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segunda-feira, 11 de junho de 2018

Rádio Ratones - Música - BELCHIOR

Trump surfa na onda nacionalista dos Estados Unidos


Para americanos, velho modelo esquerda-x-direita não traduz mais o espírito do tempo. A dicotomia globalismo-x-nacionalismo vem ocupando seu lugar.











Oliver Stuenkel
11 JUN 2018 - 12:32 BRT A já icônica foto do Trump no G7 JESCO DENZEL AP


Quando a icônica fotografia de Angela Merkel encarando Donald Trump durante a recente Cúpula do G-7 viralizou nas redes sociais, muitos observadores ressaltaram a estupidez da decisão de Trump de impor tarifas punitivas contra seus aliados. Para o jornal liberal progressista The New Yorker, por exemplo, "America First" (A América Primeiro, slogan utilizado por Trump na campanha) "na verdade significa A América Sozinha". Poucos se deram conta de que eleitores de Trump adoraram a foto. Para seus fãs, serve como prova de que ele está disposto a defender os EUA contra a globalização que eles tanto temem. Breitbart, site de notícias ultranacionalista popular entre defensores de Trump, colocou a imagem em sua homepage sob o título: “Cúpula do G7: Trump dá aula magna sobre A América Primeiro aos globalistas.” John Bolton, um dos principais assessores de Trump, a compartilhou no Twitter: “Os outros países membros do G7 têm a expectativa de que os EUA serão sempre o cofrinho deles. O presidente deixou claro hoje: não mais.” A estratégia está surtindo efeito. A taxa de aprovação de Trump está subindo, e o político republicano Mitt Romney, crítico do presidente, recentemente disse acreditar que Trump será reeleito em 2020.

Trump soube magistralmente identificar e aproveitar a transformação na política norte-americana, que não funciona mais segundo o velho modelo esquerda-x-direita. De fato, a divisão entre globalistas e nacionalistas é cada vez mais relevante hoje em dia. Para muitos observadores, foi uma surpresa ver um número expressivo de norte-americanos, que tinham apoiado o autodeclarado socialista Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata, votarem em Donald Trump nas eleições gerais. Se todos os eleitores de Sanders tivessem transferido seus votos para Hillary Clinton, ela seria presidente hoje. Esses eleitores, porém, não viam os candidatos segundo os parâmetros clássicos de esquerda-x-direita -- em vez disso, pareciam identificar mais semelhanças entre Sanders e Trump do que entre Sanders e Clinton. Os globalistas, como Clinton, acreditam que a globalização geralmente produz benefícios para todos e não ameaça a soberania nacional. Eles costumam considerar as fronteiras nacionais como um obstáculo ao progresso. Os nacionalistas, como Sanders e Trump, por sua vez, acreditam que a globalização é uma ameaça à soberania nacional e desejam fronteiras nacionais mais fortes. Para eles, os governos nacionais devem proteger o país contra influências negativas do exterior, como produtos importados que põe em risco a indústria americana.



No entanto, embora não se possa ignorar a tendência, aceitar a divisão entre nacionalistas e globalistas traz riscos profundos, porque cria uma falsa exclusividade entre os dois grupos, como se as pessoas tivessem que escolher entre a pátria e o mundo. Essa perigosa dicotomia permite aos nacionalistas retratar o globalismo como um sistema dominado por bancos e conglomerados internacionais opacos, que minam o estado nacional e a própria democracia. Os nacionalistas podem atacar os globalistas e questionar sua lealdade: quem garante que eles defenderão a pátria em tempos de conflito? A divisão sugere implicitamente que os globalistas estão menos comprometidos com o interesse nacional. Caricaturar o globalismo como uma alternativa liberal, capitalista e antidemocrática ao nacionalismo rende votos, enquanto a defesa de instituições internacionais, como a ONU, a OMC ou a União Europeia, desperta bem menos interesse.

Ainda assim, quem apoia a globalização também é parcialmente responsável pela ascensão dos nacionalistas. Como ressalta Dani Rodrik, professor de Harvard, a maioria dos economistas sempre procurou falar apenas as consequências positivas do livre comércio, minimizando seu impacto negativo sobre grupos específicos. Um palestrante-padrão do Fórum Econômico Global de Davos, por exemplo, raramente reconhece que questões como manipulação cambial, desequilíbrios comerciais e perda de empregos são reais e que as importações de países onde os direitos trabalhistas não são protegidos trazem sérias questões relativas à justiça distributiva. Da mesma forma, os críticos do livre comércio têm certa razão quando argumentam que empresas multinacionais e grandes investidores às vezes determinam a agenda das negociações comerciais internacionais, resultando em acordos que beneficiam desproporcionalmente o capital em relação ao trabalho. Consequentemente, os defensores da globalização perderam parte de sua credibilidade, e os argumentos de Trump contra a globalização têm atraído muita atenção.

Outro problema é que muitos globalistas tratam os eleitores de Trump como caipiras desinformados. Nas redes sociais, seus adversários frequentemente pintam Trump como uma criança. Uma foto adulterada em Photoshop, que ficou popular no Twitter, mostra o presidente dos EUA em um carrinho de bebê durante o G7. Outra exibe cadeiras destinadas a cada um dos sete líderes do grupo. Detalhe: a dos Estados Unidos é um banquinho para bebê. No entanto, muitas vezes passa despercebido o fato de que essas imagens reforçam a percepção, entre os eleitores de Trump, de que eles não estão sendo levados a sério e de que seus adversários são arrogantes e alheios às suas preocupações.

A dicotomia "globalista x nacionalista" também está definindo cada vez mais a atuação dos EUA no mundo. Não por acaso, Trump pediu a readmissão da Rússia, liderada pelo líder nacionalista Putin, ao G7, e a única pessoa que o presidente dos EUA elogiou em seus tweets durante a cúpula foi o novo primeiro-ministro da Itália, líder de um governo nacionalista eurocético, a quem chamou de "um sujeito realmente ótimo".

Só que Trump, ao agir dessa forma, não está apenas expressando suas próprias convicções. Ele está traduzindo em ação o Zeitgeist presente nos EUA já há algum tempo. Em vista do viés nacionalista de significativa parcela da população dos Estados Unidos, parece altamente improvável que qualquer futuro ocupante da Casa Branca, durante a próxima década, possa adotar uma agenda pró-livre comércio tão entusiasticamente como os antecessores de Trump. Com os Estados Unidos cada vez mais de olho no próprio umbigo, caberá a outros atores globais - como a União Europeia, a China, o grupo BRICS e nações latino-americanas - garantir que a globalização continue sem o país que um dia foi seu maior defensor.
 
