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Advogado - Nascido em 1949, na Ilha de SC/BR - Ateu - Adepto do Humanismo e da Ecologia - Residente em Ratones - Florianópolis/SC/BR

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A mais nova congressista americana voltou à ribalta, respondeu à letra e ainda subiu o tom


Link:
A congressista americana Alexandria Ocasio-Cortez
Mario Tama/Getty

Desta vez, foi uma foto com uns pés e o peito visto através do reflexo da torneira da banheira o modus operandi para tentar enxovalhar Alexandria Ocasio-Cortez



A congressista americana Alexandria Ocasio-Cortez, a mais nova a ser eleita para a Câmara dos Representantes, não tem sossego. Depois de um vídeo posto a circular em que a democrata aparecia a dançar, quando era adolescente, e que pretendia envergonhá-la ter tido o efeito contrário – foram muitos os “aplausos” para Ocasio-Cortez e outras tantas as condenações para quem o tentou fazer – agora é a vez de uma foto em que, supostamente, ela estaria nua. Só que não é ela.

A história tem, ainda, contornos burlescos.

A foto foi posta a circular há cerca de um mês. Na imagem vêem-se as pernas e os pés de uma mulher na banheira e uma mão que parece estar a segurar um cigarro eletrónico. Foi partilhada em algumas contas de Twitter e vários fóruns como sendo da deputada e tirada do Instagram dela (a legenda é “alexandria ocasio-cortez.instagram.post.9-3-2016.”) e com a indicação de que se fizesse zoom à torneira da banheira se veria o peito da mulher e que esta era Cortez. Mas não é.

E, fruto dos tempos em que vivemos, foi um site chamado Wikifeet (dedicado a pessoas que têm fetiches por pés) que denunciou que aqueles pés não eram da congressista. Como chegaram a essa conclusão: um utilizador comparou os pés que aparecem na foto com as dezenas de imagens em que Cortez aparece de sandálias.


Na realidade a foto é de Sydney Leathers, uma ativista política e modelo fotográfico. A mesma confirmou-o no Twitter dizendo que já tem alguns anos.

Mesmo depois do desmentido, a foto continuou a circular por vários sites e fóruns e foi notícia do jornal Daily Caller com o título: “Aqui está a foto que algumas pessoas descrevem como sendo um selfie nua de Alexandria Ocasio-Cortez.”O artigo até descrevia como tudo aquilo era falso, mas o título indicava o contrário. Quem não se ficou foi a congressista. E subiu o tom. No Twitter disse que uma jornalista do Daily Mail (Ruth Styles) foi a casa da família do seu namorado e ofereceu dinheiro em troca de histórias. E acusou os republicanos de terem posto a circular a falsa foto

Comentários racistas valem perda de títulos honoríficos a Prémio Nobel da Medicina

Brent N. Clarke/ Getty Images

O laboratório que James Watson, prémio Nobel da Medicina em 1962, dirigiu considera que as suas opiniões sobre as diferenças de inteligência entre raças são "repreensíveis", além de "injustificáveis pela ciência"

Aos 90 anos, o cientista norte-americano co-responsável pela descoberta da estrutura em dupla hélice da molécula de ADN viu serem-lhe retirados, na semana passada, vários títulos honoríficos que recebeu ao longo da carreira, graças aos seus comentários na televisão. Num programa emitido no início deste mês, James Watson reiterou a sua convicção de que há diferenças de inteligência entre raças e que a genética o justifica.
O Laboratório Cold Spring Harbor, de que foi diretor e mais tarde presidente (cargo que deixou em 2003), já se demarcou destas declarações, que classifica como "opiniões pessoais sem fundamento e irresponsáveis".
A primeira vez que James Watson manifestou este seu polémico ponto de vista foi em 2007, em declarações ao Sunday Times, para justificar a sua posição "sombria" sobre África: "Todas as nossas políticas têm por base o facto de a inteligência deles ser a mesma que a nossa, quando todos os testes dizem que não é bem assim." Na altura, o geneticista chegou ao ponto de dizer que, embora "esperasse" que todos fossem tratados de forma igual, "as pessoas que têm de lidar com funcionários negros sabem que isto não é verdade".
Watson acabou por pedir desculpa e retratar-se, mas abandonou o cargo de chanceler que ocupava no laboratório.
Agora, está em causa o documentário da PBS que foi para o ar no dia 2 de janeiro, em o cientista vai mais longe e afirma que as diferenças de QI entre caucasianos e outras raças se refletem no ADN.
Para o Cold Spring Harbor, que ainda tem uma escola com o seu nome, estas considerações "revertem" o pedido de desculpas de 2007 e, por isso, a insituição decidiu retirar ao seu ex-dirigente três títulos honoríficos.
James Watson recebeu o Prémio Nobel da Medicina com Maurice Wilkins e Francis Crick, em 1962, pelo "modelo de dupla hélice" para a estrutura da molécula de ADN, mas, depois de anos no papel de persona non grata dentro do meio científico e não só, acabaria por leiloar a sua medalha em 2014, por mais de 3,5 milhões de euros.
Atualmente, o biólogo encontra-se internado, a recuperar de um acidente de viação, em outubro. À Associated Press, o filho adianta que a sua perceção do que o rodeia é "mínima".

