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domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Diáspora Dos Anussim Açorianos Para o Brasil Colonial

A Diáspora Dos Anussim Açorianos Para o Brasil Colonial
http://www.rabimor.org/hayym2.php

I – O TRIBUNAL DA INQUISIÇÃO EM PORTUGAL

O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição em Portugal foi instituído, definitivamente, depois de diversas tentativas, pela Bula do Papa Paulo III, em 23 de maio de 1536, isto é, quarenta anos após a "expulsão" dos judeus das terras lusitanas, em 5 de dezembro de 1496, por édito promulgado pelo Rei D.Manuel I, em Muge, próximo a Lisboa. D.Manuel, como seus antecessores, sempre protegeram os "seus" judeus, mas devido a seu interesse em casar-se com uma princesa espanhola, aceitou a condição que lhe foi imposta pela noiva: a expulsão dos judeus de Portugal. Entretanto, a vontade do rei não era essa já que os judeus emprestavam dinheiro à Coroa e lhe pagavam muitos impostos. D. Manuel disse que daria barcos para quem quisesse sair do Reino, o que foi feito para poucas famílias abastadas, entre elas as famílias de Abraham Zacuto, cosmógrafo, matemático e filósofo que aperfeiçoou as Tábuas de Navegação criando o Almanach Perpetuum, trabalho que permitiu o desenvolvimento das navegações portuguesas e a de Isaac Abravanel, banqueiro. A grande massa dos judeus de Lisboa e arredores, num total de aproximadamente vinte mil pessoas, ficou "a ver navios", isto é, sem os barcos prometidos pelo rei. Era o que o monarca queria e ordenou aos sacerdotes católicos que batizassem a todos os que estavam na Ribeira à espera dos barcos que não chegaram. Os cronistas da época contam que o desespero era grande entre judeus devotos. Os infelizes judeus portugueses foram arrastados a pia batismal ou simplesmente lhes era jogada a água benta na cabeça para que se tornassem cristãos. Houve mães que jogaram seus filhos ao mar ou se suicidaram rejeitando o chamado "batismo em pé". É que os filhos até catorze anos eram arrancados dos braços das mães e entregues a famílias cristãs para adoção ou eram degredados para o arquipélago africano de São Tomé, onde grande parte morreu devido às condições inóspitas daquelas ilhas, chamadas à época as dos Crocodilos.

Foi assim o surgimento dos cristãos-novos em Portugal. Ao serem batizados, tomavam o nome do padrinho, ou traduziam seus nomes hebraicos para o português, como Jacob Shalom tornou-se Thiago da Paz, havendo transformações de nomes de toda a ordem, tornando-se hoje, mais difícil a pesquisa para se saber quem descende de judeus. Eles adotaram, praticamente, todos os sobrenomes portugueses, inclusive nomes de árvore como Carvalho, e de animais como Leão e Lobo símbolos totêmicos das tribos de Judá e de Benjamim respectivamente, Passarinho, tradução de Zippor, nomes de cidades como Porto, Lisboa, Almada além de outros critérios. Um batismo famoso foi o de Gaspar da Gama, cujo nome verdadeiro não se tem certeza, o intérprete de Pedro Álvares Cabral, o primeiro cristão-novo a pisar oficialmente o solo brasileiro. Ele foi encontrado em Angediva, Índia, em 1498, quando Vasco da Gama lá chegou pela primeira vez descobrindo o caminho para as Índias, com o nome de Yusuf Adil, dizendo-se natural da Polônia e falando vários idiomas, entre eles o espanhol. Vasco da Gama obrigou-o a ser batizado como católico, oferecendo-se como padrinho e dando-lhe, daí em diante, o nome de Gaspar da Gama. Embarcado para Portugal sem a família, já que sua mulher recusou-se ao batismo e fugiu, Gaspar tornou-se famoso na Corte portuguesa onde era conhecido como Gaspar das Índias e ganhou muitas mercês. Convocado por Cabral integrou a frota como marinheiro e intérprete, ou "língua" como chamavam na época. Mais tarde envolveu-se, Gaspar da Gama, com o contrabando proibido de Bíblias hebraicas para as sinagogas orientais, principalmente a de Cochim, a mais antiga do Oriente em funcionamento desde o Século XVI até os dias atuais. Essas bíblias, rolos contendo em hebraico os cinco primeiros livros da Bíblia e que se chamam Torá e no plural Torot, tinham sido confiscadas das sinagogas de Lisboa e de outros lugares do país. Mas Gaspar safou-se destas acusações e teve uma vida de fidalgo em Portugal. A solução dada por D. Manuel foi cruel para os judeus portugueses, que desde épocas imemoriais viviam em Portugal talvez trazidos pelos romanos. Em 1300, na tomada de Santarém aos mouros, foi encontrada uma sinagoga na Judiaria, como eram chamadas as comunidades judaicas no território luso, daquela cidade. Na verdade existiam Judiarias, também chamadas de Alfamas, ou Rua dos Judeus, em praticamente todas as cidades lusitanas. Em Lisboa chegou a existir três comunidades, cada uma com sua escola, açougue casher, que segue as leis dietéticas judaicas, sinagoga ou esnoga como denominavam os judeus lusitanos e com seu Arrabi-Mór, o rabino chefe. A comunidade judaico-portuguesa era estimada em torno de 100 mil pessoas para uma população geral de um milhão de habitantes, tendo sido acrescida em 1492, quando da expulsão dos judeus da Espanha, de outros 100 mil. Conforme estimativas da época, formavam um quinto da população portuguesa, muitos deles ricos banqueiros ou mercadores, mas, em sua maioria artesãos, alfaiates, sapateiros, armadores, boticários, médicos, ferreiros etc.

Os cristãos-novos viveram anos sem serem molestados, muitos deles praticando sua religião em casa, até o surgimento do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição em Portugal em 1536, instituição que já existia na Espanha e tomou os moldes desta. As Inquisições surgiram com as heresias praticadas no Sul da França (Cátaros e Albigenses) e mesmo na própria Roma. A heresia era tudo aquilo que contrariasse os cânones católicos, um afastamento dos dogmas da Igreja Romana. Tendo sido sempre reprimidas com força e violência pelas autoridades eclesiásticas. Morrer queimado na fogueira era a pena maior, às vezes, queimados vivos, mas na maioria das vezes já garroteados. As penas eram muitas, entre elas passar o resto da vida vestindo os Sambenitos, que eram roupões compridos com dizeres e desenhos de insígnias de fogo e demônios. Depois da morte dos penitenciados, esses Sambenitos eram pendurados nas Igrejas sempre identificados com o nome de quem os usou, para que seus descendentes ficassem com fama de judeus para o resto de suas vidas. Eram penitenciados também com a pena das galés, remando ou trabalhando nas naus, por anos ou para sempre, isto é, até morrer. A melhor pena era o desterro para o Brasil ou para as colônias portuguesas na África. Nesses territórios colonizados pelos lusitanos, os cristãos-novos tinham mais liberdade, e não enfrentaram tribunais inquisitoriais, tendo apenas recebido, como no Brasil, nas Ilhas Atlânticas (Arquipélago dos Açores, Madeira, São Tomé e Príncipe) e Angola, Visitações, que consistiam em visitas de bispos com poderes para receber denúncias de práticas das religiões: judaica, maometana, protestante, e ainda, feitiçaria, bruxaria, blasfêmia, sodomia, solicitação, e outros "delitos" menores. O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição só foi abolido em Portugal em 1820.

