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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Um caminho-picada muuuuuuito antigo



PEABIRÚ (Ver CAMINHO DE SÃO TOMÉ, CAMINHOS DE ÍNDIOS, CAMINHO DO MAR, ESTRADAS, MARAPÉ, PICADAS, ROTAS SERTANISTAS, SENDEROS, TRILHAS, VEREDAS)

Falando-se do Peabiru, impossível deixar-se de lado a figura de ALEIXO GARCIA, do qual seguem algumas notícias:

- Na centúria quinhentista a área propriamente vicentina foi pouco explorada, muito embora por ela começasse a penetração da hinterlândia brasileira. Do seu território partiram as entradas famosas dos protobandeirantes, a do obscuro Aleixo Garcia, em 1526, a que se seguiram a catastrófica jornada de Pêro Lobo, em 1531, e a de Cabeza de Vaca, em 1541.

- p. 17.

- BASILIO DE MAGALHÃES - Expansão Geographica do Brasil Colonial - Cia. Edit. Nacional/SP/1935, cita-o nas ps. 26, 76, 113 e 126 é figura bastante conhecida.


- VARNHAGEN - História Geral do Brasil, p. 99: Aleixo Garcia, que segundo a tradição, aprisionado jovem, veio a prestar importantes serviços na colonização do Paraguai. 

- SEVERIANO DA FONSECA - Viagem ao redor do Brasil (...) - 1.880, p. 40 41: Já o primeiro sertanista de quem rezam as tradições, Aleixo Garcia, transpuzera o Paraguay, as suas serranias e os pampas inundados do Galambra ou Gran-Chaco, em rota às terras do Peru, a buscar riquezas, que os guaicurus diziam haver a rodo, nas terras do pente. (...)

- Interessante a notícia trazida por LÉON POMER (História da América Hispano-Indígena - p. 89): Pascoal de Andagóia é o precursor. Parte do Panamá em 1522 e chega a um lugar que os índios chamam Biru (pelo menos, isto é, o que Pascoal consegue captar na fala dos índios). Daí pode-se inferir que o vocábulo PEA-BIRU é resultado de uma composição, cujo final é a palavra (Perú)

- A Igreja Católica, com sua pertinaz ação “evangelizadora” (de “redução” dos povos autóctones de todo o mundo à fé cristã, usando missionários de todas as tendências, inclusive os ousados jesuítas, ou inacianos, como preferem outros), chegou a tentar uma nova denominação para o dito caminho, como se pode inferir dos escritos de diversos historiadores, dentre eles ROSANA BOND, que escreveu um livro especificamente sobre o assunto. Por tal caminho, subiram aventureiros como ALEIXO GARCÍA e cerca de 2.000 índios, ávidos de ouro, prata e pedras preciosas, os quais, partindo do Maciambu (Palhoça/SC) e indo até o Peru, massacraram povos locais, apropriaram-se de riquezas e voltaram, mas foram atacados (no Chaco Paraguaio, segundo contam) e dizimados, sobrando apenas alguns poucos para contar a história. 

- TARCÍSIO DELLA JUSTINA – Serranos (...) – Editora Insular – Fpolis-SC/2002, p. 16 e 17, falando sobre a conquista do solo catarinense:  que nos mostram os primeiros desbravadores, em suas viagens pioneiras, a partir de José de Anchieta, frei da Companhia de Jesus que, com o intuito de catequizar os índios descobriu o Peabiru. O Peabiru era uma estrada para caminheiros e ligava os Pampas do sul com o Peru e o centro da cultura incaica. O Peabiru, caminho-picada com mais de 10.000km de extensão, atraiu os paulistas escravagistas e aventureiros que, vindos pela terra firme (...).

- AFONSO ARINOS - Pelo sertão - Tecnoprint Gráfica S. A./RJ/MCMLXVII, p. 119: (...) ao vingar a grande vértebra do Espinhaço e seguir por ela afora, numa estrada que lembra aquela outra de quatrocentas léguas feita no Perú, sob os Incas.

- SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA - Caminhos e fronteiras - Edit. Schwarcz s. a./SP-SP/2017, p. 31, reportou-se ao (...) famoso Piabiru ou Caminho de São Tomé, no Guairá, que com oito palmos de largo, não era, nisto, inferior a algumas ruas principais da Lisboa quinhentista, tais veredas dificilmente permitiriam em toda a sua largura mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

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- Caminho de Peabiru: a fascinante rota indígena que conecta o Atlântico ao Pacífico

Catherine Balston
BBC Travel

26 junho 2022



CRÉDITO, PARANÁ PROJETOS

Legenda da foto, 
Caminho de Peabiru cortava o sul e o sudeste do Brasil e hoje atrai a atenção dos turistas



Goiabas e carambolas maduras no chão ficam presas às solas das minhas botas, formando uma massa doce em fermentação enquanto passeio pela pacata cidade de Peabiru, com seus 13 mil habitantes, a 500 km de Curitiba.

