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Advogado - Nascido em 1949, na Ilha de SC/BR - Ateu - Adepto do Humanismo e da Ecologia - Residente em Ratones - Florianópolis/SC/BR

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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Militantes anti-Lula são presos com arma em Salvador



Manifestantes anti-Lula atiraram para o alto durante a passagem da van do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por Salvador até o metrô da capital baiana; Adjalbas Pereira, que se identificou como policial militar, foi detido pela Policia Militar baiana; ele e outros cinco manifestantes discutiram com petistas no metrô de Salvador



247 - Cinco militantes anti-Lula foram detidos pela Polícia Militar da Bahia na noite desta quinta-feira (17) em Salvador após um deles sacar uma arma durante a chegada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à capital baiana. Adjalbas Pereira, após ser detido, se identificou como policial.

Aconteceria com Dilma? - O plano da Câmara para perdoar 543 bilhões que empresários devem à União





Cifra proposta no Refis, que renegocia débitos, é duas vezes maior que orçamento de São Paulo.
Medida Provisória do tema deve ser votada nesta semana na Câmara em pleno "apagão fiscal"










Afonso Benites
Brasília 15 AGO 2017 - 10:32 BRT O ministro Meirelles e o presidente Temer, no dia 10. Joédson Alves EFE


Para receber 500 milhões de reais no curto prazo, o Governo Michel Temer (PMDB) pode abrir mão de arrecadar até 543,3 bilhões de reais em um período de três anos. Assim é o programa de refinanciamento de dívidas com a União, batizado de Novo Refis, que deve ser votado nessa semana na Câmara dos Deputados. Apenas para efeito de comparação, o valor que deverá deixar de entrar nos cofres da União é 2,6 vezes maior do que o orçamento anual de São Paulo, o Estado mais rico do país.

MAIS INFORMAÇÕES


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Reforma política: entenda o que pode mudar na eleição

Desde que foi enviada ao Congresso, em maio deste ano, a medida provisória 783, a MP do Novo Refis, já enfrentava oposição interna. A Receita Federal e a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional emitiram notas técnicas nas quais concluíram que liberar o refinanciamento de dívidas de empresas e pessoas físicas da forma como estava fazendo era prejudicial às contas públicas. Inicialmente, a estimativa de perda de receita era de 63,8 bilhões de reais nos próximos três anos.
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Depois de receber cerca de 300 emendas parlamentares, os deputados conseguiram desfigurar ainda mais a proposta malfadada. Consecutivamente, diminui de maneira estratosférica a estimativa de valor a ser arrecadado no curto prazo. A previsão inicial era de 13 bilhões de reais nos cofres da União nos próximos anos. Agora, é de 500 milhões de reais. Os dados referentes à renúncia fiscal constam das notas técnicas de números seis e sete de 2017 emitidas em conjunto pela Receita Federal e pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional.

A MP do Governo Temer previa que os devedores da União teriam direito a descontos de 25% a 90% de multas e juros. Após tramitar em uma comissão mista que tratou do tema na Câmara dos Deputados, os descontos saltaram para entre 85% a 99% e autorizaram que essa benesse fosse concedida também com relação aos encargos legais e honorários advocatícios. Estes dois últimos itens não tinham desconto nas dívidas. Depois de todas as modificações, a Receita e a Procuradoria da Fazenda emitiram as duas notas técnicas nas quais apontaram o tamanho do rombo e concluíram que, em caso de aprovação da proposta, haveria um “elevado grau de comprometimento das finanças públicas do ano corrente e dos subsequentes, afrontando os ditames de uma gestão fiscal responsável”.
Balcão de negociações

A dificuldade da gestão peemedebista vai ser de reescrever o texto da MP e convencer os deputados de que ele precisa ser modificado. Isso porque, quando enviou a proposta ao Congresso, o Governo vivia um momento de intensa fragilidade política. Muito do apoio dado a Temer, que conseguiu barrar o andamento de uma denúncia de crime de corrupção passiva contra ele na semana retrasada, foi dado após o envio da proposta do Novo Refis.