Fonte: EL PAIS BR

“A narrativa sobre o narcotraficante El Chapo é a maior ficção na suposta guerra às drogas”

O acadêmico Oswaldo Zavala lança no México o livro ‘Os cartéis não existem’, que dinamita o discurso oficial sobre a criminalidade no país


Oswaldo Zavala, na Cidade do México.
Oswaldo Zavala, na Cidade do México.
Do que estamos falando quando nos referimos ao narcotráfico no México? O que significa ler que os cartéis colocam o Estado em xeque, que a guerra se intensifica nos Estados de Guerrero, Tamaulipas, Jalisco e Michoacán? O que é um sicario, uma plaza, um halcón, o que é esta matança que sangra o país há tantos anos?



São palavras e expressões que aparecem nos relatórios oficiais, na imprensa, nas revistas, nas novelas, nas séries de televisão... E, entretanto, o que significam? Fazemos bem ao usá-las, ao dizer “guerra do tráfico”, ou ao noticiar que El Chapo, Os Zetas ou o Jalisco Nova Geração “controlam uma praça”? Oswaldo Zavala (Cidade Juárez, 1975) diz que não. Um não taxativo.

Los Cárteles No Existen (“os cartéis não existem”, inédito no Brasil), seu novo ensaio, questiona a narrativa oficial construída em torno da violência no México. Pois não há uma guerra entre cartéis, diz Zavala, embora a “guerra entre cartéis” seja uma explicação compreensível, digerível, para as dezenas de milhares de mortos e desaparecidos deixados pelo conflito. É uma isca para o Twitter. Por isso ele diz suposta: suposta guerra, supostos cartéis, supostos líderes de facções criminais. Suposto tudo: “Meu interesse é mostrar que há um discurso que constrói um inimigo que está por toda parte e que é o principal ator da violência. E depois compreender o que há por trás dele, um sistema político que lança mão da linguagem para avançar em estratégias que de outro modo seriam inaceitáveis”.

Pergunta. Se o cartéis não existem, então o que existe?

Resposta. Os cartéis não existem, mas a violência estatal existe. Temos que compreender que estes tempos violentos têm relação com a história do sistema político. O sistema político é a maior condição para a violência no país. A partir da história do Estado podemos compreender o que é isso que chamamos de narcotráfico. A ideia de um cartel é uma ideia recebida, criada pelo discurso de segurança dos Estados Unidos nos anos oitenta, para falar dos traficantes colombianos. E que no México se tornou útil paralelamente a outra narrativa, que permite, de forma muito rápida e simples, nos dar uma ideia concisa sobre a violência. E que permite justificar estratégias estatais.



A verdadeira colombianização não é El Chapo, nem os traficantes atacando a sociedade civil, e sim a resposta do Estado

P. Você distingue três fases nas relações entre os grupos criminais e o Estado. Uma primeira, primitiva, que corresponde ao México anterior à poderosa implantação da Direção Federal de Segurança –o temível órgão de combate à insurgência do Estado controlado pelo partido PRI. A segunda, que nasce com a Operação Condor nos anos setenta e coincide com a organização dos traficantes de Sinaloa em Guadalajara. E depois o desmantelamento da DFS e a perda de poder pelo PRI. E agora?

R. Eu começaria com a Operação Condor. Em 1975 houve a primeira ação militarizada coordenada entre os EUA e o México para atacar o Triângulo Dourado, uma região de cultivos de papoula e maconha entre Sinaloa, Chihuahua e Durango. Cerca de 10.000 agentes chegam ao Triângulo Dourado, queimando e despovoando. Há um êxodo maciço de camponeses para Culiacán, Sinaloa... Isso não volta a se repetir até o Governo de [Felipe] Calderón [2006-12]. Pelo menos não com essa gravidade. A partir daí, o sistema político concebe uma estratégia nacional de gestão do tráfico. Marginaliza os traficantes do poder político e produz a Federação, disciplinada pela DFS e o Exército.

A segunda etapa começa quando se esgota a ameaça comunista global, e os EUA ficam sem inimigo no âmbito da segurança. Cai a União Soviética, e o presidente Reagan recodifica os objetivos de segurança para pensar agora no narcotráfico como a nova agenda de segurança nacional. E isso é feito de um dia para o outro. Até então o tráfico era uma questão policial (...). Embora a agenda de segurança comece em 1989 com CISEB – o serviço secreto, que substitui a DFS –, é com Calderón que o México se colombianiza. Ou seja, a verdadeira colombianização não é El Chapo, nem os traficantes atacando a sociedade civil, e sim a resposta do Estado.

P. Como seus argumentos se ligam a situações como as vividas em Jalisco nos últimos meses, o desaparecimento dos estudantes de cinema e seu assassinato, o atentado contra o ex-promotor em pleno centro de Guadalajara? Se os cartéis não existem, então o que é tudo isso?

R. Parte do problema é este. Queremos respostas rápidas, como o trabalho jornalístico exige. Estamos acostumados a receber uma explicação que nos tranquilize, que nos faça entender a lógica da violência. E isso é parte da maneira pela qual o discurso oficial se instalou na esfera pública com tanta força. Há um tiroteio, pessoas morrem, e imediatamente se significa para nós por meio de porta-vozes oficiais: “É que lá está o Cartel de Jalisco, que além do mais derrubou um helicóptero, e há uma operação para detê-los”. E então todos os jornalistas anotam tudo, foi o cartel, e acabou. Em um país com um índice de impunidade extraordinário, surpreende-me a facilidade com que aceitamos o relato oficial.



Costumamos receber uma explicação que nos tranquilize, que nos faça entender a lógica da violência

P. Suponho então que El Chapo e sua história lhe pareçam a maior das ficções...

R. Totalmente, quando o prendem no apartamento de Sinaloa [em fevereiro de 2014], ele está sozinho com a sua mulher. E um repórter do The New York Times, sobressaltado, diz: “Que loucura, não há túneis, soldados, não está lá o seu exército, e o capturam lá como se fosse a coisa mais normal, incrível!”. Não! Talvez seja a sua realidade! O incrível é que você acredite que ele tem 300 soldados. Quem os viu? Ninguém.

P. Sim. El Chapo é o ator principal desta comédia que você chama de guerra do tráfico, e suponho que a fuga pelo túnel seja sua história favorita [em julho de 2015, as autoridades informaram que El Chapo havia fugido por um túnel de uma prisão de segurança máxima].

