ano: ontem e hoje
Por José Steinsleger
Em 1496: auge do pensamento humanista. Os povos rom (ciganos) da Alemanha são declarados traidores dos países cristãos, espiões a soldo dos turcos, transmissores da peste, bruxos, bandidos e sequestradores de crianças.
1710: século das luzes e da razão. Um decreto ordena que os ciganos adultos de Praga sejam enforcados sem julgamento. Os jovens e as mulheres são mutilados. Na Bohemia, se lhes corta a orelha esquerda. Na Morávia, a orelha direita.
Uma criança cigana em Rivesaltes
1899: clímax da modernidade e do progresso. A polícia da Baviera cria a Seção Especial de Assuntos Ciganos. Em 1929, a seção foi promovida à categoria de Central Nacional e deslocada para Munique. Em 1937, instala-se em Berlim. Quatro anos depois, meio milhão de ciganos morrem nos campos de concentração da Europa Central e do Leste.
2010: fim das grandes narrativas e das ideologias (sic). Na Itália (onde nasceu a razão de Estado) e na França (sede mundial da tagarelice intelectual) os gabinetes em exercício de ambos os governos (com forte apoio popular, ou seja, democráticos), ficham milhares de ciganos e os deportam para a Bulgaria e para a Romênia.
A tragédia dos rom começou nos Balcãs. Que drama europeu não começou nos Balcãs? Em meados do século XV, o príncipe Vlad Dracul (o Demônio, um dos heróis nacionais da resistência contra os turcos), regressou de uma batalha travada na Bulgária com 12 mil escravos ciganos. Por certo... não era cigano o misterioso cocheiro do conde Drácula?
O doutor Hans Globke, um dos redatores das leis de Nuremberg sobre a classificação da população alemã (1935), declarou: os ciganos são de sangue estrangeiro. Estrangeiros de onde? Sem poder negar que cientificamente eram de origem ária, o professor Hans F. Guenther os classificou numa categoria à parte: Rassengemische (mestiçagem indeterminada).
Em sua tese de doutorado, Eva Justin (assistente do doutor Robert Ritter, da seção de investigações raciais do Ministério da Saúde alemã) afirmava que o sangue cigano era sobremaneira perigoso para a pureza da raça alemã. E um tal doutor Portschy enviou um memorando a Hitler sugerindo-lhe que se os submetesse a trabalhos forçados e à esterilização em massa, porque punham em perigo o sangue puro do campesinato alemão.
Qualificados de criminosos inveterados, os ciganos começaram a ser detidos em massa e, a partir de 1938, se os internou em blocos especiais nos campos de Buchenwald, Mauthausen, Gusen, Dautmergen, Natzweiler e Flossenburg.
Num campo de sua propriedade em Ravensbruck, Heinrich Himmler, chefe da Gestapo (SS), criou um espaço para sacrificar as mulheres ciganas que eram submetidas a experimentos médicos. Esterilizaram-se 120 meninas zíngaras. No hospital de Dusseldorf-Lierenfeld, esterilizou-se ciganas casadas com não ciganos.
Milhares de outros ciganos foram deportados da Bélgica, da Holanda e da França para o campo polaco de Auschwitz. Em suas Memórias, Rudolf Hoess (comandante de Auschwitz), conta que entre os deportados ciganos havia velhos quase centenários, mulheres grávidas e grande número de crianças.
No gueto de Lodz (Polônia), as condições tornaram-se tão extremas que nenhum dos 5 mil ciganos sobreviveu. Outros trinta mil morreram nos campos polacos de Belzec, Treblinka, Sobibor e Maidaneck.
Durante a invasão alemã à União Soviética (Ucrânia, Criméia e países bálticos) os nazis fuzilaram em Simvirpol (Ucrânia) 800 homens, mulheres e crianças na noite de Natal de 1941. Na Iugoslávia, executava-se indistintamente ciganos e judeus no bosque de Jajnice. Os camponeses recordam ainda os gritos das crianças ciganas levadas aos lugares de execução.
Segundo consta nos arquivos dos Einsatzgruppen (patrulhas móveis de extermínio do exército alemão), se haveria assassinado a 300 mil ciganos na URSS e a 28 mil na Iugoslávia. O historiador austríaco Raoul Hilberg estima que antes da guerra viviam na Alemanha 34 mil ciganos. Ignora-se o número de sobreviventes.