II – OS CRISTÃOS-NOVOS NO BRASIL

Depois do descobrimento, quando Gaspar da Gama aqui desembarcou, os cristãos-novos não pararam de chegar ao Brasil. Logo em 1502, o Brasil foi arrendado a um consórcio de comerciantes cristãos-novos comandados por Fernando de Noronha, descobridor da ilha que leva hoje seu nome. Eles exploraram, numa espécie de contrato de risco, o comércio de pau-brasil por alguns anos até que a Coroa se interessasse mais pelo novo território descoberto, uma vez que os olhos dos monarcas lusitanos estavam voltados para o Oriente, especialmente a Índia, de onde vinham as especiarias vendidas em toda a Europa. Em seguida, 1516, com a implantação das feitorias na costa e os engenhos de açúcar, chegam mais imigrantes e degredados portugueses, entre eles, muitos cristãos-novos. Os chamados degredados, em sua maioria, eram penitenciados pela Inquisição cujo delito era ter atentado contra fé católica e os costumes então vigentes e não a escória de Portugal como querem fazer crer algumas pessoas. Esses cristãos-novos conheciam o trabalho da moagem de açúcar, da Ilha da Madeira ou da Sicília, enriquecendo nesse trabalho como donos de engenhos no Nordeste brasileiro. Esta riqueza talvez tenha sido o fato que despertou a cobiça do tribunal inquisitorial que tentou, mas não conseguiu ser implantado no país. O que de fato ocorreu foram as Visitações do Santo Ofício, sendo a primeira em 1591-1595 na Bahia e em Pernambuco, chefiada por Heitor Furtado de Mendonça. Seguiram-se outras em 1599 e 1610, em Olinda e Salvador, respectivamente, quando foram denunciados e presos centenas de cristãos-novos. Durante esse período, em 1605, houve um grande perdão geral em Portugal aos cristãos-novos, permitindo, inclusive, sua saída legal do país para as colônias. Em 1618, o bispo visitador D. Marcos Teixeira, recebeu a denúncia de 134 pessoas, sendo 90 delas pela prática do Judaísmo. Entre eles estava Simão Nunes de Mattos, que além de judaizar, praticar a religião judaica, possuía uma Sefer Torá, livro sagrado dos judeus. Foi denunciado também por ter colocado uma moeda na boca do falecido costume esse adquirido dos gregos da lenda da moeda de Caronte, Gaspar Dias de Moura, em seu velório num engenho de açúcar.

No período holandês em Pernambuco, quando havia liberdade de culto, floresceu uma comunidade judaica portuguesa em Recife, com duas sinagogas a Zur Kadosh Israel, a primeira das três Américas comandada pelo famoso rabino Isaac Aboab da Fonseca, natural de Castro D'Aire, Portugal, que escreveu o primeiro poema em hebraico nas Américas era um dos inúmeros exilados em Amsterdã, como outros judeus portugueses e espanhóis que lá encontraram grande liberdade e prosperidade. Existe ainda hoje em perfeitas condições a Grande sinagoga de Amsterdã, conhecida como a Esnoga da Portugees Israelitisch Gemeente (Comunidade Israelita Portuguesa, em Neerlandês). A outra sinagoga de Recife, em Mauricia, era a Maguen Abraham dirigida pelo rabino Moses Raphael de Aguilar. Calcula-se que havia nas duas comunidades recifenses 600 pessoas que professavam a religião judaica. Embora existissem muitos cristãos-novos no Nordeste brasileiro, poucos retornaram a fé de seus ancestrais, a maioria ficou com o temor de os portugueses expulsarem os holandeses, fato que terminou ocorrendo, para não serem novamente perseguidos. Com a expulsão dos batavos, muitos judeus retornaram a Holanda, se internaram nos sertões nordestinos ou se dirigiram para suas colônias americanas, como Suriname, Curaçao, e outras ilhas do Caribe além de Nova Amsterdã, a atual Nova York. Teriam sido 23 judeus saídos de Recife os fundadores da primeira comunidade judaica dos Estados Unidos existente ainda hoje, a Shearith Israel. Como prova, existe uma lousa no cemitério comunal onde se lê o nome de Benjamin Bueno de Mesquita, um dos ex-moradores do Recife holandês. Proveniente de Amsterdã, Manuel Viegas vivia no Espírito Santo onde cuidava dos negócios de seu pai Antonio Martins Viegas residente na capital holandesa. Viegas Júnior, como era conhecido, foi solicitado, em 19 de abril de 1627, pelo comerciante holandês Leonard De Beer, a ajudar seu compatriota Dirck Pietersz que estava no Brasil para carregar um navio com madeira, conforme nos relatam os arquivos notariais de Amsterdã.

Passado o ciclo holandês, as perseguições aos cristãos-novos no Brasil recrudesceram, quando muitos foram levados presos para a Metrópole, e depois uma parte deles foi "relaxada ao braço secular", isto é, condenados à morte na fogueira depois dos Autos-de-Fé. Estas cerimônias eram procissões de condenados trajando os sambenitos e chapéus cônicos (as carochas), com uma vela numa das mãos, transformadas em espetáculos populares assistidos inclusive pela realeza, nobreza e autoridades eclesiásticas. Era o espetáculo dos horrores de uma época de intolerância religiosa e de pensamento que avassalava a nação lusitana. As fogueiras ardendo na Ribeira, geralmente nas madrugadas, tiraram a vida de pessoas que queriam somente ter a liberdade de consciência. O mais famoso condenado brasileiro foi o advogado, poeta e dramaturgo Antonio José da Silva, de alcunha "O Judeu", nascido no Rio de Janeiro em 1705, de família cristã-nova da classe média e pertencente à comunidade judaizante do Rio de Janeiro, com centenas de integrantes da qual faziam parte muitos senhores de engenho, mercadores e autoridades. Toda sua família foi presa e levada para Lisboa, onde depois de o terem prendido pela segunda vez, foi condenado à morte na fogueira aos 34 anos de idade. Ele chegou a estudar Direito em Coimbra, porém ficou famoso por suas obras no teatro de fantoches do Bairro Alto de Lisboa, sendo considerado, hoje, um clássico da literatura portuguesa. Foi garroteado e queimado na Ribeira, em Lisboa, aos 18 de outubro de 1739, mais de dois anos após a fundação do Rio Grande de São Pedro, feita em 19 de fevereiro de 1737, pelo brigadeiro José da Silva Pais. Isto prova que enquanto o Rio Grande do Sul estava nascendo e povoado, as fogueiras da Inquisição ainda crepitavam...

Além dos Estados do Nordeste brasileiro, havia cristãos-novos em todo o Brasil, ou como dizem alguns historiadores em todos os poros da colonização portuguesa, mas digo ainda mais, eles estiveram e alguns descendentes ainda estão, em todas as partes do mundo. Foram estudadas até agora as comunidades do Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e Minas Gerais, principalmente durante o Ciclo do Ouro e do Diamante. A região Sul, como sendo mais recente na formação brasileira, ficou meio esquecida de nossas universidades e seus pesquisadores. Eu sei que é árdua a missão, entretanto depois de trinta anos de pesquisa sobre esse tema posso dizer que vejo uma luz no fim do túnel. Os cristãos-novos vieram para o Sul com os bandeirantes, pela imigração de Portugal e principalmente pela imigração proveniente dos Arquipélagos dos Açores e da Madeira. Nos estudos do Prof. José Gonçalves Salvador, catedrático da USP-Universidade de São Paulo, estão desvendadas muitas atitudes de bandeirantes e mesmo confissões de fé judaica. O professor demonstra com clareza, quer através de genealogias, de costumes praticados, de documentação inédita por ele compulsada nos Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, que os cristãos-novos, judaizantes ou não, influenciaram muito a formação de nosso país. Ao bandeirante Raposo Tavares, cuja mãe Maria Pinheiro da Costa era uma cristã-nova da cidade de Beja no Alentejo, foi-lhe perguntado pelo padre espanhol Cristóbal de Mendoza, em Jesus-Maria, povoação arrasada por ele no território do atual Estado do Rio Grande do Sul, "acerca do título que se estribara para lhes mover guerra, declarou que 'pelo título que Deus lhe dava pelos livros de Moisés". Outros bandeirantes citados por Salvador como de etnia hebraica: André Fernandes, João e Manuel Preto filhos de Amador Bueno (dos judeus Boino da Espanha); Belchior Dias Carneiro, Manuel Pires e Jerônimo Pedroso de Barros. Fernão Dias Paes Leme não era dessa etnia, mas era casado com uma cristã-nova. Todos com passagem pelo território gaúcho.