A partir dos cinquenta quem manda é o cavalo



António Lobo Antunes


Como era o nome do muralista? Rivera, isso. Ainda cá canta, o México, nem o cavalo me desvia dele, palavra de honra. Depois dos cinquenta é o cavalo quem manda mas eu continuo no selim. Com o futuro talvez não à minha frente, atrás, mas continuo no selim. Por mais esforços que o tempo faça não me tira daqui. Posso baloiçar, posso escorregar mas aguento. Torto mas aguento. Quase a tombar mas aguento


Ilustração: Susa Monteiro

Há anos e anos conheci em Paris o escritor alemão Ernest Jünger, que tinha perto de cem anos. Disse-me

– Quanto mais envelheço mais futuro tenho

que me deixou de boca aberta. E, de facto, continuava a publicar, de olhinho brilhante faiscando ideias e projectos, até que um belo dia morreu e as ideias e os projectos sumiram-se pelo ralo abaixo consigo, deixando uma espumazinha de rascunhos que se foram evaporando na areia das páginas porque, a partir dos cinquenta, é o cavalo quem manda e tudo o que podemos fazer se limita a tentar equilibrarmo-nos lá em cima, ora pendurados de um lado, ora pendurados do outro, quase a cair, aflitos e precários, mais lentos, mais vagarosos, mais incertos. Começa a haver espaços brancos na memória, esquecimentos absurdos, qual é o nome daquele muralista mexicano, meu Deus, furiosos connosco mesmos, oscilando entre o espanto e a fúria

– Diego quê, Diego quê, não é Orozco, não é

e, passados uns segundos angustiosos, Siqueiros, é o outro, o mais conhecido, Diego Qualquer Coisa, o que se passa comigo, não pode ser, não pode ser, ganas de bater na cabeça a fim de agitar lembranças, tantos espaços ocos, meu Deus, Diego Rivera, gaita, até que enfim, o gordo, parece que estou a vê-lo, zangados com Rivera, zangados com o mundo, desesperados connosco mesmos e não é só a memória que falha, os invernos cada vez mais frios, mais incómodos, mais lenços, mais assoadelas, mais arrepios, menos vontade de sair de casa, dentes que ainda ontem estavam bons, o dentista

– Não era má ideia pôr um implantezito aqui

a espreitar lá para dentro com a ajuda de uns pauzinhos cromados

– Pois é


e os olhos com pena de nós por cima da máscara. Depois dos cinquenta, amigos, é de facto o cavalo quem manda. Menos vontade de sair de casa, conversar, jantar fora, que é do entusiasmo pelas viagens e os museus, um filme óptimo que vais adorar, um concerto, uma peça e uma absoluta falta de vontade, por parte do cavalo, de estar com pessoas, uma absoluta falta de paciência, por parte do cavalo, de ouvir coisas, contar coisas, achar interessante, achar graça. Penso que estou a exagerar, quer dizer o cavalo está a exagerar, ainda acha graça, ainda se interessa. O cavalo e eu não mudámos no mais fundo de mim. Aqui para nós na maior parte do tempo nem sequer existe o cavalo, sou eu sozinho, a sorrir sem amargura alguma. Talvez o Jünger