Nos campos de extermínio, só o amor dos ciganos pela música foi às vezes um consolo. Em Auschwitz, famintos e cheios de piolhos, juntavam-se para tocar e estimulavam as crianças a dançar. Mas também era legendária a coragem dos guerrilheiros ciganos que militavam na resistência polaca, na região de Nieswiez.
"Também eu tinha / uma grande família / foi assassinada pela Legião Negra / homens e mulheres foram esquartejados / entre eles também crianças pequenas" [versos do hino rom,Gelem, gelem (andei, andei)].
As exigências de assimilação, expulsão ou eliminação (não necessariamente nesta ordem) justificariam a afeição dos povos rom pelos talismãs. Os ciganos levam três nomes: um para os documentos de identidade do país onde vivem, outro para a comunidade e um terceiro que a mãe sussurra durante meses no ouvido do recém-nascido.
Esse nome, secreto, servirá como talismã para protegê-lo contra todo mal.
Depois da guerra, os países aliados dissolveram o Estado nazi alemão e seus hierarcas foram julgados por crimes contra a humanidade (Nuremberg, 1945-1946). Em inícios de 1950, quando começou a negociação de indenizações pelo holocausto, o novo Estado alemão estimou que só os judeus tinham direito a elas.
Sem organizações políticas que os defendessem, os povos rom (ciganos) foram ignorados e excluídos. O governo democrata-cristão de Konrad Adenauer estimou que as medidas de extermínio tomadas contra os ciganos antes de 1943 eram políticas legítimas do Estado. Mas os sobreviventes a este ano tampouco cobraram um centavo.
A polícia criminal da Bavária ficou a cargo dos arquivos do doutor Robert Ritter, o especialista nazi sobre os rom que não foi condenado. Ritter retornou à atividade acadêmica e em 1951 se suicidou. Recentemente, em 1982, o chanceler social-cristão Helmut Kohl reconheceu o genocídio dos rom. A tempo: a maioria dos que poderiam ter direito a restituição já tinham morrido.
Em troca, a sanha da Suíça contra os yenishes (assim chamam os ciganos no país de Heidi) foi mais... discreta? Durante cerca de meio século (desde 1926), com a ajuda da polícia e do clero, a Obra de Assistência às Crianças da Estrada, da muito respeitável Fundação Pró-Juventude, arrancou a mais de 600 crianças ciganas de suas famílias.
O doutor Alfred Siegfried (1890-1972), diretor e fundador da obra, foi um psicopata ferozmente decidido a vencer o mal do nomadismo. Num informe sobre suas atividades (1964), Siegfred afirmou que "...o nomadismo, como algumas doenças perigosas, é transmitido principalmente pelas mulheres... todos os ciganos são maus, mentem, roubam...".
O financiamento oficial se manteve até 1967, e em 1973 a obra se dissolveu. Mas, de acordo com uma lei de 1987, tudo que é relativo a seus experimentos médicos com crianças ciganas poderá ser revisado dentro de... cem anos. Em 1996, a Confederação Helvética reconheceu sua responsabilidade moral, política e financeira a respeito da Pró-Juventude, encarregada de proteger as crianças ameaçadas de abandono e vagabundagem.
Mais das três quartas partes da população mundial de ciganos (de 12 a 14 milhões) vivem nos países da Europa Central e do Leste. Mas só na Iugoslávia de Tito os rom conseguiram ser reconhecidos como uma minoria com os mesmos direitos de croatas, albaneses e macedônios. Não obstante, após o reordenamento balcânico que teve lugar no decênio de 1990, dez mil ciganos bósnios se refugiaram em Berlim.
Na Romênia os ciganos tiveram que sobreviver à ditadura de Ceausescu. O socialismo real reforçou os tenebrosos orfanatos que funcionavam desde a época da monarquia, e neles encerrou milhares de crianças rom. Ceausescu caiu, e o livre mercado foi mais duro ainda. As tendas de alguns ciganos que lograram êxitos econômicos com a liberalização da economia foram saqueadas.