A estratégia de perdoar parte das dívidas das grandes empresas não é algo novo, no cenário político brasileiro. Os governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT) também usaram do mesmo expediente de Temer. A prática é sempre criticada por especialistas. A diferença, desta vez, é que a proposta de benefícios aos grandes empresários ocorre no momento em que o país ainda vive uma de suas maiores crises econômicas das últimas décadas e serviços ameaçam parar por causa do apagão fiscal. A equipe econômica está prestes a anunciar o aumento do rombo fiscal permitido para 2017 dos atuais de 139 bilhões para cerca de 20 bilhões a mais. “A cultura de parcelamento especial, traz um grande prejuízo ao Brasil. O bom contribuinte é tratado como bobo da corte e não tem nenhum benefício em pagar em dia seus impostos”, afirmou o diretor da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco), Mauro Silva. Segundo ele, os Refis são uma solução falsa. “É a alegria que vem rápida como a alegria de uma droga. Mas, como a droga, o Refis vicia e faz mal”, disse.

Em fevereiro deste ano a associação já havia emitido uma nota técnica na qual criticava o excesso de programas de refinanciamento de dívidas elaborados por governos, sejam eles municipais, estaduais ou federal.
Bonde da JBS

Se não bastasse a barganha que pode ser ofertada aos grandes empresários, a gestão Temer ainda elaborou uma nova medida provisória, específica para os grandes devedores que atuam no ramo do agronegócio. A MP 793, que cria o Programa de Regularização Tributária Rural, pode beneficiar nove dos cem maiores devedores da Previdência. Entre eles, está a gigante do ramo alimentício JBS, a empresa controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista que acabou envolvendo Temer na trama criminal que ainda pode lhe render o mandato.

Conforme cálculos da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, juntas, essas nove empresas devem 5,5 bilhões de reais à Previdência. As maiores dívidas são da JBS, 2,3 bilhões de reais, e da Marfrig, 1,1 bilhão de reais. A diferença básica entre as duas medidas provisórias é de que a 783, do Novo Refis, proíbe a adesão de pessoas (física ou jurídica) envolvidas em crimes como conluio e fraude. Enquanto que a 793, a específica para o ramo rural, não faz a diferenciação. Essa MP ainda não tem data para ser votada.

Por que o general Lee está no centro da polêmica racial nos EUA?





Militar, cuja estátua pautou ato em Charlottesville, é símbolo controverso da história norte-americana









Joan Faus
 
Protesto no parque onde fica a estátua de Lee Julia Rendleman AP


As várias biografias existentes sobre Robert E. Lee (1807-1870) trazem uma frase de um especialista que destaca: “Na história do mundo, talvez nenhum general que conheceu tantos fracassos tenha sido tão homenageado”. A afirmação ilustra o revisionismo que cerca agora a figura tão controvertida do general da antiga Confederação durante a Guerra Civil: para uns, trata-se de um símbolo histórico do sul dos Estados Unidos; para outros, um ícone da escravidão dos negros.

Lee está no epicentro dos confrontos raciais ocorridos em Charlottesville (Virgínia) no último fim de semana. O poder local aprovou em fevereiro a retirada da estátua do general, construída em 1924, por considerar que ela fomenta a divisão entre os habitantes, e mudou o nome do parque onde se localizava. Posteriormente, a justiça suspendeu a transferência do monumento e fortes protestos foram realizados por parte da extrema direita. No último sábado, dezenas de supremacistas brancos se manifestaram na cidade, o que resultou em confrontos com grupos antifascistas e do movimento negro. Um neonazista atropelou um grupo de manifestantes com seu carro, matando uma pessoa.

Lee foi filho de um herói da Guerra da Independência e desde jovem se destacou por suas habilidades militares. Formou-se com honra na Academia de West Point e participou de várias batalhas importantes da guerra entre os EUA e o México. Em 1861, à véspera da Guerra Civil, Lee foi chamado para comandar as forças da União, mas se recusou a fazê-lo alegando que não queria lutar contra a Virgínia, seu Estado natal e integrante da Confederação.

Depois de se demitir do Exército, Lee aceitou ser o comandante de algumas das forças da Confederação. Os especialistas afirmam que ele tinha habilidades técnicas, mas que, ao mesmo tempo, cometeu erros graves que facilitaram a vitória da União em 1865.

Depois do conflito bélico entre o norte e o sul, com o passar do tempo, a figura de Lee foi sendo resgatada, sob o impulso da necessidade sulina de constituir seus mitos. Sua figura adquiriu popularidade especialmente no começo do século XX, quando se expandiu no imaginário coletivo do sul a ideia de que a derrota na guerra foi uma “causa perdida” em que a Confederação, que se tornou independente da União, lutou mesmo sabendo que estava em situação de inferioridade em relação aos Estados do norte. Também ganhou força o princípio de que o sul não lutara para manter a escravidão, mas sim por alguns supostos ideais constitucionais.