Eu havia viajado até o Estado do Paraná, não muito longe da fronteira com o Paraguai, em busca dos restos do Caminho de Peabiru — uma rede de trilhas com 4 mil quilômetros de extensão, que liga o Oceano Atlântico ao Pacífico, construída ao longo de milênios pelos povos indígenas sul-americanos.

O Caminho de Peabiru era uma rota espiritual para o povo guarani em busca de um paraíso mitológico. E também se tornou o caminho em direção aos tesouros do continente quando chegaram os colonizadores europeus em busca de acessos ao interior da América do Sul.

Mas a maior parte do caminho original desapareceu, consumido pela natureza ou transformado em rodovias ao longo dos séculos. Somente nos últimos anos, essa fascinante rota começou a revelar seus mistérios para o público, graças ao desenvolvimento de novos passeios turísticos.

É fácil compreender por que essa trilha transcontinental cativa a imaginação das pessoas com tanta facilidade — uma fascinação que vem desde o primeiro europeu conhecido por caminhar por toda a sua extensão: o navegador português Aleixo Garcia.

Garcia naufragou no litoral de Santa Catarina no ano de 1516, depois do fracasso de uma missão espanhola que pretendia navegar pelo Rio da Prata. Ele e meia dúzia de outros navegadores foram acolhidos pelos receptivos indígenas guaranis.

Oito anos mais tarde, depois de ouvir as histórias sobre um caminho que levava até um império nas montanhas, rico em ouro e prata, Garcia viajou com 2 mil guerreiros guaranis até os Andes, a cerca de 3 mil quilômetros de distância.

A pesquisadora brasileira Rosana Bond, no livro A Saga de Aleixo Garcia: o Descobridor do Império Inca, afirma que Garcia foi o primeiro europeu conhecido a visitar o império inca em 1524 — cerca de uma década antes da chegada do conquistador espanhol Francisco Pizarro, amplamente conhecido como "descobridor" do povo originário dos Andes peruanos.

As trilhas que vinham do Brasil conectavam-se à rede de estradas incas e pré-incas através dos Andes, que hoje recebem muitos visitantes, mas o Caminho de Peabiru propriamente dito deixou poucos vestígios.

Essa falta de evidências físicas não só levou a teorias divergentes nos círculos acadêmicos sobre quem o criou e quando, mas também gerou amplas especulações sobre sua possível criação pelos vikings ou pelos sumérios — ou mesmo pelo apóstolo Tomé, supostamente vindo de uma missão evangelizadora na Índia.


CRÉDITO, FLÁVIO BENEDITO CONCEIÇÃO/GETTY IMAGES

Legenda da foto, O nome do caminho e sua lenda vivem na pequena cidade de Peabiru, no interior do Paraná

Algumas teorias afirmam que a trilha data de cerca de 400 ou 500 d.C., enquanto outras sugerem que ela remonta até 10 mil anos atrás, aos caçadores-coletores paleoindígenas.

"O Caminho de Peabiru foi a estrada transcontinental mais importante da América pré-colombiana, que ligava os povos, os territórios e os oceanos", afirma a arqueóloga Cláudia Inês Parellada, que publicou diversos estudos sobre o assunto e coordena o Departamento de Arqueologia do Museu Paranaense, em Curitiba, onde estão abrigados muitos dos achados das escavações arqueológicas da trilha.

As teorias divergem não apenas sobre a época da sua criação, mas também o local exato por onde a rota passava. "Sempre teremos várias hipóteses", explica Parellada. "É difícil ter certeza sobre o caminho completo porque ele mudou ao longo do tempo."

Mas o nome e a lenda, pelo menos, seguem vivos na cidade de Peabiru, construída na década de 1940, onde o governo local e grupos de voluntários criaram e demarcaram recentemente trilhas de caminhada inspiradas pelo Caminho de Peabiru.

Elas são parte de um plano turístico ambicioso do Paraná lançado em 2022, de mapear um provável trecho do Caminho com até 1.550 quilômetros para ciclismo e caminhada, atravessando o Estado desde o litoral e passando por 86 municípios, até a fronteira com o Paraguai.