A deportação em massa de ciganos para a Romênia e a Bulgária, ordenada pelo governo do presidente francês Nicolas Sarkozy (judeu de origem húngara), é particularmente perversa. Segundo país mais pobre da União Europeia, a população da Romênia é sumamente hostil aos 2 milhões de ciganos que vivem ali, sob um governo que, para acatar o FMI, acaba de baixar em 25% o soldo dos funcionários, e de subir o IVA em 24%.
Em dias passados, o presidente romeno Traian Basescu chamou de cigana asquerosa a uma jornalista, e o chanceler Teodor Baconschi declarou em fevereiro que "...algumas comunidades romenas têm problemas psicológicos (sic) relacionados com a delinquência, especialmente as comunidades ciganas".
A situação dos ciganos na antiga Checoslováquia não fica muito atrás da romena. Até o momento da partição (1992), eram cidadãos. Depois, nem checos nem eslovacos os reconheceram como tais, apesar de terem vivido durante gerações no país.
Em julho de 1998, um cigano foi atacado e apunhalado por um skinhead em Pisek, pequena cidade ao sul da Boêmia checa. Pisek está situada a escassos quilômetros do campo de concentração de Lety, estabelecido pelos checos e só para ciganos, nos tempos da ocupação alemã. E, de Lety, se os enviava aos campos nazis de extermínio.
Por seu lado, os vizinhos da cidade eslovaca de Michalovce acabam de concluir um muro de 500 metros para evitar a passagem dos ciganos que habitam uma aldeia próxima. A obra recebeu o apoio das autoridades. Em fins de 2009, obras similares isolaram os ciganos nas cidades de Ostrovany, Secovec, Lomnicka e Trebisov.
Nessa espécie de holocausto silencioso e consensuado pelos cruzados da União Europeia, os meios da aldeia global aportam o seu. Em 30 de agosto passado, a CNN informou de um assassino que matou oito pessoas, ferindo outras 14 em Bratislava, capital da Eslováquia. Em nenhuma parte da notícia, a CNN esclareceu que todas as vítimas eram ciganas.
Da civilização versus barbárie à barbárie da civilização.
Fonte:La Jornada
Tradução: Sergio Granja
Revisão: Silvia Mundstock
A saga cigana
A história e os segredos do povo mais misterioso do mundo
por Luciano Marsiglia
Imagine um mundo em que as pessoas não tenham endereço fixo, documentos, conta em banco, carteira assinada nem história. E que a vida deles passe despercebida, como se não existisse. Que a única certeza é que nunca faltará preconceito e ignorância, medo e fascínio, injustiças e alegrias ao longo de sua interminável jornada. Bem-vindo ao mundo cigano.
Ou melhor: à imagem que temos dele. O universo cigano é tão antigo e extenso, tão cheio de crenças e histórias que nem mesmo seu próprio povo conhece bem o limite entre verdade e lenda. É que o nome “cigano” designa muitos povos espalhados por quase todas as regiões do mundo. Povos com diferentes cores, crenças, religiões, costumes, rituais, que, por razões às vezes difíceis de compreender, foram abrigados sob esse o imenso guarda-chuva (assim como populações muito diferentes são chamadas de índios).
A história dos ciganos é toda baseada em suposições. E a razão é simples: faltam documentos. Os ciganos são um povo sem escrita. Eles nunca deixaram nenhum registro que pudesse explicar suas origens e seus costumes. Suas tradições são transmitidas oralmente, mas nem disso eles fazem muita questão – os ciganos vivem o hoje, não se interessam por nenhum resquício do passado e não se esforçam por se manterem unidos. A dificuldade em se fixar, o conceito quase inexistente de propriedade e a forma com que lidam com a morte – eliminando todos os pertences do falecido – dificultam ainda mais o trabalho aprofundado de pesquisa.
Uma teoria, contudo, é aceita pela maioria dos especialistas. A partir da constatação da semelhança entre as línguas romani (praticada pelos rom, o maior dos grupos ciganos) e hindi (variação do sânscrito, praticada no noroeste da Índia, onde hoje fica o Paquistão), foi possível elucidar a primeira e grande diáspora cigana. Um grande contingente, formado, possivelmente, por uma casta de guerreiros, teria abandonado a Índia no século 11, quando o sultão persa Mahmoud Ghazni invadiu e dominou o norte do país. De lá, emigraram para a Pérsia, onde hoje fica o Irã. A natureza nômade de muitos grupos ciganos, entretanto, também permite supor um movimento natural de imigração que tenha chegado à Europa conforme suas cidades se desenvolviam, oferecendo oportunidades de negócios para toda sorte de viajantes e peregrinos.
