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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Crisóstomo II, o santo padroeiro de Chipre

.LE FIGARO - Presseurop


Crisóstomo II em Nicósia, em março de 2013.AFP


Chefe da Igreja Ortodoxa da ilha e homem de negócios à frente de um património colossal, o arcebispo de Chipre não se priva de intervir no debate político. Encontro com um ator incontornável de um país em crise.


Em Chipre, uma pequena república mediterrânica mergulhada numa crise económica histórica, o arcebispo Crisóstomo II, chefe da Igreja Ortodoxa, intervém no debate político. Permanentemente e sem limites.

No final de março, o plano de resgate da Europa impôs uma taxa sobre as contas bancárias superiores a €100 mil das duas maiores instituições do país, como contrapartida a uma ajuda de €10 mil milhões. Mal o novo Presidente cipriota, Nicos Anastasiades, aceitou esse plano, o prelado reclamou as cabeças do ministro das Finanças e do governador do banco central. E, no entanto, durante a campanha presidencial, o chefe da Igreja tinha dado o seu apoio explícito a Anastasiades.

Sua Beatitude Crisóstomo, “arcebispos da Nova Justiniana e de Todo o Chipre”, dá a sua opinião sobre todos os assuntos. O prelado é, sobretudo, um homem de negócios à frente de uma Igreja rica, muito rica. Atribuem-se-lhe, também, relações privilegiadas com Moscovo. Uma figura incontornável na ilha, sem dúvida, a sua figura mais influente. E que, forçosamente, suscita paixões.

“Vai encontrar-se com o arcebispo?”, brinca Panicos, motorista de táxi, durante o trajeto para a arquidiocese, no coração da velha Nicósia, rodeada por muros venezianos. “Cuidado com os anéis! A Igreja é riquíssima, é uma máfia!”

Arcebispo e homem de negócios

O prelado recebe-nos no palácio episcopal, um edifício de estilo neobizantino de elegantes arcadas, construído na década de 1950. No pátio pontifica uma estátua de corpo inteiro de Monsenhor Macário III, ilustre antecessor de Crisóstomo e primeiro Presidente de Chipre independente, em 1959.

Nessa manhã, Crisóstomo II recebe o visitante vestindo uma simples sotaina azul. A manga debruada a vermelho deixa aparecer um imponente relógio de ouro. Após o beija-mão ritual, que impõe uma certa distância, o septuagenário de espessa barba grisalha torna-se mais caloroso. Por trás dos óculos de finas hastes, os olhos brilham e o sorriso é generoso.

A propósito do resgate financeiro e das suas contrapartidas draconianas, que o Presidente Anastasiades procura atualmente suavizar, Sua Beatitude tem uma opinião clara. “A situação foi criada pela Alemanha, pelo FMI e pelo BCE. Puniram Chipre.” Um sentimento de injustiça largamente partilhado pelos depositantes, muitos dos quais viram as suas economias evaporarem-se como fumo, de um dia para o outro.

A Igreja, como seria de esperar, socorre os mais desprotegidos. Acaba de abrir cantinas sociais.

Com a sua riqueza, a Igreja ajuda a nação, mas com um aguçado sentido de negócio. De facto, o vasto escritório de Crisóstomo, cheio de dossiês e decorado com uma mesa de reuniões, parece o de um presidente de um conselho de administração.

Não contente em ser rica em terras, a Igreja de Chipre é a maior acionista da empresa que produz a cerveja nacional, a Keo. É também uma importante acionista – detém 29% das ações – do Hellenic Bank, a terceira instituição bancária do país. “Não vamos abandoná-lo”, garante o arcebispo. “Dissemos ao Governo que não lhe tocasse”, acrescenta, a barba agita-se ligeiramente quando ele sorri. A Igreja também já teve 5% de participação no Bank of Cyprus, o primeiro banco do país, atualmente a ser reestruturado. Mas, com a aceitação do financiamento supremo, perdeu-os.

Laços privilegiados com Moscovo

Em Paphos, a Igreja alugou por €1,5 milhões anuais 50 mil metros quadrados nos quais investidores russos vão construir um hotel. Atribuem-se-lhe laços privilegiados com a Rússia. Crisóstomo não o esconde. E conta que, quando o Governo anterior quis pedir a Moscovo a extensão das maturidades do empréstimo de €2,5 mil milhões concedido em 2001, ele teve “um encontro, na Europa, com o patriarca russo, que intercedeu junto de Putin. O Presidente Christofias devia ter telefonado imediatamente a Putin. Mas ligou-lhe apenas treze dias depois”. Uma afronta que desagradou ao Kremlin, diz o prelado.

Tal como os seus irmãos ortodoxos russos, Crisóstomo “é muito nacionalista”, sublinha um observador estrangeiro. O boom imobiliário e o crescimento dos últimos anos atraíram cerca de 100 mil imigrantes – romenos, búlgaros, filipinos e paquistaneses – à parte grega da ilha, que tem uma população de 800 mil habitantes. “Todos são filhos de deus, não quero que se vão embora”, diz o arcebispo, em jeito de preâmbulo, “mas se não estivessem cá não haveria desemprego”.

Uma Igreja que resiste a tudo

Como explicar essa intervenção permanente no debate político? Crisóstomo responde: “A Igreja exprime a sua opinião porque tem um percurso de dois mil anos”. De facto, a tradição faz remontar a sua criação a São Barnabé, contemporâneo de Cristo, que atravessou o pequeno braço do Mediterrâneo que separa a Terra Santa da ilha de Afrodite.

“Não é possível compreender a Igreja de Chipre com as referências ocidentais”, avisa Andreas Theophanous, professor de economia na Universidade de Nicósia e defensor de uma saída controlada do euro. “Chipre foi dominado pelos otomanos no século XV e o Papa não veio em nosso socorro porque, como contrapartida, exigia a nossa submissão. Os turcos escolheram como interlocutor o arcebispo, que se tinha tornado, de facto, a principal figura política da ilha. As pessoas doaram os seus bens à Igreja, em troca de proteção. Foi assim que a Igreja se tornou tão rica”, explica o professor. “Se esta ilha se manteve grega e cristã, isso deve-se 100% à Igreja”, garante Crisóstomo II.