– Quanto mais envelheço mais futuro tenho

esteja do lado da razão, seja o que for que isso signifique, de modo que estendo os olhos para o rio, lá no fim da janela. Casas, casas, pombos, gaivotas. O retrato da minha avó sobre a mesa, uma rapariga linda, de dezassete anos e imensos olhos azuis. Comprava-me os versos que eu fazia, pegava-me na mão. Ninguém se atrevia a ralhar-me quando estávamos juntos, ninguém me podia ralhar à sua frente, o que eu não dava para estar consigo, sabia? Volta e meia quase me censurava

– Tu matas a tua mãe

enquanto me fazia festas no cabelo, festas óptimas mesmo tendo em conta que fazer festas decentes no cabelo é dificílimo. Como era o nome do muralista? Rivera, isso. Ainda cá canta, o México, nem o cavalo me desvia dele, palavra de honra. Depois dos cinquenta é o cavalo quem manda mas eu continuo no selim. Com o futuro talvez não à minha frente, atrás, mas continuo no selim. Por mais esforços que o tempo faça não me tira daqui. Posso baloiçar, posso escorregar mas aguento. Torto mas aguento. Quase a tombar mas aguento. Se nem três cancros me derrubaram até hoje claro que aguento, já aguentei tanta coisa. Quando amanhecer não quero que me encontrem no chão. Só depois de vocês se irem embora começo a escorregar, mas tão devagarinho que ninguém dá por nada. Até parece que continuo em pé, não parece? E direito, já repararam? Enfim, mais ou menos direito. Se não usarem uma linha de prumo parece mesmo que direito. E depois de vocês desaparecerem de mim o cavalo que faça o que quiser: seja o que for que encontrem não é a mim que encontram: eu estarei muito longe, onde se vê o mar, em gritos de gaivota pequenina. Depois levanto voo até um penedo qualquer de onde a minha avó me chama

– Filho

e eu, todo contente, ao seu colo, a mostrar-lhe a minha coleção de capicuas.

(Crónica publicada na VISÃO 1348 de 3 de janeiro de 2019)

O caboclo

"No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Só ele não fala, não canta, não ri, não ama. Só ele, no meio da tanta vida, não vive…"

A Medicina e o "Deus quiz"

A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília – em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça. 4 Guerra do Paraguai. 7 Quem aplica as mezinhas é o “curador”, um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga – meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos. Doenças haja que remédios não faltam. Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo… Para “quebranto de ossos”, já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã; mete-se tudo numa gamela d’água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível! O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto. Para dor de peito que “responde na cacunda”, cataplasma de “jasmim de cachorro” é um porrete. Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano. O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jeca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d’alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo. Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito. Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém- nascido. A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia. Esta planta, conta Jeca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhê-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre – mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida. 8 Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra. A idéia de Deus e dos santos torna-se jeco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou – tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos. Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do “Allah Kébir” do beduíno.

MONTEIRO LOBATO - Urupês

A Lei do menor esforço ou "não paga a pena".

"Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longe. Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido. Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas – para hóspedes. Três pernas permitem equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam? Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher, garfo e faca a um tempo? No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão. Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhos; um que traz no uso e outro na lavagem. Os mantimentos apaiola nos cantos da casa. Inventou um cipó preso à cumeeira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto: ali pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos. 4 Da parede pende a espingarda pica-pau, o polvarinho de chifre, o São Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede. Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso. Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jeca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu. Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jeca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante… Remendo… Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam “apenas ” nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos. Na mansão de Jeca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. A fim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela – santo de mascate. – “Por que não remenda essa parede, homem de Deus? – “Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora? Não obstante, “por via das dúvidas”, quando ronca a trovoada, Jeca abandona a toca e vai agachar-se no oco dum velho embiruçu do quintal – para se saborear de longe com a eficácia da escora santa. Um pedaço de pau dispensaria o milagre; mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente. Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência. Há mil razões para isso; porque não é sua a terra; porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a “criação” come; porque… – “Mas, criatura, com um vedozinho por ali… A madeira está à mão, o cipó é tanto…” Jeca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha. – “Não paga a pena”.
Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem-vergonha. Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jeca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio. Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jeca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem macetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura. Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jeca a opulência de um seu vizinho e compadre que “está muito bem.” A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca. Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rocinante zanaga. Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, granjeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jeca, para quem, fino como o compadre, “home” … nem mesmo o vigário de Itaoca!. Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no xale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora. O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária. 6 Vota. Não sabe em quem, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama “sua graça”. Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mãos o “dipeloma”. Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão. Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jeca Tatu. O mobiliário cerebral de Jeca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos"

-MONTEIRO LOBATO - Urupês

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Rádio Ratones - Música - BELCHIOR

Trump surfa na onda nacionalista dos Estados Unidos


Para americanos, velho modelo esquerda-x-direita não traduz mais o espírito do tempo. A dicotomia globalismo-x-nacionalismo vem ocupando seu lugar.