R. Não só é inverossímil como também representa um desafio jornalístico. Quem abriu esse túnel? Fiquei fascinado de ver que todo mundo se esmerou em descrever o túnel, como estava ventilado, mas ninguém questionou se havia sido o pessoal do Chapo que o cavou. Sim, noticiou-se que houve ajuda de prisão, que ele corrompeu. Mas a ideia foi dele, e graças a subornos ele conseguiu. Quer dizer, nunca nada fora da narrativa oficial. Continua-se a acreditar que ele é o fator de origem desses eventos. E me parece incrível que se evite dizer que há interesses políticos na sua fuga.

P. Então essa construção teórica que você denuncia serve para tampar casos de corrupção? Ou qual é a intenção? Há uma só, ou várias?

R. Há uma enorme descontinuidade em como essas narrativas do tráfico são utilizadas. Às vezes há recursos naturais no meio, às vezes uma disputa entre grupos de poder. Vejamos o caso de Chihuahua. Lá, são grupos poderosíssimos, aliados com empresários que estão dilapidando a serra, há um enorme extrativismo na serra, coisa que foi noticiada por Miroslava Breach [jornalista assassinada há pouco mais de um ano]. Isto que chamamos de narcopoder na verdade são esses grupos de rapina que se dedicam ao corte de árvores, fazendo muita sacanagem e que se aliam com empresários e políticos, partidários do PRI no caso de Chihuahua, que na transição – o PAN alcançou o Governo estadual pouco antes do assassinato de Miroslava – estavam sendo ameaçados. Que ideia poderia ser melhor do que desestabilizar o Estado logo de saída, criar uma nova guerra e desviar a atenção?
 
Fonte: EL PAIS BR

domingo, 10 de junho de 2018

Por que os suicídios estão aumentando nos Estados Unidos?


Estilista Kate Spade e chef Anthony Bourdain morreram nesta semana após supostamente cometerem suicídio

Um novo estudo do governo dos Estados Unidos revelou que o suicídio vem aumentando em todo o país desde 1999.

Os números foram publicados na mesma semana em que a estilista Kate Spade e o famoso chef Anthony Bourdain tiraram a própria vida.

Mas o que causou esse aumento de suicídios nos Estados Unidos?

Segundo o estudo, realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), um órgão do governo americano, a taxa total de suicídio aumentou em 30% em mais da metade dos Estados dos EUA nos últimos 17 anos. O aumento médio em todo o país é de cerca de 25%.

Isso significa que, em média, 16 de cada 100 mil americanos decidem acabar com suas próprias vidas todos os anos.

Só em 2016, quase 45 mil pessoas se suicidaram no país.

De acordo com os dados do CDC, o suicídio aumentou entre todos os grupos, independentemente de sexo, idade, raça ou etnia.

A principal pesquisadora do estudo, Deborah Stone, disse à BBC que o CDC vinha investigando esse aumento há algum tempo.

"Sabíamos que as taxas estavam subindo e queríamos entender esse aumento a nível estadual. Sem falar nos fatores por trás disso", explica Stone.

"Em 25 Estados, houve aumentos de mais de 30%, o que nos surpreendeu", acrescenta.

Quase todos esses Estados são encontrados nas regiões oeste e centro-oeste dos Estados Unidos. 
Nos EUA, grande parte de quem morre por arma de fogo comete suicídio
Por que os suicídios estão aumentando?

Embora não exista um único fator que leve ao suicídio, Stone diz que as principais causas são os problemas financeiros e as relações emocionais.

A especialista também lembra que alguns Estados do oeste americano têm historicamente altas taxas de suicídio. Isso poderia estar relacionado à economia preponderantemente agrícola dessa região.

Esses Estados, assinala Stone, ainda estão se recuperando de crises econômicas. Seus moradores também tendem a ser mais isolados e a não ter acesso a cuidados adequados. Além disso, foram os locais mais duramente atingidos pela epidemia de opioides (drogas que atuam no sistema nervoso para aliviar a dor).

Já para a presidente da Associação Americana de Suicídio, Julie Cerel, parte do aumento pode ser explicado pelo aperfeiçoamento da metodologia dos relatórios e dos estudos.

Mas ela destaca a falta de fundos suficientes para pesquisa em saúde mental e cuidados preventivos.

"Nossos sistemas de saúde mental estão passando por dificuldades em todo o país", diz ela. "Em termos de treinamento de profissionais de saúde mental, não estamos fazendo um bom trabalho".

Apenas em dez estados americanos, por exemplo, é obrigatório que os profissionais de saúde recebam treinamento sobre prevenção do suicídio.
Suicídio: como falar sobre o ato sem promovê-lo Direito de imagem Getty Images Image caption Apenas em dez estados americanos, é obrigatório que profissionais de saúde recebam treinamento sobre prevenção do suicídio.
Armas de fogo

Cerel também alude a outro problema de saúde pública, embora muitas vezes deixado de lado: armas de fogo.

"O debate sobre armas de fogo nos EUA se concentrou nos terríveis tiroteios nas escolas, e queremos evitá-los, mas a grande maioria das mortes por armas de fogo ainda é por suicídio", diz ela.

Segundo o CDC, os suicídios respondem por dois terços desse tipo de morte.

"Nós simplesmente não falamos sobre isso nos EUA porque existe um estigma contra a saúde mental; as pessoas pensam que os suicídios são diferentes, por que eles deveriam querer o controle de armas, ninguém em sua família vai fazer isso", diz ela.
Existe uma relação entre suicídio e doença mental?

O estudo do CDC descobriu que 54% dos americanos que morreram de suicídio não tinham sido diagnosticados com nenhuma doença de saúde mental.

Em entrevista à BBC, Jerry Reed, da Aliança Nacional para Ação contra a Prevenção do Suicídio, disse que, "embora haja definitivamente uma ligação entre a doença mental grave e o comportamento suicida", os especialistas descobriram que isso não se trata apenas de um desafio de saúde mental.

"Condições econômicas ou oportunidades de subsistência em declínio podem levar as pessoas a situações onde passam a correr risco; precisamos intervir nos casos de saúde mental e pública", diz Reed.

Cerel também destaca que muitas pessoas diagnosticadas com doenças mentais não se suicidam.

"Não é algo tão simples como: 'eles tinham problemas mentais, então se suicidaram'".