Cristãos-Novos açorianos e madeirenses no Brasil

Eram numerosos os cristãos-novos portugueses que se movimentavam da Metrópole para as colônias, mercadejando ou simplesmente imigrando para lugares mais seguros para as suas famílias, e as ilhas atlânticas não foram exceções. Os judeus portugueses estiveram, como já disseram alguns historiadores, em todos os poros da colonização portuguesa. Eu diria que eles trilharam por todos os cantos do planeta, e ainda hoje são encontrados seus vestígios nos mais distantes ou diferentes países. Sem contar as colônias do Caribe, as Índias de Castela, a América do Norte e as colônias africanas. Os próprios judeus açorianos estão presentes em todo lado. Vem para o Brasil no final do século XVII o cristão-novo Pedro Fernandes de Mello, comerciante da Ilha de São Miguel. Com o perdão de 1605, muitos se aproveitam para saírem de Portugal, indo muitos para a Holanda. Entretanto em 16l8, chega à Ilha Terceira um barco com 40 judeus portugueses provenientes da Holanda, entre eles Antonio Rodrigues Pardo. De São Miguel, chega ao Rio de Janeiro o mercador judeu Manuel Homem de Carvalho, da família Homem de Almeida que teve como mártir em Coimbra o Dr. Antonio Homem, líder religioso dos judaizantes. Manuel confessou ter retornado ao Judaísmo na Holanda onde havia estado. Um pouco antes de 1600, vêm para a Bahia os cristãos-novos terceirenses Antonio Rodrigues Pardo e Pero Garcia. Em 1592, o Pe. Jerônimo Teixeira Cabral, comissário da Inquisição nos Açores, denuncia a infiltração de cristãos-novos na Igreja como clérigos. Muitos partidários de D. Antonio Prior do Crato, pretendente ao trono português, e de etnia hebraica, são expulsos da Ilha por Felipe II da Espanha, então detentor das duas coroas Ibéricas, que fugiram para os Países Baixos e para o Brasil. Entre eles, Manuel Serrão Botelho, que chega ao Brasil logo após 1582. Um contratador dos Açores foi o cristão-novo Miguel Gomes Bravo, natural do Porto que nomeou como arrendatário o cristão-novo Francisco Bocarro. Miguel veio para o Brasil em 1585, e em 16l0 vai morar no Rio de Janeiro. Era casado com Isabel Pedrosa de Gouveia, tendo grande descendência. Álvaro Fernandes Teixeira, natural da Ilha Terceira, cristão-novo casado com Maria de Azevedo, filha do cristão-novo Diogo Cristóvão, do Porto, e seus parentes vieram residir no Rio de Janeiro no século XVII. Da ilha de São Miguel, vem residir na mesma cidade o cristão-novo Pedro Fernandes de Mello, casado com a congênere Ana Garcia de origem espanhola. Diogo Teixeira de Azevedo, cristão-novo nascido no Rio de Janeiro e filho do casal da Ilha Terceira, Álvaro Fernandes Teixeira e Maria de Azevedo, foi preso pela Inquisição e saiu em Auto-de-Fé em Lisboa em 5 de abril de 1620, condenado a hábito penitencial e cárcere a arbítrio terminou solto em junho daquele mesmo ano .

III – CRISTÃOS-NOVOS NOS AÇORES

Nos primórdios da colonização

O Arquipélago dos Açores formado pelas nove ilhas, São Miguel, Terceira, Faial, São Jorge, Santa Maria, Pico, Flores, Graciosa e Corvo, descoberto pelo navegador Diogo de Silves em 1427, e depois povoado pelo frei Gonçalo Velho Cabral com portugueses do continente, seguidos por famílias flamengas (belgas e holandesas), francesas, inglesas e de outras minorias étnicas, foi abrigo, também, dos cristãos-novos fugitivos da Inquisição. A presença judaica nos Açores é anotada pelo grande historiador, de origem judaica, Alexandre Herculano, em sua monumental obra "História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal" à página 80 do volume I, como fato ocorrido em 1501: "uma caravela lotada de cristãos-novos, que saíra de Portugal para a África, batida pelos temporais arribou aos Açores, e os infelizes passageiros, presos aí e condenados depois a serem escravos, foram dados de presente por El Rey a Vasqueanes Corte-Real". O historiador Alfredo da Silva Sampaio também cita o mesmo naufrágio na Ilha Terceira, diz ele: "em 1501 aportaram a Ilha Terceira náufragos hebraicos fugindo à perseguição". Em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, há uma freguesia denominada Porto Judeu, cujo nome é explicado pelos moradores que, em épocas passadas, o mar estava bravio e então, passaram a chamar o lugar de "judeu". Mas esta explicação e este significado, embora usado por pescadores de origem açoriana em Santa Catarina, não convence. Aquela localidade pode ter sido o local onde tantos cristãos-novos desembarcaram como náufragos ou não. O navio citado por Herculano e Sampaio não é o único citado em documentação. Outro barco é mencionado na "Carta de Gaspar Dias de Landim, a El Rey, sobre a prisão de indivíduos que fugiam à Inquisição, de 19 de novembro de 1548", onde descreve: "Senhor – Eu tenho escrito a V.A. como há muitos dias estou neste porto esperando Pero Vaz de Siqueira, pêra me pasar aos luguares a fazer os paguamentos, como me V.A. mamda," e em seguida cita "...a dez de novembro tomou a justiça desta vila ( Santa Maria) na barra embarcados em hua nao, dezanove omens em que yão molheres e moços, os quais yãm na via de Veneza; acharão-lhe pouquo dinheiro, comtia de dozentos cruzados e algum fato (roupa);são de Lixboa, çapateiros, e tudo um casal de filhos e gemros, ficam presos por parte da santa Imquisição. O Senhor Deos acrecente a vida e real estado de V.A.; do porto de Santa Maria ( Açores) a XIX ( 19) de novembro de 548 (1548) – Gaspar Dias de Landim – sobre scripto – A elrey nosso senhor". (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Corpo Cronológico, Parte 1ª, maço 81 n° 85).

O mesmo Sampaio, já mencionado, diz que, em 1558, a comunidade cristã-nova dos Açores pagou 150.000 cruzeiros exigido pela rainha regente Dona Catarina para prover as armadas da Índia. Em troca, D. Catarina prorrogou a pena de confisco de bens aos cristãos-novos por dez anos.

A ação inquisitorial nos Açores

Em 1592, o Inquisidor nos Açores Pe. Jerônimo Teixeira Cabral, denuncia a infiltração de cristãos-novos na Igreja como clérigos. A primeira ação inquisitorial nos Açores foi em 1555, quando o bispo de Angra, D. Frei Jorge de Santiago mandou verificar vários casos de Judaísmo, mandando prender alguns homens e enviá-los para Lisboa. Dois anos após foram enviadas para Lisboa 22 pessoas acusadas de práticas judaicas. São elas: Ana Lopes; André Moniz; Antonio Fernandes; Branca Dias, Cecília Rodrigues, Diogo Lopes; Fernão Lobo; Francisco Lopes; Mestre Gabriel; Gabriel de Andrade; Henrique Ribeiro; Inês Dias; Isabel Mendes; Isabel Moniz; Isabel Pinta; João Tomás; Jorge Álvares; Manuel Álvares; Rui Dias; Rui Fernandes e Violante Henriques. Logo seguiram para a capital da Metrópole: Pero Galvão; Antonio Carvalhais; Jácome Gonçalves e Maria Dias. Já em 1608 começava a ser montada a rede de funcionários inquisitoriais. Iniciando pelos Comissários do Santo Ofício, e logo em 1612 a dos Familiares (os esbirros mais infames). Entretanto, desde 1597, já atuava como Comissário da Inquisição em Ponta Delgada o pe. Luís Pinheiro, reitor da residência da Companhia de Jesus e, como primeiro Familiar, o tanoeiro Pero Fernandes, residente em Ponta Delgada. E, em Angra, atuava como Comissário o Pe. Francisco Valente, reitor do Colégio Jesuíta. Para a Ilha do Faial, somente em 1749 foi nomeado Comissário o frei José de Santo Antonio de Pádua. Existiram comissários do Santo Ofício no arquipélago açoriano até 1806 quando, então, perseguiam os franco-maçons. Outros burocratas da Inquisição eram os Notários, os Qualificadores e os Visitadores das Naus. Havia também o trabalho de redução de estrangeiros, que procuravam converter para o catolicismo como foi o caso da família inglesa Fisher, residente no arquipélago. A primeira Visitação ao arquipélago foi a de D. Marcos Teixeira entre 1575-1576, o mesmo que esteve no Nordeste do Brasil. Ele visitou as ilhas de São Miguel, Terceira e Faial. A segunda foi em 1592, feita por D. Jerônimo Teixeira Cabral, tendo visitado as ilhas Terceira e São Miguel. Já a terceira e derradeira visita, foi realizada entre 1619-1620, por D. Francisco Cardoso do Torneio, que esteve nas ilhas de São Miguel e Terceira. Do total de 354 pessoas denunciadas, 172 foram por Judaísmo que, somadas às 27 prisões de 1555-1557, totalizam 199 cristãos-novos denunciados nos Açores. Foram gerados 114 processos entre 1557 e 1802, envolvendo 112 pessoas, sendo apenas 26 pela "heresia judaica". E, destes, somente 10 foram enviados a Lisboa, e apenas três condenados à morte na fogueira. Os condenados à pena capital foram: Leonor Marques, em 1584; Antonio Borges, em 1559 e Maria Lopes, em 1576.