É provável que, pelo caminho, por volta do século 15, tenham passado pelo Pequeno Egito, uma região do Peloponeso, no interior da Grécia. Pelo menos era de lá que eles diziam vir a quem perguntava a sua origem. Daí o nome gypsy (em inglês), ou gitanos (em espanhol). Mas, antes disso, ainda no século 13, um documento escrito por um patriarca de Constantinopla já advertia sobre a presença dos adingánous, um povo errante que, dizia, ensinava coisas diabólicas. O registro é o primeiro a tratar os ciganos de forma pejorativa e a registrar o medo que as cidades européias sentiam de suas caravanas. Era o começo da sina cigana.
“Desde o início do contato com o Ocidente, eles foram causa de conflitos, provocadores de desordem e subversivos ao sistema. E sofreram todo tipo de perseguições religiosa, cultural, política e racial”, diz Aluízio Azevedo, mestre em história cigana pela Universidade Federal de Mato Grosso e ele mesmo um cigano calon (veja no quadro ao lado os principais grupos ciganos). É difícil saber o que veio primeiro: hábitos pouco ortodoxos ou o preconceito em relação a uma cultura tão diferente. Os ciganos tinham a pele escura, muitos filhos, uma língua indecifrável e origem desconhecida. Talvez a falta de oportunidades de emprego tenha sido a causa do seu destino artístico. Eram enxotados e então se mudavam, levando novidades dos lugares de onde vinham. Assim, surgiu a fama de mágicos, feiticeiros. Se todos acreditavam nisso, por que não aproveitar para fazer dinheiro? E, então, as mulheres passaram a ler as mãos, a prever o futuro. Negociar objetos era outra forma de sobrevivência: os ciganos tinham acesso a mercadorias “exóticas” e podiam levar sua tralha para onde quer que fossem.
Os bandos que chegavam ao continente europeu eram liderados por falsos condes, duques ou outros títulos de nobreza. Observando os peregrinos europeus, que entravam e saíam facilmente das cidades, copiaram a idéia de salvo-conduto – uma espécie de pai do passaporte. Os ciganos inventavam que seus documentos haviam sido expedidos por Sigismundo, rei da Hungria. Justificavam a vida nômade dizendo que bispos os haviam condenado a peregrinar durante 7 anos como penitência pelo abandono da fé cristã. Alguns dos salvos-condutos permitiam até que furtassem quem não lhes desse esmolas. Uma tática para aumentar a chance de ser aceitos nas comunidades, fazer negócios e exibir seus dons artísticos. Até que a farsa acabava e eles pulavam novamente para outra cidade.
Durante a Reconquista Cristã de 1492, na península Ibérica, árabes, judeus e ciganos foram expulsos – muitos deles vieram para as Américas. Um século mais tarde, eram varridos da França, por Luís 12, e da Inglaterra, por Henrique 8o. Logo depois, a rainha Elisabeth 1a decretou que ser cigano era crime punido com morte. Uma das lendas que surgiram nessa época, e que até hoje perdura, é a de que um dos ferreiros que fizeram os pregos que prenderam Jesus na cruz era cigano. Por isso, sua gente teria sido amaldiçoada com uma vida nômade. E dessa forma construiu-se a imagem de povo errante, místico, perigoso e contraventor. Assim, no contato com as imagens construídas e alimentadas no Ocidente, foi criado o conceito de um povo cigano.
E o que é ser cigano?
Definir a identidade cigana é bem mais difícil do que parece. Subdivididos em 3 principais etnias (rom, calon e sinti), eles não constituem um povo homogêneo. Nem todos são nômades. Nem todos falam romani. Nem todos dançam ao redor de fogueiras ou usam roupas coloridas. Podem ser pobres ou ricos. Podem ser cristãos, muçulmanos, judeus. O que faz deles um povo é uma sensação comum de não serem gadgés – como eles chamam os não-ciganos – e de se identificarem como rom, calon ou sinti. “O termo ‘cigano’ só funciona nessa oposição”, diz o pesquisador Frans Moonen, autor do livro Anticiganismo – Os Ciganos na Europa e no Brasil.