Stone diz que o estudo do CDC mostra que a perda de entes queridos, abuso de substâncias, saúde física e problemas legais e de trabalho são todos elementos importantes que podem desencadear um comportamento suicida.

"Se nos concentrarmos em apenas uma coisa, estamos esquecendo outras pessoas potencialmente em risco", diz ele.
Por que o número de crianças hospitalizadas por tentativa de suicídio dobrou nos EUA? Direito de imagem Getty Images Image caption Ter 'plano de segurança' é vital para contornar situações extremas na vida, defende especialista
'Seguir em frente'

Os especialistas concordam que ensinar as pessoas a processar uma perda e como lidar com emoções difíceis são dois fatores essenciais para evitar o suicídio.

"Não podemos supor que todos aprendam isso por meio de uma fórmula mágica", diz Reed.

"Aprendemos a ler, a escrever, por isso também precisamos ajudar as pessoas a aprenderem a ter sucesso.

Então, o que é exatamente progredir do ponto de vista da saúde mental?

Cerel defende ter um "plano de segurança".

"Se as coisas derem errado em sua vida, o que você vai fazer? O que você pode fazer para se distrair naquele momento de tristeza? Você pode olhar fotos de seus filhos ou assistir a vídeos engraçados de gatos?", diz.

"Não que esses vídeos vão manter alguém vivo, mas podem acalmar as pessoas para que sejam usadas outras estratégias de enfrentamento", acrescenta.

Cerel também enfatiza que o objetivo final é incentivar suicidas em potencial a frequentar a terapia e terem profissionais de saúde mental para ajudar a "mudar o pensamento disfuncional"

Para algumas pessoas, "sentir-se conectado e desfrutar de um sentimento de pertencimento são coisas realmente importantes", destaca Stone.

"Temos que envolver toda a comunidade, não apenas os profissionais de saúde", diz Reed. "Somos uma nação que precisa reconhecer esse isolamento", acrescenta.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

GAL GADOT ESTÁ PRODUZINDO UM FILME SOBRE FIDEL CASTRO.









Gal Gadot deve produzir e, possivelmente, estrelar um filme sobre como uma jornalista americana se tornou uma das confidentes mais próximas de Fidel Castro. O marido de Gadot, Yaron Versano, que também é israelense, irá coproduzir o drama para a Warner Bros.

A ideia é baseada em um recente artigo de Peter Kornbluh, intitulado, “Meu querido Fidel: Um contato secreto do jornalista com Fidel Castro”. Ele detalha como a jornalista, Lisa Howard, ajudou a estabelecer um canal secreto entre Cuba e Washington, após a crise dos mísseis cubanos.

“Quando li pela primeira vez o artigo de Peter, fiquei encantada com o emocionante relato de uma mulher complicada e fascinante, no meio de um drama da vida real de alto risco. Eu soube imediatamente que tinha que me envolver com a história de Lisa Howard e estou muito feliz por estar produzindo esse filme com Sue”, disse Gadot, mencionando a coprodutora Sue Kroll.

ANNE FRANK FOI TRAÍDA POR UMA COLABORADORA JUDIA?







Anne Frank pode ter sido traída pela infame colaboradora nazista Anna "Ans" van Dijk, uma mulher judia que concordou em ajudar a capturar outros judeus escondidos em troca de sua liberdade. Em seu novo livro, “O quintal do Anexo Secreto”, o autor Gerard Kremer afirma que van Dijk foi responsável por trair Anne e outros sete judeus escondidos atrás de um prédio de escritórios em Amsterdã. De acordo com Kremer, seu falecido pai - também chamado Gerard Kremer - ocasionalmente flagrou van Dijk durante suas visitas a um prédio de escritórios nazista onde Kremer trabalhou durante a guerra. Lá, ela supostamente se encontrou com manipuladores e fez ligações telefônicas. A principal alegação do livro é que Kremer, que morreu em 1978, ouviu van Dijk falar sobre os judeus que estavam escondidos na Prinsengracht, o canal onde o chamado "Anexo Secreto" de Anne estava localizado. A conversa teria ocorrido no início de agosto, poucos dias antes de os nazistas invadirem o anexo, em 4 de agosto de 1944. Dos oito judeus escondidos, apenas Otto Frank sobreviveu ao Holocausto. Esta não é a primeira vez que van Dijk foi apontada como suspeita da traição de Anne Frank. Como a única mulher executada pelas autoridades holandesas por colaborar com os nazistas, seu nome tem sido associado à prisão da diarista, há décadas.  
 


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Bancos israelitas fazem negócio às custas da ocupação


Judeu ultraortodoxo passeia-se no colonato religioso de Ramat Shlomo, numa área da Cisjordânia anexa a Jerusalém Foto Baz Ratner / Reuters
Baz Ratner/ reuters

Os bancos israelitas são cúmplices da ocupação da Palestina. Financiando projetos de construção, concedendo empréstimos ou simplesmente abrindo balcões — aos quais a população palestiniana não pode aceder — contribuem para perpetuar uma situação ilegal e discriminatória. Um relatório da Human Rights Watch, divulgado esta terça-feira, põe o dedo na ferida




Margarida Mota


O que de ilegal pode ter uma caixa multibanco num aglomerado populacional? Tudo, se o terminal pertencer a um banco israelita e a povoação em causa for um colonato judeu no território palestiniano da Cisjordânia. Ao abrigo do direito internacional, os colonatos são ilegais, pelo que o financiamento de projetos de construção, a concessão de empréstimos a autoridades locais ou a abertura de agências bancárias nos colonatos tornam os bancos israelitas cúmplices de crimes de guerra.

“Fazer negócios com ou nos colonatos contribui para graves violações dos direitos humanos e do direito internacional humanitário”, defende ao Expresso Sari Bashi, diretora do programa da Human Rights Watch (HRW) para Israel e a Palestina. “Infelizmente, as empresas não podem mitigar esses abusos, porque eles são inerentes aos colonatos”, que se desenvolvem em terras confiscadas ilegalmente e em condições de discriminação.

Esta terça-feira, a HRW divulgou o RELATÓRIO BANKROLLING ABUSE: ISRAELI BANKS IN WEST BANK SETTLEMENTS no qual defende que os maiores bancos de Israel fornecem serviços que “apoiam e ajudam a manter e a expandir os colonatos na Cisjordânia”.

