Delação de Daniel Vorcaro poderia “derrubar o sistema” e escancarar “como o dinheiro dita o poder” no Brasil, diz Leonardo Sakamoto
30 de dezembro de 2025, 12:07 h
166Partilhas
Translate to English
Ouvir artigo
Daniel Vorcaro (Foto: Divulgação (Banco Master))

Conteúdo postado por:
Guilherme Levorato
247 - Em análise publicada nesta terça-feira (30), o jornalista Leonardo Sakamoto sustenta que o escândalo envolvendo o banco Master tem potencial para produzir efeitos muito mais amplos do que aqueles provocados pela delação do ex-ajudante de ordens Mauro Cid. Para ele, enquanto o acordo firmado por Cid atingiu um segmento específico do poder — o bolsonarismo radicalizado, civil e fardado —, o caso do Master alcança o núcleo que conecta diferentes campos políticos e institucionais: o dinheiro.
Segundo Sakamoto, em texto divulgado no UOL, trata-se de uma engrenagem capaz de colocar no mesmo campo de interesses o centrão, o mercado financeiro da Faria Lima, governadores alinhados ao bolsonarismo e até integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). É esse fator, afirma o jornalista, que explica o temor em torno de uma eventual colaboração premiada de Daniel Vorcaro, controlador do banco.
Na avaliação do colunista, crimes financeiros dessa magnitude não se sustentam sem respaldo político. Ele argumenta que Vorcaro e seus sócios construíram relações que atravessam um amplo espectro ideológico, da direita à esquerda, o que ajudaria a explicar a resiliência do banco mesmo diante de sinais claros de fragilidade. Para Sakamoto, essa rede de alianças amplia o impacto de uma possível delação, que poderia expor como decisões políticas foram moldadas para sustentar operações bilionárias com dinheiro público.
O jornalista reconhece a relevância do debate em torno do suposto contrato milionário firmado entre o banco Master e a esposa do ministro Alexandre de Moraes, mas observa que a concentração excessiva nesse episódio acabou permitindo que outros personagens escapassem do escrutínio público. Em sua análise, o foco restrito no Supremo contribuiu para que articulações políticas mais amplas permanecessem em segundo plano.
Entre os exemplos citados está o senador Ciro Nogueira (PP-PI), apontado como um dos nomes que atuaram nos bastidores contra a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para investigar o banco. Sakamoto também associa o parlamentar à defesa de uma proposta de emenda constitucional que elevaria o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF, mudança que beneficiaria diretamente o modelo de captação do Master. Ainda segundo o texto, o senador apoiou a tentativa de compra de ações do banco pelo estatal Banco de Brasília (BRB), operação posteriormente rejeitada pelo Banco Central.
A análise avança sobre o papel de governos estaduais. No Distrito Federal, o governador Ibaneis Rocha (MDB) teria defendido de forma enfática o uso de recursos públicos na tentativa de aquisição do banco pelo BRB. Já no Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL) autorizou investimentos da ordem de R$ 1 bilhão no Master quando, conforme o jornalista, já era evidente a precariedade da instituição. O dinheiro, ressalta Sakamoto, vinha de fundos de aposentadoria de servidores públicos, como professores, enfermeiras e garis.
Para o colunista, esses não seriam casos isolados. Ele descreve o banco Master como uma instituição com forte ligação ao centrão, o que explicaria o clima de apreensão no Congresso diante da possibilidade de Vorcaro colaborar com as investigações. Diferentemente de Mauro Cid, cuja lealdade política estava concentrada em Jair Bolsonaro (PL), Vorcaro teria vínculos com múltiplos grupos de poder.
É nesse contexto que Sakamoto fala em uma “operação abafa” em curso para evitar que o banqueiro “cante como um canário”. Ele afirma que uma eventual delação teria capacidade de “estacionar um caminhão de explosivos na garagem do Congresso”, ao revelar quem pressionou o Banco Central e governos estaduais para sustentar negócios bilionários com ativos considerados problemáticos.
O jornalista insere o caso em uma crítica mais ampla ao funcionamento do sistema político brasileiro, que, segundo ele, foi moldado para transformar recursos públicos em interesses privados. Nesse cenário, o escândalo do banco Master se conecta ao uso irregular de emendas parlamentares, especialmente aquelas associadas ao Orçamento Secreto.
Sakamoto lembra que o julgamento de parlamentares acusados de desvio de dinheiro público deve ter início no começo de 2026 no Supremo Tribunal Federal. Para ele, o potencial de instabilidade é elevado, já que parte desses recursos teria sido convertida em caixa dois e benefícios pessoais. O jornalista observa que, diante desse quadro, cresce no Congresso o desejo de um impeachment do ministro Flávio Dino, responsável por conduzir investigações sensíveis.
Ao final de sua análise, Sakamoto sustenta que o desvio de emendas parlamentares deveria estar no centro do debate nacional. No entanto, ele aponta que a atenção pública costuma ser desviada para temas laterais, o que facilita acordos de bastidores, o adiamento de responsabilidades e a preservação de um sistema no qual, segundo suas palavras, “o dinheiro dita o poder”.
- https://www.brasil247.com/midia/operacao-abafa-tenta-impedir-delacao-de-vorcaro-do-banco-master
Nenhum comentário:
Postar um comentário