Mas, apesar de todas as divergências, algumas características permitem traçar um perfil comum a esses grupos. A primeira delas é o espírito viajante. Ainda que nem todos sejam nômades, os ciganos não se sentem pertencentes a um único lugar. Não criam raízes, não têm uma noção concreta de propriedade – estão sempre fazendo negócios com seus pertences, preferencialmente em ouro, que não perde valor e é aceito em qualquer nação (por isso a imagem cigana é vinculada ao uso do ouro como adereço, especialmente nos dentes das mulheres). Eles não gostam de se submeter a leis e a regras que não sejam as deles. Prezam, acima de tudo, a liberdade. Assim, podem até se estabelecer por muito tempo em um mesmo lugar (como é comum entre os sinti). Mas, nesse caso, procuram morar em uma mesma rua ou, de preferência, em acampamentos onde possam preservar sua autonomia e manter a unidade familiar – outro aspecto primordial na vida cigana.
É em torno da família que uma comunidade cigana se organiza. Há um líder, sempre um homem, nomeado por mérito e não por herança. Ele é escolhido levando em conta vários aspectos. Um deles, importantíssimo para conseguir alugar um terreno, montar um circo ou participar de feiras, é ter um documento de identidade, o que se tornou um verdadeiro desafio – o cigano não consegue registrar o nascimento dos filhos porque não possui documentos próprios, em um processo sem fim. Também deve ser um bom interlocutor entre o poder público e seu grupo, além de ter habilidade para resolver os problemas internos do acampamento. É ele quem dita as regras, divide as tarefas, cria as leis do grupo.
A sociedade cigana é patriarcal, quase machista. Ao se casar, o homem vira o responsável pelo sustento do lar. A mulher passa a morar com a família do marido e deve cuidar dele, dos sogros, da casa e dos filhos. Isso costuma acontecer cedo, ainda na adolescência: logo após a primeira menstruação, a menina já é considerada apta para casar e ter filhos. A noiva deve ser virgem. Tradicionalmente, sua pureza é comprovada em um dos rituais da longa festa de casamento, em que o lençol da noite de núpcias é exibido para toda a comunidade. Antigamente, os pais do noivo deviam pagar um dote à família da moça, mas esse hábito já não existe mais na maior parte dos acampamentos.
O casamento entre primos, no entanto, continua sendo estimulado, também na tentativa de preservar o núcleo familiar. É natural que em comunidades nômades seja mais difícil acontecer um casamento entre ciganos e gadgés. Mas é possível e permitido. Nesse caso, o homem ou a mulher deve mudar de vida. Ser cigano não depende do sangue – se o gadgé optar por se integrar ao grupo, automaticamente vira um deles.
À medida que se estabeleceram na Europa e nas Américas, os ciganos assimilaram cerimônias e ritos ocidentais. No Brasil, por exemplo, o catolicismo foi adotado pela maioria (é comum encontrar imagens da Nossa Senhora Aparecida nas barracas). Mas algumas tradições permanecem fortes. A simbologia da morte é a principal delas. “Quando um cigano morre, há um processo de morte que se instala em todos os indivíduos do grupo”, afirma Aluízio. Os calon realizam rituais de cura assim que é diagnosticada a doença. Além de aceitar a medicina tradicional, eles recorrem a rezas, correntes de orações, garrafadas de ervas, chás e simpatias, geralmente ministradas por uma curandeira do grupo.
Durante o velório, o morto é o centro do ritual e, dependendo da posição que ele ocupava, a família se reestrutura: uma nova liderança terá que ser eleita. O corpo do falecido é lavado, untado com ervas aromáticas e vestido adequadamente. Esse momento de sofrimento e cumplicidade é importante para a identidade do grupo. Como em outras culturas, percebe-se a possibilidade de transcendência. No caso dos ciganos, esse é o momento de encontrar a sua alma naturalmente viajante.
Em alguns acampamentos, eliminam-se todos os pertences do morto. Até o seu trailer chega a ser queimado. “É como um corte na história. Nada é guardado, não se resgata o passado”, diz Florencia Ferrari, estudiosa do assunto e autora do livro Palavra Cigana. Depois da morte de um membro, muitos grupos ciganos se mudam para outro acampamento.