Oliver Stuenkel
11 JUN 2018 - 12:32 BRT A já icônica foto do Trump no G7 JESCO DENZEL AP


Quando a icônica fotografia de Angela Merkel encarando Donald Trump durante a recente Cúpula do G-7 viralizou nas redes sociais, muitos observadores ressaltaram a estupidez da decisão de Trump de impor tarifas punitivas contra seus aliados. Para o jornal liberal progressista The New Yorker, por exemplo, "America First" (A América Primeiro, slogan utilizado por Trump na campanha) "na verdade significa A América Sozinha". Poucos se deram conta de que eleitores de Trump adoraram a foto. Para seus fãs, serve como prova de que ele está disposto a defender os EUA contra a globalização que eles tanto temem. Breitbart, site de notícias ultranacionalista popular entre defensores de Trump, colocou a imagem em sua homepage sob o título: “Cúpula do G7: Trump dá aula magna sobre A América Primeiro aos globalistas.” John Bolton, um dos principais assessores de Trump, a compartilhou no Twitter: “Os outros países membros do G7 têm a expectativa de que os EUA serão sempre o cofrinho deles. O presidente deixou claro hoje: não mais.” A estratégia está surtindo efeito. A taxa de aprovação de Trump está subindo, e o político republicano Mitt Romney, crítico do presidente, recentemente disse acreditar que Trump será reeleito em 2020.

Trump soube magistralmente identificar e aproveitar a transformação na política norte-americana, que não funciona mais segundo o velho modelo esquerda-x-direita. De fato, a divisão entre globalistas e nacionalistas é cada vez mais relevante hoje em dia. Para muitos observadores, foi uma surpresa ver um número expressivo de norte-americanos, que tinham apoiado o autodeclarado socialista Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata, votarem em Donald Trump nas eleições gerais. Se todos os eleitores de Sanders tivessem transferido seus votos para Hillary Clinton, ela seria presidente hoje. Esses eleitores, porém, não viam os candidatos segundo os parâmetros clássicos de esquerda-x-direita -- em vez disso, pareciam identificar mais semelhanças entre Sanders e Trump do que entre Sanders e Clinton. Os globalistas, como Clinton, acreditam que a globalização geralmente produz benefícios para todos e não ameaça a soberania nacional. Eles costumam considerar as fronteiras nacionais como um obstáculo ao progresso. Os nacionalistas, como Sanders e Trump, por sua vez, acreditam que a globalização é uma ameaça à soberania nacional e desejam fronteiras nacionais mais fortes. Para eles, os governos nacionais devem proteger o país contra influências negativas do exterior, como produtos importados que põe em risco a indústria americana.



No entanto, embora não se possa ignorar a tendência, aceitar a divisão entre nacionalistas e globalistas traz riscos profundos, porque cria uma falsa exclusividade entre os dois grupos, como se as pessoas tivessem que escolher entre a pátria e o mundo. Essa perigosa dicotomia permite aos nacionalistas retratar o globalismo como um sistema dominado por bancos e conglomerados internacionais opacos, que minam o estado nacional e a própria democracia. Os nacionalistas podem atacar os globalistas e questionar sua lealdade: quem garante que eles defenderão a pátria em tempos de conflito? A divisão sugere implicitamente que os globalistas estão menos comprometidos com o interesse nacional. Caricaturar o globalismo como uma alternativa liberal, capitalista e antidemocrática ao nacionalismo rende votos, enquanto a defesa de instituições internacionais, como a ONU, a OMC ou a União Europeia, desperta bem menos interesse.

