Perfil

Advogado - Nascido em 1949, na Ilha de SC/BR - Ateu - Adepto do Humanismo e da Ecologia - Residente em Ratones - Florianópolis/SC/BR

Mensagem aos leitores

Benvindo ao universo dos leitores do Izidoro.
Você está convidado a tecer comentários sobre as matérias postadas, os quais serão publicados automaticamente e mantidos neste blog, mesmo que contenham opinião contrária à emitida pelo mantenedor, salvo opiniões extremamente ofensivas, que serão expurgadas, ao critério exclusivo do blogueiro.
Não serão aceitas mensagens destinadas a propaganda comercial ou de serviços, sem que previamente consultado o responsável pelo blog.



quinta-feira, 12 de setembro de 2019

UMA FACADA HISTÓRICA

Tudo aquilo que a faca rasgou não pode ser reparado. Os vasos sanguíneos, os nervos, (...) e mesmo o intestino (...). 

COLLEEN McCULLOUG - Senhores de Roma - Livro II/A coroa de ervas - Edit.Bertrand Brasil/RJ/2008, p. 446. 

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

CONSERVAR OU INOVAR?

Nosso Estado de Santa Catarina tem fama e comporta-se mesmo, em sua grande maioria, como conservador, principalmente na hora de votar e escolher seus mandatários. Foi assim que se deu uma guinada em direção ao PSL, de Bolsonaro, de braços dados com as velhas oligarquias, além do setor militar, do qual se origina, as velhas castas do Judiciário, da agricultura, da pecuária, dentre outras tradicionalistas por excelência. 
Cumpre lembrar a lição de DAVATZ (Memórias de um colono no Brasil, p. 23):   As instituições tradicionais não vivem apenas de prestígio moral e estético. Pretender mantê-las sem um apoio efetivo na realidade é cair em vago e caprichoso formalismo. 
Os tempos atuais não se prestam a conceitos e práticas rançosas e todos somos forçados a aceitar e adotar modernidades incontáveis, a cada dia que passa. Inovar não se trata mais de uma opção, mas de uma necessidade imperiosa, assim na administração pública, como nos negócios privados, de modo que pretender tocar a administração pública com base em princípios religiosos e ideológicos superados, baseada em privilégios odiosos, acumulação de riqueza nas mãos de classes tradicionalmente dominadoras, só pode levar o país a um verdadeiro desastre. 
Urge que nos livremos, principalmente, de instituições bancárias e religiosas que agem como senhores feudais, acolitadas por governos de idêntico comportamento. 
Os cristãos evangélicos - principal base de apoio do governo Bolsonaro - constituem a massa mais retrógrada que se conhece, tendente a uma submissão bovina, aceitando a "canga" religiosa e moral de modo aviltante, a tal ponto que se submetem ao execrável "dízimo" - que torna os bispos, favorecidos por tais doações,  verdadeiros potentados - sacrificando o bem-estar das suas famílias, em troca de promessas irrealizáveis, vítimas de um pernicioso estelionato religioso, que os tornar dignos de dó, tamanha a ingenuidade que demonstra. 
E a justiça - propositadamente com "j" minúsculo - não se atreve a ver a "liberdade religiosa" (que implica em imunidade e isenções tributárias incontáveis, das quais se beneficiam os pregadores estelionatários, senão como verdadeiro atentado à dignidade humana, que a Constituição Federal buscou tutelar.  
Esse conluio perverso da administração pública conservadora com pregadores inescrupulosos e perversos, atenta, de modo gritante, contra os interesses e a dignidade do nosso inculto e ingênuo povo, transformando-o em servo de interesses espúrios e indecentes. 
Em suma: enquanto não houver, neste país, uma verdadeira e radical mudança de postura do povo, guiada por cabeças pensantes bem intencionadas, nosso país continuará alvo do deboche das demais nacões, que nos tomam por uma manada de descerebrados e incapazes de pensarmos mudanças no nosso destino. 
Uma lástima o quadro atual, portanto. 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

