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Advogado - Nascido em 1949, na Ilha de SC/BR - Ateu - Adepto do Humanismo e da Ecologia - Residente em Ratones - Florianópolis/SC/BR

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

POBRE BRASIL, ONTEM E HOJE

 — Pobre Brasil, disse a voz grave de Manuel. 

E Thereza : 

— Oh! Assim desesperançado, um moço! 

— Não é desesperança, é desespero! A nação está espoliada, suffocada, sem liberdade e martyrisada. — A senhora não sabe o soffrimento do povo. Não ha dinheiro que chegue para os que são pobres, murmurou a mãe. 

E Vieira vociferava : 

— Os ladrões governam. Eu sei no Thesouro o que são as contas do governo, os escândalos horríveis e os desfalques vergonhosos. Não se pode dizer nada. Estamos em permanente estado de sitio. 

— Três annos malditos... accentuou rancoroso Manuel. 

— É verdade, disse tristemente Thereza. Ha tanto tempo esta oppressão. Que tyrannia! 

— Mas ha de acabar, minha senhora. E Manuel levantou-se. 

— Revolucionário? indagou Thereza. 

— Sim. Aqui somos todos. Cada um a seu modo, até Aracy, affirmou a mãe. Eu não posso pegar em armas mas sou pela gente que padece dos déspotas. E abençôo estes meninos de coragem, que se bateram em Copacabana, que estão no sul e no norte salvando a vergonha nacional.

A evocação da mocidade heróica emmudeceu a todos. Thereza recebeu o impeto da revolta contra o despotismo, a rapina e a deshumanidade dos flagelladores do paiz e o seu coração bateu o rythmo da libertação. Ella queria saber mais e mais da agonia do povo e das esperanças de salvação. 

Manuel respondia-lhe, radiante de se expandir sobre o que era a sua vida : — Um anno de revolução e o governo, com todo o seu poder, o seu dinheiro, a sua corrupção, não venceu. 

— E não vencerá, já concluía Thereza, espantando-se ella própria da sua fé repentina. 0 sentimento agira bruscamente sobre a intelligencia e criara a convicção precipitada. 

— Não vencerá, repetiu enthusiasmado Manuel. Pode haver minutos de parada, mas o espirito revolucionário não se detém e não ha força que o abafe. O impulso vem do fundo da alma nacional e procura reagir contra esta onda de lama, esta infâmia das gentes, que se apossaram do governo para depredar o paiz, porque neste despotismo a finalidade é locupletarem-se os governantes e toda a recua que os serve. A revolução vem de longe e é sobretudo uma revolução da mocidade.

— É a sua força e a sua belleza, exclamou Vieira, arrebatado pelas palavras resolutas de Manuel, que proseguia : — A mocidade esteve no Brasil longo tempo servil, dando tristes signaes de decrepitude. Ella estava na indolência e formava na clientela dos politicos. Não era mais a mocidade desinteressada, que fez a abolição e a republica, era uma massa indigente, miserável, viciada pela volúpia e procurando o dinheiro no jogo, nos empregos públicos, nos negócios equívocos. Uma materialidade absoluta unia solidariamente velhos e moços. 

— E como a mocidade se transformou nesta legião de loucos, de revolucionários?... Diga, insistia inquieta Thereza. y — A explicação é dífficil. O facto é que ella se transformou e o ideal a move e a faz heróica. Talvez a guerra européa despertasse o idealismo universal. Talvez o individualismo desse uma nova affirmação ao homem, que se separou do rebanho, viu por si mesmo e teve horror. No Brasil a mocidade é a revolução contra tudo e contra todos. Já homens moços têm vergonha de servir ao governo. Este sentimento de pejo é o mais vivificador sopro da vida nova do paiz. 

— A revolução está em tudo e em toda a parte, affirmou Vieira. 

— Em tudo, continuou Manuel. É todo o pensamento brasileiro, que se renova è isto fecunda ainda mais a revolução. Philippe Miranda proclamou a necessidade da revolução para desenvolver o dynanismo espiritual, moral e physico do Brasil. Thereza prestou profunda attenção á formula renovadora. Philippe Miranda? Philippe? Era esse o Philippe de Jujú? Como será elle? A ardente exigência de concretizar excitava o senso real da mulher. 