Ainda assim, quem apoia a globalização também é parcialmente responsável pela ascensão dos nacionalistas. Como ressalta Dani Rodrik, professor de Harvard, a maioria dos economistas sempre procurou falar apenas as consequências positivas do livre comércio, minimizando seu impacto negativo sobre grupos específicos. Um palestrante-padrão do Fórum Econômico Global de Davos, por exemplo, raramente reconhece que questões como manipulação cambial, desequilíbrios comerciais e perda de empregos são reais e que as importações de países onde os direitos trabalhistas não são protegidos trazem sérias questões relativas à justiça distributiva. Da mesma forma, os críticos do livre comércio têm certa razão quando argumentam que empresas multinacionais e grandes investidores às vezes determinam a agenda das negociações comerciais internacionais, resultando em acordos que beneficiam desproporcionalmente o capital em relação ao trabalho. Consequentemente, os defensores da globalização perderam parte de sua credibilidade, e os argumentos de Trump contra a globalização têm atraído muita atenção.

Outro problema é que muitos globalistas tratam os eleitores de Trump como caipiras desinformados. Nas redes sociais, seus adversários frequentemente pintam Trump como uma criança. Uma foto adulterada em Photoshop, que ficou popular no Twitter, mostra o presidente dos EUA em um carrinho de bebê durante o G7. Outra exibe cadeiras destinadas a cada um dos sete líderes do grupo. Detalhe: a dos Estados Unidos é um banquinho para bebê. No entanto, muitas vezes passa despercebido o fato de que essas imagens reforçam a percepção, entre os eleitores de Trump, de que eles não estão sendo levados a sério e de que seus adversários são arrogantes e alheios às suas preocupações.

A dicotomia "globalista x nacionalista" também está definindo cada vez mais a atuação dos EUA no mundo. Não por acaso, Trump pediu a readmissão da Rússia, liderada pelo líder nacionalista Putin, ao G7, e a única pessoa que o presidente dos EUA elogiou em seus tweets durante a cúpula foi o novo primeiro-ministro da Itália, líder de um governo nacionalista eurocético, a quem chamou de "um sujeito realmente ótimo".

Só que Trump, ao agir dessa forma, não está apenas expressando suas próprias convicções. Ele está traduzindo em ação o Zeitgeist presente nos EUA já há algum tempo. Em vista do viés nacionalista de significativa parcela da população dos Estados Unidos, parece altamente improvável que qualquer futuro ocupante da Casa Branca, durante a próxima década, possa adotar uma agenda pró-livre comércio tão entusiasticamente como os antecessores de Trump. Com os Estados Unidos cada vez mais de olho no próprio umbigo, caberá a outros atores globais - como a União Europeia, a China, o grupo BRICS e nações latino-americanas - garantir que a globalização continue sem o país que um dia foi seu maior defensor.
 
Fonte: EL PAIS BR

“A narrativa sobre o narcotraficante El Chapo é a maior ficção na suposta guerra às drogas”

O acadêmico Oswaldo Zavala lança no México o livro ‘Os cartéis não existem’, que dinamita o discurso oficial sobre a criminalidade no país


Oswaldo Zavala, na Cidade do México.
Oswaldo Zavala, na Cidade do México.
Do que estamos falando quando nos referimos ao narcotráfico no México? O que significa ler que os cartéis colocam o Estado em xeque, que a guerra se intensifica nos Estados de Guerrero, Tamaulipas, Jalisco e Michoacán? O que é um sicario, uma plaza, um halcón, o que é esta matança que sangra o país há tantos anos?



São palavras e expressões que aparecem nos relatórios oficiais, na imprensa, nas revistas, nas novelas, nas séries de televisão... E, entretanto, o que significam? Fazemos bem ao usá-las, ao dizer “guerra do tráfico”, ou ao noticiar que El Chapo, Os Zetas ou o Jalisco Nova Geração “controlam uma praça”? Oswaldo Zavala (Cidade Juárez, 1975) diz que não. Um não taxativo.

Los Cárteles No Existen (“os cartéis não existem”, inédito no Brasil), seu novo ensaio, questiona a narrativa oficial construída em torno da violência no México. Pois não há uma guerra entre cartéis, diz Zavala, embora a “guerra entre cartéis” seja uma explicação compreensível, digerível, para as dezenas de milhares de mortos e desaparecidos deixados pelo conflito. É uma isca para o Twitter. Por isso ele diz suposta: suposta guerra, supostos cartéis, supostos líderes de facções criminais. Suposto tudo: “Meu interesse é mostrar que há um discurso que constrói um inimigo que está por toda parte e que é o principal ator da violência. E depois compreender o que há por trás dele, um sistema político que lança mão da linguagem para avançar em estratégias que de outro modo seriam inaceitáveis”.