A CULTURA DAS QUEIMADAS

 (...) os métodos bárbaros da agricultura indígena eram em alguns casos os que convinham. 
Como substituir as derrubadas e queimadas brutais para o estabelecimento de novas plantações? Todos os expedientes familiares ao lavrador europeu visando conservar a atividade e o vigor dos solos de cultura perdiam o valor. 
Não há exagero também em dizer que seriam até perniciosos nos casos em que precisamente a extrema fertilidade das terras surgia como barreira a vencer. 
Nas lavouras de açúcar não faltava, por exemplo, quem tratasse de "esterilizar" o solo por via de plantas e fogos contínuos, para que as canas não crescessem demasiado selvagens, quer dizer gordas e viçosas, ricas em caldo, mas de pouco açúcar. 
O café criado em terra fértil — dizia Burlamaque — produz bela vegetação, porém maus frutos e escassos. 
Assim pensavam os fazendeiros do tempo, e o Senador Vergueiro, autoridade acatada nestes assuntos, costumava mandar derrubar as matas, aproveitava as terras durante alguns anos para outras comodidades, e deixava crescerem capoeiras; só ao cabo disso fazia plantar as primeiras mudas de café. 

Trecho da obra de THOMAS DAVATZ - Memórias de um colono no Brasil (1850) -  Livraria Martins/SP, p. 6.

Estás desanimado da vida, "filhinho da mamãe", mimadinho?

Pensando até em suicídio, que está na moda? 

Ou pensando em encher a tua parceira de porrada e chumbo, só porque teus sonhos de consumo não se realizam? 

Ou pensando em desaforar teus empregados, porque tua empresa vai mal? 

Vai te catar, mimadinho !!!  Lê o relato abaixo e vê "se te flagras", né ôôô, bicho fraco.

-=-=-=-

Um pedaço de tronco humano, encostado à parede, atraiu-nos a atenção. Chapéu de palha sobre uma esteira, com o ar de quem descansava em macia poltrona, aquele saldo de gente exibia o que lhe restava da liquidação feita pelo destino. Uma perna amputada pela coxa, outra até o joelho. Ficara-lhe apenas o braço esquerdo. Constou-nos a sua tragédia. Era “broqueiro” numa pedreira da estrada de ferro. Tivera, pela falta de ajudantes, de colocar a grossa dinamite no buraco feito no extenso paredão rochoso. E, ou porque o estopim fosse curto, ou por outra circunstância, a mina explodira, antes que se afastasse. Fora - acentuou - retirado feito pirão, envolvido num cobertor, sem saberem se conduzi-lo à cova ou ao hospital. E agora, ali estava, em perfeita-saúde, esperando viver compridos anos. Falava pelos cotovelos: rindo, no contentamento de quem triunfou da morte. Dei-lhe um cigarro aceso: cegara de um olho, o outro já a enxergar nevoeiro. Puxou uma larga tragada, deliciado, com estalos de língua. E o caco humano, numa lição de otimismo magnífico, exclamou, com um sorriso amplo: “A vida é uma coisa boa e bonita”.

Extraído de TITO CARVALHO - Gente do meu caminho - Edit. da UFSC/Fpolis/1997, p. 119. 

MORRO DO CEMITÉRIO, FORNO DO LIXO, HOJE PARQUE DA LUZ


Tremo só de pensar que logo abaixo, na encosta que dá para o Estreito, naquele estupendo lugar, já colocamos o "forno do lixo" da cidade.


TITO CARVALHO - Gente do meu caminho - Edit. da UFSC/Fpolis/1997, p. 91, cantando as belezas do nosso "rincão adorado": 
 
 E só à tarde ia ao Morro do Cemitério, fascinar-se do poente de maravilha, em mutações de incomparável beleza, ímpar no mundo, da minha Ilha bem querida. Ilha de Santa Catarina.

Você já leu ARAÚJO FIGUEIREDO?



TITO CARVALHO - Gente do meu caminho - Edit. da UFSC/Fpolis/1997, p. 83: Ninguém, como Araújo Figueiredo, cantou com tão viva paixão de enamorado as curvas harmoniosas e os recantos lindos da orla marítima catarinense. Coqueiros, a um desvão do Continente, era o seu doce embevecimento.

SUJEIRAS DE QUINTALEJOS DOMÉSTICOS

Pensando nos livros que estão sendo tão duramente atacados, por conterem o beijo gay, dentre outras "heresias", segundo o pensamento conservador dominante no governo atual e seus simpatizantes, veio-me à mente o trecho escrito por TITO CARVALHO (em Gente do meu caminho - p. 75):
 "O artificialismo moralista escondia sujeiras de quintalejos domésticos".

sábado, 7 de setembro de 2019

O que faz de José Bonifácio patriarca não só da Independência, mas das florestas do Brasil

Marcus Lopes De São Paulo para a BBC News Brasil




6 setembro 2019




"Destruir matas virgens, como até agora se tem praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza. Que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?" 
O texto, de 1821, um ano antes da Independência do Brasil, mostra que a preocupação com a destruição de florestas no território nacional é mais antiga do que o próprio Estado brasileiro.