São comuns, sobretudo no sul dos EUA, as escolas, avenidas e monumentos em homenagem a Lee, considerado um herói da Guerra Civil. Existem nos EUA 718 monumentos confederados, segundo os cálculos do Sowthern Poverty Law Center, uma organização de estudos sobre o extremismo. Há também 109 escolas que levam o nome de Lee, do presidente da Confederação, Jefferson Davis, ou de outras personalidades da Guerra Civil.

Mas o mito de Lee vem caindo em desgraça como resultado da análise da história e da mobilização de afro-americanos e latinos dos últimos anos.

É notório o papel que ele e sobretudo a família de sua esposa desempenharam como senhores de escravos. Estudiosos afirmam que documentos da época revelam que Lee era cruel com os escravos e estimulava os maus tratos aplicados a eles. Um escravo chegou a dizer que ele era “o pior homem” que havia visto. Defensores do general lembram que, em uma carta de 1865 para sua mulher, ele afirmou que a escravidão é um “mal moral e político”; mas ele também argumentava que o futuro dos escravos dependia de Deus e que eles viviam melhor nos EUA do que na África.

Pesaram para o questionamento da figura de Lee o fato de os supremacistas brancos terem recorrido à simbologia da Confederação – incluindo os responsáveis por chacinas racistas — e o debate dos últimos anos, nos EUA, sobre o tratamento dado às minorias raciais pela polícia e pela justiça. Assim como houve campanhas pela retirada de estátuas do general, como em Nova Orleans em 2015, também ocorreram mobilizações contra símbolos supremacistas brancos em universidades.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O país asiático criminaliza a tradição hindu de botar para fora de casa as mulheres menstruadas

O que é o ‘chaupadi’, que o Nepal acaba de transformar em crime?

O Parlamento do Nepal classificou como crime o chaupadi, uma prática hindu que consiste em obrigar as mulheres menstruadas a permanecerem fora de casa, muitas vezes em abrigos para animais, a fim de preservar a pureza do lar.

“O Parlamento aprovou uma nova lei que considera o chaupadi uma prática criminosa”, declarou Krishna Bhakta Pokharel, presidente da comissão parlamentar encarregada dessa iniciativa. Pokharel afirmou que daqui a um ano, quando a reforma penal entrar em vigor, “qualquer pessoa que obrigar uma mulher a sair de casa no período de menstruação poderá ser condenada a três meses de prisão”.
O chaupadi já foi proibido pelo Tribunal Supremo em 2005, mas ainda é uma prática muito presente em algumas regiões do oeste do Nepal, onde mulheres e meninas são expulsas de suas casas todos os meses.
As comunidades que adotam o chaupadi acreditam que serão vítimas de alguma tragédia se não afastarem as mulheres e as meninas de casa enquanto estão menstruadas.
A reforma penal entrará em vigor dentro de um ano e poderá levar a penas de três meses de prisão
As organizações de defesa dos direitos da mulher afirmam que esse breve exílio expõe as mulheres a inúmeros abusos, como estupros. Além disso, as ONGs alertam para o fato de que o chaupadi pode também se combinar com tratamentos cruéis, já que, de acordo com essa superstição hindu, as mulheres mal podem comer e beber durante a menstruação.
Com efeito, várias mortes já foram registradas por causa do chaupadi. No último mês de julho, uma adolescente de 19 anos de Dailekh morreu após levar uma mordida de uma cobra enquanto estava em uma brigo para animais. Em dezembro, uma menina de Acham perdeu a vida asfixiada por causa da ventilação rarefeita do lugar onde estava confinada.
Os ativistas elogiaram a nova lei, mas cobram das autoridades que ela seja realmente cumprida. “Teremos de ficar atentos para qualquer caso de chaupadi para que o Governo aplique a lei rigidamente”, disse Renu Rajbhandari, da Aliança Nacional de Defensores dos Direitos da Mulher.

