais prestassem serviços de pistolagem a latifundiários, principalmente em Ariquemes e Buritis.
A organização afirma possuir cópia de um relatório reservado da própria PM-RO sobre essas práticas e denuncia que Braguin recebia R$ 500 por dia por policial empregado, mas repassava somente R$ 200 ao agente. O paladino da “segurança”, segundo a denúncia, ainda tirava sua comissão sobre a guaxebagem. É com essa folha de serviços que pretende vender proteção aos trabalhadores.
Os cartazes e muros que tanto o incomodam dão nome a essa sinistra trajetória. Uma das pichações declara: “Coronéis PM-RO Marcos Rocha e Braguin: assassinos pau-mandado do latifúndio! Morte ao latifúndio! Viva a Revolução Agrária! Viva a LCP!”. Outros materiais exigem: “Fora PM guaxeba da Área Revolucionária Valdiro Chagas! Braguin assassino de camponês!” e homenageiam o trabalhador morto pelos assassinos do BOPE: “Companheiro Raimundo, presente na luta! Honra e glória aos lutadores do povo brasileiro! Viva a Liga dos Camponeses Pobres!”.
Braguin já se assustara ao encontrar uma pichação denunciando seus crimes no Rio de Janeiro e chegou a publicar uma fotografia nas “redes sociais”. No Direito e Saúde Podcast, em 9 de setembro de 2025, explicou sua descoberta sobrenatural: “Eles começaram a pregar panfletos com a imagem do comandante-geral chamando de assassino, comandante assassino, com um ‘x’ nos meus olhos. É um sinal de feitiçaria, magia negra”. Tanta pose de “especialista em segurança” para descobrir, diante de um desenho, uma conspiração sobrenatural!
Na mesma conversa, ameaçou os apoiadores: “Estão espalhando panfletos, mas a gente já sabe quem são, já identificamos alguns e vamos trabalhar em cima disso”. Ainda reclamou do “grupo da narrativa da LCP, que gosta de fazer as matérias que desqualificam a atuação policial, que coloca os camponeses como vítimas”. Talvez se referisse a esta tribuna. Para o coronel, o escândalo parece estar em denunciar o assassinato de camponeses e expor os serviços da PM-RO ao latifúndio.
A tentativa de intimidação fracassou: as ações de propaganda da Revolução Agrária multiplicaram-se por todo o País, enquanto o próprio Braguin acabou defenestrado do comando-geral em janeiro deste ano, após virem a público denúncias de violência doméstica e de embriaguez ao volante. Na Resenha Política de 20 de janeiro, admitiu que sua saída não fora voluntária e que o governador Marcos Rocha (PSD), seu colega de guaxebagem, ”decidiu pela exoneração”. Ele também confirmou que se recusara a fazer o teste do bafômetro e recebera uma multa.
O paladino da lei ainda forneceu um retrato do tratamento reservado ao comandante nas blitzes: “Das outras vezes já me reconhecem, já me liberam”. Quando lhe exigiram o teste, achou que era perseguição política. Na mesma entrevista, mostrou-se mais preocupado em saber quem divulgara seu auto de infração e a ocorrência de violência doméstica.
Braguin também reclamou, em janeiro, que as denúncias haviam sido feitas sem que lhe fosse dada “ampla defesa, contraditório para nada”. Já no programa A Voz do Povo, em 12 de agosto, defendeu que os mesmos direitos fossem negados aos que classifica como terroristas: “não tem que ter ampla defesa”. A defesa que exige para si vira estorvo quando atrapalha a “neutralização” de seus alvos. E o celerado já deixou claro que pretende colocar a LCP nessa categoria.
‘Tem guerrilha? A ascensão da LCP no Brasil’: há 18 anos, Embaixada ianque expressava preocupação com Revolução Agrária em telegrama oficial – A Nova Democracia
Documento disponível no WikiLeaks registra a circulação internacional de acusações contra o movimento camponês, em meio aos avanços da luta pela terra entre 2005 e 2008.
A solidariedade atravessa o País e o mundo
Segundo registros veiculados no blog Servir ao Povo, democratas e revolucionários de diferentes regiões vêm ampliando as ações em apoio à LCP e à Revolução Agrária e em denúncia dos crimes da PM-RO, de Braguin e do latifúndio. O compilado reúne centenas de registros de cidades nas cinco regiões do Brasil, entre elas Manaus, Recife, Fortaleza, Sorocaba, Dourados, Chapecó e Rio de Janeiro.
Essa mobilização já atravessa mais de um ano. Em setembro de 2025, AND registrou colagens em solidariedade à Área Valdiro Chagas na Universidade de Pernambuco, em Petrolina, e na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. O assassinato de Raimundo Nonato e os ataques às famílias impulsionaram denúncias que ultrapassaram Rondônia, levando às cidades a defesa dos camponeses e de sua luta pela terra.
A solidariedade à LCP também ganhou o mundo. O portal internacionalista O Arauto Vermelho registra ações da Juventude Comunista na França, manifestantes entoando o hino da Liga em Tampere, na Finlândia, e um encontro de operários e estudantes pela Revolução Agrária em Lisboa, Portugal. Na Espanha, o Comitê de Apoio para o Novo Brasil convocou um debate em Valência sobre “Revolução e Contrarrevolução no Campo Brasileiro”.
