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domingo, 28 de maio de 2017

Assunto ultra-polêmico: acabar, ou não, com a Cracolândia e como fazê-lo


É sempre muito difícil nos posicionarmos diante de um problema social tão pungente de saúde mental, como o é a drogadição e o seu oposto, o evidente interesse coletivo na segurança pública.
A primeira e mais atraente ideia é sempre aquela que parece a mais eficiente: combater a "vagabundagem", o tráfico, limpar a área, livrarmo-nos dessa "gente imprestável", incômoda, que expõe e esfrega na nossa cara, na verdade, as mazelas humanas agravadas pelas disparidades socais.
Quem qualifica os craqueiros como lixo, muitas vezes, é o cidadão que se considera "de bem", mas "enche os cornos" de bebidas alcoólicas - e não raro faz uso intensivo de outras drogas - ditas lícitas, porque os poderosos laboratórios multinacionais é que as vendem - na maioria dos dias da semana, cria problemas familiares sérios, é quase tão "imprestável" quanto qualquer craqueiro. Só que suas mazelas ficam escondidas no "recesso do lar", ou em grupos fechados, poupando-o da execração pública, da qual os craqueiros não conseguem escapar. E só não rouba, ostensivamente, fazendo-o, todavia, muitas vezes, valendo-se do comércio, de sua profissão liberal, ou do seu cargo público, como foi o caso do Prefeito de São Paulo, quando esteve na EMBRATUR, que agora posa também de empresário bem sucedido, mas fez questão de voltar a um cargo público, certamente para roubar bem mais do que conseguiu na EMBRATUR.
Então, nos vemos diante do dilema: quem é mais perigoso para a sociedade, o craqueiro que rouba algum transeunte ou coisas/valores de alguém que mora na área onde vive o viciado/pária, ou o político que assalta despudoradamente os cofres públicos e faz pose de honesto, higienista, grande administrador?



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Cracolândia: Dória, um prefeito que não entende de gente


Na Cracolândia, demoliram prédios e gente, como se ambos estivessem na mesma categoria – a de coisa.


Região da Luz, em SP SEBASTIÃO MOREIRA EFE


A região da Luz, na Cracolândia, passa por um dos seus momentos mais tensos, com ações truculentas, cruéis, desumanas e degradantes contra as pessoas que vivem no local, especialmente aquelas em situação de rua.


Com a intenção de dar respostas populistas à sociedade, os Governos municipal e estadual não mediram sadismo e autorizaram forças de segurança a, literalmente, atropelar pessoas que constituíssem obstáculo.

É sob a perspectiva de que algumas pessoas são dejetos a serem recolhidos, que os Governos de João Dória Jr. e Geraldo Alckmin têm tratado uma população que é fruto de uma histórica desassistência. Mas há, nos camarotes, quem aplauda a ação. Em geral, uma elite paulistana pertencente à mesma estirpe e classe dos referidos governantes.


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É de conhecimento público e notório que a região da Luz, em São Paulo, é alvo, há muito tempo, da força da especulação imobiliária. O bairro, que nas décadas de 60 e 70 foi um dos principais da burguesia paulistana – com prédios históricos e grandiosos monumentos culturais –, não conta com tantos terrenos disponíveis aos investidores do mercado imobiliário, fazendo com que, ao longo do tempo, os imóveis da região se tornassem supervalorizados. Além disso, são rígidas as legislações municipais acerca de construções de grandes incorporadoras no local – um empecilho a mais para a ansiada apropriação pelo mercado.

Assim, ao mesmo tempo em que é tratada por alguns como um problema, a Cracolândia é vista por outros como solução. É que o planejado abandono social no local aprofundou a desvalorização da região da Luz, fortalecendo, em contrapartida, a capacidade de negociação dos especuladores – interessados em adquirir a baixos preços terrenos em um dos endereços mais centrais da capital paulista.

Também nessa perspectiva, o “problema” Cracolândia, e a grave situação das pessoas que lá se encontram, supostamente justificaria a adoção de quaisquer medidas pelo poder público – desde ações violentas por parte de forças policiais, a prisões arbitrárias, internações forçadas e, numa medida mais ampla, até mesmo a flexibilização das leis municipais que tratam do tema, permitindo que grandes incorporadoras desenvolvam seus negócios.

Não por acaso, a expectativa do mercado imobiliário sempre foi a chegada de um prefeito com trajetória desvinculada de políticas sociais, um empresário com visão de gerente. Eis que o atual prefeito reúne essas características – acentuando uma política higienista e que conta com o aparelho repressivo do Estado, tendo como guarda costas o governador Alckmin.

E aos desavisados, que acreditam serem as pessoas que vivem nas ruas os únicos alvos dessa desastrosa política, fica o alerta: não tardará e a mão do mercado também alcançará trabalhadores e donos de pequenos comércios do local – que estarão cada vez mais suscetíveis após a primeira leva da higienização.

Não se sustenta, portanto, qualquer justificativa para a violenta ação adotada pelos Governos municipal e do Estado de São Paulo que não seja a verdade: entregar à iniciativa privada a comercialmente valorizada região da Luz.

É por isso que tentar relacionar a ação a uma suposta preocupação com a saúde ou o cuidado das pessoas que fazem uso de drogas na Cracolândia é mera retórica. A maior prova é o desmonte, pela Prefeitura de São Paulo, do Programa De Braços Abertos – iniciativa reconhecida até mesmo pelas Nações Unidas, mas que a gestão local preferiu exterminar.

Na Cracolândia, demoliram prédios e gente ao mesmo tempo, como se ambos estivessem na mesma categoria – a de coisa. O episódio revela Dória: como prefeito, um empresário que entende do mercado; como empresário, um prefeito que não entende de gente.

Lucio Costa é psicólogo, ex-coordenador geral de Direitos Humanos e Saúde Mental da Secretária de Direitos Humanos da Presidência da República, e, atualmente, perito do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (Este artigo reflete a opinião pessoal do autor, não a da instituição a qual representa).

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