Judeus atravessam uma rua do colonato de Beitar Illit, a sul de Jerusalém. Palestinianos trabalham na obra em curso

Foto Menahem Kahana / AFP / Getty Images

“Os serviços prestados nos colonatos são intrinsecamente discriminatórios, porque os palestinianos da Cisjordânia não podem entrar nos colonatos, exceto se forem trabalhadores e tiverem licenças especiais”, explica Sari Bashi. “Por isso, os palestinianos não podem obter hipotecas para comprar casas nos colonatos — porque não podem aceder às terras dos colonatos. Não podem usar os multibancos nos colonatos — porque não podem lá entrar. Não desfrutam dos empréstimos dos bancos aos colonatos para a construção de piscinas e centros recreativos — porque o acesso a essas instalações está-lhes vedado.”

Os bancos israelitas defendem-se alegando estarem obrigados pela lei do Estado. A HRW contesta, dizendo que os bancos podiam cessar muitas das suas operações nos colonatos sem consequências legais adversas. “Contrariamente ao que dizem os bancos israelitas, eles não estão obrigados à maioria dos serviços que prestam nos colonatos”, diz Sari Bashi, que antes de trabalhar na HRW cofundou o grupo israelita de direitos humanos Gisha — Centro Legal para a Liberdade de Movimento. “Para cumprir as suas responsabilidades ao nível dos direitos humanos, os bancos deveriam cessar as suas atividades nos colonatos.”

Militares israelitas protegem o colonato de Har Homa, na região de Belém, Cisjordânia

Foto Issam Rimawi / Anadolu Agency / Getty Images

Num relatório publicado em setembro, a HRW já tinha feito um levantamento das atividades bancárias nos colonatos. “É um mapeamento muito parcial, porque os sete grandes bancos contactados recusaram-se a divulgar publicamente o âmbito e a extensão das suas operações nos colonatos”, diz Sari Bashi. “Esse levantamento sugere que os serviços são prestados mediante oportunidades de negócios.”

Por exemplo, os bancos optam por estabelecer balcões em colonatos grandes, onde potencialmente têm mais clientes. Concorrem entre si na concessão de empréstimos às autoridades locais. E escolhem os projetos de construção que querem “acompanhar”. “Os bancos fazem negócios, mas na opinião da HRW essas decisões são contrárias às suas responsabilidades relativas aos direitos humanos” — que constam dos Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos, adotados pelas Nações Unidas em 2011.

Segundo a HRW, quatro grandes bancos israelitas — Bank Hapoalim, Bank Leumi, Bank Discount e Mizrahi Tefahot — subscreveram o Pacto Global da ONU, uma iniciativa que encoraja as empresas a adotarem políticas sustentáveis e de responsabilidade social e que inclui um compromisso no sentido do respeito pelos direitos humanos proclamados internacionalmente. “Cada banco publica um relatório anual sobre responsabilidade social empresarial”, lê-se no documento da HRW. Porém, “nenhum deles, nas edições de 2016, as mais recentes, aborda especificamente atividades nos colonatos israelitas”.

O Bank Hapoalim é um dos grandes bancos israelitas que operam nos colonatos. No restante território da Cisjordânia, há bancos palestinianos ou estrangeiros

Foto Nir Elias / Reuters

O relatório divulgado esta terça-feira concretiza a cumplicidade entre bancos e ocupação. Na aldeia palestiniana de Azzun, atravessada pelo chamado “muro da Cisjordânia”, o Leumi é parceiro num projeto de construção de cinco novos edifícios no colonato de Alfei Menashe, que cresceu em terras que anteriormente pertenciam à aldeia.

Noutro caso, o Mizrahi Tefahot “acompanha” dois novos projetos residenciais, nos arredores da aldeia palestiniana de Mas-ha, num total de 251 casas. Basicamente, estes planos expandem o colonato de Elkana na direção de Mas-ha, restringindo o acesso dos palestinianos às terras e forçando a deslocalização de populações.

“A transferência, por parte do ocupante [Israel], de membros da sua população civil para o território ocupado [Cisjordânia] e a deportação ou transferência de membros da população do território são crimes de guerra”, conclui o relatório. “As atividades dos bancos financiam um passo perigoso” desse processo. Ao viabilizarem a expansão dos colonatos, facilitam a transferência ilegal de população.
 
Fonte: http://expresso.sapo.pt

Petroleiros iniciam greve mesmo com proibição da Justiça


No Rio, trabalhadores da Reduc, em Duque de Caxias, não iniciaram jornada de trabalho


Por ESTADÃO CONTEÚDO


Publicado às 03h54 de 30/05/2018
Petroleiros iniciam paralisação de 72h Petroleiros iniciam paralisação de 72h - Reprodução / Facebook




A Federação Única dos Petroleiros (FUP) informou, via redes sociais, que a greve da categoria começou nos primeiros minutos desta quarta-feira, apesar de o Tribunal Superior do Trabalho (TST) ter considerado o movimento ilegal, nesta terça. "Não vamos arregar para a Justiça do Trabalho", disse o coordenador geral da FUP, José Maria Rangel, em vídeo divulgado pela entidade (assista abaixo). "A greve está mantida".


Leia Mais


Comunicado da FUP publicado pouco depois da 1h relata que os funcionários "não entraram para trabalhar" nas refinarias de Manaus (Reman), Abreu e Lima (Pernambuco), Regap (Minas Gerais), Duque de Caxias (Reduc), Paulínia (Replan), Capuava (Recap), Araucária (Repar), Refap (RS), além da Fábrica de Lubrificantes do Ceará (Lubnor), da Araucária Nitrogenados (Fafen-PR) e da unidade de xisto do Paraná (SIX).


Também não houve troca dos turnos da zero hora nos terminais de Suape (PE) e de Paranaguá (PR).


Na Bacia de Campos, as informações iniciais eram de que os trabalhadores também aderiram à greve em diversas plataformas.
Petroleiros iniciam paralisação de 72h - Reprodução / Facebook


Paralisação de 72h


Os petroleiros decidiram parar as atividades por 72 horas em solidariedade ao movimento dos caminhoneiros e para pedir a destituição de Pedro Parente do comando da estatal, entre outras reivindicações.


O TST tomou a decisão de declarar ilegal a greve por causa de sua "natureza político-ideológica". O tribunal estipulou multa de R$ 500 mil em caso de descumprimento da ordem.


segunda-feira, 28 de maio de 2018

PELO DIREITO AO VOTO - A atriz britânica feminista que passou a agir como 'terrorista'


Megha Mohan Da BBC Stories

 

Quando Fern Riddell foi ler a respeito do atentado que acabara de ocorrer em uma estação de metrô em Londres, em 15 de setembro de 2017, imediatamente reconheceu o tipo de bomba usado na explosão.