Eu viajei até Peabiru para conhecer pelo menos um desses caminhos: uma trilha entre a floresta que inclui sete cachoeiras ao longo do curso de um dos rios da região. As margens do rio quase certamente fizeram parte do Caminho, segundo informou meu guia Arléto Rocha enquanto caminhávamos, passando sobre e abaixo de árvores caídas e depois com as águas frias do rio até os joelhos, tirando as frutas estragadas da sola das minhas botas.

Não contente em ter molhado apenas as botas, Rocha mergulhou com roupas em uma das cachoeiras. Depois, ele indicou locais onde havia encontrado pontas de flechas, argamassa, gravações em pedras e outras joias arqueológicas na última década, que agora estão em exibição no recém-inaugurado Museu Municipal "Caminhos de Peabiru".


CRÉDITO, GESSIANE PEREIRA/CAMINHOS DE PEABIRU

Legenda da foto,Trilhas entre as florestas levam para rios e cachoeiras por onde se acredita ter passado a trilha transcontinental dos povos nativos sul-americanos

A maior parte da caminhada na floresta, como o restante do caminho ao longo do Paraná, é simbólica — a melhor estimativa possível de onde poderá ter ficado a trilha original, apesar da certeza em alguns trechos, especialmente onde existem mapas históricos e sítios arqueológicos.

Esta região do sul do Brasil é um local de escavações arqueológicas desde os anos 1970, em busca de restos do Caminho de Peabiru. Da mesma forma, ali também havia densa população indígena (estima-se um pico de cerca de 2 milhões de pessoas, principalmente guaranis, no século 16).

Como muitos outros com quem falei, Rocha é fascinado pelo mistério da trilha e chegou a elaborar sua dissertação de mestrado sobre o assunto. Historiadores, astrônomos e arqueólogos também vêm se ocupando desse quebra-cabeça há décadas, reunindo mapas antigos, registros coloniais e histórias orais para tentar entender as origens e o propósito do caminho.

O consenso é que o caminho principal da rede conectava o litoral leste e oeste da América do Sul. Dos seus pontos de partida no litoral brasileiro (onde hoje ficam os Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina), as trilhas se reuniam no Paraná, prosseguindo através do território que hoje forma o Paraguai até a região de Potosí, na Bolívia, que era rica em prata.

Ao chegar ao lago Titicaca (hoje, fronteira entre a Bolívia e o Peru), o caminho seguia até Cusco — a capital do império inca — e, de lá, descia até o litoral peruano e o norte do Chile.


CRÉDITO, DENIS FERREIRA NETTO/SEC. DES. SUSTENTÁVEL E TURIS

Legenda da foto, Do litoral de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, o Caminho de Peabiru subia a Serra do Mar em seu trajeto até Cusco, no Peru


"Grosso modo, pode-se dizer que o roteiro 'comprido' do Peabiru era aquele que acompanhava o movimento aparente do Sol, nascente-poente", segundo Bond, na série literária História do Caminho de Peabiru, publicada em 2021.

Nessa série, a autora analisa diversas hipóteses plausíveis sobre as origens da trilha e conclui que a rede de caminhos provavelmente foi criada e usada por diversos grupos indígenas ao longo dos séculos, mas sua característica principal era o desejo de conectar o Atlântico ao Pacífico.

"Ou seja, não importa quantos e quais povos construíram os trechos, pois o relevante seria que a estrada, num certo momento, passou a ser vista como um caminho homogêneo e específico, que representava na terra o 'andar' do Sol no céu", segundo ela.

Entre os povos a que Bond se refere, encontram-se os guaranis, uma das maiores populações nativas remanescentes na América do Sul. Eles vivem em parte do Brasil, Argentina, Paraguai e Bolívia.

O Caminho de Peabiru é uma rota física e espiritual na cultura guarani, que leva a um paraíso mitológico chamado por eles de Yvy MarãEy, que fica além da água (o Oceano Atlântico), onde nasce o Sol.

Esse paraíso ("a terra sem mal", em tradução livre) é mencionado na tradição oral dos guaranis, nos seus rituais, música, dança, simbologia e em nomes de lugares. As lendas guaranis chegam a dizer que a rede de caminhos é um reflexo da Via Láctea na Terra.

Também se acredita que o nome da trilha venha da palavra guarani peabeyú, que significa "caminho de grama pisada", entre outras traduções.