Preparem-se, porque irão exportar o flagelo

Arizona detectou pulgas portadoras da bactéria que matou 50 milhões de pessoas no século XIV


Dois condados do estado do Arizona (EUA) detectaram a bactéria da peste negra nos organismos de várias pulgas comuns. A Yersinia pestis, nome científico do micro-organismo que mais seres humanos matou na história, foi a responsável por dizimar 50 milhões de habitantes da Europa do século XIV (60% da população), mas hoje é possível combatê-la com relativa facilidade.
As autoridades das zonas afetadas, os condados de Navajo e Coconino, lançaram avisos à população para que reforcem as precauções com os animais domésticos, já que a bactéria pode ser transmitida aos humanos por uma simples picada ou por contato com animais infectados, como coelhos e outros roedores.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a forma mais comum da doença é a peste bubônica, que se manifesta quando a bactéria se introduz no sistema linfático e infecta os gânglios. Ela também pode se propagar como pneumonia se a bactéria chegar aos pulmões. Nesse caso, o contágio entre humanos pode ocorrer com a inalação de partículas do ar.
As pessoas contagiadas pela peste costumam desenvolver sintomas similares aos da gripe, após uma incubação de até sete dias. Os antibióticos são eficazes no tratamento se este ocorrer nas primeiras fases de desenvolvimento da doença.
As três grandes pandemias de peste registradas ao longo da história (no século VI, conhecida como a praga de Justiniano, no século XIV na Europa e no XIX na China) mataram mais gente que qualquer outra doença. A Ásia é a origem da maioria dos casos detectados na atualidade.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Charlottesville é aqui: tensão racial também cresce no Brasil

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Entenda uma "receita" para condenação criminal fácil