O autor do alerta contra o desmatamento, redigido há quase 200 anos, não entraria para a História como ecologista, e sim como um dos fundadores do Estado brasileiro: José Bonifácio de Andrada e Silva, o chamado Patriarca da Independência.

Nas escolas, estudantes aprendem que José Bonifácio, filho de uma família abastada e nascido em 1763 na cidade de Santos (SP), é considerado um dos mais importantes estadistas brasileiros e personagem fundamental no processo de Independência do Brasil. Mas a biografia dele vai além da política: ele é também um dos precursores na defesa das florestas no território nacional.

"Bonifácio foi um personagem muito importante, apesar de ainda pouco reconhecido, na construção dessa preocupação com o ambiente e o futuro das florestas em escala mundial", diz o historiador José Augusto Pádua, professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde é um dos coordenadores do Laboratório de História e Natureza.

Filho de uma família rica - seu pai era importante funcionário da Coroa portuguesa - o jovem Bonifácio foi estudar na Universidade de Coimbra, onde teve uma sólida formação em Direito, Filosofia Natural e Matemática. Um de seus professores em Portugal foi o italiano Domênico Vandelli, especialista em História Natural e Botânica e que exerceu forte influência sobre o estudante brasileiro, que se tornou pesquisador naturalista, mineralogista e professor em Portugal durante muitos anos, além de exercer cargos públicos no governo português. Entre eles, a direção dos bosques nacionais.

"Ele explicava com detalhes sobre a importância de preservar os bosques do Reino. Isso não era nada comum nos tempos dele", explica o historiador Jorge Caldeira, organizador da biografia José Bonifácio de Andrada e Silva, da Coleção Formadores do Brasil. "Era um ecologista prático, bastante apurado para os dias de hoje. Tanto é que seu primeiro trabalho científico foi em defesa da preservação das baleias", completa Caldeira. 

O texto citado por Caldeira foi publicado por José Bonifácio em 1790. Trata-se do Memória sobre a pesca da baleia e a extração do seu azeite, publicado pela Academia das Ciências de Lisboa. No texto, o político e estudioso alertava para o pouco retorno econômico da atividade de caça à baleia para extração do óleo, frente ao poder destrutivo do meio ambiente e a consequente redução do número de baleias na costa brasileira.

"Dentre outros naturalistas da época, José Bonifácio criticava a caça predatória da baleia, por julgá-la antieconômica, assim como as grandes propriedades monocultoras. Apreciador das matas e madeiras brasileiras, alinhava-se com estudiosos que, desde a fundação dos primeiros jardins botânicos no século 18, valorizavam o plantio de espécies raras", explica a historiadora Mary Del Priore, autora do livro As Vidas de José Bonifácio (Estação Brasil), que retrata a vida do Patriarca da Independência. "Ele era também favorável à inserção de índios e negros na sociedade depois de 'civilizados'", completa a historiadora.

De volta ao Brasil, em 1819, José Bonifácio tornou-se ministro e conselheiro do Príncipe Regente e futuro imperador D. Pedro 1º. Foi ele quem incentivou o monarca a proclamar a Independência do Brasil, em 1822, e integrou o primeiro escalão de dirigentes da nova nação. Entre outras atribuições, organizou a resistência do novo governo independente aos movimentos contra a separação de Portugal que surgiram na época em várias partes do país.

Apenas alguns meses após seu retorno ao Brasil, Bonifácio embrenhou-se nas matas do Estado de São Paulo junto com seu irmão, Martim Francisco, para aprofundar seus estudos naturalistas, em especial na Mata Atlântica que na época dominava o território paulista, mas já sofria os efeitos do desmatamento para expansão das lavouras e da pecuária.

Logo nos primeiros dias de expedição, o viajante lamenta o "miserável estado em que se acham os rios Tietê e Tamandataí, sem margens nem leitos fixos, sangrados em toda parte por sarjetas, que formam lagos que inundam essa bela planície." Nos arredores da Vila de Itu, observa que "todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado."