Os próximos anos anunciam-se muito difíceis para os cipriotas. A riqueza nacional (PIB) vai diminuir cerca de 9% em 2013, segundo as previsões de Bruxelas. O desemprego ultrapassará os 17% em 2014. É a ameaça de uma austeridade à grega. “Tudo se afundou em poucas semanas”, repetem muitos dos habitantes de Nicósia. Muitos deles perderam, de um dia para o outro, metade das economias de uma vida inteira de trabalho. Tudo se afundou, menos a Igreja, construída sobre o seu rochedo cipriota, desde há dois mil anos.
Traduzido por Maria João Vieira




quinta-feira, 28 de outubro de 2010

PIRATARIA

Exposição na Espanha mostra crueldade da pirataria após século 16
Imagem do Ministério da Cultura Espanhol
Uma exposição na cidade de Sevilha, Espanha, está contando a história dos piratas que aterrorizaram os mares após o início das Grandes Navegações, no século 15.


Rompendo com as versões romanceadas popularizadas por filmes como Piratas do Caribe, a história real, que emerge de depoimentos originais registrados no período, é de violência e crueldade.
Os relatos falam, por exemplo, de El Olonés, um francês conhecido em seu tempo como o mais cruel dos piratas caribenhos. Ele abria o peito de sua vítima, arrancava seu coração e o comia diante da tripulação.
São 170 peças, entre documentos e maquetes, que contam a história do ponto de vista da Espanha.
O evento, intitulado Mare clausum, Mare liberum, La piratería en la América española (Mar Fechado, Mar Livre, A pirataria na América espanhola), está sendo realizado pelo Archivo General de Indias e teve sua data de encerramento adiada devido ao grande interesse do público.
Versão Idealizada
"A imagem que chegou aos nossos dias mostra os piratas como aventureiros e até heróis", disse à BBC um dos guias da exposição. "A literatura e o cinema deram a eles uma aura romântica, mas a realidade era muito diferente".
"O título (da exposição) faz alusão às teorias que predominavam na Europa desde o descobrimento da América", explica o guia. "A Espanha apoiava a teoria do mar fechado, que lhe dava acesso exclusivo às novas riquezas, enquanto países como França e Holanda, que também queriam um quinhão do Novo Mundo, defendiam a teoria do mar aberto".
Franceses: Os primeiros
O primeiro caso de pirataria documentado ocorreu em 1522, quando o francês Jean Fleury interceptou a embarcação que levava os presentes do imperador asteca Montezuma ao conquistador espanhol Hernán Cortés.
Entretanto, o próprio Cristóvão Colombo tinha sido atacado antes, perto dos Açores, quando retornava de sua terceira viagem à América.
"Os primeiros a atuar foram os franceses. Os ingleses não apareceram até o final do século 16. Holandeses e dinamarqueses vieram depois do século 17", disseram à BBC as curadoras da exposição, Falia González e Pilar Lázaro.
"Foram três séculos de pressão constante sobre o tráfico marítimo mantido pela Espanha e de repetidos assaltos contra suas embarcações".
As Índias Ocidentais (como era chamado no período o continente Americano), eram um território imenso que a Espanha não podia povoar por completo, e os piratas estavam conscientes da debilidade e vulnerabilidade de seus portos.
A exposição detalha, por exemplo, a situação da cidade de Santa Marta, a mais antiga da Colômbia, destruída 20 vezes em um período de 50 anos.
Assim, aos poucos, as lendas de dragões e monstros que até então inundavam o oceano Atlântico deram lugar a uma fauna de personagens rudes e ambiciosos, tatuados ou amputados por espadas e canhões.
Mas havia vários tipos de piratas.
De corsários a filibusteros

Imagem do Ministério da Cultura Espanhol
A ilha Tortuga era, na verdade, as Ilhas Cayman

Os corsários eram piratas que assaltavam a serviço de um país, destacando-se, nessa categoria, ingleses e holandeses.

Para isso, recebiam uma licença especial, a Patente de Corso, que os autorizava a atuar contra os inimigos da coroa. O mais famoso deles foi Francis Drake.
"Drake era considerado um herói em seu país, chegando até a ser nomeado cavaleiro pela rainha Elizabeth Primeira", explicou o guia da exposição.
"Ele foi a segunda pessoa a dar a volta ao mundo cruzando o perigoso Estreito de Magalhães - depois de (Juan Sebastián) Elcano".
"Só conseguiu essa proeza graças ao piloto português Nuño da Silva, que conhecia a região, e a quem ele havia capturado em um ataque".
No Caribe, havia também piratas conhecidos como bucaneros. Seu nome vinha de bucán, um tipo de carne defumada que eles compravam com o produto de seus saques.
"Finalmente, havia os filibusteros (da palavra inglesa flyboat, veleiro rápido), considerados os mais malvados. Eram a soma de todos. Se dedicavam a fazer pilhagens, no mar ou em terra, e tinham sua base na ilha de Tortuga, a ilha dos piratas, hoje, Ilhas Cayman", acrescenta o guia.
Segundo o guia, os piratas da ilha de Tortuga formaram uma confraria que tinha seu próprio código de honra.
Segundo esse código, matar um membro da irmandade era um delito gravíssimo. Como punição, o assassino era amarrado ao corpo da vítima e a uma rocha antes de ser jogado no mar.
Piratas Espanhóis
Embora a América hispânica fosse a mais atacada pelos piratas, também havia piratas espanhóis que entravam em confrontos com navios ingleses e portugueses, como é o caso de Benito Soto Aboal, o mais sanguinário.
Imagem do Ministério da Cultura Espanhol
Mapa do castelo e do porto de Acapulco
Soto Aboal teria sido o último pirata do Atlântico. Em 1823, deixou um rastro de sangue no mar desde a cidade do Rio de Janeiro, de onde zarpou em um barco português.