Limite Penal
Sem sombra de dúvidas, mostra-se arriscado analisar, sob o prisma jurídico, determinado evento destacado pela imprensa, ainda mais quando se reconhece — e, principalmente, se repudia — a existência de um processo penal do espetáculo[1].
Cientes desse perigo, propomos examinar a noticiada operação calabar, que culminou com o cumprimento de 96 mandados de prisão contra policiais militares acusados de receber propina do tráfico de drogas em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio[2], em razão dos mais diversos atos de corrupção.
E por qual razão nos atrevemos a escrever sobre esse fato que sequer recebeu o selo de definitividade judicial? Não seria um contrassenso dos autores que tanto primam pela defesa do estado de inocência? Não. Independentemente do desfecho da citada operação, é possível afirmar que ela representa tão-somente a epiderme/sintoma de um problema maior que necessita ser enfrentado: a forma como as agências criminais atuam no Brasil.
Examinar honestamente o sistema penal brasileiro implica em reconhecer o cotidiano horror por ele produzido[3], sendo certo que todos os atores jurídicos são responsáveis — alguns conscientes, outros não — pela produção do sofrimento. Aliás, é chegado o momento de abandonar confortantes ficções que consolam os produtores do mal. Uma breve ida a qualquer complexo prisional desnudaria o embuste que constitui o princípio da intranscendência da pena. Mães, mulheres, companheiras, filhas e amigas — os exemplos femininos não foram escolhidos aleatoriamente, pois se sabe que o preso possui, como via de regra, um amparo muito maior do que aquele aferido para a mulher encarcerada — levam mantimentos aos aprisionados, são submetidas aos mais diversos procedimentos humilhantes por agentes públicos — não se deve restringir a questão às revistas vexatórias — e, ainda, se veem obrigadas a esconder de seus empregadores a razão de uma falta de trabalho, caso a visita seja em um dia de semana, já que o estigma de ser parente de um preso pode lhe custar o emprego. Ora, como não reconhecer assim que a pena é cumprida por outras pessoas além do condenado?
Não basta, no entanto, reconhecer a capacidade de produzir sofrimento pelo sistema penal brasileiro, é premente constatar que o produto é marcado pelo signo da seletividade. Se os manuais de Direito Penal apontam para a existência do princípio da seletividade[4], as agências criminais se valem duma outra — e perversa — leitura, qual seja, escolhem deliberadamente sobre a forma como incidirá com maior intensidade a criminalização secundária.
A seletiva criminalização secundária pode se efetivar de diversas maneiras. Quando do início da persecução penal, é possível destacar a utilização de presunções que não observam o modelo constitucional[5]. No decorrer da ação penal, o “princípio” da eficiência se apresenta como um verdadeiro canibal do devido processo legal, já que para a célere prestação da tutela jurisdicional não se admite perder tempo com a observância das garantias processuais. Não por outra razão que se aposta tanto na medieval lógica de predomínio da prova testemunhal, o que, em tese, poderia abrir caminho para o emprego da teoria da perda da chance probatória[6]. Todavia, o jogo processual é uma pantomina, e apelar para referida teoria quase sempre não se mostra uma tática exitosa, pois o julgador antes mesmo de se iniciar a peleja já se decidiu pelo vencedor. Na derradeira ponta da persecução, a desigual atuação da criminalização secundária se desenvolve por meio da Hermenêutica do Conforto, isto é, adoto “precedentes” e súmulas sem qualquer reflexão sobre o tema. A postura decisória, muita das vezes, é acompanhada da postura do juiz-filho, que somente quer agradar o tribunal-pai[7].
No que se refere especificamente a um posicionamento crítico à Hermenêutica do Conforto, é de suma relevância frisar que de nada adiantará a simples revogação, cancelamento ou anulação dos verbetes sumulados. Persistirá o desenfreado consumo de ementas enquanto não se romper com uma equivocada compreensão sobre o que é um precedente e a importância da facticidade.
O rock brasileiro teve na Legião Urbana um ícone, sendo certo que inspirado nos versos de Os Anjos:
"Pegue duas medidas de estupidez
Junte trinta e quatro partes de mentira
Coloque tudo numa forma
Untada previamente
Com promessas não cumpridas
Adicione a seguir o ódio e a inveja
As dez colheres cheias de burrice
Mexa tudo e misture bem
E não se esqueça: antes de levar ao forno
Temperar com essência de espirito de porco,
Duas xícaras de indiferença
E um tablete e meio de preguiça".
Apresentamos um receituário condenatório adequado para o sistema penal brasileiro:
1. use farda;
2. na guerra contra as drogas, estabeleça metas mensais para combater a criminalidade, isto é, de prisões, pois assim será reconhecido como um ótimo combatente;
3. foque a sua atuação nas comunidades e lá identifique supostos locais destinados à venda de drogas;
4. realize abordagem e prenda os usuários;
5. caso os apreendidos possuam celular e dinheiro trocado, prepare o discurso para a comprovação cabal da traficância e associação para o tráfico;
6. azeite o discurso no sentido de que outras pessoas fugiram com o ingresso da viatura na comunidade;
7. ao ser indagado pela defesa sobre testemunhas presenciais, afirme que ninguém na comunidade quer falar sobre o tráfico;
8. se negue a identificar o X-9 que justificou a identificação do preso como o traficante da região; e
9. aposte na aplicação da heurística, que, no estado do Rio de Janeiro, é materializada na Súmula 70 do TJ-RJ ("O fato de restringir-se a prova oral a depoimentos de autoridades policiais e seus agentes não desautoriza a condenação".)
Em condições normais de temperatura e pressão, sequer será necessário apelar para o místico, tenha certeza de que o caminho da condenação já está trilhado, e o sistema prisional já espera por manter ou permitir mais um encarcerado.