A cobertura midiática do atentado mostrava fotos de um balde plástico queimado, enrolado em uma sacola plástica de supermercado, e com uma bomba dentro.

"É uma bomba (típica das) suffragettes", percebeu Riddell, referindo-se ao movimento feminista britânico que, no início do século 20, foi às ruas para exigir o direito ao voto.

"Era uma bomba caseira, feita com materiais que você pode comprar em lojas de produtos químicos ou de construção. Era o tipo de bomba que as mulheres usaram para aterrorizar o país (Reino Unido) e fazê-lo prestar atenção nelas."

O interesse de Riddell nas sufragistas começara cinco anos antes, quando ela estudava para um PhD em História - ainda que tenha relutado inicialmente em abordar o assunto.

"Parecia uma armadilha: se você for uma jovem historiadora mulher, tem necessariamente de escrever sobre mulheres e sufragistas", diz.

Mas uma descoberta acidental nos arquivos do Museu de Londres, feita com a ajuda da arquivista Beverley Cook, a fez mergulhar de vez no assunto.

"Bev me disse: 'Tenho uma autobiografia não publicada de uma jovem artista, vista por muito poucas pessoas. Ela também era suffragette. Será que você está interessada nisso?'", conta Riddell.

Era a autobiografia de Kitty Marion, uma proemiente sufragista.

"Na época, eu tinha a mesma impressão de muita gente sobre as sufragistas: sabia que elas quebravam vitrines, se acorrentavam a trilhos, eram alimentadas à força (em greves de fome), protestavam. Eu achava que sabia tudo o que havia para saber sobre essas mulheres." 
 
Image caption Fern Riddell descorbiu por acaso a história de Kitty Marion - e a transformou em livro
Radicalização

Ao ler meras cinco páginas da tal autobiografia, porém, Riddell se surpreendeu: no texto, Kitty falava abertamente sobre organizar incêndios criminosos. Há relatos também de que a autora do texto tenha sido responsável por atentados a bomba. Ou seja, diz Riddell, Kitty poderia ser chamada de "terrorista".

"Kitty fala de modo tão poderoso (no livro)", diz a pesquisadora. "E ela me contava uma história que eu nunca havia escutado. Mais tarde, perguntei a amigos, parentes e a outros acadêmicos, e eles tampouco haviam escutado isso. É uma parte da história que a maioria dos historiadores parece ter se esquivado de explorar - e eu estava ali, com acesso a uma fonte primária, a uma mulher que não era como ninguém outro dos livros de história."

Riddell ficou no arquivo do museu até a hora de fechar. Leu a história de Kitty Marion de uma vez só.
Origens

Katherina Maria Schafer chegou a Londres aos 15 anos, fugindo de um lar abusivo em seu país natal, a Alemanha. Sua mãe morrera quando ela era um bebê, e Katherina ficou sob os cuidados de um pai violento e nada amoroso - que matou um bichinho de estimação da filha quando notou que havia afeição entre ela e o animal.

Katherina foi morar com seus tios e primos no leste de Londres e rapidamente aprendeu a falar inglês. Entrou por acaso no mundo do teatro de variedades londrino e, pela primeira vez, sentiu que pertencia a um ambiente. Mudou seu nome para Kitty Marion e começou uma carreira como atriz e dançarina.

"Kitty ficou fascinada pelo mundo (do teatro de variedades)", conta Riddell. "Os cabarés eram um nicho empolgante e cosmopolita da Londres vitoriana. Mulheres profissionais e casamentos inter-raciais eram comuns ali. Kitty tinha um grupo diversificado de amigos - o filho de um diplomata chinês lhe deu seu primeiro cigarro. Ela fez amizade com mulheres fortes, liberadas sexualmente, diferente das que eu conheço pelos livros de história. As mulheres da Era Vitoriana britânica são descritas como vítimas sofredoras, não livres como as descritas na autobiografia de Kitty." Direito de imagem Alamy Image caption Kitty Marion era considerada pela polícia como uma das mais perigosas sufragistas

A princípio, Kitty não se interessava pela causa da igualdade de gênero ou do direito das mulheres ao voto. Até que foi assediada por um agente, a quem se refere como "Sr. Lixo". O episódio a fez questionar seriamente sua carreira, em uma indústria comandada por homens poderosos. Na autobiografia, Kitty diz que "todo o seu ser ficou revoltado" com o assédio.

"Poucas mulheres esquecem a primeira vez que foram assediadas - a primeira vez que alguém decidiu que tem o direito de te tocar, de te beijar e te pegar sem pedir permissão", diz Riddell.

E, ao perceber que ela não era a única a passar por aquilo, Kitty começou a elaborar a ideia de que "as mulheres merecem se sentir seguras em seu ambiente de trabalho e ter independência, sem ter de sacrificar seus corpos por isso. Foi o que fez Kitty se envolver com o movimento sufragista", conta a pesquisadora.

Kitty entrou para uma liga de atrizes, que frequentemente realizava peças sufragistas. Depois, se uniu a grupos feministas e aderiu a manifestações populares, até, aos poucos, passar a praticar atos radicais de desobediência civil.
Prisão

Sua primeira passagem pela prisão ocorreu após Kitty atirar um tijolo em uma janela de um escritório dos correios da cidade de Newcastle. Assim como muitas outras suffragettes, ela participou de greves de fome, e foi alimentada pelas autoridades de modo extremamente violento: por um tubo enfiado à força no nariz ou na boca.

Em protesto contra esse tratamento, Kitty quebrou a lâmpada de gás de sua cela prisional e, usando o colchão, ateou fogo ao local.

Ela acabou sendo presa diversas vezes, a maioria delas por incêndios criminosos. Direito de imagem Alamy Image caption Suffragettes que faziam greve de fome eram submetidas a duras formas de alimentação forçada

Na noite de 13 de junho de 1913, ela e uma amiga sufragista atearam fogo à arquibancada de um jóquei clube em retaliação à morte da ativista Emily Wilding Davison, atingida pelo cavalo do rei britânico George 5º durante um protesto no Dérbi de Epsom. Kitty e a amiga foram detidas na manhã seguinte.

Na ocasião, ela foi alimentada à força 232 vezes em um único dia.
Onda de violência

Riddell ficou fascinada pela história de Kitty, uma mulher que, ainda que não fosse particularmente conhecida, estava na trincheira do movimento sufragista e era conhecida de suas líderes.