Depois de comandar um motim, passou a abordar todos os navios que cruzavam seu caminho, entre eles, um barco americano que voltava do Canadá.
Em todos aplicava a mesma tática: matar toda a tripulação e afundar o barco.
Uma estragégia parecida com a do francês El Olonés (François l'Olonnais), o filibustero mais temido do Caribe.
Tinha fama de aventureiro e cruel, e dizia-se que ele havia acumulado muitas riquezas nas Antilhas.
Além de torturar seus prisioneiros, escolhia um para matar, arrancando o coração da vítima e comendo-o diante da tripulação.
Esse ritual cruzou o oceano e teria chegado às selvas mais profundas da América. Tão famoso se tornou o temido pirata que, segundo contam, uma tribo indígena que habitava uma região onde hoje está a Nicarágua teria reconhecido El Olonés.
"No Archivo General de Indias há um depoimento de um dos marinheiros que o acompanhavam. Segundo o relato, a tribo cortou (o pirata) em pedaços, assou-o e em seguida o comeu".
A exposição Mare clausum,Mare liberum, La piratería en la América española fica aberta até o dia 31 de outubro.

Fonte: BBC

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Na história de Florianópolis, há o caso de Dias Velho e sua família. O velho teria atacado um barco de piratas e roubado as riquezas que nele existiam (pirataria invertida?) e, anos mais tarde, os saqueados voltaram, mataram-no e estupraram suas filhas, entre outras formas de vingança, contam os historiadores. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O sentimento de açorianidade




 