Essa solidariedade dá continuidade ao apoio internacional à grande resistência camponesa de 2020 e 2021, em Rondônia. A defesa do Acampamento Manoel Ribeiro e da LCP mobilizou ações, notas e denúncias na Alemanha, Áustria, Dinamarca, Noruega, México, Equador, Estados Unidos, Canadá e China, entre outros países. Também diante da ofensiva militar contra a Área Tiago Campin dos Santos, organizações de diferentes países ergueram bandeiras da LCP, colaram cartazes e denunciaram os crimes contra os camponeses. O movimento combativo de luta pela terra que Braguin e demais reacionários tentam reduzir à pecha de “facção” recebe, assim, o apoio e a solidariedade de operários, camponeses e revolucionários de diferentes partes do mundo.
Ao posar de vítima, Braguin volta a colocar em circulação as denúncias que gostaria de apagar e as palavras de ordem que lhe tiram o sono. Para quem pretende calar a LCP, o coronel influencer tem se mostrado bastante aplicado em divulgar suas consignas.
Fonte - A Nova Democracia
As religiões prometem a salvação da alma, em troca de indulgências (o perdão dos "pecados", ou seja, das nossas faltas, dos nossos deslizes morais, como se os religiosos, estelionatários que são, tivessem moral) e de dízimos, quando não de heranças.
O Estado, sempre imbricado com as religiões (o trono e o púlpito sempre de mãos dadas), no interesse eleitoreiro dos poderosos (aos quais as religiões incensam e protegem, numa troca de interesses descarada e repugnante) e da segurança dos mesmos, fazendo os diversos credos o papel de anestésico das consciências dos crentes, mantendo-os mansos e conformados (por se acharem em dívida moral) ante a incompetência e/ou as falcatruas dos executivos, dos legisladores e dos magistrados. O Estado (União, Unidades federativas e Municípios) prometem implementar e manter políticas sociais, voltadas para a segurança (física) do povo, extorquindo tributos os mais variados e, não raramente, bi-tri-tributando e a arrecadação vai parar, em grande parte, nos cofres ávidos dos financistas que adiantam recursos para a aplicação de tais políticas, perdendo-se a maior parte do dinheiro nas mãos dos corruptos e por via do desperdício.
Por seus papéis enganadores, igrejas e Estado dão-se muito bem (são unha e carne, sempre em alianças espúrias e indecentes), ganhando muito os pregadores e até um estado estrangeiro (o famigerado Vaticano) com a exploração descarada das riquezas de outras nações. O Vaticano mantém incontáveis colônias mundo afora, sem que os povos colonizados se rebelem, por temor às ideias de existência de um "deus", inferno e outros embustes.
E qualquer cidadão que, tendo os olhos abertos, disperte para tais indecências, rebelando-se contra o pagamento de tributos que considere exagerados, é enquadrado como herege, ateu, sonegador e até subversivo. Quem não "engole os sapos", vê-se perseguido, constrangido e estigmatizado como criminoso.
Tinham razão alguns revolucionários franceses (dentre eles um ex-abade jesuíta - RAYNAL, lá nos idos de 1789), mentes privilegiadas (inspiradas por outro padre JEAN MESLIER) e dignas de todas as reverências, quando se debatiam contra as injustiças do mundo, dizendo que era necessário enforcar o último rei com as tripas do último padre, ou algo semelhante, para a liberdade do ser humano, uma afirmação contundente, mas que se afigura como a solução mais plausível para fazer-se cessar a indecente exploração da humanidade, sendo certo que onde se lê rei, deve-se ler, obviamente, rentistas, políticos e certos magistrados, bem como, onde se lê padres, leia-se também papas, cardeais, bispos, pastores, pais de santos, aiatolás, rabinos e outros que se dedicam à exploração inescrupulosa da ingenuidade alheia, valendo-se da hipótese remota (e cheia de má-fé) da existência de um "deus", que teria concentrado a ideia de muitos outros deuses dos panteãos egípcio, romano e gregos, por exemplo.
Sobre a frase acima (em itálico):
Dele é a conhecida frase erroneamente atribuída a Voltaire: "O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre", encontrada no livro Extrait des sentiments de Jean Meslier, editado por Voltaire.
Jean Meslier nasceu em Mazerny, nas Ardenas. Era filho de Gerard Meslier, um agricultor com certa notoriedade dono de algumas terras e comerciante de tecidos,[3] que fazia parte da pequena e média burguesia, dedicando seu esforço ao trabalho agrário.[4] Sua infância carece de registro a não ser por sua assinatura como padrinho de batismo de sua irmã aos 8 anos de idade.[5]
Iniciou os estudos de latim com um padre do bairro a partir de 1678, e ingressou aos 20 anos no seminário de Reims, onde estudou durante 5 anos. Mais tarde alegou no prefácio de seu testamento que isso foi feito para agradar seus pais. No final de seus estudos recebeu as Ordens Sagradas e, em 7 de janeiro de 1689, tornou-se padre em Étrépigny, em Champagne.
