Jornal do Brasil Carlos Rubem Schreiner*
O javali, para os que desconhecem, é um porco selvagem nativo da Europa muito agressivo e que, no passado, teve sua importação e criação autorizadas pelo Ibama, favorecendo sua criação em diversos estados, de onde fugiram ou foram soltos, conseguindo se espalhar por quase todo o país antes de sua criação ser proibida.
Ocorre que o javali se alimenta de praticamente qualquer coisa, atacando e devorando animais silvestres, plantações, animais de criação, plantas nativas e mesmo seres humanos, o que o levou a ser classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza como uma das 10 piores espécies exóticas invasoras em todo o mundo. Como são animais de vida livre, não submetidos a qualquer tipo de programa de vacinação, os javalis acabam assim contaminando as criações de porcos com doenças graves, como a febre aftosa, doença de Aujeszky, leptospirose e brucelose, condenando os rebanhos domésticos, que não podem mais ser comercializados e devem ser imediatamente sacrificados, causando enormes prejuízos para os produtores rurais.
Não devemos pensar que este tipo de surto e sacrifícios em massa só ocorre no Brasil. A praga do javali está presente em vários países, e em todos eles há o risco de contaminarem os animais de criação. Por isso todos estes países se esforçam para controlar os javalis de todas as maneiras possíveis, de modo a mantê-los longe dos rebanhos, evitar doenças e prejuízos. A preocupação de que estas doenças afetem a economia dos países é tão antiga que a necessidade do abate de pragas como o javali já era prevista pelo Código Sanitário de Animais Terrestres da Organização Mundial de Saúde Animal desde 1924.
Não bastasse o absurdo de haver permissão para a criação de uma praga como o javali-europeu no Brasil, o Ibama também decidiu, através de sua Instrução Normativa nº 8, suspender o “controle populacional por meio da captura e do abate” dos javalis que escaparam para a natureza, transformando o Brasil no único país do mundo a proteger oficialmente uma peste invasora, uma praga que além de atacar e matar seres humanos também espalha doenças que afetam nossos rebanhos suínos e bovinos. As conseqências de decisões como essas são as piores possíveis e, após a invasão no Brasil pelo javali, já há registro de pessoas atacadas e mortas nos estados de São Paulo e Minas Gerais, além do sacrifício, pela Agência Estadual de Defesa Sanitária, de vários porcos que contraíram a doença de Aujeszky de javalis em Mato Grosso do Sul.
Assustados com a falta de uma estratégia de vigilância sanitária adequada e com a proliferação de doenças como as transmitidas pelo javali aos rebanhos, países como a Rússia e a Argentina simplesmente param de comprar nossa carne, causando prejuízos de milhões de reais por ano para a economia brasileira e levando o estado do Rio Grande do Sul a lançar sua própria estratégia para controlar a peste, estabelecendo regras para o seu abate e monitoramento de doenças.
Esta iniciativa é importante, mas, atuando isoladamente, não é capaz de conter o avanço das doenças, pois os javalis em liberdade não respeitam cercas nem limites regionais e não estão submetidos a qualquer tipo de programa de vacinação. Com isso, enquanto estados como o Rio Grande do Sul se esforçam para abater o maior número possível de javalis e impedir o surgimento de doenças, os estados onde ainda não existem políticas de controle da praga acabam se tornando verdadeiros oásis onde os javalis se reproduzem livremente e de onde migram para os estados que tentam controlá-los, exatamente como um incêndio que alguns tentam apagar enquanto outros apenas assistem de braços cruzados.
Parece-nos, portanto, que não há como falar em controle de javali no Brasil enquanto não for lançada uma norma nacional, que submeta todos os estados às mesmas regras para o abate da praga, e atraindo novamente a confiança do mercado internacional sobre qualidade da carne produzida no Brasil.
*Carlos Rubem Schreiner, médico-veterinário, foi diretor superintendente do Zoologico do Rio Grande do Sul e presidente da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul.
Fonte: JORNAL DO BRASIL
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