A produção maior do arquipélago açoriano nessa época era o trigo, o linho, o vinho a urzela, uma tintura de cor castanha e o pastel, tintura em tom de azul, largamente utilizadas nas indústrias têxteis de Flandres para onde eram exportadas. Este comércio chamava a atenção de cristãos-novos como Duarte da Silva, rico comerciante de Lisboa. Ele mantinha nos Açores os agentes: Simão Lopes, na ilha do Faial, João de Afonseca Chacon e ilha Terceira Pero Martins Negrão, todos da grei judaica. O comércio do ouro, da prata das Índias de Castela e o açúcar da Madeira despertam o interesse dos judeus portugueses de Amsterdã, Londres, Bordéus, Hamburgo e também seus parentes residentes em Portugal colônias. Era o começo do século XVII e os mercadores Belchior Gomes de Leão e Diogo Lopes de Andrade agem neste contexto principalmente na Madeira. De Rouen, França, o judeu Simão Lopes Maciel, de família cristã-nova fugitiva da Inquisição portuguesa, desenvolveu uma rede de comércio internacional colocando na Madeira como representantes seus os congêneres Bento de Matos Coutinho e Diogo Fernandes Branco. Na Ilha Terceira mantinha os cristãos-novos Antonio Dias Homem e Bento Fernandes Homem. Para o Brasil designou o correligionário Belchior Rodrigues Ribeiro. Viviam como judeus em Amsterdã os madeirenses Jerônimo de Andrade e Manuel Cardoso ambos com suas famílias. Outro comerciante judeu português que comerciava com os Açores a partir de Amsterdã foi Jerônimo Doria de Andrade conforme registros no Arquivo Municipal daquela capital holandesa em 18 de março de 1627. Em Cabo Verde era fornecedor de "peças", isto é escravos negros africanos, o cristão-novo Manuel Caldeira juntamente com seu congênere Luiz de Carvalhal que atuava também em todo Golfo e rios da Guiné. Negociavam, juntamente com João Soeiro da Madeira, escravos para as Antilhas e outros países. Com negócios de ouro e prata e dono do navio "São Mateus" passa pelo Rio de Janeiro e vai ao Prata, o mercador judeu português Bartolomeu Rodrigues, em 1609. Em Buenos Aires desde o início da colonização, mas principalmente em 1618, quando chega ali chega uma embarcação lotada de cristãos-novos proveniente da Bahia, a população local é considerada de maioria portuguesa e judaica. Fato que alarmou os clérigos da cidade que solicitaram providências às autoridades da Inquisição espanhola. A explicação para a fuga de cristãos-novos brasileiros para o Prata era a de que se alarmaram com a notícia vinda de Lisboa dizendo que nova Visitação do Santo Ofício estava programada para o Brasil naquela época.
Com a quantidade de judeus portugueses em Buenos Aires o termo português tornou-se sinônimo de judeu em toda a América espanhola.

Costumes, hábitos e crenças judaicas

Os cristãos-novos encontraram nas Ilhas Atlânticas um local privilegiado para seu estabelecimento, uma vez que, ali, podiam praticar mais ou menos, livremente, seus rituais cripto-judaicos, pelo menos, longe da Inquisição, que só esteve em três das nove ilhas, como vimos. Essas crenças e costumes, resumidamente, eram os seguintes: dizer que a Lei de Moisés é mais suave e mais delgada que a de Cristo; invocar o Deus de Israel; a guarda do sábado, o Shabat, não trabalhando nesse dia; limpar candeeiros e neles colocar azeite limpo e torcidas novas às sextas-feiras, vestindo camisas lavadas e lançando lençóis limpos na cama, além de casarem nesse dia da semana; dizer orações em língua hebraica; a recusa em comer carne de porco, lebre, coelho, aves asfixiadas ou afogadas e peixe sem escama; tirar a gordura e o sangue da carne; refogar os alimentos com azeite; degolar animais cortando-o de alto a baixo com uma faca afiada e rezando uma oração e deitando fora o sangue do animal; fazer cerimônias judaicas como o jejum da Rainha Ester ou do Purim; o jejum de Yom Kippur, jejum Maior ou do Perdão, em setembro; a Páscoa do pão ázimo, o Pesah ou do cordeiro, em março; usar alguidar ou louças e utensílios novos nesses dias de festa. Além desses costumes, eram praticados os seguintes: carpir meneando o corpo e amortalhar os defuntos colocando-lhe uma moeda na mão; despejar toda a água existente na casa quando falecia alguém por acreditar que o anjo da morte lavasse a espada com que matara o falecido; lançar uma moeda ou peça de ouro na água do banho dos recém nascidos; olhar para o oriente meneando o corpo; a benção judaica e a circuncisão. E, também, o conhecimento de lendas e histórias judaicas. Toda essa tradição era transmitida à família pela via feminina. A condenada à morte na fogueira Maria Lopes, denunciada pelo filho Fernão Lopes, de praticar ritos judaicos tinha, entre seus pertences, rezas escritas em hebraico que, traduzidas, se verificou tratar, dentre outras, do Shemá Israel (Ouve ó Israel), um trecho: "Ouve ó Israel. Adonai é nosso Deus. Adonai é uno. Bendito é o nome para a eternidade e perfeição". Nem os nobres escaparam da perseguição da Inquisição nos Açores. D. Rodrigo da Câmara, Conde da Vila Franca, preso em 1650, em São Miguel, foi condenado à prisão perpétua com a perda de honras e títulos. D. José, seu filho, conseguiu herdar o título mudado para Conde da Ribeira Grande. É sabido que os Câmaras descendem todos de João Gonçalves Zarco, natural de Matosinhos, Portugal, que adotou o sobrenome Câmara de Lobos e depois somente Câmara, referindo-se a uma gruta na Ilha da Madeira que era refúgio dos leões marinhos, descobridor da Ilha da Madeira e Porto Santo. Os Zarcos descendem de família judaica espanhola, provavelmente fugida dos massacres de Sevilha de 1391. Em Portugal, convertidos ao cristianismo, logo se tornaram fidalgos e obtiveram mercês reais ao entrarem para a Ordem de Cristo, a antiga Ordem dos Templários, sediada no castelo de Tomar. Exatamente nessa cidade existe, ainda hoje, uma das duas sinagogas reconhecidas oficialmente como representantes dos antigos templos das comunidades hebraicas. A outra, é a sinagoga de Castelo de Vide, ambas transformadas em museus judaico-portugueses. O grande Fernando Pessoa, descendente de Martinho da Cunha Pessoa de Oliveira, pertencente a uma numerosa família de cristãos-novos judaizantes do Fundão, tinha conhecimento de sua origem, daí a explicação para seus heterônimos. Pessoa dedicou um poema ao Infante D. Henrique a cuja Casa pertencia João Gonçalves Zarco, navegador descobridor da ilha de Porto Santo com Tristão Vaz Teixeira (1418) e da ilha da Madeira com Bartolomeu Perestrello, navegador italiano (1419). Eis o poema que publicou em Mensagem:

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma, Que o mar unisse, já não separasse. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, E a orla branca foi de ilha em continente, Clareou, correndo, até ao fim do mundo, E, viu-se a terra inteira, de repente, Surgir, redonda, do azul profundo. Quem te sagrou criou-te português. Do mar e nós em ti nos deu sinal. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Vestígios atuais da presença judaica nos Açores

No início do século XIX, vieram para a Ilha Terceira, imigrantes judeus marroquinos, muitos deles descendentes de judeus fugitivos de Portugal. Já em 1835, constroem sinagoga e cemitério naquela ilha. A família de maior destaque é a Bensaúde, que teve e continua tendo grande influência nos Açores e Portugal até os dias atuais. Empresas de transporte, inclusive aéreo, entre as ilhas e o continente, são desta família. O presidente português Jorge Sampaio é Bensaúde por parte materna, entretanto, em sua maioria, se tornaram cristãos-novos. Nos Açores que se tenha conhecimento, existe apenas um judeu da família Waldemar, do ramo Sefaradita (ibérico), e uma senhora judia norte-americana aposentada, do ramo Asquenazita (germânico). A sinagoga está semi-destruida, bem como os três cemitérios. A família Azulay, residente no Rio de Janeiro, descende de judeus açorianos de origem marroquina.