A historiadora passou horas, e depois dias, meses e anos analisando centenas de materiais de arquivo (como diários, cartas, registros policiais e judiciais, memórias e reportagens de jornais) para traçar um panorama da vida de Kitty dentro do movimento. Assim, começou a emergir uma pouco conhecida história das suffragettes.

Além de quebrar vitrines e iniciar incêndios, as mulheres colocavam frascos de fósforo nas caixas de correio - que rompiam quando manejadas e provocavam queimaduras graves nos carteiros. Elas também plantavam bombas. Image caption Sufragistas adotaram táticas radicais em sua luta pela igualdade de gênero

"No princípio de 1913, as suffragettes já haviam se tornado um grupo terrorista altamente organizado", argumenta Riddell. "Em maio de 1913, houve 52 ataques, incluindo 29 bombas e 15 incêndios no país."

Bombas caseiras, muitas parecidas às que Riddell viu no atentado recente ao metrô de Londres, foram plantadas em igrejas, carros de trens lotados, estações, e a historiadora diz que a intenção por trás dos explosivos era causar ferimentos.

"As bombas não detonavam instantaneamente como fazem hoje em dia. Elas soltavam ruídos e fumaça e davam tempo para que as pessoas escapassem. Mas eram colocadas em locais públicos."

Em panfletos, a líder sufragista Emmeline Pankhurst chamou sua militância de "uma guerrilha continuada e destrutiva contra o governo". Tanto as suffragettes quanto a polícia diziam haver um "reino do terror". Jornais falavam de "terrorismo suffragette".

"Sem dúvida, tudo isso tinha as marcas do que hoje definimos como terrorismo", diz Riddell. Image caption Kitty guardava registros jornalísticos dos atos violentos atribuídos às sufragistas
'Confissões'

Em sua autobiografia, Kitty é mais clara a respeito dos incêndios.

Ela guardou registros dos incêndios que provocou, mas também reportagens sobre explosões de autoria não identificada. Riddell acredita que foi uma forma de Kitty assumir responsabilidade por esses ataques.

Há, também, cartas com informações reveladoras.

O texto indica, segundo Riddell, que as sufragistas fizeram uma tentativa coordenada, em anos posteriores, de remover referências a seus atos mais violentos nas memórias que publicaram.

Quando a historiadora começou a falar publicamente sobre os atos mais violentos de Kitty, enfrentou críticas de historiadores do sufragismo.

"Um me escreveu dizendo que minha pesquisa era 'vergonhosa' e eu 'não deveria prosseguir', o que foi muito intimidatório para mim, uma jovem estudante em início de carreira", conta.

"Outros agiram na defensiva, dizendo que não havia maior forma de ocultar a memória sufragista. (Mas) gostaria de perguntar às pessoas que não estão na bolha da elite acadêmica: você ou seus amigos já ouviram falar de mulheres-bomba sufragistas? Já ouviu elas serem chamadas de terroristas?"

Riddell diz que apenas a eclosão da Primeira Guera Mundial, em 1914, conteve a escalada da militância suffragette.

A última detenção de Kitty Marion ocorrera no ano anterior. Ela foi condenada a três anos de prisão e cumpriu alguns meses de pena até ser transferida a um hospital, após a aprovação de uma lei liberando prisioneiros demasiadamente enfraquecidos por greves de fome até que sua saúde melhorasse.

A Primeira Guerra deu ao governo britânico a oportunidade, diz Riddell, de acusar uma das mais perigosas mulheres do movimento suffragette de ser uma "espiã alemã".
 
Exílio

Mas Kitty tinha amigas leais, e muitas sufragistas a ajudaram a viajar aos EUA, em vez de voltar à prisão.

Ao chegar a Nova York, Kitty se dedicou a uma nova causa feminista: o movimento pelos direitos reprodutivos das mulheres.

"Eis uma mulher cuja vida fez um elo entre dois dos grandes movimentos do nosso tempo, e ainda assim ninguém a conhece", diz Riddell.

A pesquisa da historiadora acabou se transformando em um livro recém-publicado, Death in Ten Minutes (Morte em Dez Minutos, em tradução livre).

Riddell afirma, porém, que não está tentando manchar a reputação das suffragettes, que tiveram um importante papel na luta pela igualdade de gênero.

"Fiquei muito admirada com essas mulheres", diz. "Mas não podemos ocultar o fato de quem elas eram em sua plenitude. Há um velho ditado que diz, 'o terrorista de um homem é o combatente da liberdade de outro homem'. É a mesma situação aqui."

Hoje, Riddell mantém uma foto de Kitty em sua casa.

"Kitty queria desesperadamente que sua história fosse contada, e tenho orgulho em finalmente poder fazer isso por ela", diz. "Todos deveriam conhecer as escolhas difíceis e perturbadoras que essas mulheres fizeram para que nós pudéssemos ser livres."
 
Fonte: BBC 

Cientistas criam curativo que pulsa para tratar sequelas de corações infartados


David Cox BBC Future



Direito de imagem Getty Images Image caption Curativo vivo para o coração? Cientistas estudam alternativas para 'remendar' danos causados por ataque cardíaco

Os médicos costumam dizer que quando alguém sofre um ataque cardíaco, "o tempo é músculo".

O coração depende de um fornecimento contínuo de oxigênio proveniente das artérias coronárias. Se elas entopem e o abastecimento para, as células musculares do órgão começam a morrer em questão de minutos.

Em muitos casos, a menos que os cirurgiões consigam aliviar a obstrução dentro de uma hora, mais de 1 bilhão de células musculares são irreversivelmente perdidas.

Os pacientes que sobrevivem costumam desenvolver um quadro de insuficiência cardíaca permanente. E, cinco anos após o ataque, 50% deles não estarão mais vivos. No Brasil, cerca de 50 mil pacientes morrem anualmente em decorrência de insuficiência cardíaca, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia.

"No fim das contas, seus corações ficam tão fracos que não conseguem sustentar um fluxo de sangue suficiente e simplesmente param por completo", explica Sanjay Sinha, cardiologista do Hospital Addenbrooke, em Cambridge, no Reino Unido.

Nos próximos cinco anos, no entanto, a medicina regenerativa poderá oferecer uma nova alternativa radical: curativos para o coração, preparados em laboratório.

Diferentemente de alguns órgãos, como a pele e o fígado, o coração tem uma capacidade muito limitada de regeneração. As células musculares cardíacas se replicam a uma taxa de apenas 0,5% ao ano, o que não é suficiente para reparar qualquer dano significativo.