Os ciganos hoje
Imagina-se que existam 15 milhões de ciganos espalhados pelo mundo. Como tudo relacionado a esse universo, essa é só uma estimativa – eles vivem à margem da sociedade e não costumam participar de pesquisas de censo demográfico.
E isso, por si só, já é uma polêmica. Em maio deste ano, o premiê italiano, Silvio Berlusconi, autorizou que fosse feito um censo especial para mapear a presença de ciganos sem moradia fixa na periferia das grandes cidades italianas. O censo incluiria dados como etnia, religião e impressão digital – que não são exigidos na identidade dos italianos. Os ciganos saíram às ruas em protesto, argumentando que essa seria uma ferramenta racista e discriminatória.
A medida foi considerada ilegal pelo Parlamento Europeu, já que impõe exigências desiguais a cidadãos do bloco. Mas os ciganos continuam com medo de ser expulsos do país, ainda que um terço dessa população não seja nem mesmo imigrante.
O receio é justificável: desde o século 15 os ciganos não têm um momento de folga. Até o século 19, eles foram escravizados na região onde hoje é a Romênia. Durante a 2a Guerra Mundial, foram perseguidos pelos nazistas, sendo, de acordo com alguns historiadores, o povo mais dizimado pelo Holocausto: do 1 milhão de ciganos que vivia na Europa, 500 mil foram assassinados. Muitos dos sobreviventes emigraram para os EUA, daí a lei que impedia sua entrada no estado de Nova Jersey, que só foi abolida nos anos 90.
“Na Europa, em praticamente todos os países, os ciganos são a minoria mais discriminada, muito mais do que os judeus ou os negros”, diz Moonen. E no Brasil não é muito diferente. O primeiro grupo de ciganos, de maioria calon, chegou por aqui no século 16, deportados de Portugal. Os rom vieram de forma voluntária a partir da 2a metade do século 19. Naquela época, eram comerciantes ambulantes de escravos, cavalos e artesanatos. Hoje compram e vendem carros, televisores e toalhas. Os mais recentes, às vezes bem pobres, vieram do Leste Europeu após a derrocada da União Soviética. Alguns são sedentários, mas a maioria se mantém na vida itinerante. Todos sofrem com desconfianças e preconceitos.
A cidade de Sousa, no interior da Paraíba, é um caso clássico. Os cerca de 450 ciganos fixados há anos por lá não recebiam entregas de correio nem tinham o lixo coletado em seu acampamento. Curiosamente, muitas escolas recusavam a matrícula de crianças ciganas. O caso ficou bem conhecido na região: foi necessária a intervenção da Procuradoria da República da Paraíba para resolver a questão.
Tanto no Brasil quanto na Europa, o analfabetismo entre os ciganos é alto. Por aqui, segundo a historiadora Isabel Fonseca, 3 em cada 4 mulheres ciganas são analfabetas. Por lá, escolas que só aceitam ciganos têm os piores níveis de qualidade. A falta de estudo e a vida à margem os empurram cada vez mais para a criminalidade, o que alimenta as visões deturpadas e generalizadas que sobrevivem desde os primeiros contatos entre ciganos e europeus. Enquanto não forem compreendidos, eles se mudarão e começarão tudo de novo. Seguirão vivendo sua saga cigana.
“Parece que os ciganos vieram ao mundo somente para ser ladrões: nascem de pais ladrões, criam-se com ladrões, estudam para ser ladrões (...).”
– La Gitanilla, Miguel de Cervantes, 1613.
O Hino Cigano

Gelem Gelem
- O Hino Cigano consagrou-se oficialmente durante o Primeiro Congresso Cigano em 1971 em Londres, como o Hino Internacional dos Ciganos, uma adaptação feita em uma canção popular cigana dos países europeus, com versos inspirados nos ciganos que foram reclusos nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, de autoria do Rom yugoslavo Jarko Jovanovic, de nome DGELEM, DGELEM.
A letra segue abaixo em romany
e em seguida traduzida para o português.