Em 1976, o capitão-aviador norte-americano Marvin Feldman, de fé judaica e sediado na base aérea de Lajes, na Ilha Terceira, relatou na revista Herança Judaica número 26 de 1976 ao articulista Aaron Zeff ter comprado uma Torá, rolo contendo o Pentateuco hebraico, numa taberna por apenas cinco dólares, mas teve que entregá-la para as autoridades ao sair do Arquipélago. Encontrou também, um cemitério com inscrições em hebraico, mas isto se explica por ter havido nos Açores uma comunidade judaico-marroquina. Contou ter encontrado uma comunidade marrana, cripto-judaica ativa, porém clandestina. Diziam praticar o Judaísmo secretamente com medo da repressão da ditadura de Salazar. Mal sabiam eles que Salazar era descendente direto de judeus. Sua sétima avó, Catarina Salazar, cristã-nova de Coimbra residia na rua Corpo de Deus, freguesia de São Tiago. De seu lado paterno por parte dos Andrades de Trancoso, é suspeito de descender de judeus e era também cristão-novo por parte de uma avó paterna da família Gaspar, da localidade de Tábua. Recentemente, a canadense Maria Pimentel, residente em Toronto e filha de açorianos, relatou que num jornal ilhéu daquela cidade, foi publicada uma notícia do achado de uma Sefer Torá (o Pentateuco, rolos escritos em hebraico antigo em pele de carneiro), numa gruta da localidade de Rabo de Peixe, na Ilha de São Miguel. Segundo e-mail por ela enviado em 11 de novembro de 2002, a Torá teria sido levada à Europa para ser autenticada e lá teria sido datada como sendo do século XVI. Entretanto, os pesquisadores açorianos por ela contatados em sua visita ao Arquipélago, não sabiam dar maiores informações desse achado de grande importância para história judaico-portuguesa-açoriana.

IV - Cristãos-novos na Ilha da Madeira

E, em 1638, chegam à Madeira judeus portugueses provenientes de Rouen, França, na maioria da família Cáceres. Pero ficou na Madeira, Jerônimo foi para o Rio de Janeiro, enquanto Antonio ficou em Rouen. Estava assim formado um perfeito triangulo para negócios entre parentes da mesma religião. Era a globalização mercantilista em andamento e a todo vapor entre continentes e ilhas. O contrato do açúcar na Madeira está nas mãos do cristão-novo Miguel Gomes Bravo, sob fiança do correligionário Francisco Bocarro. Em 1617 numa Visitação da Inquisição à Madeira, foram denunciados os judeus: Manuel Álvares Fausto, ouvidor de Funchal; Faustino Dias, boticário; Diogo Barbosa, ourives; Bento de Matos Coutinho, licenciado; Manuel Tomás, mercador e Rabino da comunidade judaica secreta da Madeira; Luis Fernandes de Oliveira, contratador da Fazenda e Simão Roiz Rodrigues Vila Real, sogro de Luís e que teve uma irmã queimada pela Inquisição. Esses judeus madeirenses eram ativos no comércio com seus congêneres da França, Inglaterra e Holanda. Desse último país há o registro no Arquivo Notarial de Amsterdã, do contrato de três de maio de 1627, feito pelos judeus portugueses, lá refugiados, Francisco da Costa d'Elvas e Matias Rodrigues Cardoso, de fretamento do barco De Liffde pertencente ao holandês Pieter Franssen, para o transporte de mercadorias de e para a Ilha da Madeira. As Ilhas serviam de trampolim para o Caribe, o Brasil e o Rio da Prata. Talvez o judeu mais famoso nascido na Madeira tenha sido Manuel Soeiro, de família abastada de mercadores locais, que após ter passado pela França, chegou a Amsterdã, onde estudou para tornar-se o famoso Rabino Menasseh Ben Israel. Na vida laica era editor e impressor, tendo produzido grandes publicações de autores judeus portugueses e espanhóis da comunidade holandesa e alemã sefaradita. Seu Parente João Soeiro chega ao Brasil como contratador de escravos e comércio com embarcações próprias. Outro madeirense da etnia judaica foi Paulo Cardoso de Vargas que casou na Bahia com Margarida Diniz filha dos cristãos-novos Diniz Bravo e Beatriz Nunes Diniz, em 1663.

V - A Imigração Açoriana e Madeirense para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina: segredos que começam a ser desvendados

Os segredos e mistérios acerca de serem ou não descendentes de cristãos-novos, pelo menos uma parte dos imigrantes ilhéus para o sul do Brasil, no final de século XVIII, começam a ser desvendados. A própria Enciclopédia Britânica cita uma informação, não se sabendo de onde retirada, que os casais açorianos que povoaram Porto Alegre seriam cristãos-novos, isto é, judeus portugueses. Na verdade, nada ficou provado até o momento, mas como vimos anteriormente sobre a presença judaica nas Ilhas Atlânticas, é fácil deduzir que alguns casais ou cônjuges certamente eram de descendência judaica, e que trouxeram em sua bagagem uma parcela da herança judaica que conseguiram manter secretamente em seus lares. E, esse é o nosso objetivo o de levantar o véu que encobre os segredos desse passado tenebroso e que algumas pessoas gostariam que ficassem enterrados para sempre. Os reflexos tanto no Rio Grande do Sul como em Santa Catarina com certeza foram de grande efeito embora não tenham ainda sido dimensionados. Algo da cultura judaica está classificada nos estudos de folclore e considerado como tal sem conhecerem os estudiosos os traços judaicos que permaneceram vivos depois da grande devastação causada pela "Santa Inquisição". O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição pouco fez contra a grande quantidade de refugiados nas ilhas, e poucos foram os denunciados e sentenciados. Nos Açores, apenas três ilhas foram visitadas pelos esbirros inquisitoriais: São Miguel, Terceira e Faial. Os cristãos-novos que viviam nas outras ilhas nem foram molestados. Na Madeira e Porto Santo, muito poucos foram presos e condenados, e é sabido que lá existia uma grande comunidade secreta de cristãos-novos portugueses, da qual fazia parte o comerciante Domingos Mendes de Cea, notório judaizante que lá residia no final do século XIV. Como saber se haviam cristãos-novos entre os chamados "casais de número"? Os documentos existentes da época não esclarecem nada porque ninguém declarava suas crenças secretas, eis que sabedores da perseguição religiosa ainda em vigor quando da chegada ao extremo sul brasileiro. Na documentação, podemos ver apenas sutilezas e um ou outro detalhe, certamente judaico, principalmente nos inventários. Como, por exemplo, as esmolas depois da morte de pessoa da família lembrando a "Sedacá", a caridade judaica ainda hoje praticada pelos judeus de todos os ritos. É apenas um dos fatos mencionados no livro "A Vila da Serra" de Clóvis Stenzel Filho, juntamente com outros costumes judaicos existentes entre descendentes de açorianos no município de Osório no final do século XIX, quando era chamada de Conceição do Arroio.