Manuel proseguia: — A revolução, se não se apossar do governo nestes dias, mais tarde ou mais cedo vencerá. Olhe a Rússia, a luta foi de annos e annos até que a revolução se espraiou victoriosa e pela forma mais imprevista. Assim será no Brasil. A formula ainda é uma incógnita. Quem pode com o espirito novo? Miséria esse despotismo execrando. A mocidade bateu-se gloriosamente em Copacabana, em São Paulo, no Paraná, no Rio Grande, no Piauhy, em todo o Nordeste, na Bahia. Os velhos magníficos, que a presidem, são conduzidos por ella, pelo surto sublime do seu enthusiasmo. A grandeza desses velhos está em comprehender o espirito novo e ser por elle inspirados. Que maravilhoso gênio militar o destes chefes de vinte a trinta annos:  Prestes, o capitão-general, realizou o maior prodígio militar do Brasil, nesta marcha incomparavel do Rio Grande ao Piauhy, passando pelas linhas governistas, batalhando, vencendo e passando sempre. A marcha de Prestes uniu o Brasil sertanejo e essa união, tornando-se consciente, completará um grande destino patriótico, universal. 

— Como? perguntou soffrega Thereza. 

— Muito simples. Os sertanejos permaneciam isolados uns dos outros e as suas preoccupações políticas exclusivamente regionaes. Um gaúcho só se interessava pela dominação do seu Rio Grande, um homem do Contestado não via outra cousa senão a independência da sua região, um jagunço da Bahia limitava-se a rivalidades bahia nas, como os cangaceiros do nordeste brigavam unicamente pela política e pela rapina do seu sertão. 

Ora os revolucionários levando a gaúchada para o Norte, incorporando ás suas legiões homens do Contestado, jagunços, cangaceiros, propagando a revolução política, geral, despertaram a consciência do sertão. 

— Como os bandeirantes outrora... 

— Um pouco. Mas os bandeirantes e os vaqueiros percorreram o Brasil, entrelaçaram as gentes as mais diversas movidos por interesses econômicos, a escravidão dos índios, o ouro, as pedras preciosas, o gado. Os revolucionários fazem a unidade em torno de um pensamento, de um ideal político. Esta admirável acção fecundará os espíritos limitados ao regionalismo, rudimentares no fetichismo político e religioso. As populações sertanejas, unidas pela mesma consciência nacional, são chamadas a uma considerável missão na evolução brasileira. 

— Mais um beneficio da revolução, exclamou Thereza, adivinhando. — Aqui também no Rio não ha um moço digno, que não seja revolucionário, disse D. Calú. Se a senhora soubesse o que foi a noite da revolução do Protogenes... 

— A mais bella noite da minha vida! exclamou Manuel. 

— A maior decepção... commentou soturno o pae. — Decepção? Sim, foi enorme. Mas eu falo do enthusiasmo, que sentimos todos, da esperança que nos exaltou. Foi o minuto mais intenso, mais agudo, mais universal, que jamais vivi, aquelle em que a revolução ia arrebentar. Foi a ascensão gloriosa do meu ser para a libertação. 

— D. Thereza talvez não saiba tudo, cortou D. Calú. — Ouvi contar tanta cousa. Mas ninguém sabe a verdade verdadeira. — Nós sabemos e não se pode esquecer. Ás vezes temos tanto consolo em lembrar... Era a voz nostálgica de D. Callú, que modulava a evocação. — Nós estávamos preparados para a primeira occasião. O commandante Protogenes era o chefe de mais prestigio, entre os officiaes da marinha e na marinhagem. Devia ser o chefe do movimento aqui. Até então a revolução estava mais ou menos solidificada no exercito. Na marinha o sentimento revolucionário era vasto e ardente, mas amorpho, sem a menor cohesão de um pequeno grupo, que fosse. A intervenção do commandante Protogenes corporificou o espirito de revolução entre os navaes. E subitamente se teve a revelação de que quasi toda a marinha era revolucionaria. O governo sentiu-se perdido e ficou perplexo. Uma vez decidida a revolução da marinha, o enthusiasmo alastrou-se na mocidade civil, sobretudo das escolas. 