[1] “No processo espetacular desaparece o diálogo, a construção dialética da solução do caso penal a partir da atividade das partes, substituído pelo discurso dirigido pelo juiz : um discurso construído para agradar às maiorias de ocasião, forjadas pelos meios de comunicação de massa, em detrimento da função contramajoritária de concretizar direitos fundamentais (o Poder Judiciário, para concretizar direitos fundamentais, deveria julgar contra a vontade da maioria” (CASARA, Rubens R. R. Processo Penal do Espetáculo. In: PRADO, Geraldo; CHOUKR, Ana Cláudia Ferigato & JAPIASSÚ, Carlos Eduardo Adriano. Processo Penal e Garantias. Estudos em homenagem ao professor Fauzi Hassan Choukr. Florianópolis: Empório do Direito, 2016. p. 438).
[2] https://oglobo.globo.com/rio/operacao-calabar-mira-96-pms-acusados-de-receber-propina-do-trafico-21532886
[3] “O sistema penal não alivia sofrimentos, senão, quando muito, o substitui por ressentimentos, recalque ou outro mecanismo que não tardará a ser canalizado na produção de maior dor. Ele manipula dores, viabilizando a legitimação do exercício ainda mais violento, incentivando os mais perversos sentimentos de vingança. Eis o escândalo, o qual nunca cessa de encarnar” (AMARAL, Augusto Jobim & ROSA, Alexandre Morais. Cultura da Punição. A Ostentação do Horror. 3. ed. Florianópolis: Empório do direito, 2017. p. 62)
[4] “Por isso, dentre o imenso número de bens existentes, seleciona o direito aqueles que reputa ‘dignos de proteção’ e os erige em ‘bens jurídicos’. Para Welzel, o ‘bem jurídico’ é um bem vital ou individual que, devido ao seu significado social, é juridicamente protegido” (ASSIS TOLEDO, Francisco. Princípios Básicos de Direito Penal. São Paulo: Saraiva, 1994. p. 16).
[5] No Rio de Janeiro, por exemplo, é estabelecido o fenômeno da “promoção acusatória”, que consiste na presunção de que o tráfico realizado na comunidade implica necessariamente no cometimento da associação, pois não se pode traficar sem estar associado. Esse tema, inclusive, gerou o seguinte texto: http://emporiododireito.com.br/a-promocao-acusatoria-nao-e-para-todos-por-eduardo-januario-newton/.
[6] MORAIS DA ROSA, Alexandre. Guia do Processo Penal conforme a Teoria dos Jogos. Florianópolis; Empório do Direito, 2017, p. 733-737.
[7] “Sobre a relação entre o Juiz e o Tribunal, Amilton Bueno de Carvalho traça alguns modelos de juiz. O juiz-filho pode se encontrar na fase infantil e recebeu as seguintes considerações: “Aquele que tem o pai por ídolo, que tem apenas um sonho: agradar o pai. Mais: seu desejo quando ‘crescer’ é ser igual a ele (...) E qual a forma mais comum de agradar o pai? Aderir sua sapiência, reconhecer a inteligência dele. Seu saber é o que interessa. E como saber do pai é expresso em acórdãos, seu continente é um: transcrever, sempre e sempre, a vontade-jurisprudência do seu superior” (CARVALHO, Amilton Bueno. O juiz e a jurisprudência: um desabafo crítico. IN: BONATO, Gilson (org.). Garantias constitucionais e processo penal. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2002. p. 10-11)

 é juiz em Santa Catarina, doutor em Direito pela UFPR e professor de Processo Penal na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e na Univali (Universidade do Vale do Itajaí).
 é defensor público do estado do Rio de Janeiro, mestre em Direitos Fundamentais e Novos Direitos pela Unesa.
Revista Consultor Jurídico, 21 de julho de 2017, 8h00

domingo, 6 de agosto de 2017

'O homem mais rico da história', de quem você talvez nunca tenha ouvido falar


Se estivesse vivo hoje, Jakob Fugger (1459-1525) seria, calcula-se, mais rico que Bill Gates, Warren Buffet, Carlos Slim e Mark Zuckerberg juntos.
O banqueiro alemão - apelidado de "O rico" - chegou a acumular, ao longo da vida, uma fortuna equivalente ao que hoje seriam US$ 400 bilhões (R$ 1,2 trilhão), segundo o biógrafo Greg Steinmetz.
Ex-editor do Wall Street Journal, Steinmetz considera Fugger o homem mais rico da história, e foi esse o título que deu ao livro que escreveu sobre o banqueiro em 2015.
Embora muitas pessoas levantem ressalvas à comparação da riqueza em diferentes períodos históricos, de uma coisa Steinmetz se diz seguro: "Jakob Fugger foi sem dúvida o mais poderoso banqueiro de todos os tempos", disse ele à BBC Mundo, o serviço da BBC em espanhol.

Em que ele baseia essa afirmação?
"No Renascimento, a época em que Fugger viveu, o mundo era controlado por duas figuras: o imperador romano e o papa. E Fugger financiou os dois", diz o biógrafo.
Na avaliação de Steinmetz, nenhum banqueiro em toda a história teve tanta influência sobre o poder político como Fugger.
"Fugger decidiu que o rei da Espanha, Carlos 1º, deveria ser o imperador de Roma e o fez vencer a eleição (com o nome de Carlos 5º)", disse ele. "Carlos 5º colonizou o Novo Mundo. A história não seria a mesma se não tivesse chegado ao poder."