É justamente aí, nos costumes e crenças que poderemos descobrir as origens judaicas de muitos açorianos gaúchos e catarinenses. Em Florianópolis algumas famílias de origem açoriana sabedoras de suas origens, freqüentam às vezes a sinagoga local fato que ocorre em diversos pontos do Brasil. É naquela capital, também, comum a fabricação do pão torcido, conhecido pelos judeus como "chalá". O nome Raquel é muito usado entre as filhas de descendentes de ilhéus. No Rio Grande do Sul, já temos catalogado diversos costumes judaicos praticados tanto pelas populações de descendentes de açorianos, como de luso-brasileiros provenientes de São Paulo. Só para citar alguns: o "sinu saimão" ou "sin salamão", a estrela de Salomão de cinco pontas, símbolo mágico de origem judaica e conhecido desde o Brasil colonial, é largamente usado como proteção de barcos, portais de casas e janelas, lembrando uma "mezuzá" ( caixinha contendo orações e salmos usada pelos judeus para proteção de seus lares) além de roupas de crianças recém nascidas ou como amuleto no pescoço. O bebê não pode antes de ser batizado ficar sem iluminação no quarto porque os espíritos maus podem atacá-lo. Isto é, simplesmente, a lembrança da deusa-demoníaca Lilith, que roubava e matava criancinhas, lenda do imaginário judaico levado para Portugal. Derramar a águas de todos os cântaros, após o falecimento de uma pessoa em casa, era praticado até poucos anos atrás quando não existiam torneiras no interior gaúcho. Este costume é o mais representativo da cultura religiosa judaica do rito sefaradita, constante inclusive de um Siddur (livro de orações), do qual não pode haver contestações, porque o ritual é o mesmo. O folclorista Câmara Cascudo menciona a larga prática deste costume no Nordeste além de outros tipicamente judaicos, também encontrados no Rio Grande do Sul. A coletânea destes costumes e sua prática ainda em nossos dias serão divulgadas juntamente com entrevistas e relatos contando fatos inéditos, como o Romance medieval português, Dona Silvana ou Silvaninha, preferido de judeus portugueses que se espalharam pelo mundo e o cantaram até na Bósnia-Herzegovina. Em nossos próximos trabalhos serão relatados mais detalhes desses costumes reprimidos pelo medo da Santa Inquisição e pelas repressões ditatoriais. São fatos que desagradam muita gente que preferem não lembrá-los devido ao horror desses tribunais que grassaram em diversos países da Europa, consumindo pela labareda das fogueiras a vida de milhares de pessoas inocentes, pelo simples fato de quererem ter outro credo, discordar dos dogmas cristãos vigentes ou simplesmente desejarem liberdade de consciência.

Na História do surgimento do Estado do Rio Grande do Sul, tem a mão firme de muitos cristãos-novos que podem não ter sido judaizantes, mas tinham a amizade destes no Brasil colonial. Todo o empreendimento da fundação da Colônia do Santíssimo Sacramento às margens do Rio da Prata, em 1680 teve o concurso de diversos cristãos-novos, incluindo entre eles o próprio governador D. Manuel Lobo com origens cristãs-novas bem como seus principais auxiliares. Essa praça portuguesa plantada defronte a Buenos Aires que serviu mais ao contrabando da prata de Potosí e mais tarde trocada pelos Sete Povos das Missões teve papel fundamental na colonização do Rio Grande do Sul. O próprio madeirense Jerônimo de Ornellas Menezes e Vasconcelos, primeiro povoador de Porto Alegre, onde recebeu sesmaria em 1740, que era de família fidalga da ilha da Madeira e descendente de príncipes e reis de toda a Europa, tem em sua ascendência descendentes de judeus como João Gonçalves Zarco, que se tornou Câmara, dando início a essa linhagem que hoje existe em diversos países, e os De La Rua, espanhóis cujo nome denuncia a origem cristão-nova, porque essa Rua era exatamente o "Kahal" dos Judeus, "La Calle" ou "La Juderia", como diziam os espanhóis. A infiltração de cristãos-novos na nobreza européia é por demais sabido, eis que até a Casa de Bragança tem uma cristã-nova em sua origem. Daí, talvez, o interesse de D. Pedro II em aprender o hebraico, corresponder-se com rabinos franceses e adquirir uma Sefer Torah, (rolos do Pentateuco em hebraico) iemenita de cerca de 800 anos, uma das relíquias deixadas por ele para o Brasil está sob a guarda da BIBLIOTECA Nacional, no Rio de Janeiro.

V – Considerações finais

Creio que ficou claro que nas Ilhas Atlânticas e Brasil colonial houve grande atividade dos judeus portugueses transformados em cristãos-novos, em sua maioria à força, pela água benta que lhes jogaram compulsoriamente. Pretendo, num próximo trabalho, comprovar melhor a influência dos cristãos-novos na economia, cultura e no caráter do Brasil. O caráter foi construído com muitos traços judaicos a começar pelo jeitinho brasileiro. Nos Açores, ainda falta estudar e descobrir muito mais sobre as atividades e costumes dos cristãos-novos, bem como na Madeira. Sabe-se, através de documentação ainda existente, que os cristãos-novos açorianos exerciam as mais diversas profissões como cirurgiões, advogados, boticários, licenciados, mercadores, ourives, confeiteiros, sombreireiros (que fabricavam chapéus) e uma série de outras atividades ligadas ao artesanato. Mas poucos eram ricos daí, talvez, a falta de interesse da Inquisição em processá-los já que os confiscos não valeriam a pena. A lista parcial de sobrenomes a seguir pertence ao periodo de 1604 a 1623, encontrados em algumas Fintas de cobrança de impostos exclusivos dos cristãos-novos, das Ilhas de São Miguel, Terceira, Graciosa e Pico, faltando aqui das outras ilhas e de outros períodos da História. Vejamos, então, os sobrenomes: Andrade, Azevedo, Álvares, Alemão, Braga, Borges, Barcelos, Câmara, Cunha, Carvalhais, Cerqueira, Carlos, Carvalho, Costa, Dias, Delgado, Duarte, Eça, Fernandes, Fontes, Gralia, Geralda, Gonçalves, Henriques, Heitor, Jacinto, Lopes, Mendes, Medeiros, Morais, Manuel, Pereira, Preto, Piseiro, Rodrigues, Ruivo, Santiago, Soares, Tomás, Vaz e Vieira. Existem outros nomes e sobrenomes mencionados no texto daqueles que foram presos e penitenciados pelo Tribunal do Santo Ofício. Paradoxalmente, graças aos arquivos inquisitoriais existentes em Portugal, podemos estudar melhor e sabermos os nomes e o modus vivendi desses judeus portugueses que estiveram nas Ilhas Atlânticas e que fizeram nova diáspora para o Brasil, para as Índias de Castela, Caribe inglês e holandês além da América do Norte e outros países da África e Oriente.

Referências Bibliográficas

- BRAGA, Paulo Drumond – A Inquisição nos Açores - Tese de Doutoramento em História dos Descobrimentos e da Expansão, defendida pelo autor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa em 4 de abril de 1997. Publicação do Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Região Autônoma dos Açores, Portugal, dezembro de 1997. - AZEVEDO, J. Lúcio de – História dos Cristãos-Novos Portugueses – Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1975. - SARAIVA, Antonio José – A Inquisição Portuguesa - Lisboa, Coleção Saber, Publicações Europa-América Ltda., 3ª edição, dezembro de 1964. - HERCULANO, Alexandre - História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal – Vol. I, Lisboa, Edições Europa-América Ltda., 1984. - DORIA, Antonio Álvaro – Damião de Góis - Lisboa, Clássicos Portugueses, Livraria Clássica Editora, 1944. - SALVADOR, José Gonçalves – Os Cristãos-Novos e o Comércio no Atlântico Meridional – São Paulo, Livraria e Editora Pioneira/MEC, 1978. - STENZEL F°, Antonio - A Vila da Serra – Caxias do Sul, UCS, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1980.

Outras fontes

- STUDIA ROSENTHALIANA – Volume 34, número 1, Notarial Records Relating to the Portuguese Jews in Amsterdam before 1639. Amsterdã, 2000. - ZEFF, Aaron - "Os Judeus Secretos dos Açores" – São Paulo Revista Herança Judaica n° 26 – Vol. 12, Editora B'nai Brith - 1976, páginas 36 a 38.