Pergunta. Se o cartéis não existem, então o que existe?

Resposta. Os cartéis não existem, mas a violência estatal existe. Temos que compreender que estes tempos violentos têm relação com a história do sistema político. O sistema político é a maior condição para a violência no país. A partir da história do Estado podemos compreender o que é isso que chamamos de narcotráfico. A ideia de um cartel é uma ideia recebida, criada pelo discurso de segurança dos Estados Unidos nos anos oitenta, para falar dos traficantes colombianos. E que no México se tornou útil paralelamente a outra narrativa, que permite, de forma muito rápida e simples, nos dar uma ideia concisa sobre a violência. E que permite justificar estratégias estatais.



A verdadeira colombianização não é El Chapo, nem os traficantes atacando a sociedade civil, e sim a resposta do Estado

P. Você distingue três fases nas relações entre os grupos criminais e o Estado. Uma primeira, primitiva, que corresponde ao México anterior à poderosa implantação da Direção Federal de Segurança –o temível órgão de combate à insurgência do Estado controlado pelo partido PRI. A segunda, que nasce com a Operação Condor nos anos setenta e coincide com a organização dos traficantes de Sinaloa em Guadalajara. E depois o desmantelamento da DFS e a perda de poder pelo PRI. E agora?

R. Eu começaria com a Operação Condor. Em 1975 houve a primeira ação militarizada coordenada entre os EUA e o México para atacar o Triângulo Dourado, uma região de cultivos de papoula e maconha entre Sinaloa, Chihuahua e Durango. Cerca de 10.000 agentes chegam ao Triângulo Dourado, queimando e despovoando. Há um êxodo maciço de camponeses para Culiacán, Sinaloa... Isso não volta a se repetir até o Governo de [Felipe] Calderón [2006-12]. Pelo menos não com essa gravidade. A partir daí, o sistema político concebe uma estratégia nacional de gestão do tráfico. Marginaliza os traficantes do poder político e produz a Federação, disciplinada pela DFS e o Exército.

A segunda etapa começa quando se esgota a ameaça comunista global, e os EUA ficam sem inimigo no âmbito da segurança. Cai a União Soviética, e o presidente Reagan recodifica os objetivos de segurança para pensar agora no narcotráfico como a nova agenda de segurança nacional. E isso é feito de um dia para o outro. Até então o tráfico era uma questão policial (...). Embora a agenda de segurança comece em 1989 com CISEB – o serviço secreto, que substitui a DFS –, é com Calderón que o México se colombianiza. Ou seja, a verdadeira colombianização não é El Chapo, nem os traficantes atacando a sociedade civil, e sim a resposta do Estado.

P. Como seus argumentos se ligam a situações como as vividas em Jalisco nos últimos meses, o desaparecimento dos estudantes de cinema e seu assassinato, o atentado contra o ex-promotor em pleno centro de Guadalajara? Se os cartéis não existem, então o que é tudo isso?

R. Parte do problema é este. Queremos respostas rápidas, como o trabalho jornalístico exige. Estamos acostumados a receber uma explicação que nos tranquilize, que nos faça entender a lógica da violência. E isso é parte da maneira pela qual o discurso oficial se instalou na esfera pública com tanta força. Há um tiroteio, pessoas morrem, e imediatamente se significa para nós por meio de porta-vozes oficiais: “É que lá está o Cartel de Jalisco, que além do mais derrubou um helicóptero, e há uma operação para detê-los”. E então todos os jornalistas anotam tudo, foi o cartel, e acabou. Em um país com um índice de impunidade extraordinário, surpreende-me a facilidade com que aceitamos o relato oficial.



Costumamos receber uma explicação que nos tranquilize, que nos faça entender a lógica da violência

P. Suponho então que El Chapo e sua história lhe pareçam a maior das ficções...

R. Totalmente, quando o prendem no apartamento de Sinaloa [em fevereiro de 2014], ele está sozinho com a sua mulher. E um repórter do The New York Times, sobressaltado, diz: “Que loucura, não há túneis, soldados, não está lá o seu exército, e o capturam lá como se fosse a coisa mais normal, incrível!”. Não! Talvez seja a sua realidade! O incrível é que você acredite que ele tem 300 soldados. Quem os viu? Ninguém.