O sentimento de açorianidade. 17570.jpeg
Adelto Gonçalves (*)
                                                           I
Pouco estudada e conhecida, especialmente no Brasil, apesar dos muitos imigrantes que para as regiões Sul e Sudeste  vieram ao final do século XIX e na primeira metade do século XX, a literatura de temática açoriana ainda aguarda o surgimento de estudos teóricos e crítico-literários na universidade brasileira, embora não sejam raros os descendentes daqueles pioneiros - na maioria, analfabetos ou semialfabetizados - que já alcançaram os graus de mestre e doutor. No Brasil, destaca-se o romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil (1945), professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul e doutor em Letras, autor de Escritos Açorianos: a Viagem de Retorno - Tópicos acerca da Narrativa Açoriana pós-25 de Abril, ensaios (Lisboa, Salamandra, 2003) e de uma vasta obra que inclui outros livros, alguns publicados também em Portugal, Espanha e França.
Na universidade portuguesa, obviamente, esse desconhecimento não é tão flagrante, mas, ainda assim, a bibliografia não é tão fértil como deveria. Um estudo recente que ameniza um pouco essa aridez é a tese de doutoramento "O conto literário de temática açoriana: a ilha, o mar e a emigração", de Mónica Serpa Cabral, da Universidade de Aveiro, autora também de uma investigação de mestrado sobre a narrativa breve de João de Melo (1949), notável escritor nascido na ilha de São Miguel, autor de romances, ensaios, poemas, crônicas e de um livro de viagens, Açores, o Segredo das Ilhas (2000).
            Em texto de apresentação da tese de doutoramento publicado na Forma Breve - Revista de Literatura, do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, nº 8, dezembro de 2010, pp. 235-243, Mónica, nascida na ilha de São Miguel, observa que seu interesse pela realidade açoriana advém naturalmente de sua proximidade afetiva com o arquipélago, reforçada pela saudade provocada pela distância geográfica, já que reside há 13 anos no continente. Ao estudar o conto de temática açoriana, a autora diz que só nos anos 90 verificou-se um interesse maior pelo estudo do gênero em Portugal.
            Segundo a pesquisadora, certas narrativas açorianas alargam os contornos do conto, derrubam fronteiras e apropriam-se de muitos traços de outros gêneros e subgêneros, como a crônica jornalística, a crônica histórica, a narrativa de viagens, a novela, o poema em prosa, o quadro campesino, a autobiografia, a lenda, o mito, a fábula, o artigo de caráter científico, entre outros. Seja como for, diz a autora, a literatura dos Açores oferece uma visão particular do mundo e da sociedade, inconfundível com o modo de ser do português do continente, e que Vitorino Nemésio (1901-1978) definiu como açorianidade, um sentimento que vai além do simples bairrismo, daquela solidariedade que costuma unir aqueles que são oriundos de um mesmo lugar para constituir um estado de ser do homem açoriano, especialmente daquele que emigrou, mas preservou no coração o amor pelo lugar e sua gente.
            Para Mónica, como a literatura açoriana está em grande parte ligada ao mundo rural, mesmo quando a ação se desenrola em espaço citadino, esse ruralismo está associado à memória coletiva e à arte de contar. Nesse sentido, os escritores açorianos são guardiões da memória coletiva, contadores de histórias que mantêm intrínseca ligação com a oralidade.
                                                           II
        Em seu trabalho, que teve a orientação do professor António Manuel Ferreira, doutor em Literatura pela Universidade de Aveiro, a investigadora procurou apresentar uma visão histórica da narrativa açoriana, desde o final do século XIX até os dias de hoje, bem como dos principais autores, ainda que, como observa, a literatura no arquipélago exista desde a sua descoberta, pois data do século XVI a obra Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso (1522-1591). Segundo ela, até a Revolução de Abril de 1974, manteve-se certo conservadorismo temático na literatura açoriana, o que não se tem dado nos últimos anos, quando houve maior abertura a novas experiências literárias.
        Como a emigração é um acontecimento central na história dos Açores, não poderia deixar de estar presente na literatura. Por isso, Mónica dedica ao tema um capítulo de sua tese, o quinto. O ponto central da tese, porém, como observa a autora, está no fato de que a literatura açoriana, em especial o conto, apresenta "uma certa coesão feita de recorrências, sobretudo um modo açoriano de tratar essas recorrências, as quais estão intimamente ligadas à especificidade da vivência açoriana, marcada por um domínio espaciotemporal opresso e circular".
            Na verdade, esta é a primeira vez que, em Portugal, estuda-se, numa tese de doutoramento, a evolução do conto de temática açoriana. Por isso, a autora não pode se prender ao estudo de um autor ou uma época, procurando oferecer uma visão panorâmica do gênero, destacando os seus grandes temas e imagens: a sensação de cárcere de quem vive em ilhas, o chamamento do horizonte, a partida, a errância, o apelo das raízes e, por fim, o regresso à casa. "Mesmo quando ainda residia na ilha, sentia a força das raízes e um amor muito profundo pela terra de origem, dois sentimentos que se intensificaram com a partida", diz Mónica. "Por isso, tal como muitos escritores açorianos que abandonaram o arquipélago, encarei meu trabalho como uma forma de mitigar a distância e a saudade, um meio de sentir a ilha mais próxima de mim", acrescenta.
                                                           III
            Em outro texto, "Entre o conto e a crônica: o estudo de narrativas de autores açorianos", que também faz parte da edição nº 8 da revista Forma Breve, dedicada à crônica, Mónica Serpa Cabral estuda quatro autores açorianos praticantes desse gênero, Manuel Greaves (1878-1956), Daniel de Sá (1944), Manuel Ferreira (1916) e Dias de Melo (1925-2008). De Greaves e Sá, a investigadora diz que em Histórias que me contaram (1948) e Crônica do Despovoamento das Ilhas (e Outras Cartas de El-Rei) (1995), respectivamente, ambos aproximam os seus textos da realidade factual, explorando episódios da História dos Açores.
            "Assim, a realidade histórica confunde-se com a ficção e origina um misto de conto e crônica que não deixa o leitor marcar com exatidão a fronteira entre fato e ficção", observa, acrescentando que, dos dois, Greaves é o que mais dá importância à ação, usando uma linguagem simples, sem grandes artifícios literários. Enfim, lembra, os textos de ambos contemplam aspectos regionais, nomeadamente a pronúncia, o léxico, os costumes e tradições, além de pormenores geográficos.
            Já em Manuel Ferreira a fonte de inspiração vem da realidade social e histórica insular e dos casos gravados na memória coletiva. Jornalista de profissão, diz a crítica, o escritor mostra preferência pela realidade factual, entrando, assim, no domínio da crônica. Mónica cita o conto "O alevante da isca", do livro O Barco e o Sonho (1979), que é baseado num episódio verídico da história açoriana, em que a massa desfavorecida da cidade de Ponta Delgada se levanta contra a exploração e a ganância de um fiscal enviado de Lisboa, "um cão sem escrúpulos nem consciência, a governar-se à grande e à francesa, à coca e à custa do povo, entre rodadas de vinho e polvo na tasca do Simão, gabarola e cachaceiro - um rejeira de mil raios o partisse! (....)".
            Em Cidade Cinzenta (1971) e Vinde e Vede (1979), de Dias de Melo, diz a investigadora, fica difícil identificar o gênero, o que a levou a chamar os textos de narrativas, que constituem mais reflexões de um narrador que deambula pela paisagem física, humana e social. São, portanto, textos híbridos que extrapolam os limites do conto e entram no domínio da crônica, define a autora.
            Um exemplo apontado pela estudiosa é o conto "Vinte contos em cinco minutos", que fala de um personagem, o João Carroça, "homem de pé descalço" que fora enriquecendo ao longo do tempo e transformou-se num grande senhor, um respeitável burguês, que não hesita em explorar friamente um antigo companheiro dos dias em que andava de carroça a vender a mercadoria, comprando-lhe a batata a cinco escudos e vendendo-a, cinco minutos depois, a 25 a um oficial do exército, o que explica o título da narrativa. Portanto, diz, o conto representa o lucro fácil de um homem rico, sem escrúpulos e indiferente à desgraça alheia.
            Seja como for, para a investigadora, as narrativas de Manuel Ferreira e Dias de Melo aproximam-se mais do conto e apresentam, de forma mais visível, uma estrutura de ficção. Por aqui, vê-se a importância dos trabalhos de Mónica Serpa Cabral resgatando o trabalho não só destes ficcionistas açorianos como de outros, despertando no leitor a curiosidade de conhecê-los. Com certeza, será a partir de trabalhos bem estruturados e escritos com paixão como estes que a literatura açoriana há de se tornar mais conhecida não só em Portugal como no Brasil e em outras nações e comunidades dispersas do mundo lusófono.
                                       IV
            Se para alguma coisa servir, é de lembrar que também este articulista é descendente de açorianos - seus avós maternos - que para a cidade de Santos, no Litoral de São Paulo, na região Sudeste do Brasil, vieram ao final do século XIX, estabelecendo-se no Morro de São Bento, que até hoje é um reduto das tradições dos Açores e da Ilha da Madeira de que melhor exemplo são as suas famosas bordadeiras. E teve como co-orientador, em Portugal, em seu trabalho de doutoramento em Letras pela Universidade de São Paulo, o professor Fernando Cristóvão, assistente e depois sucessor do açoriano Vitorino Nemésio na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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FORMA BREVE - Revista de Literatura. Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro, dezembro de 2010. E-mail: antonio@ua.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail:marilizadelto@uol.com.br
Fonte: PRAVDA

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O sentimento de açorianidade



 