Em 1821, quando o Brasil estava na condição de Reino Unido a Portugal, Bonifácio defendeu, em um artigo chamado Lembranças e Apontamentos do Governo Provisório para os Senhores Deputados da Província de São Paulo, a criação de uma "Direção Geral de Economia Política", que seria responsável por obras públicas, minas, bosques, agricultura e fábricas.

Essa política integrada desenhada por José Bonifácio para a administração do Brasil, na sua visão, seria responsável pela preservação das riquezas naturais brasileiras, em especial os rios, matas e densas florestas que, na opinião do político e naturalista, eram fundamentais para a saúde do território nacional. Seria um grande ministério reunindo as áreas de meio ambiente, infraestrutura e agricultura. A proposta, porém, nunca saiu do papel e o Brasil tornou-se independente de Portugal em 1822.

"As preocupações e propostas ambientais de José Bonifácio estavam inseridas na discussão geral sobre o futuro do Brasil. Creio que ele propunha um ministério de planejamento geral da economia no sentido de uma relação mais racional com a natureza. Ou seja, todas as atividades econômicas estariam conectadas com o objetivo de acabar com a devastação e o desperdício, tratando o mundo natural de uma maneira mais cuidadosa e cientificamente inteligente", diz Augusto Pádua.

"Mesmo que o contexto atual seja tão diferente, creio que seria um grande avanço se pudéssemos retomar, ou de fato reinventar, essa maneira de enxergar o cuidado ambiental como eixo de todas as ações de governo relativas às atividades produtivas", completa o historiador da UFRJ.

Na Assembleia Constituinte de 1823, Bonifácio, eleito deputado constituinte, levou ao Parlamento ideias e emendas muito avançadas para a época, como o fim da escravidão, instituição de uma reforma agrária, preservação das matas e rios brasileiros, obrigação de conservar uma parte das propriedades rurais com florestas nativas, direito de voto aos analfabetos e até a mudança da capital do país para o Planalto Central, algo que só se tornaria realidade mais de um século depois, em abril de 1960, no governo do presidente Juscelino Kubitschek.

Para Bonifácio, a criação de uma grande nação só seria possível caso fossem superados problemas estruturais herdados do passado colonial. O principal deles era a escravidão. "Uma novidade muito interessante no seu pensamento foi justamente estabelecer uma relação de causalidade entre o domínio da escravidão e as dinâmicas de desflorestamento, degradação dos solos e destruição da fauna e da flora, diz Augusto Pádua.

"Ele não via a escravidão apenas como uma técnica, mas sim com algo parecido com o que veio a ser chamado mais tarde de modo de produção. A continuidade da escravidão levaria à destruição do grande trunfo com o qual o Brasil poderia contar para o seu progresso, que era a riqueza natural", completa o professor da UFRJ.

Ideias tão avançadas para a época custaram a José Bonifácio muitas inimizades entre os poderosos da época, principalmente a elite agrária e política conservadora, e o rompimento com o próprio imperador D. Pedro 1º. Após ser demitido do governo, Bonifácio é exilado e parte para uma longa temporada na Europa, de onde só retornaria em 1829, após se reaproximar do imperador e ser nomeado tutor do seu filho, D. Pedro 2º.

De acordo com os especialistas, em textos publicados ao longo de sua carreira na Europa e no Brasil, em especial entre 1790 e 1823, Bonifácio construiu o que hoje chamaríamos de agenda ambiental e são importantes para entender a história do meio ambiente no Brasil.

"Ele foi, sem dúvida, um homem muito preocupado com os recursos naturais, isto em um tempo que praticamente não existia consciência de preservação ambiental", diz o desembargador aposentado e professor de Direito Ambiental na PUC-PR, Vladimir Passos de Freitas. "Eu não posso afirmar que foi o único, porque antes dele Portugal criou em Ilhéus, na então província da Bahia, um cargo de Juiz Conservador das Matas. Mas posso dizer que foi o primeiro a aprofundar-se em temas ambientalistas variados", completa Passos de Freitas.

Um dos artigos mais famosos de José Bonifácio, de 1823, atesta que, caso o Brasil não tomasse providências para preservar suas florestas, rios e demais recursos naturais, em menos de dois séculos estaria convertidos nos "páramos e desertos áridos da Líbia". "Virá então este dia, (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos", escreveu o Patriarca da Independência. Há quase dois séculos.
Fonte: BBC

PRIMAVERA se aproxima


Olhai irmãos, chegou a primavera. A Terra casou-se com o Sol, e, em breve, teremos os frutos desse amor.


