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O Mozart do samba
A história de Pretinho da Serrinha, que aos 10 anos era diretor de bateria e agora faz sucesso na novela
A cena é inusitada. Um menino de canelas finas, de 10 anos, está em cima de um caixote de cerveja vazio. De seu púlpito, ele comanda uma bateria imponente, formada em grande parte por estivadores do Cais do Porto, todos muito mais velhos que ele. O menino sente o ar tremer ao som dos surdos, repiques, agogôs e tamborins. Apesar da pouca idade, é respeitado pelos mais velhos como uma espécie de Mozart do samba, porque toca os instrumentos melhor que todos ali. A bateria é do Império Serrano, uma das mais tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro. O diretor de bateria precoce é Ângelo Vítor Simplício da Silva, conhecido como Pretinho da Serrinha. Hoje, com 34 anos, ele e sua banda, o Trio Preto+1, se tornaram uma revelação.
Tudo aconteceu tão rápido que Pretinho às vezes nem acredita. Em junho, saiu o álbumTrio Preto+1. Em outubro, a novela das 9Salve Jorge estreou com uma música composta por Pretinho na abertura: “Alma de guerreiro”, cantada por Seu Jorge. Na trilha sonora, também entrou “Batucada quente”, música do álbum recém-lançado. Emplacar uma canção na principal novela da Rede Globo é o que todo músico sonha. Duas, nem em sonho. Em dezembro, o quarteto viveu um dos momentos mais especiais da carreira: tocou no especial de fim de ano de Roberto Carlos, durante a apresentação de Seu Jorge com o Rei. E domingo (dia13) se apresenta no festival Rider Weekends, no Jockey Club do Rio, onde toca com Alcione e Marcelo D2. “Pretinho tornou-se um dos melhores músicos do Brasil com seu cavaquinho preciso e inventivo. Com o Trio Preto+1, ele tem renovado a energia do samba”, diz o cantor Caetano Veloso, com quem a banda tocou no Circo Voador, um dos palcos mais cobiçados da cidade.
Pretinho vive de música desde os 13 anos. Sua mãe era manicure e porta-bandeira. Seu avô era um mestre de jongo, ritmo considerado o avô do samba. Pretinho não era igual aos meninos do Morro da Serrinha, na Zona Norte da cidade. Era péssimo no futebol. Para piorar, torcia para o Fluminense, pecado capital num bairro onde todas as crianças eram flamenguistas. Resultado: ficava com seus instrumentos enquanto os outros meninos jogavam bola. Batucava com tanta força no caderno, a caminho da escola, que às vezes a caneta estourava – e ele precisava voltar para casa para trocar de roupa. Ninguém o queria na bateria do Pena Vermelha, o bloco de Carnaval do morro. Quando os músicos davam uma pausa, Pretinho agarrava um instrumento e acompanhava a música que saía das caixas de som. Na volta dos músicos, tentava se camuflar entre eles e ficar na bateria. Logo era expulso e voltava para casa. Até que deu sorte. Num dia de desfile do bloco, um tocador de repique sumiu. Faltavam duas horas para o desfile e resolveram botar o moleque insistente. Como a roupa do outro ficava enorme nele, Pretinho correu para casa, onde sua tia cortou a calça e amarrou a camisa com fita-crepe. Com uma fantasia e talento maiores do que seus 10 anos de vida supunham, Pretinho desfilou. No mesmo ano virou diretor de bateria do Império Serrano.
Aos 13 anos, realizou sua primeira apresentação internacional. Foi com Mestre Darcy, um dos principais divulgadores do jongo nos anos 1970, tocar na Itália. Medo de avião? “Que nada. A vida no morro é tão difícil que tudo o que vem depois é fácil”, diz Pretinho. Ele é pai de dois filhos, cujos nomes traz tatuados nos braços: Tom e Thaiza, de 9 e 17 anos. O Trio Preto também surgiu fora do Brasil, durante um show de Seu Jorge no Favela Chiq de Paris, bar francês que virou point turístico e local. Seu Jorge saiu do palco para tomar uma água e deixou o que na época era um trio fazendo um solo de percussão. Quando voltou, a plateia estava de pé, dançando. “Trrio Prreton!”, gritava o produtor francês, querendo batizar o grupo. Como o nome parecia estrangeiro demais, ficou Trio Preto. Quando entrou mais um integrante, colocaram o “+1” – para não virar um trio de quatro. As composições de Pretinho têm quase sempre um tom de crônica. Não à toa ele virou um dos principais parceiros musicais de Seu Jorge, cujas músicas contam histórias de personagens urbanos. Eles dividem a autoria de músicas como “Burguesinha”, “Mina do condomínio” e “A doida”. Em sua casa na Barra da Tijuca, Pretinho tem um método próprio para saber se uma canção vai estourar: Bárbara, a diarista, é seu mercado teste. “Ela fica ali ouvindo eu compor. Quando ri, sei que a música vai dar certo”, diz.
Fonte: Rev. ÉPOCA
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