O sentimento de açorianidade. 17570.jpeg
Adelto Gonçalves (*)
                                                           I
Pouco estudada e conhecida, especialmente no Brasil, apesar dos muitos imigrantes que para as regiões Sul e Sudeste  vieram ao final do século XIX e na primeira metade do século XX, a literatura de temática açoriana ainda aguarda o surgimento de estudos teóricos e crítico-literários na universidade brasileira, embora não sejam raros os descendentes daqueles pioneiros - na maioria, analfabetos ou semialfabetizados - que já alcançaram os graus de mestre e doutor. No Brasil, destaca-se o romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil (1945), professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul e doutor em Letras, autor de Escritos Açorianos: a Viagem de Retorno - Tópicos acerca da Narrativa Açoriana pós-25 de Abril, ensaios (Lisboa, Salamandra, 2003) e de uma vasta obra que inclui outros livros, alguns publicados também em Portugal, Espanha e França.
Na universidade portuguesa, obviamente, esse desconhecimento não é tão flagrante, mas, ainda assim, a bibliografia não é tão fértil como deveria. Um estudo recente que ameniza um pouco essa aridez é a tese de doutoramento "O conto literário de temática açoriana: a ilha, o mar e a emigração", de Mónica Serpa Cabral, da Universidade de Aveiro, autora também de uma investigação de mestrado sobre a narrativa breve de João de Melo (1949), notável escritor nascido na ilha de São Miguel, autor de romances, ensaios, poemas, crônicas e de um livro de viagens, Açores, o Segredo das Ilhas (2000).
            Em texto de apresentação da tese de doutoramento publicado na Forma Breve - Revista de Literatura, do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, nº 8, dezembro de 2010, pp. 235-243, Mónica, nascida na ilha de São Miguel, observa que seu interesse pela realidade açoriana advém naturalmente de sua proximidade afetiva com o arquipélago, reforçada pela saudade provocada pela distância geográfica, já que reside há 13 anos no continente. Ao estudar o conto de temática açoriana, a autora diz que só nos anos 90 verificou-se um interesse maior pelo estudo do gênero em Portugal.
            Segundo a pesquisadora, certas narrativas açorianas alargam os contornos do conto, derrubam fronteiras e apropriam-se de muitos traços de outros gêneros e subgêneros, como a crônica jornalística, a crônica histórica, a narrativa de viagens, a novela, o poema em prosa, o quadro campesino, a autobiografia, a lenda, o mito, a fábula, o artigo de caráter científico, entre outros. Seja como for, diz a autora, a literatura dos Açores oferece uma visão particular do mundo e da sociedade, inconfundível com o modo de ser do português do continente, e que Vitorino Nemésio (1901-1978) definiu como açorianidade, um sentimento que vai além do simples bairrismo, daquela solidariedade que costuma unir aqueles que são oriundos de um mesmo lugar para constituir um estado de ser do homem açoriano, especialmente daquele que emigrou, mas preservou no coração o amor pelo lugar e sua gente.
            Para Mónica, como a literatura açoriana está em grande parte ligada ao mundo rural, mesmo quando a ação se desenrola em espaço citadino, esse ruralismo está associado à memória coletiva e à arte de contar. Nesse sentido, os escritores açorianos são guardiões da memória coletiva, contadores de histórias que mantêm intrínseca ligação com a oralidade.
                                                           II
        Em seu trabalho, que teve a orientação do professor António Manuel Ferreira, doutor em Literatura pela Universidade de Aveiro, a investigadora procurou apresentar uma visão histórica da narrativa açoriana, desde o final do século XIX até os dias de hoje, bem como dos principais autores, ainda que, como observa, a literatura no arquipélago exista desde a sua descoberta, pois data do século XVI a obra Saudades da Terra, de Gaspar Frutuoso (1522-1591). Segundo ela, até a Revolução de Abril de 1974, manteve-se certo conservadorismo temático na literatura açoriana, o que não se tem dado nos últimos anos, quando houve maior abertura a novas experiências literárias.
        Como a emigração é um acontecimento central na história dos Açores, não poderia deixar de estar presente na literatura. Por isso, Mónica dedica ao tema um capítulo de sua tese, o quinto. O ponto central da tese, porém, como observa a autora, está no fato de que a literatura açoriana, em especial o conto, apresenta "uma certa coesão feita de recorrências, sobretudo um modo açoriano de tratar essas recorrências, as quais estão intimamente ligadas à especificidade da vivência açoriana, marcada por um domínio espaciotemporal opresso e circular".
            Na verdade, esta é a primeira vez que, em Portugal, estuda-se, numa tese de doutoramento, a evolução do conto de temática açoriana. Por isso, a autora não pode se prender ao estudo de um autor ou uma época, procurando oferecer uma visão panorâmica do gênero, destacando os seus grandes temas e imagens: a sensação de cárcere de quem vive em ilhas, o chamamento do horizonte, a partida, a errância, o apelo das raízes e, por fim, o regresso à casa. "Mesmo quando ainda residia na ilha, sentia a força das raízes e um amor muito profundo pela terra de origem, dois sentimentos que se intensificaram com a partida", diz Mónica. "Por isso, tal como muitos escritores açorianos que abandonaram o arquipélago, encarei meu trabalho como uma forma de mitigar a distância e a saudade, um meio de sentir a ilha mais próxima de mim", acrescenta.
                                                           III
            Em outro texto, "Entre o conto e a crônica: o estudo de narrativas de autores açorianos", que também faz parte da edição nº 8 da revista Forma Breve, dedicada à crônica, Mónica Serpa Cabral estuda quatro autores açorianos praticantes desse gênero, Manuel Greaves (1878-1956), Daniel de Sá (1944), Manuel Ferreira (1916) e Dias de Melo (1925-2008). De Greaves e Sá, a investigadora diz que em Histórias que me contaram (1948) e Crônica do Despovoamento das Ilhas (e Outras Cartas de El-Rei) (1995), respectivamente, ambos aproximam os seus textos da realidade factual, explorando episódios da História dos Açores.
            "Assim, a realidade histórica confunde-se com a ficção e origina um misto de conto e crônica que não deixa o leitor marcar com exatidão a fronteira entre fato e ficção", observa, acrescentando que, dos dois, Greaves é o que mais dá importância à ação, usando uma linguagem simples, sem grandes artifícios literários. Enfim, lembra, os textos de ambos contemplam aspectos regionais, nomeadamente a pronúncia, o léxico, os costumes e tradições, além de pormenores geográficos.
            Já em Manuel Ferreira a fonte de inspiração vem da realidade social e histórica insular e dos casos gravados na memória coletiva. Jornalista de profissão, diz a crítica, o escritor mostra preferência pela realidade factual, entrando, assim, no domínio da crônica. Mónica cita o conto "O alevante da isca", do livro O Barco e o Sonho (1979), que é baseado num episódio verídico da história açoriana, em que a massa desfavorecida da cidade de Ponta Delgada se levanta contra a exploração e a ganância de um fiscal enviado de Lisboa, "um cão sem escrúpulos nem consciência, a governar-se à grande e à francesa, à coca e à custa do povo, entre rodadas de vinho e polvo na tasca do Simão, gabarola e cachaceiro - um rejeira de mil raios o partisse! (....)".
            Em Cidade Cinzenta (1971) e Vinde e Vede (1979), de Dias de Melo, diz a investigadora, fica difícil identificar o gênero, o que a levou a chamar os textos de narrativas, que constituem mais reflexões de um narrador que deambula pela paisagem física, humana e social. São, portanto, textos híbridos que extrapolam os limites do conto e entram no domínio da crônica, define a autora.
            Um exemplo apontado pela estudiosa é o conto "Vinte contos em cinco minutos", que fala de um personagem, o João Carroça, "homem de pé descalço" que fora enriquecendo ao longo do tempo e transformou-se num grande senhor, um respeitável burguês, que não hesita em explorar friamente um antigo companheiro dos dias em que andava de carroça a vender a mercadoria, comprando-lhe a batata a cinco escudos e vendendo-a, cinco minutos depois, a 25 a um oficial do exército, o que explica o título da narrativa. Portanto, diz, o conto representa o lucro fácil de um homem rico, sem escrúpulos e indiferente à desgraça alheia.