P. Sim. El Chapo é o ator principal desta comédia que você chama de guerra do tráfico, e suponho que a fuga pelo túnel seja sua história favorita [em julho de 2015, as autoridades informaram que El Chapo havia fugido por um túnel de uma prisão de segurança máxima].

R. Não só é inverossímil como também representa um desafio jornalístico. Quem abriu esse túnel? Fiquei fascinado de ver que todo mundo se esmerou em descrever o túnel, como estava ventilado, mas ninguém questionou se havia sido o pessoal do Chapo que o cavou. Sim, noticiou-se que houve ajuda de prisão, que ele corrompeu. Mas a ideia foi dele, e graças a subornos ele conseguiu. Quer dizer, nunca nada fora da narrativa oficial. Continua-se a acreditar que ele é o fator de origem desses eventos. E me parece incrível que se evite dizer que há interesses políticos na sua fuga.

P. Então essa construção teórica que você denuncia serve para tampar casos de corrupção? Ou qual é a intenção? Há uma só, ou várias?

R. Há uma enorme descontinuidade em como essas narrativas do tráfico são utilizadas. Às vezes há recursos naturais no meio, às vezes uma disputa entre grupos de poder. Vejamos o caso de Chihuahua. Lá, são grupos poderosíssimos, aliados com empresários que estão dilapidando a serra, há um enorme extrativismo na serra, coisa que foi noticiada por Miroslava Breach [jornalista assassinada há pouco mais de um ano]. Isto que chamamos de narcopoder na verdade são esses grupos de rapina que se dedicam ao corte de árvores, fazendo muita sacanagem e que se aliam com empresários e políticos, partidários do PRI no caso de Chihuahua, que na transição – o PAN alcançou o Governo estadual pouco antes do assassinato de Miroslava – estavam sendo ameaçados. Que ideia poderia ser melhor do que desestabilizar o Estado logo de saída, criar uma nova guerra e desviar a atenção?
 
Fonte: EL PAIS BR

domingo, 10 de junho de 2018

Por que os suicídios estão aumentando nos Estados Unidos?


Estilista Kate Spade e chef Anthony Bourdain morreram nesta semana após supostamente cometerem suicídio

Um novo estudo do governo dos Estados Unidos revelou que o suicídio vem aumentando em todo o país desde 1999.

Os números foram publicados na mesma semana em que a estilista Kate Spade e o famoso chef Anthony Bourdain tiraram a própria vida.

Mas o que causou esse aumento de suicídios nos Estados Unidos?

Segundo o estudo, realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), um órgão do governo americano, a taxa total de suicídio aumentou em 30% em mais da metade dos Estados dos EUA nos últimos 17 anos. O aumento médio em todo o país é de cerca de 25%.

Isso significa que, em média, 16 de cada 100 mil americanos decidem acabar com suas próprias vidas todos os anos.

Só em 2016, quase 45 mil pessoas se suicidaram no país.

De acordo com os dados do CDC, o suicídio aumentou entre todos os grupos, independentemente de sexo, idade, raça ou etnia.

A principal pesquisadora do estudo, Deborah Stone, disse à BBC que o CDC vinha investigando esse aumento há algum tempo.

"Sabíamos que as taxas estavam subindo e queríamos entender esse aumento a nível estadual. Sem falar nos fatores por trás disso", explica Stone.

"Em 25 Estados, houve aumentos de mais de 30%, o que nos surpreendeu", acrescenta.

Quase todos esses Estados são encontrados nas regiões oeste e centro-oeste dos Estados Unidos. 
Nos EUA, grande parte de quem morre por arma de fogo comete suicídio
Por que os suicídios estão aumentando?

Embora não exista um único fator que leve ao suicídio, Stone diz que as principais causas são os problemas financeiros e as relações emocionais.

A especialista também lembra que alguns Estados do oeste americano têm historicamente altas taxas de suicídio. Isso poderia estar relacionado à economia preponderantemente agrícola dessa região.

Esses Estados, assinala Stone, ainda estão se recuperando de crises econômicas. Seus moradores também tendem a ser mais isolados e a não ter acesso a cuidados adequados. Além disso, foram os locais mais duramente atingidos pela epidemia de opioides (drogas que atuam no sistema nervoso para aliviar a dor).