Mas, para os colonizadores europeus (como o navegador português Aleixo Garcia), o caminho espiritual dos guaranis para o paraíso tornou-se uma via rápida até as riquezas dos incas nas expedições pelo Novo Mundo, que acabaram por causar a morte em massa das populações indígenas da América do Sul pela guerra, pela fome e, principalmente, pelas doenças.

As lendas sobre o Eldorado e a Serra da Prata trouxeram frotas de navios espanhóis e portugueses através do Atlântico e alguns grupos indígenas os ajudaram a penetrar no interior do continente, através do Caminho de Peabiru, segundo Parellada.

"Conhecer as rotas e trilhas principais através das populações nativas tornou-se uma vantagem estratégica, que amplificou o saque, a destruição e a cobiça de novos territórios e riquezas minerais", explica ela.

Ao longo dos séculos seguintes, sucessivas ondas de exploradores, catequizadores jesuítas, bandeirantes, comerciantes e colonizadores também fizeram uso do Caminho de Peabiru para ter acesso ao interior do continente — pavimentando, ampliando e, às vezes, alterando o curso do caminho.

"Os primeiros registros escritos sobre a trilha datam dos séculos 16 e 17", segundo Parellada. "Eles incluem o relato de Ruy Díaz de Guzmán em 1612, sobre a morte de Garcia nas mãos do grupo étnico Payaguás durante seu retorno do Peru para o litoral [brasileiro]."


CRÉDITO, GESSIANE PEREIRA/CAMINHOS DE PEABIRU

Legenda da foto, Pesquisadores usam vestígios, sítios arqueológicos e mapas antigos para tentar definir ao máximo possível o local por onde passava o antigo Caminho de Peabiru

Para continuar minha pesquisa sobre os vestígios da trilha, viajei para o litoral de Santa Catarina, até a Enseada do Brito, no município de Palhoça - uma baía tranquila onde os historiadores acreditam que Garcia teria morado e dali partido em sua missão até o império inca. 
Este é o ponto de partida de outra caminhada inspirada pelo Caminho de Peabiru — um trajeto de 25 quilômetros que passa por praias, dunas de areia no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e uma visita a duas aldeias guaranis.

Durante o aquecimento para a caminhada, tento imaginar Garcia e seu grupo de náufragos barbudos, a milhares de quilômetros de casa, e suas novas acomodações com os guaranis depois de perderem seu navio.

Como na caminhada anterior, a trilha é apenas uma estimativa do local onde poderá ter passado o Caminho de Peabiru. Ele foi definido com a pesquisa do empresário local Flávio Santos, que desenvolveu esse projeto de turismo depois de estudar a história da trilha e os sítios arqueológicos locais.

Como muitos outros, ele vê o potencial de atrair turistas o ano inteiro, beneficiando a comunidade local, incluindo as aldeias guaranis próximas, se tudo for feito corretamente.

"Temos esta trilha antiga, então, por que não conectar a história e os povos indígenas locais?", questiona Santos. "É importante que os moradores locais conheçam essa história e saibam como os povos indígenas viviam e como foram dizimados."

Parellada concorda: "Um passeio pelo Caminho de Peabiru, aliado a atividades educativas, poderá ser uma ponte para a compreensão total do passado colonial da América do Sul, sua biodiversidade e o conhecimento dos povos indígenas".

Texto publicado originalmente em http://bbc.co.uk/portuguese/vert-tra-61808692

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- Composição de ALMIR SATER - Peabiru

Quem souber podia me dizer

Onde é que nosso ouro foi

Pau-Brasil, faz tempo que sumiu

Dessa terra tão abençoada

Que entrou em outra jogada

E hoje é tudo soja, milho e boi

Quem souber podia me dizer

Como é que eu faço pra pegar

A velha estrada do Peabiru

Que vem lá de Santa Catarina

Paraná, Paraguai acima

E atravessa a América do Sul

Na promessa de um Eldorado

Vinham almas aventureiras

Sempre a procurar horizontes

Venceram até cordilheiras

E o Pacífico era azul

Quem souber podia me dizer

Onde é que a gente se meteu

Nessa imensa faixa de fronteira

Cujo o nome é terra de ninguém

Onde reina e manda qualquer um

Onde o rei pode ser um fora da lei

Quem souber podia me dizer

Donde é que veio esse som

Tá com jeito meio do Altiplano

Onde o povo segue celebrando

O sol, a lua e tudo que é profano

No tango, charango, viola e chamamé

Na promessa de um Eldorado

Vinham almas aventureiras

Sempre a procurar horizontes

Venceram até cordilheiras

E o Pacífico era azul


Fonte: Musixmatch

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