Dgelem, Dgelem lungone dromentsa
Maladjilem bhartalé romentsa
Ai, ai, romale, ai shavalê (bis)
Naís tumengue shavale
Patshiv dan man romale
Ai, ai, romale, ai shavalê (bis)
Vi mande sas romni ay shukar shavê
Mudarde mura família
Lê katany ande kale
Ai, ai, romale, ai shavalê (bis)
Shinde muro ilô
Pagerde mury luma
Ai, ai, romale, ai shavalê (bis)
Opré Romá
Aven putras nevo dromoro
Ai, ai, romale, ai shavalê (bis)
Tradução para o português:
Caminhei, caminhei longas estradas
Encontrei-me com romá (ciganos) de sorte
Ai, ai ciganos, ai jovens ciganos
Obrigado rapazes ciganos
Pela festa louvor que me dão
Eu também tive mulher e filhos bonitos
Mataram minha família
Os soldados de uniforme preto
Ai, ai ciganos, ai jovens ciganos
Cortaram meu coração
Destruíram meu mundo
Ai, ai ciganos, ai jovens ciganos
Pra cima Romá (Ciganos)
Avante vamos abrir novos caminhos
Ai, ai ciganos, ai jovens ciganos!!!
Ciganos: Sem destino
A história dos ciganos, que hoje são cerca de 12 milhões espalhados pelo mundo inteiro, não é tão colorida quanto eles: teve diáspora, perseguição, escravidão e genocídio
por Isabelle Somma
Em uma determinada noite do começo dos anos 40, o médico nazista alemão Josef Mengele reuniu 14 pares de gêmeos no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. Colocou as crianças sobre sua mesa e as fez dormir. Calmamente, injetou clorofórmio em suas veias. A morte foi instantânea. Mais tarde, as abriu e meticulosamente dissecou seus cadáveres.
As crianças não eram judias. Eram de um outro grupo cuja história também é marcada por diáspora, perseguições, escravidão e genocídio, especialmente na Segunda Guerra. Os ciganos – termo genérico para designar grupos que se autodenominam rom, calon e sinti, entre outros – podem ser encontrados em várias partes do mundo, divididos em culturas, religiões e línguas diferentes. Alguns têm o dialeto, a profissão ou apenas a opção pela vida itinerante. O que todos os cerca de 12 milhões espalhados pelos cinco continentes têm em comum é uma longa história pautada pelo preconceito. Que continua ainda hoje.
Pouco se sabe sobre a origem dos ciganos – que, assim como quase tudo que diz respeito a eles, está marcada por fantasias. Alguns dizem que eles descendem de egípcios do tempo dos faraós. Outros, de uma região conhecida como “Novo Egito”, na Grécia – daí a palavra “cigano”, que vem de “egipciano”. Essa história, contudo, é totalmente descartada por estudiosos do assunto. Para eles, os ciganos teriam vindo do Paquistão e do norte da Índia, nos atuais Rajastão e Punjab. A maior prova disso vem de estudos lingüísticos. O romani, a língua falada por eles, possui grandes semelhanças com o hindi, falado na Índia. A análise biológica corrobora essa tese. Um estudo realizado com integrantes de comunidades ciganas da Europa demonstrou que era possível traçar a origem indiana de boa parte dos ciganos pesquisados.
Grupo migrante
Dali, um grande contingente teria partido em uma espécie de diáspora. Ainda hoje existem comunidades ciganas na Ásia, assim como nos locais por onde passaram até chegar à Europa, como o Oriente Médio e norte da África. “Por que e quando eles deixaram a Índia, quais foram os grupos que fugiram e como se relacionavam entre eles ainda é tema de debate entre os estudiosos”, diz David Nemeth, professor de Geografia e Planejamento da Universidade de Toledo, em Ohio, nos Estados Unidos, especialista em povos nômades. “Alguns dizem que todos deixaram a Índia de uma vez, há mil anos. Outros dizem que eles foram saindo gradualmente.”
Um problema, de acordo com os especialistas, é falar dos ciganos como se eles fossem um grupo racial, um povo. “A explicação da origem indiana dos ciganos dá a falsa impressão de que eles são um grupo fechado, constituído como uma unidade isolada na Índia e que viajou mantendo essa integridade”, afirma a antropóloga Florencia Ferrari, cuja pesquisa de doutorado na Universidade de São Paulo é sobre ciganos de São Paulo. Na verdade, eles apresentam uma grande mistura.