Fonte: http://judaismohumanista.ning.com/

Homens armados matam dezenas de cristãos no nordeste da Nigéria

'Suspeitamos que os agressores pertencem ao Boko Haram', um grupo islamita armado que realiza uma revolta no centro e norte do país desde 2009, acrescentou uma fonte


Kano - Homens armados mataram dezenas de pessoas, em sua maioria cristãs, no nordeste da Nigéria, declararam domingo um responsável local e moradores.

"Mataram muita gente em um ataque sábado à tarde. Segundo as últimas informações das quais disponho, mais de 60 pessoas morreram. Contudo, ainda tenho que verificar informações fornecidas pelos habitantes", disse à AFP, Maina Ularamu, responsável da região na cidade de Izghe, onde aconteceu o ataque.

Os habitantes fugiram dessa cidade situada no estado de Borno.

"Suspeitamos que os agressores pertencem ao Boko Haram", um grupo islamita armado que realiza uma revolta no centro e norte do país desde 2009, acrescentou.

"Saquearam comércios e lojas de alimentação e carregaram o que foi roubado nos veículos dos habitantes", disse este responsável.

Membros do Boko Haram mataram, na semana passada, 43 pessoas em duas cidades de Borno, o que provocou a fuga de centenas de habitantes em direção a Maiduguri, a capital deste estado.

Borno é um dos três estados do nordeste da Nigéria em estado de emergência desde que o exército lançou uma operação contra os insurgentes islamitas do Boko Haram.

Desde que começou 2009, a revolta islamita deixou milhares de mortos.

Fonte:http://www.correiobraziliense.com.br/

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Preso tem direito de ir a culto religioso, decide TJ-RS


A defesa do apenado entrou com Agravo para contestar a decisão do juiz da Vara de Execuções Criminais, que não permitiu o comparecimento em cultos. Motivos alegados: incompatibilidade com os horários de cumprimento da pena e dificuldades de fiscalização parte do Estado.
Segundo os advogados, o preso tem direito assegurado na Constituição à assistência religiosa, o que também é consagrado na Lei de Execução Penal. Sustentou também que o fato de os cultos ocorrerem no período noturno não podem se constituir em óbice para o exercício da sua crença religiosa.
Atividade ressocializadoraO relator do recurso, desembargador Aymoré Roque Pottes de Mello, afirmou que a decisão do juiz da Vara de Execução vai na contramão do objetivo ressocializador da pena. É que toda atividade que leve à ressocialização do preso, desestimulando o ócio, deve ser valorizada ao máximo.
‘‘Nesta esteira, não deferir ao apenado o direito de frequentar os cultos religiosos, em local, dias e horários determinados, sob a alegação de que ele deve enquadrar-se às regras abstratas da execução da pena, diga-se em prisão domiciliar, considerando dificultosa a sua fiscalização, significa restringir o âmbito de aplicação de institutos muito valiosos para a ressocialização do apenado e, inclusive, subtrair máxima eficácia ao princípio da individualização da pena’’, escreveu no acórdão. A decisão foi tomada na sessão do dia 30 de janeiro.
Clique aqui para ler o acórdão. 

“A pederastia está tão enraizada que a Igreja teme uma hecatombe”

SARA OVIEDO

Sara Oviedo é coautora do relatório da ONU que exige que a Igreja entregue os padres que cometeram abusos

Sara Oviedo Fierro (Equador, 28 de julho de 1952) foi eleita em 2012 vice-presidenta do Comitê dos Direitos da Criança na ONU, diante do qual compareceu o Vaticano no último dia 16 de janeiro. A socióloga equatoriana, que começou aos 13 anos a defender os direitos dos indígenas, das mulheres e das crianças, foi testemunha das respostas esquivas e da negativa dos porta-vozes da Santa Sé em fornecer dados e fatos concretos sobre os casos de abusos sexuais no seio da Igreja. Como coautora do duríssimo relatório divulgado após o comparecimento, no qual a ONU exige que a Igreja entregue os padres pederastas e proteja as crianças, Oviedo afirma nesta entrevista, concedida por videoconferência, que a questão da pederastia está “tão enraizada nas bases da Igreja” que suas autoridades têm medo de enfrentar o problema.
Pergunta. Até agora nunca ninguém havia conseguido interpelar a Santa Sé. Foi difícil conseguir o comparecimento do Vaticano?
Resposta. O que fizemos foi cumprir com o procedimento de analisar todos os países que firmaram o tratado dos direitos da criança, com a diferença de que tínhamos a convicção de que era preciso falar da pederastia. O diálogo com a Santa Sé ocorreu num momento em que era factível. Existe uma maior abertura da Santa Sé e existe uma necessidade latente das vítimas e da sociedade de reconhecer essa questão.
P. O Vaticano cumprirá os compromissos?
R. Eu insisto em que conseguimos algumas coisas. A primeira é o reconhecimento do problema da pederastia em todo o mundo. Até agora nenhuma autoridade, como a ONU neste caso, havia constatado isso como um problema importante que existe e que deve ser tratado. E outra coisa é reconhecer a dor das vítimas, que tiveram em si essa sensação de culpa e de não serem ouvidas. O comitê foi valente e consistente, sei que eles sentiram em nossas palavras essa posição madura quando lhes pedimos que mostrem os dados que nunca forneceram, que prestem contas das ações que estão fazendo e que entreguem os sacerdotes criminosos à justiça comum.
Me custa muito acreditar na instituição da Igreja, que cometeu tantos erros e que está sempre do lado dos que detêm o poder
P. Como avalia as respostas dos porta-vozes diante do comitê?
R. O comparecimento desse dia foi uma espécie de farsa. Eles admitiram como fato que há pederastas, que estão muito envergonhados e que estão tomando uma série de medidas para evitar que isso ocorra. O diálogo foi um longo braço de ferro. Nós insistíamos em conhecer os casos concretos e em indicar-lhes as medidas que deveriam ser tomadas. Eles diziam que sim, que é preciso fazer algo, mas não davam fatos concretos. Entregaram-nos uma lista de sacerdotes afastados do sacerdócio por pederastia. Em resumo, não acredito neles. Ou estão fazendo muito pouco ou não estão fazendo nada. Foi uma situação bem ambígua, muito confusa.
P. Como definiria a atitude deles?
R. Eu percebi muito medo, a insegurança típica de quem é pego em flagrante e de quem sabe que está defendendo o indefensável. Quem responde assim sabendo todo o mal que se fez a tantas vitimas humanas tem muito cinismo.
P. Os porta-vozes do Vaticano mentiram durante seu comparecimento?
R. Eu não acho que tenham mentido. Acho, sim, como dizem eles, que estão preocupados e que tomaram medidas tênues, mas o problema é esse: acho que o fazem para nos contentar e para que reduzamos a pressão. Usaram essa forma ambígua tentando que caíssemos no jogo e que no final disséssemos: “Que bom que vocês estão pensando em tudo isso e obrigada.” Mas não caímos, lhes dissemos claramente que não acreditávamos neles, com diplomacia e bom ambiente, sem gritos: “Não acreditamos nos senhores, não vemos o que estão fazendo. As vítimas continuam esperando respostas”.
P. A Igreja se sente impune?
R. Se analisamos as suas respostas nesse dia não vejo sintoma de que se sintam impunes, embora nos fatos tenham atuado dessa maneira, com a lógica de continuar protegendo-os (os pederastas). Se um militar é flagrado em situações desse tipo é entregue à justiça comum, não é possível entender porque eles não o fazem. A única conclusão que tiro é que a questão da pederastia é estrutural e que está tão enraizado nas bases da Igreja que se teme que se isso começar a ser enfrentado ocorrerá uma hecatombe que comprometerá todas as estruturas e suas autoridades. Pela proteção com que tratam o tema nos fazem pensar que seja muitíssimo maior.
P. Os porta-vozes do Vaticano se recusaram a interferir na liberdade religiosa, qual a sua opinião sobre isso?
R. Eu acho que isso foi uma saída pela tangente para poder reduzir a pressão. Quiseram dizer que não só estávamos sendo duros e injustos com a questão da pederastia, mas também que estávamos interferindo em outros assuntos como o aborto, a homossexualidade e a questão de gênero, mas eles sabem que não houve insistência sobre esses temas.
P. Como avalia o silêncio do papa Francisco depois do relatório?
Talvez nós ainda não vejamos, mas chegará a justiça
R. Eu gosto das pessoas que falam um pouco tarde, mas com consistência e com a verdade. Parece-me coerente que não tenha falado, ele deveria falar com fatos e para apresentar propostas. Se falasse agora para dizer o que estão dizendo os porta-vozes da Santa Sé decepcionaria muita gente. Acho que está tomando o tempo necessário para poder oferecer respostas concretas.
P. Para as vítimas isso foi uma grande vitória. O que vem agora para elas?
R. As vítimas são as que têm a faca e o queijo na mão. Acho que nós cumprimos de madeira madura e consistente nosso papel. Agora cabe a elas fazer as denúncias em seus países de origem, retomar a luta e propor agendas bem claras para ver como conseguir que na prática se concretize aquilo que a Santa Sé reconheceu diante do comitê que é preciso fazer.
P. As associações mexicanas pedem que se julgue o Vaticano por crimes de Estado, acha que existem elementos para isso?
R. Eu não sei sinceramente quais são os elementos necessários para isso, a mim já não me cabe julgar isso.
P. O porta-voz do Vaticano diante da ONU disse que existe pederastia na Igreja da mesma forma que em outras profissões?
R. Justamente eles, como guias espirituais, são obrigados a dar o exemplo. Além disso, não é porque os outros o fazem que seja justificável, são eles que assumiram ser guias espirituais e que assumiram o celibato. A proteção aos sacerdotes criminosos criou ali um lugar quase patológico, com situações muito doentias onde a sexualidade humana está totalmente deformada.
P. Acredita que algum dia se fará justiça às vítimas?
R. Eu acho que o ser humano vai avançando e que essa humanidade vai colocar limites àqueles a quem é preciso colocá-los. Talvez nós não a vejamos, mas um dia será feita, sim, justiça.
P. A senhora crê em Deus?
R. É complicado. Eu acredito em Deus, mas no Deus dos pobres. A mim me custa muito acreditar na instituição da Igreja, que cometeu tantos erros e que está sempre do lado dos que detêm o poder. Não consigo acreditar nela.