            Seja como for, para a investigadora, as narrativas de Manuel Ferreira e Dias de Melo aproximam-se mais do conto e apresentam, de forma mais visível, uma estrutura de ficção. Por aqui, vê-se a importância dos trabalhos de Mónica Serpa Cabral resgatando o trabalho não só destes ficcionistas açorianos como de outros, despertando no leitor a curiosidade de conhecê-los. Com certeza, será a partir de trabalhos bem estruturados e escritos com paixão como estes que a literatura açoriana há de se tornar mais conhecida não só em Portugal como no Brasil e em outras nações e comunidades dispersas do mundo lusófono.
                                       IV
            Se para alguma coisa servir, é de lembrar que também este articulista é descendente de açorianos - seus avós maternos - que para a cidade de Santos, no Litoral de São Paulo, na região Sudeste do Brasil, vieram ao final do século XIX, estabelecendo-se no Morro de São Bento, que até hoje é um reduto das tradições dos Açores e da Ilha da Madeira de que melhor exemplo são as suas famosas bordadeiras. E teve como co-orientador, em Portugal, em seu trabalho de doutoramento em Letras pela Universidade de São Paulo, o professor Fernando Cristóvão, assistente e depois sucessor do açoriano Vitorino Nemésio na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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FORMA BREVE - Revista de Literatura. Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro, dezembro de 2010. E-mail: antonio@ua.pt
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail:marilizadelto@uol.com.br
Fonte: PRAVDA

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Casan é multada pelo ICMBio, acusada de poluir a Estação Ecológica de Carijós




Corpo estranho na superfície do Papaquara, próximo ao rio Ratones, dia 31.1.2012, por volta das 17h40. Foto: Celso Martins


Efluentes da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de Canasvieiras lançados no rio Papaquara apresentam quantidades acima do permitido de óleos, graxas, detergentes e fósforos. Por causa disso a Casan recebeu multa de R$ 500 mil do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Segundo o órgão federal, a Casan descumpriu as exigências estabelecidas pela lei estadual n° 14.675/2009 e Resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) n° 430/2011. A multa teve como base o artigo nº 62 do decreto federal nº 6.514/2008. 
Os dejetos ou efluentes contaminados da ETE lançados no rio Papaquara chegam até o coração da Estação Ecológica de Carijós. Segundo o chefe da unidade, Sílvio de Souza Júnior, esses poluentes se espalham por outros cursos d’água da principal bacia hidrográfica da Ilha de Santa Catarina, a do rio Ratones. Isso inclui o rio do Brás, que desemboca na praia de Canasvieiras.  
Para chegar à conclusão de que a ETE contamina os cursos d’água do Norte da Ilha, os técnicos do ICMBio realizaram coletas e análises da água do rio Paraquara entre os dias 25 de novembro de 2010 e 11 de abril de 2011.  Resultados: o fósforo está presente em quantidades que chegam a ser seis (6) vezes o máximo permitido, enquanto os óleos e graxas e os chamados surfactantes (detergentes), quatro vezes mais.
“Considerando que o rio Papaquara é um dos principais rios da Estação Ecológica de Carijós e que a ETE Canasvieiras situa-se a 6,5 quilômetros da Estação Ecológica, conclui-se que o lançamento irregular do efluente ocasiona danos diretos e indiretos à Estação Ecológica de Carijós”, destaca Souza Júnior.  
ETE Canasvieiras – Estação de Carijós. Pontos de monitoramento (P3, P4, P5, P6 e P7). Fonte: /ICMBioGoogle Earth.Além da multa a Casan foi notificada para que em 90 dias tome as “providências necessárias para corrigir os problemas dessa Estação de Tratamento de Efluentes, a fim de melhorar a eficiência no tratamento do esgoto, adequando-se aos padrões de lançamento de efluentes, conforme a legislação vigente”.
De acordo com Souza Junior, o fósforo está presente nos detergentes, mas também no esgoto, associado ao nitrogênio e potássio, cuja combinação é usada comercialmente (NPK) como adubo químico. O excesso de nutrientes na água acelera o desenvolvimento de algas que, ao se decompor, consomem o oxigênio. Um exemplo disso ocorre no trecho sul da Lagoa da Conceição, junto à avenida Osni Ortiga. A esse processo se dá o nome de eutrofização.