As células mortas acabam sendo substituídas por camadas espessas de tecido cicatrizado rígido e resistente, o que significa que essas partes do coração simplesmente deixam de funcionar. Direito de imagem Getty Images Image caption Atualmente, o transplante de coração é a única opção para pacientes com insuficiência cardíaca

Atualmente, o transplante é a única opção para pacientes com insuficiência cardíaca. Mas, na ausência de doadores em número suficiente, menos de 400 procedimentos do tipo são realizados por ano no Brasil.

As células-tronco podem oferecer uma alternativa. Em ensaios clínicos, cientistas tentaram "recuperar a musculatura" de corações lesados injetando células-tronco individuais - do sangue ou da medula óssea do próprio paciente - diretamente no coração.

Embora essa abordagem tenha regenerado com sucesso os vasos sanguíneos comprometidos e melhorado, assim, o fluxo de sangue para o coração, apresentou um benefício mínimo em termos de resolver o problema principal: fazer crescer novamente o músculo cardíaco perdido. Isso porque 95% das células-tronco injetadas não são incorporadas ao órgão e desaparecem imediatamente na corrente sanguínea.
Curativos

Mas, em parceria com uma equipe de biólogos do Instituto de Células-Tronco da Universidade de Cambridge, Sinha está desenvolvendo uma solução ligeiramente diferente: curativos para "remendar" o coração. São retalhos minúsculos de músculo cardíaco que pulsam - cada um com menos de 2,5 centímetros quadrados de área e meio centímetro de espessura - criados em pequenas placas no laboratório.

Cultivados ao longo de um mês, os curativos são feitos a partir de amostras de células do sangue, que são reprogramadas para a função de um determinado tipo de célula-tronco (capaz de se transformar em qualquer célula no corpo humano) - no caso, em células do músculo cardíaco, dos vasos sanguíneos e do epicárdio, membrana que envolve e dá forma ao coração.

Esses aglomerados de células cardíacas são então cultivados em um suporte especial, sendo organizados e alinhados em uma estrutura semelhante à do tecido cardíaco verdadeiro.

"Acreditamos que esses curativos terão uma chance muito maior de serem naturalmente assimilados pelo coração do paciente, já que estamos criando um tecido totalmente funcional que já bate e se contrai através da combinação de todos esses tipos diferentes de células que se comunicam entre si", explica Sinha.

"Sabemos que as células epicárdicas são particularmente importantes na coordenação do desenvolvimento adequado do músculo cardíaco. Pesquisas mostram que, nos embriões, ocorre muita interferência entre o epicárdio e o coração que está se desenvolvendo", acrescenta. Image caption Simulação de um 'curativo que pulsa' para o coração | Foto: Reprodução de vídeo da Universidade de Stanford

Sinha se prepara atualmente para testar os curativos em camundongos e, em seguida, em porcos. Se tudo der certo, o cardiologista pode estar pronto para realizar as primeiras experiências em seres humanos em cinco anos.
Em busca da batida perfeita

E ele não está sozinho. Nos Estados Unidos, uma equipe formada por cientistas das universidades de Stanford, Duke e Wisconsin também está tentando desenvolver curativos cardíacos.

Assim como Sinha, os pesquisadores imaginam um procedimento que começaria pela identificação dos tecidos cardíacos lesados por meio de exames de ultra-sonografia e ressonância magnética. Com base no formato das cicatrizes, eles imprimiriam um curativo personalizado em 3D. Os cirurgiões abririam então a caixa torácica e costurariam o "remendo" diretamente no órgão, de maneira que fique conectado às veias e artérias existentes. Direito de imagem Getty Images Image caption Curativo impresso em 3D seria costurado diretamente no coração

"Para pacientes com insuficiência cardíaca particularmente grave, serão necessários vários curativos em diversos lugares, pois o coração inteiro se dilata para tentar se adaptar ao dano", afirma Tim Kamp, professor de biologia regenerativa da Universidade de Wisconsin.

"Ele muda de forma, pode ter a aparência de uma bola de rúgbi, de basquete ou de um grande balão."

Um dos principais desafios é integrar eletricamente o curativo ao coração, a fim de garantir que ambos pulsem sincronizados. Qualquer conexão elétrica defeituosa poderia resultar em um ritmo cardíaco anormal.

"Podemos colocar o curativo no coração com nossas ferramentas cirúrgicas, mas não podemos forçá-los (o órgão e o curativo) a se entender", diz Kamp.

"Esperamos que eles façam isso. Acreditamos que os sinais elétricos que passam como uma onda através do músculo cardíaco, dizendo para ele contrair, façam com que o curativo contraia na mesma proporção." Image caption Células do curativo cardíaco visualizadas de perto | Foto: Reprodução de vídeo da Universidade de Stanford
Procedimento mais barato

Se os desafios forem superados, Sinha afirma que eles poderão não apenas salvar vidas, mas também economizar dinheiro.

No Reino Unido, um transplante cardíaco custa cerca de £500 mil - algo em torno de R$ 2,5 milhões, incluindo os custos da internação hospitalar. Para os milhares de pacientes com insuficiência cardíaca que não conseguem um transplante, as despesas com cuidados médicos contínuos e repetidas internações podem ser ainda maiores. Já o valor estimado atualmente para um "curativo cardíaco" gira em torno de £70 mil - quase R$ 350 mil.

Além disso, os curativos são feitos a partir do sangue do próprio paciente, o que significa que eles não precisariam passar por algumas complicações associadas aos transplantes - como as altas doses de drogas imunossupressoras para evitar a rejeição do órgão.

"Um coração ferido é um ambiente hostil, altamente inflamado, em que pode ser difícil para o novo tecido sobreviver", diz Kamp.

"A vantagem dos curativos cardíacos é que eles são customizados para o paciente, então é improvável que o coração os rejeite."

Segundo os pesquisadores, a tecnologia pode mudar a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo.

"A insuficiência cardíaca pode muitas vezes incapacitar o indivíduo", diz Sinha.

"Você está sempre exausto, não consegue subir sequer um lance de escadas. Mas, pela primeira vez, achamos que somos realmente capazes de recriar o tecido cardíaco vivo, que é idêntico ao do paciente, onde as células se comunicam de maneiras misteriosas e maravilhosas, trabalhando juntas como fazem no corpo."

"Se conseguirmos ajustar o procedimento nos próximos anos e garantir que seja completamente seguro, ele poderá ajudar essas pessoas a terem uma vida normal novamente."

Fonte: BBC