Desconhecido

Como se explica então que poucos tenham ouvido falar de Jakob Fugger? E que, em vez disso, saibamos tanto sobre alguns de seus contemporâneos, como os Médici, os irmãos César e Lucrécia Bórgia ou Nicolau Maquiavel?
Uma das razões, de acordo com Steinmetz, é que Fugger era alemão e não se tornou conhecido no mundo anglófono. E foi exatamente isso que motivou o autor a escrever sobre o banqueiro.
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Image caption Fugger foi o primeiro comerciante que conseguiu ser nomeado conde
"Fui chefe da sucursal do Wall Street Journal em Berlim e ouvi uma menção a Fugger, mas não consegui encontrar um único texto em inglês sobre isso", conta.
Mas talvez o principal motivo pelo qual poucos fora de seu país de origem conheçam a história desse homem é porque ele não era um personagem colorido, como os outros famosos citados de sua época.
Ele não tentou se tornar papa nem ocupar cargos políticos. Ele não patrocinou nenhum artista renascentista. Nem construiu palácios ou templos.
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Image caption O projeto de habitação social que Fugger criou na cidade de Augsburg continua 500 anos depois e é o lar de aposentados
Sua obra mais famosa é o Fuggerei: um projeto de habitação social que criou na cidade de Augsburg, no sul da Alemanha, e que continua conhecida porque quem vive ali paga um aluguel simbólico de US$ 1 por ano.
"Os banqueiros estão acostumados a trabalhar nos bastidores", disse Steinmetz, sobre a baixa notoriedade do homem sobre quem escreveu.

Legado

Isso não significa que Jakob Fugger não tenha deixado a sua marca. Na verdade, sua influência pode ser sentida até hoje, embora muitos não saibam disso.
A seguir, cinco heranças importantes desse ilustre desconhecido:
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Image caption Uma amostra da importância de Fugger é que ele foi retratado pelos artistas mais renomados de sua época, como Dürer e Hans Holbein, o Velho (autor desta imagem)

1. Criou a primeira multinacional

Em sua época, a atividade econômica era pequena. Os ricos viviam de suas terras e do trabalho dos camponeses, que recebiam proteção em troca.
Fugger negociou direitos a mineiros em troca de seus empréstimos e, assim, conseguiu monopolizar o comércio de cobre e prata.
Além disso, ele comercializou especiarias. Assim, foi um dos precursores do capitalismo.

2. Criou o primeiro serviço de notícias

Fugger sabia que a informação é valiosa e, portanto, queria acessá-la antes de seus concorrentes.
Para isso, ele pagou mensageiros para trazer informações sobre a atividade comercial e política de diferentes cidades.
Seus sucessores mantiveram a tradição e criaram o Fugger Newsletters, que alguns consideram um dos primeiros jornais da história.

3. Criou formas de financiar dinheiro que perduram até hoje

Os Médici, por exemplo, ja tinham bancos naquela época, mas a Igreja Católica não permitia o pagamento de juros, por considerá-lo ganância.
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Image caption O banheiro da mansão do Fugger em Augsburg era luxuoso
Fugger convenceu o papa Leão 10 - um cliente seu - a suspender essa proibição e começou a oferecer uma taxa de juros de 5% ao ano para os clientes que depositavam dinheiro no seu banco de Augsburg.

4. Financiou exploradores

Ele tinha 33 anos quando Colombo descobriu a América. Interessado ​​no potencial econômico dessas expedições, financiou a primeira viagem para a Índia.
Ele também foi um dos financiadores da viagem ao redor do mundo de Fernão de Magalhães.

5. Acabou estimulando a Reforma Protestante

Um dos negócios que Fugger manteve com o Vaticano foi a venda de indulgências.
Direito de imagem Getty Images
Image caption Fugger casou em 1498 com Sybille Arzt, de uma das famílias fundadoras de Augsburg. Eles não tiveram filhos e seus sobrinhos Anton e Raymund herdaram o negócio da família
Ele propôs uma forma de financiar a catedral de São Pedro. A metade dos rendimentos foi destinada a esse fim e a outra metade ficava com ele.
Neste ano completam 500 anos desde que Martinho Lutero protestou contra esse negócio, dando origem à Reforma Protestante.

Fonte: BBC BR

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O crescimento preocupante da zona morta do Golfo do México, onde a vida marinha não sobrevive


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Direito de imagem LUMCON Image caption Golfo do México é cercado pelas costas de Cuba, Estados Unidos e México. A 'zona morta' fica na foz do rio Mississipi, perto de Nova Orleans

Nestas regiões, o nível de oxigênio na água é tão baixo que a vida marinha torna-se inviável.