Denúncias reiteradas
Os problemas com a ETE de Canasvieiras foram denunciados pelo blog Sambaqui na Rede no ano passado e estão sendo reiteradas com a iniciativa do ICMBio. Confira.

Contaminação. 1º de fevereiro de 2011
Casan extravasa esgoto sem tratamento no rio Papaquara. Laudo do IGP confirma crime ambiental. Ministério Público pediu inquérito policial. 

Imagens da poluição. 21 de novembro de 2011

Fonte: http://www.daquinarede.com.br, via CANGABLOG

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A mutreta do Colombo com a Mitra - Igreja São Francisco será restaurada

Fui mais longe: pedi, também, a remoção de cartazes, letreiros  e toldos,  bem como do estabelecimento comercial (uma casa de sucos) que botaram para funcionar no pátio da Igreja, descaracterizando-a bastante e desrespeitando totalmente as regras legais do tombamento, sob o olhar complacente das autoridades públicas e até do IPHAN, que funciona no antigo prédio da Alfândega, a menos de 50 metros da Igreja.

A omissão geral e irrestrita, quando se trata da ICAR, chega a dar asco.

Antevia a colocação de dinheiro público no restauro do templo, como vem sendo feito ao longo dos tempos.

Agora, conforme o blog do Moacir Pereira, o governo do Colombo está abrindo as burras para a ICAR, aliviando-a do encargo que compete à instituição católica, conforme art. 19 do DL federal 25/1937 e sacrificando todos os cidadãos/contribuintes, católicos ou não.

Lá vou eu novamente questionar a ilicitude, a fraude descarada, o conlúio, a aliança espúria e escancarada, no interesse coletivo.


Tem mais: duvido que o Colombo e o Bispo atual assinem o convênio, sabendo da ilegalidade implícita e que a Mitra ponha seu nome no instrumento de negócio jurídico. Vai interpor uma pessoa jurídica dirigida por um padre (Ação Paroquial, Ação Social, Ação Cultural,  ou assemelhada) como é do seu hábito, no afã de mascarar a identidade da verdadeira favorecida, ela própria, a Mitra, em cujo nome deve estar registrado o imóvel.

Eta corja nauseabunda!

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Será hoje, as 18 horas, a assinatura de ato pelo governador Raimundo Colombo, liberando recursos para a restauração da Igreja São Francisco, no coração de Florianópolis.
As obras devem ser executadas em 8 meses, na primeira etapa.
A comissão será presidida pelo competente Roberto Bentes, que comandou todos os serviços de recuperação da Catedral Metropolitana.
Nome mais indicado não há.


Fonte: Blog do Moacir Pereira
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Atualização: muito provavelmente responderá como ordenador primário da despesa ilícita o Secretário Hinnig.


O governador Raimundo Colombo assina, nesta quinta-feira (17), convênio no valor de R$ 2,4 milhões para a restauração da Igreja São Francisco, localizada no calçadão do Centro de Florianópolis. A solenidade será às 18h, na igreja, com a presença do secretário de Desenvolvimento Regional da Grande Florianópolis, Renato Hinnig. A SDR será responsável pelo repasse dos recursos para a obra.
Com sua construção iniciada em 1803 e concluída em 1915, a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência tem problemas de infiltração nos telhados, que atinge também as torres. Em função de sua importância histórica e religiosa, o Governo do Estado vai garantir a primeira etapa emergencial, cujo projeto prevê restauração e requalificação; avaliações e pesquisas; restauração das coberturas com revisão do sistema de captação de águas pluviais e instalação de subcobertura em manta de alumínio; recuperação interna e externa das torres; e remoções e demolições de intervenções existentes. O convênio será celebrado com a Ação Social e Cultural da Ordem Franciscana Secular de Florianópolis, que administra o templo.
Segundo o secretário Renato Hinnig, as obras são uma antiga reivindicação, “pela sua expressiva importância histórica, religiosa e cultural. Em função disso, o Governo irá investir na restauração, dando maior segurança ao prédio e conforto aos fiéis”. Ele lembra que os trabalhos serão executados pela mesma empresa que já restaura a Catedral Metropolitana de Florianópolis; a Igreja Nossa Senhora da Lapa, no Ribeirão da Ilha, e a Igreja Matriz de São José, obras que também são realizadas com recursos do Governo Estadual.
A Igreja São Francisco é a mais antiga das confrarias religiosas surgidas na Ilha de Santa Catarina, tendo sido instalada em 1745. Seus portais foram adquiridos em 1804, enquanto os sinos datam de 1819. Ela conserva suas características arquitetônicas originais – estilos barroco e neoclássico – e é referência do Centro Histórico da capital, sendo tombada pelo Município e o Estado.
Informações adicionais:
Antônio Carlos Costa
Secretaria de Estado de Des Reg Grande Florianópolis
E-mail: ascom@soo.sdr.sc.gov.br
Telefone: (48) 3381-5888
Fonte: Gov. SC

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

SURFISTA DE BALEIA

27/09/2010 - 13h46

Autoridades procuram jovem que "surfou" em baleia

DA BBC BRASIL

As autoridades da Austrália estão procurando um adolescente que "surfou" em uma baleia, segundo notícias veiculadas pela imprensa australiana no fim de semana.

Uma testemunha na cidade de Albany, no oeste da Austrália, disse ter visto um jovem montar sobre as costas de uma baleia-franca-austral na tarde de sexta-feira da semana passada.

Jeff Overs/BBC
Autoridades procuram jovem que surfou em baleia-franca-austral na Austrália
Autoridades procuram jovem que surfou em baleia-franca-austral na Austrália

De acordo com o site australiano ABC, a testemunha fotografou o incidente, mas a polícia decidiu não divulgar a foto enquanto as investigações estão em andamento.

Caso seja identificado, o jovem pode receber uma multa de quase US$ 10 mil por perturbar um animal selvagem.

As autoridades australianas estão irritadas com o caso. Um dos investigadores chamou o ato de "tolo e inconsequente".