Meslier exerceu seu cargo sem queixa ou problema por 40 anos, salvo por um desentendimento público com um nobre local. No entanto, ele foi repreendido duas vezes pelas autoridades clericais por empregar inadequadamente jovens servas, a quem o ateu e biógrafo de Meslier Michel Onfray especula que ele predava sexualmente.[6] "Discreta e secretamente, o cura teve que praticar a alegria do amor livre defendida em seu trabalho", escreve Onfray. [6] Ele vivia como um mendigo, e cada centavo que sobrava era doado aos pobres.[7]
Em 1689, Meslier torna-se padre da paróquia de Etrépigny, onde seguiu sua carreira como abade por 4 décadas até sua misteriosa morte em 1729. Em 1716, Antoine de Touly – acusado por Meslier de despotismo e de cometer iniquidades contra seu servos - reclama para o arcebispo François de Mailly a recusa do abade de citá-lo na homilia. Convocado a retratar no domingo seguinte o padre declarou em tom irônico:
"Eis a sorte ordinária dos pobres curas; os arcebispos, que são grandes senhores, desprezam-nos e não os escutam, só têm ouvidos para a nobreza. Oremos pois pelo senhor deste local. Roguemos a Deus por Antoine de Touly; que Ele o converta e lhe conceda a graça de não maltratar o pobre e despojar o órfão."[8]
Com isso, Touly mais uma vez se queixa ao arcebispo, que condena Meslier a um mês de reclusão no seminário de Reims.
Após seu falecimento, foram encontrados em seu cômodo uma carta dirigida aos párocos da vizinhança, seu testamento posteriormente chamado de Memorias e um pequeno texto intitulado como Anti-fenelon.[9]
Quando Meslier morreu, em Étrépigny, foram encontrados em sua casa três cópias de um manuscrito octavo de 633 páginas, no qual a curadoria da vila denuncia a religião organizada como "simplesmente um castelo no ar" e a teologia como "somente a ignorância sobre as causas naturais reduzida a um sistema".
Em seu Testamento, Meslier repudia não apenas o Deus do cristianismo convencional, mas também o Deus genérico da religião natural dos deístas.[10] Para Meslier, a existência do mal é incompatível com a ideia de um Deus bom e sábio.[11] Nega que qualquer valor espiritual possa ser obtido do sofrimento,[12] e usa o argumento deísta do desígnio contra deus, mostrando os males que ele havia permitido neste mundo.[13] Para Meslier, as religiões são invenções fomentadas pelas elites dominantes; embora os primeiros cristãos tenham sido exemplares na partilha de seus bens, o cristianismo há muito degenerou em encorajar a aceitação do sofrimento e a submissão à tirania como praticada pelos reis da França: a injustiça é explicada como sendo a vontade de um ser onisciente.[14] Nenhum dos argumentos usados por Meslier contra a existência de Deus é original. Na verdade, deriva-os de livros escritos por teólogos ortodoxos no debate entre os jesuítas, cartesianos e jansenistas. Sua incapacidade de concordar com uma prova da existência de Deus é vista por Meslier como uma boa razão para não presumir que haja motivos persuasivos que justifiquem a crença em Deus.[10]
A filosofia de Meslier é a de um ateu.[15] Nega também a existência da alma e descarta a noção de livre-arbítrio. No capítulo V, o sacerdote escreve: "Se Deus é incompreensível para o homem, pareceria racional nunca pensar n'Ele". Meslier mais tarde descreve Deus como "uma quimera" e argumenta que a suposição de Deus não é um pré-requisito para a moralidade. De fato, ele conclui que "Existe um Deus ou não [...] os deveres morais dos homens serão sempre os mesmos enquanto eles possuírem sua própria natureza".[16]
Nos capítulos XXXIII e XXXIV, Meslier desafia a saúde mental de Jesus, insinuando que Jesus "era realmente um louco, um fanático" (étoit véritablement un fou, un insensé, un fanatique).[16][17]
Em sua citação mais famosa, Meslier refere-se a um homem que "desejava que todos os grandes homens do mundo e toda a nobreza pudessem ser enforcados e estrangulados com as tripas dos padres".[18] Meslier reconhece a truculência do desejo, mas assevera que é exatamente o que merecem os sacerdotes e a nobreza, não por vingança ou ódio, mas por amor à justiça e à verdade.[19]
Igualmente conhecida é a versão de Diderot: "E [com] a coragem do último padre vamos estrangular o pescoço do último rei."[20] Durante a agitação política de maio de 1968, os estudantes radicais do Comitê de Ocupação da Sorbonne parafrasearam o epigrama de Meslier, afirmando que "a humanidade não será feliz até que o último capitalista seja enforcado com as tripas do último burocrata".[21]
Meslier também ataca com veemência a injustiça social e esboça uma espécie de protocomunismo rural.[15] Todas as pessoas de uma região pertenceriam a uma comuna em que a riqueza seria mantida em comum e todos trabalhariam. Fundadas no amor e na fraternidade, as comunas aliar-se-iam para prestarem auxílio umas às outras e preservar a paz. [22]