Já para a presidente da Associação Americana de Suicídio, Julie Cerel, parte do aumento pode ser explicado pelo aperfeiçoamento da metodologia dos relatórios e dos estudos.

Mas ela destaca a falta de fundos suficientes para pesquisa em saúde mental e cuidados preventivos.

"Nossos sistemas de saúde mental estão passando por dificuldades em todo o país", diz ela. "Em termos de treinamento de profissionais de saúde mental, não estamos fazendo um bom trabalho".

Apenas em dez estados americanos, por exemplo, é obrigatório que os profissionais de saúde recebam treinamento sobre prevenção do suicídio.
Suicídio: como falar sobre o ato sem promovê-lo Direito de imagem Getty Images Image caption Apenas em dez estados americanos, é obrigatório que profissionais de saúde recebam treinamento sobre prevenção do suicídio.
Armas de fogo

Cerel também alude a outro problema de saúde pública, embora muitas vezes deixado de lado: armas de fogo.

"O debate sobre armas de fogo nos EUA se concentrou nos terríveis tiroteios nas escolas, e queremos evitá-los, mas a grande maioria das mortes por armas de fogo ainda é por suicídio", diz ela.

Segundo o CDC, os suicídios respondem por dois terços desse tipo de morte.

"Nós simplesmente não falamos sobre isso nos EUA porque existe um estigma contra a saúde mental; as pessoas pensam que os suicídios são diferentes, por que eles deveriam querer o controle de armas, ninguém em sua família vai fazer isso", diz ela.
Existe uma relação entre suicídio e doença mental?

O estudo do CDC descobriu que 54% dos americanos que morreram de suicídio não tinham sido diagnosticados com nenhuma doença de saúde mental.

Em entrevista à BBC, Jerry Reed, da Aliança Nacional para Ação contra a Prevenção do Suicídio, disse que, "embora haja definitivamente uma ligação entre a doença mental grave e o comportamento suicida", os especialistas descobriram que isso não se trata apenas de um desafio de saúde mental.

"Condições econômicas ou oportunidades de subsistência em declínio podem levar as pessoas a situações onde passam a correr risco; precisamos intervir nos casos de saúde mental e pública", diz Reed.

Cerel também destaca que muitas pessoas diagnosticadas com doenças mentais não se suicidam.

"Não é algo tão simples como: 'eles tinham problemas mentais, então se suicidaram'".

Stone diz que o estudo do CDC mostra que a perda de entes queridos, abuso de substâncias, saúde física e problemas legais e de trabalho são todos elementos importantes que podem desencadear um comportamento suicida.

"Se nos concentrarmos em apenas uma coisa, estamos esquecendo outras pessoas potencialmente em risco", diz ele.
Por que o número de crianças hospitalizadas por tentativa de suicídio dobrou nos EUA? Direito de imagem Getty Images Image caption Ter 'plano de segurança' é vital para contornar situações extremas na vida, defende especialista
'Seguir em frente'

Os especialistas concordam que ensinar as pessoas a processar uma perda e como lidar com emoções difíceis são dois fatores essenciais para evitar o suicídio.

"Não podemos supor que todos aprendam isso por meio de uma fórmula mágica", diz Reed.

"Aprendemos a ler, a escrever, por isso também precisamos ajudar as pessoas a aprenderem a ter sucesso.

Então, o que é exatamente progredir do ponto de vista da saúde mental?

Cerel defende ter um "plano de segurança".

"Se as coisas derem errado em sua vida, o que você vai fazer? O que você pode fazer para se distrair naquele momento de tristeza? Você pode olhar fotos de seus filhos ou assistir a vídeos engraçados de gatos?", diz.

"Não que esses vídeos vão manter alguém vivo, mas podem acalmar as pessoas para que sejam usadas outras estratégias de enfrentamento", acrescenta.

Cerel também enfatiza que o objetivo final é incentivar suicidas em potencial a frequentar a terapia e terem profissionais de saúde mental para ajudar a "mudar o pensamento disfuncional"

Para algumas pessoas, "sentir-se conectado e desfrutar de um sentimento de pertencimento são coisas realmente importantes", destaca Stone.

"Temos que envolver toda a comunidade, não apenas os profissionais de saúde", diz Reed. "Somos uma nação que precisa reconhecer esse isolamento", acrescenta.