Fonte: EL PAIS

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Mensalão mineiro deverá aumentar população carcerária



Foto: AFP

Na expressão popular e chula, vai ‘pro’ pau. Agora é a vez do mensalão mineiro tramitar para valer no Supremo Tribunal Federal (STF) e roubar a cena política, até mais que a jurídica.

O ex-governador Eduardo Azeredo dificilmente se livrará de uma condenação, não por possíveis pressões que juízes venham a sofrer, mas porque há possibilidades de comprovação de envolvimento em um esquema que igualmente desviou dinheiro público para financiar sua campanha à reeleição em Minas Gerais.

Ao capitão do “laboratório” que forjou o similar federal, chefiado pelo ex-ministro condenado, José Dirceu, na feliz expressão do ex-procurador-geral da República, Antonio Fernando Silva, resta agora posar de rainha da Inglaterra.

O peessedebista já começou a esboçar sua defesa, que deverá ter suas alegações finais apresentadas nos próximos dias, com o surrado argumento “não sabia de nada”.

Pior seria se dissesse que o esquema de 1998 – também operado pelo publicitário Marcos Valério –, nunca existiu, como sempre insistiram em argumentar o ex-presidente Lula e o PT a respeito do esquema mais famoso e grandioso denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson, também condenado e o único ainda a não cumprir pena.

Rodrigo Janot, o atual procurador, pediu ao STF 22 anos de prisão a Azeredo – então presidente do PSDB à época em que o Brasil soube do maior crime de desvio de dinheiro público de que se tem notícia. Segundo Janot há provas “absolutamente suficientes” de que o ex-governador mineiro “participou decisivamente”, da operação que limpou (e branqueou) R$ 3,5 milhões (R$ 9,3 em valores atualizados) de duas empresas estatais (Cemig e Copasa) e do banco oficial Bemge.

Mesmo assim, o denunciante da República admite que o principal réu do mensalão mineiro nunca se pôs ostensivamente à frente do delito, estando sempre na retaguarda. Desta forma ele também se compara ao antecessor de Dilma Rousseff: se Lula não sabia o que acontecia, Eduardo Azeredo, anos antes, alega a mesma coisa.

Mas o ex-presidente não foi incluído na denúncia do mensalão – inclusive com a ajuda do PSDB, que não insistiu nas investigações quando o publicitário Duda Mendonça confessou o “caixa 2” na campanha presidencial de 2002. A elite tucana preferiu evitar ser taxada de “golpista” e apostou no “sangramento” de Lula.

Naturalmente, as proporções são bem diferentes. Na operação do PT, que começou com o desvio de verbas do Correios, o montante, os figurantes e a amplitude nacional, bem como o envolvimento da Presidência da República, pelo titular da Casa Civil, são bem mais expressivos.

Porém, o mal maior não elimina o menor.

Na ação penal 536 relatada pelo ministro Luís Roberto Barroso, que encaminhará o parecer final ao plenário da Corte, não aparecerão os “nanicos” do mensalão mineiro. Clésio Andrade, do PMDB, companheiro de chapa de Azeredo em 1998, é réu na AP 606. Walfrido Mares Guia, então no PTB, vice-governador na gestão tucana – e depois duas vezes ministro na Era Lula –, se safou graças à lentidão do processo ao completar 70 anos em 2012. E o tesoureiro de Azeredo, Cláudio Mourão, em abril vai requerer a mesma alforria.

Ao PSDB resta fazer o oposto do que fez seu principal adversário da arena política nacional. Defendeu Eduardo Azeredo durante bom tempo, mas não há como usar do arrivismo e histerismo. Fazer campanha contra a imprensa e contra o STF não vai mesmo, porque não é do seu estilo. Usar a militância física e virtual muito menos, até porque não as possui.

Já jogou a toalha, se esta metáfora servir. Quer que o ex-governador de Minas evite mencionar o mensalão. E faz muito bem. Aécio Neves pode correr sua raia nas eleições deste ano, com todo o barulho que o caso de seu conterrâneo fará, com pouco prejuízo.

Se o mensalão não foi o Waterloo de Lula – ele não sangrou, se reelegeu e fez a sucessora –, e nem o será de Dilma, não será do PSDB igualmente. Mesmo porque não é poder.

E tem muito mais estofo e fundamento ético para aceitar que o desvio de um não é o da legenda inteira. Como o PT deveria ter feito, no que teria sido, até aqui, a sua maior contribuição à democracia brasileira.

Fonte: VOZ DA RÚSSIA

Criada a pizza eterna

Crean una pizza eterna

Está lista para comer durante tres años sin necesidad de refrigerarla.



Placeres. Levantarse con hambre, abrir la heladera con escasa expectativa y vislumbrar las porciones de pizza que quedaron de la noche anterior. Y así, en un acto instantáneo, sin previo paso por el horno, disfrutar del lado B del manjar. Ahora, eso será posible por mucho tiempo.

Científicos militares de Massachussets lograron diseñar una pizza que se mantiene incorrupta y lista para comer durante tres años sin que haga falta refrigerarla. El logro fue anunciado por el Laboratorio de Ingeniería y Desarrollo Natick Soldier Research, que ha tardado dos años en dar con la receta.

Según consigna la agencia AP, el problema de la pizza es que el agua de los ingredientes que forman la cobertura tiende, con el tiempo, a permear la masa, creando el caldo de cultivo perfecto para el desarrollo de bacterias y estropeando completamente el alimento.

Ahora, los científicos utilizaron ingredientes hidratantes que se adhieren a las moléculas de agua impidiendo que pasen a la masa. También modificaron la acidez de los componentes para que las bacterias no puedan instalarse.

Obviamente, aclararon que estas modificaciones no afectan al sabor y textura de la pizza tradicional. Este rico invento era uno de los pedidos más repetidos por los soldados de las tropas estadounidenses.

Fonte: CLARIN