— Um governo que tem contra si a mocidade é um governo condemnado para sempre, interrompeu Vieira. — O commandante Protogenes soube preparar tudo. O plano a executar era ousado e de acção rápida, violenta. O commandante se apoderaria de um encouraçado e deste ordenaria o ataque. Forças da marinha desembarcariam e protegidas pelos destroyers seguiriam do cáes pelo longo da avenida Beira-Mar até o Cattete. Os corpos do exercito e da policia que, dominados pelos jovens officiaes, entrassem no movimento marchariam para o mesmo alvo. Nós, os moços civis, estaríamos armados nos vários pontos e também no cáes para ajudar a offensiva dos navaes. O Cattete seria tomado de assalto, o presidente prisioneiro... — Se elle não fugisse! rangeu D. Calú. — Não tem importância. A revolução estaria vencedora. Na tarde de vinte de outubro, continuou Manuel, foi dada a ordem para o movimento naquella noite. A uma hora da madrugada um tiro do «Minas» annunciaria a revolução. Nós fremiamos. Jamais maior sopro de enthusiasmo passou nesta cidade, enthusiasmo profundo vindo da ânsia de liberdade, do pudor collectivo, da vontade da desforra contra os bandidos, que nos venceram e mancharam o paiz. Todos os camaradas reuniram-se em grupos e foi uma sublime vigilia para a libertação. 0 Brasil ia renascer. Resurreição! — Vae fazer um anno, em outubro, minha senhora, disse a nostálgica D. Calú. Desta casa sahiram oito moços, armados, corajosos, para morrer ou viver. Ficamos eu, o meu velho e a menina... Eu abençoei a todos... e chorei, chorei de fé e esperança... Pobre da nossa terra! — Desde a meia noite, lembrava Vieira, estávamos de relógio á vista esperando o signal... Quando chegou uma hora, nos levantamos. E o tiro? Nada. Estaria certo o relógio? ou seria um atrazo e tudo aconteceria, como fora marcado? os minutos correm, nada de tiro. Angustia. Esta mulher teimava que era engano e o tiro seria ás duas horas. Esperamos. Duas horas, nada. Cançados, inquietos, presumindo cousas horríveis, que não nos diziamos, nos recolhemos, mudos, cada um para o seu lado, sem coragem de nos olharmos... Ás três horas ouço entrar os rapazes. Corri inquieto. Elles estavam anniquilados. Não comprehendiam o allucinante silencio. Viram a bahia, as praias, as proximidades dos quartéis. Um socego vergonhoso e infinito. Encontraram companheiros com a mesma angustia, caminharam, indagaram e sempre o infame socego e a immensa mudez. Cada qual foi deixando as ruas melancólicas. Elles alli estavam em casa moidos, mortos. Pela manhã sahiram e souberam a horrível cousa, a antecipada prisão do commandante, que menoscabou da policia e não previu o golpe da delação. Um ingênuo? pobre Brasil! 

— É a delação que ajuda o governo, lepra moral deste paiz de escravizados. O governo os compra, o pavor e a infame cobiça os vendem, disse Manuel. Não importa. A revolução não pára mais no Brasil. É a única , solução para acabar com esta corja de politicos, que se apossam cynicamente de tudo, opprimem, assassinam, furtam, enriquecem. (português do original)

(...) 

— A reforma da Constituição é um acto de sadismo político do presidente. Este homem sombrio, cruel, vingase. A nação o detesta, elle a faz soffrer e prepara-lhe o martyrio escravizando-a, amordaçando-a, infligindo-lhe o castigo, que perdurará. Sabe que o seu governo é estéril, que não criará cousa alguma, vinga-se esmagando as forças vivas da nação para que esta se torne infecunda. Tortura-lhe as vísceras e o seu regosijo secreto é assombroso. A mocidade o odeia, elle persegue-a e dá-lhe um verdugo. Martyrizou o exercito e a marinha e gosa o extranho goso de ver aos seus pés, generaes e almirantes. Intriga uns com os outros, chefe de policia, chefe da casa militar, ministro da guerra, ministro da marinha, e, nesta atmosphera de baixezas, de ódios, de disputas das suas preferencias, o homem cruel deleita-se e vinga-se. Que maior delicia do que rebaixar tudo, senado, câmara, supremo tribunal, políticos, juizes, jornalistas, todos miudinhos, curvados, annulados e sem pejo. Renunciaram á vergonha para ficar nas posições. O presidente atira uns contra os outros, promette, illude-os e os mantém prisioneiros da esperança do ganho

(português do original)

(...) 

- Excertos da obra de GRAÇA ARANHA -  A viagem maravilhosa - 1929

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