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Advogado - Nascido em 1949, na Ilha de SC/BR - Ateu - Adepto do Humanismo e da Ecologia - Residente em Ratones - Florianópolis/SC/BR

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sábado, 26 de dezembro de 2020

O EFÊMERO NA AMAZÔNIA

Lendo, de EUCLIDES DA CUNHA (um invejável portento da literatura nacional), a obra À margem da História, onde o insigne escritor relata a instabilidade dos solos, as mudanças contínuas das margens dos rios, os incontáveis desbarrancamentos e formação/desfazimento de aluviões, de ilhas, dentre tantos outros acidentes geográficos, fico pensando nos problemas que gente do mundo todo, deslumbrada com a grandiosidade daquele "deserto", enfrentará, se tentar ocupar e colonizar aquele mundo hostil.

Lembrei-me daquele estrangeiro que, muito endinheirado, deslocou toda uma caríssima estrutura para produzir celulose, na época em que mandavam no Brasil os golpistas de 1964, que estimulavam, ou pelo menos, impatrioticamente, não se importavam, com a aquisição de terras por estrangeiros, investimentos aqueles que foram "por água abaixo". 

O projeto foi idealizado pelo bilionário norte-americano Daniel Keith Ludwig e seu sócio Joaquim Nunes Almeida.

Ludwig adquiriu em 1967, na fronteira entre os estados do Pará e Amapá (então Território Federal) uma área de terra de tamanho pouco menor que a do estado de Sergipe, ou equivalente ao estado norte-americano do Connecticut, para a instalação do seu projeto agropecuário. 

Ao longo do programa de instalação, enfrentou as desconfianças do governo e de algumas parcelas da sociedade que temiam pela soberania brasileira sobre a área inabitada de florestas onde o Jari seria instalado. 

A "ameaça" rendeu, em 1979, a criação de uma CPI para "apurar a devastação da floresta amazônica e suas implicações". Entretanto, o relatório da Comissão não faz qualquer alusão direta a este projeto. (Wikipedia)

Aqueles acontecimentos evidenciam a leviandade com que o assunto é tratado pelos nossos governos, notadamente por aqueles de viés militar autoritário.

A falência e os prejuízos de Ludwig e Almeida certamente levarão estrangeiros a pensarem, muitas vezes, antes de se aventurar a investir na região, por muito que Bolsonaro e Sales, presidente e ministro incendiários, propagandeiem e facilitem para investidores. 

Atentem eventuais aventureiros, com intenção de ir para a Amazônia, ao que acrescenta o antefalado EUCLIDES, sobre as condições de vida naquela imensidão:

Há alguma coisa extraterrestre naquela natureza anfíbia, misto de águas e de terras, que se oculta, completamente nivelada, na sua própria grandeza. 

E sente-se bem que ela permaneceria para sempre impenetrável se não se desentranhasse em preciosos produtos adquiridos de pronto sem a constância e a continuidade das culturas. 

As gentes que a povoam talham-se-lhe pela braveza. 

Não a cultivam, aformoseando-a: domam-na. 

O cearense, o paraibano, os sertanejos nortistas, em geral, ali estacionam, cumprindo, sem o saberem, uma das maiores emprêsas dêstes tempos. 

Estão amansando o deserto. 

E as suas almas simples, a um tempo ingênuas e heróicas, disciplinadas pelos reveses, garantem-lhes, mais que os organismos robustos, o triunfo na campanha formidável. 

O recém-vindo do Sul chega em pleno desdobrar-se daquela azáfama tumultuária, e, de ordinário, sucumbe. Assombram-no, do mesmo lance, a face desconhecida da paisagem e o quadro daquela sociedade de caboclos titânicos que ali estão construindo um território. Sente-se deslocado no espaço e no tempo; não já fora da pátria, senão arredio da cultura humana, extraviado num recanto da floresta e num desvão obscurecido da História. Não resiste. Concentra todos os alentos que lhe restam para o só efeito de permanecer algum tempo, inútil e inerte, no pôsto que lhe marcaram; mal desempenhando os mais simples deveres; indo-se-lhe os olhos em todos os vapôres que descem - e o espírito ausente nos lares afastados, longo tempo, em um exaustivo agitar de apreensões e conjeturas - até que o sacuda, inesperadamente, em pleno dia canicular, um súbito estremeção de frio, delatando-lhe a vinda salvadora, e por vêzes recônditamente anelada, da febre. 

E é uma surprêsa gratíssima. 

A vida desperta-se-lhe de golpe, naquela cotovelada da morte que passou por perto. 

O impaludismo significa-lhe, antes de tudo, a carta de alforria de um atestado médico. É a volta. A volta sem temores, a fuga justificável, a deserção que se legaliza, e o mêdo sobredoirado de heroísmo, desafiando o espanto dos que lhe ouvem o romance alarmante das moléstias que devastam a paragem maldita. 

Porque é preciso coonestar o recuo. Então cada igarapé sem nome é um Ganges pestilento e lúgubre; e os igapós, ou os lagos, espalmam-se nas várzeas empantanadas como lagunas Pontinas incontáveis. Traça-se um quadro nosológico arrepiador e trágico, num imaginoso fabular de agruras; e, dia a dia, a natureza caluniada prlo homem vai aparecendo naquelas bandas, ante as imaginações iludidas, como se lá se demarcasse a paragem clássica da miséria e da morte...

(português da época)


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