Uma baleia-franca-austral chega a medir mais de 18 metros e pode pesar até oito toneladas. Uma pessoa pode até morrer caso seja atingida pela cauda da baleia.

As leis ambientais australianas obrigam as pessoas a se manterem no mínimo a 30 metros de mamíferos selvagens como a baleia-franca.

Fonte: FOLHA DE SP

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A notícia é curiosa, todavia não mais que a que segue:

- ANTONIO PIGAFFETA – A primeira viagem ao redor do mundo – L&PM Editores- Floresta/RS – 2005, p. 107, reportou-se a elas, nos seguintes termos: Nos contaram que nestes mares há uma ave negra, semelhante ao corvo, que costuma penetrar pela boca das baleias, quando estas aparecem na superfície, e vão direto ao coração, que arrebatam para comer. A única prova que nos deram deste fato foi dizer que se vê a ave comendo o coração da baleia e que esta é encontrada morta sem coração. Esta ave negra, de bico dentado e que tem carne branca e comestível, é chamada de Lagan.

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- Um excelente livro sobre a caça às baleias, na costa do Brasil, foi escrito por MYRIAN ELLIS - A baleia no Brasil colonial - Melhoramentos e Editora da Universidade de SP/1969. Ela noticia que a atividade de caça (pesca?) aos cetáceos em destaque, no Brasil, foi inciada em 1602, pelo Capitão Pêro de Urecha e um grupo de biscainhos (naturais de Biscaia – Espanha), no Recôncavo Baiano (p. 25)


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- A baleia é uma besta enorme e tem de cem a duzentos côvados. Por ser essa costa cheia de muitas baías, enseadas e estreitos, acode grande multidão delas a estes recôncavos, principalmente de maio até setembro, quando parem seus filhos. Às vezes vêm quarenta a cinqüenta juntas. Têm o toutiço furado e por ele resfolegam e botam grande soma d’água, e assim a espalham pelo ar como se fosse chuveiro. A baleia permanece tanto tempo em um mesmo lugar que sobre seu costado crescem arbustos e ervas. Os navegantes, em sua ignorância, fundeiam ao seu lado pensando estarem na orla de uma ilha. Depois acendem fogo em cima dela para preparar sua comida e, quando o monstro sente o calor, submerge ao mais profundo do mar e arrasta consigo a nave e todos os marinheiros. A baleia significa o mundo e os marinheiros são os homens, mas não passam estes de uns tolos, pois ignoram que tudo é efêmero e desconhecem que, se um dia estamos sobre as ondas, no outro podemos afundar - COSME FERNANDES - Liber monstrorum de diversis generibus - citado por JOSÉ ROBERTO TORERO e MARCUS AURELIUS PIMENTA – Terra Papagalli – Editora Objetiva/RJ/2000, pág. 116. Há certa semelhança entre o que se fala sobre acender fogo em cima de baleia e a biografia do sábio talmúdico babilônio RABA BAR CHANA, que viveu no século XIII, segundo ALAN UNTERMAN - Dicionário Judaico de Lendas e Tradições - Jorge Zahar Editor/RJ/1997, pág. 216, senão vejamos: (...) Ele deparou um peixe gigantesco, tão grande que os marinheiros pensaram ter chegado a uma ilha e começaram a cozinhar a comida sobre as costas dele, até o calor fazê-lo virar-se. Outro peixe de dimensões enormes morreu e foi arrastado para a praia. Nesse processo ele destruiu sessenta cidades portuárias, e um dos olhos do peixe forneceu trezentos jarros de óleo. Ainda outro peixe desse tipo tinha duas barbatanas tão afastadas uma da outra que um navio levava três dias para navegar de uma barbata à outra enquanto o próprio peixe nadava na direção contrária.


- Frei SANTA RITA DURÃO - Caramuru - Livraria Martins Fontes Edit. Ltda/SP/2001, pág. 230 e seguintes, versejou sobre a espécie, em termos bastante interessantes:

(...) De junho a outubro para o mar se alarga,/Qual gigante marítimo, a baleia,/Que palmos vinte e seis conta de larga,/Setenta de comprido, horrenda e feia:/Oprime as águas com a horrível carga,/E de oleosa gordura em roda cheia,/Convida o pescador que ao mar se deite,/Por fazer, derretendo-a, útil azeite. Tem por espinhas ossos desmarcados,/O ferro as duras peles representam,/Donde pendem mil búzios apegados,/Que de quanto lhe chupam se sustentam:/Não parecem da fronte separados/Os vastos corpos na areia assentam,/Entre os olhos medonhos se ergue a tromba,/Que ondas vomita como aquátil bomba. Na boca horrível, como vasta gruta,/Doze palmos comprida a língua pende,/Sem dentes, mas da boca imensa e bruta/Com elas para o estômago transmuta/Quanto por alimento n’água prende,/O peixe ou talvez carne, e do elemento/A fez imunda, que lhe dá sustento. Duas asas nos ombros tem por braços,/Que aos lados vinte palmos se difundem,/Com asa e cauda os líquidos espaços/Batendo remam, quando o mar confundem:/e excitando no pélago fracassos,/Chorros d’água nas naus de longe infundem;/E andando o monstro sobre o mar boiante,/Crê que é ilha o inexperto navegante. Brilha o materno amor no monstro horrendo,/Que, vendo prevenida a gente armada,/Matar se deixa n’água combatendo,/Por dar fuga, morrendo, à prole amada:/Onde no filho o arpão caçam metendo,/Com que atraindo a mãe dentro à enseada,/Desde a longa canoa se alanceia,/Ao lado de seus filhos a baleia. (...).

- Frei VICENTE DO SALVADOR (in História do Brasil - Edições Melhoramentos/SP/1954, pág. 67), refere-se à circunstância de as baleias lançarem à costa muito âmbar do que do fundo do mar arrancam quando comem, e conhecido na praia porque aves, caranguejos e quantas coisas vivas há acodem a comê-lo.