Todos os grãos estão despertos e os animais também. Esse grande poder é igualmente nossa fonte de vida.


Por isso que os nossos companheiros, homens e animais, têm os mesmos direitos que nós sobre a terra. Escutem, irmãos: agora devemos contar com uma outra raça. Eram poucos e fracos, quando nossos antepassados os encontraram pela primeira vez: agora são numerosos e fortes.


É uma coisa estranha, mas eles querem lavrar a terra. Neles, a cupidez é uma doença muito espalhada.


Fizeram muitas leis, os ricos podem fugir a elas, mas os pobres não


…...Dizem que nossa mãe Terra pertence a eles, apenas. E, repelem os vizinhos. Mutilam nossa mãe Terra com suas casas e seu lixo. Forçam a terra a dar frutos fora da estação e, se ela se recusa, dão a ela remédio, lá deles.


Trechos atribuídos ao líder Sioux Touro Sentado, em 1875.
Extraídos da obra de PAULO FERNANDO LAGO - A consciência ecológica/A luta pelo futuro - Edit. da UFSC/Co-edição UDESC - 1986, p. 23.

--=-=-=-=


Pois, hoje estive em uma chacrinha em Santo Amaro e os sinais inequívocos da primavera, que se aproxima, já são perfeitamente visíveis.

As laranjeiras estão carregadas de botões brancos, promessas de verdadeiros pomos de açúcar. De outro lado, os fungos pretos não perdem tempo e atacam brotos e folhas, buscando sua parte de substância no festim da vida vegetal.

Pássaros já carregam gravetos, capins, ervas, para compor seus ninhos. Não demorará muito e os sabiás estarão cantando alegremente, aguardando ansiosamente o nascimento dos filhotes que se incumbirão de ir perpetuando a espécie.

As vacas e éguas estarão "corridas", como se diz na gíria do campo, provocando reprodutores a cobri-las, de sorte a trazerem ao mundo os seus rebentos, tal e qual as árvores colocam seus brotos à luz do sol.

Este é um momento mágico da natureza, que se renova, infalivelmente, mesmo que o ser humano - nem sempre consciente da importância e da necessidade de respeitar a "mãe Terra" e as outras espécies -, cometa incontáveis desatinos, na busca irracional e desmedida de lucros e vantagens, a qualquer custo.
 

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Castro Alves - A queimada


Do famoso vate baiano CASTRO ALVES:
 


Meu nobre perdigueiro! Vem comigo.
Vamos a sós, meu corajoso amigo,
Pelos ermos vagar!
Vamos Já dos gerais, que o vento açoita,
Dos verdes capinais n'agreste moita
A perdiz levantar!...

Mas não!... Pousa a cabeça em meus joelhos...
Aqui, meu cão!... Já de listrões vermelhos
O céu se iluminou.
Eis súbito da barra do ocidente,
Doudo, rubro, veloz, incandescente,
O incêndio que acordou!

A floresta rugindo as comas curva...
As asas foscas o gavião recurva,
Espantado a gritar.
O estampido estupendo das queimadas
Se enrola de quebradas em quebradas,
Galopando no ar.

E a chama lavra qual jibóia informe,
Que, no espaço vibrando a cauda enorme,
Ferra os dentes no chão...
Nas rubras roscas estortega as matas....
Que espadanam o sangue das cascatas
Do roto coração!...

O incêndio — leão ruivo, ensangüentado,
A juba, a crina atira desgrenhado
Aos pampeiros dos céus!...
Travou-se o pugilato e o cedro tomba...
Queimado... Retorcendo na hecatomba
Os braços para Deus.

A queimada! A queimada é uma fornalha!
A irara — pula; a cascavel — chocalha...
Raiva, espuma o tapir!
... E às vezes sobre o cume de um rochedo
A corça e o tigre — náufragos do medo —
Vão trêmulos se unir!

Então passa-se ali um drama augusto...
N'último ramo do pau-d'arco adusto
O jaguar se abrigou...
Mas rubro é o céu... Recresce o fogo em mares...
E após... Tombam as selvas seculares...
E tudo se acabou!...