São as chamadas "zonas mortas", onde as espécies só têm duas alternativas: a migração ou a morte.

A "zona morta" do Golfo do México atingiu neste ano seu maior tamanho na história, conforme informou nesta semana a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês). É a segunda maior do mundo, ficando atrás apenas da zona morta do Mar Báltico.

Ela está localizada na foz do Rio Mississippi, que atravessa 10 Estados dos EUA antes de chegar ao Golfo do México, perto de Nova Orleans, no sudeste do país. Direito de imagem NOAA Image caption Cientistas usam sensor especial para coletar água no Golfo do México e medir os níveis de oxigênio

De acordo com os cientistas, a zona morta está com nada menos do que 22.729 km², quase a área total de El Salvador e 15 vezes o tamanho da Cidade do México.

Trata-se da maior extensão alcançada por esta região desde que começou a ser monitorada em 1985.
O que aconteceu?

Robert Magnien, diretor do Centro de Pesquisas de Patrimônio de Oceanos Costeiros da NOAA, explicou à BBC que o crescimento sem precedentes da zona morta do Golfo do México está relacionado principalmente a atividades humanas.

Segundo o especialista, resíduos gerados pela população, o aumento da agricultura na região e o uso de fertilizantes e outros produtos químicos influenciaram a expansão da área, onde a vida marinha é impraticável. Direito de imagem Water Resources Institute Image caption As 'zonas mortas', áreas com baixo nível de oxigênio, estão localizadas fundamentalmente nas costas

O tamanho alcançado pela zona morta mostra que a contaminação causada por fertilizantes, principalmente em decorrência das atividades agrícolas, afetam cada vez mais os recursos costeiros e habitats de espécies no golfo.

Os nutrientes de fertilizantes são levados pela correnteza do rio Mississipi e estimulam o crescimento de algas e plâncton, que ao se decompor consomem oxigênio, vital para a existência de vida marinha na região.

Além disso, a decomposição destes organismos aumenta os níveis de nitrogênio e fósforo na água.

De acordo com Magnien, "várias espécies e ecossistemas ambientais são afetados pela expansão da zona morta", uma vez que a falta de oxigênio provoca a perda do habitat dos peixes, obrigando que eles se mudem para outras áreas para sobreviver.

Outro efeito é a redução da capacidade de reprodução e a diminuição do tamanho médio das espécies.

Há áreas do Golfo do México que foram atingidas ainda por vazamento de petróleo.
Consequências

Além das consequências ambientais, o crescimento da zona morta tem impactos econômicos que afetam a população que vive na região do golfo.

A diminuição do tamanho e da quantidade de camarão, cuja pesca é uma das principais atividades na área, é um dos efeitos. Direito de imagem Getty Images Image caption Algas que se formam nas águas do Golfo de México absorvem oxigênio ao morrer, criando a 'zona morta'

Um estudo recente encomendado pelo NOAA à Universidade de Duke, nos Estados Unidos, mostra que a expansão da zona morta provocou o aumento do preço do camarão-marrom devido à sua escassez, afetando não só a economia local, mas o mercado de frutos do mar.

Steven Thur, diretor da NOAA, explica que as medições desta região são importantes para antecipar tendências e evitar possíveis impactos negativos.

"Essas medições permitem traçar as melhores estratégias para reduzir os impactos sobre a sustentabilidade, a produtividade dos nossos recursos costeiros e a economia", afirma.
Recorde

Até agora, a maior expansão da "zona morta" do Golfo do México havia sido registrada em 2002, quando atingiu 22 mil km².

Nos últimos cinco anos, o tamanho médio da região girou em torno de 15 mil km². Direito de imagem Getty Images Image caption Expansão da 'zona morta' no Golfo do México afeta a atividade pesqueira na região

Um grupo de trabalho ligado à Agência de Proteção Ambiental dos EUA tem o objetivo de fazer com que a "zona morta" cubra menos de 5 mil km² de área marinha.

Entre as atividades promovidas pelo governo americano para reduzir o tamanho da região, está a negociação com agricultores do Golfo do México para que o impacto do uso de fertilizantes na bacia do Mississippi seja menor, fazendo com que menos nutrientes desemboquem na foz do rio.

Estima-se que haja mais de 350 zonas mortas no mundo - número que aumenta a cada ano.