O estudo lingüístico aponta uma provável data em que a maior leva de ciganos teria deixado seu território de origem: meados do século 11. Esse período coincide com a invasão, ao norte do subcontinente indiano, do sultão persa Mahmoud Ghazni (971-1030). Acredita-se que o sultão vitorioso teria expulsado essa população, provavelmente uma casta de guerreiros, do território conquistado entre 1001 e 1026.
Há outras teorias para o movimento dos ciganos. Alguns especialistas supõem que eles pertençam a um antigo grupo de viajantes que nunca parou de se deslocar. Outros, que eram grupos sedentários forçados a deixar a Índia devido à expansão de outros povos. Também não se descarta que eles eram párias expulsos de suas terras.
Tudo isso é suposição por causa da falta de relatos escritos sobre o assunto. Os ciganos mantêm sua história através da tradição oral – e muito do que se passou entre eles foi perdido. Segundo Isabel Fonseca, autora de Enterrem-me em Pé – A Longa Viagem dos Ciganos, o primeiro documento escrito que menciona os ciganos é um contrato de compra e venda do século 10. Mais tarde, monges relatam sobre os “atsiganoi”, povo itinerante de adivinhos e ventríloquos que visitou o imperador bizantino Constantino IX em 1054.
A diáspora cigana levou-os a migrarem a oeste, fazendo com que se espalhassem pela Europa a partir do século 14. “Quando apareceram pela primeira vez na Europa, os ciganos apresentaram-se como peregrinos e liam a sorte: duas boas profissões numa época de superstição”, afirma a autora. Os grupos começaram a percorrer com maior assiduidade certas regiões, e acabaram adotando a língua e a religião delas. Mas sem perder seus próprios costumes e língua.
Perseguição e caça
Dessa mesma época já datam os primeiros registros de perseguições contra os ciganos. Em 1471, leis contra eles foram aprovadas na Suíça. Na península Ibérica, a chamada Reconquista Cristã, em 1492, significou não apenas a expulsão de árabes e judeus, mas de ciganos também. No século 16, os ciganos também foram expulsos da França, durante o reinado de Luís XII, e da Inglaterra, pelo rei Henrique VIII. Mais tarde, Elizabeth I fez pior: durante seu reinado, entre 1558 e 1603, uma lei tornava ilegal ser um cigano. Isso quer dizer que a pessoa era condenada à morte simplesmente por ser filha de pais ciganos. “Eles se tornaram os últimos bodes expiatórios dos males sociais da sociedade do período Tudor”, afirma Thomas Acton, professor de Estudos Romani da Universidade de Greenwich, Inglaterra.
A perseguição nos Bálcãs foi ainda mais aguda. A partir do século 13, os ciganos foram vistos como estrangeiros que não eram bem-vindos. Acabaram escravizados. A libertação ocorreu apenas em 1864. Na Romênia não foi diferente: os ciganos foram feitos escravos lá até o século 19. Em 1445, o príncipe Vlad Dracul, da Valáquia (antiga província da Romênia), escravizou em seu país cerca de 12 mil pessoas da Bulgária. Essa gente, de acordo com registros da época, “parecia egípcia”. Vlad Dracul, apenas a título de curiosidade, é pai do príncipe que ficou conhecido pela alcunha de Drácula.
A partir do século 16, países como Suíça, Holanda e Dinamarca, passaram a promover o que ficou conhecido como “caçada aos ciganos”. Ela funcionava mais ou menos como uma caçada a raposas mesmo, quase um esporte. Não era preciso o sujeito ter cometido crime algum para ser aprisionado ou morto como um animal. Recompensas e honras eram prestadas aos que participavam das caçadas. Na Dinamarca, por exemplo, uma grande caçada foi marcada para o dia 11 de novembro de 1835. O resultado foram 260 homens, mulheres e crianças presos ou mortos.
Preconceito
Alguns pesquisadores acreditam que a origem do preconceito contra as comunidades ciganas esteja relacionada com as profissões com as quais eles ganhavam a vida. Segundo Nemeth, os ciganos historicamente lidam com três ramos de ocupação nada bem vistos na Idade Média. Eles estão associados à indústria da “diversão”, como músicos, dançarinos e adivinhos, da “morte”, como açougueiros, e da “sujeira”, como ferreiros. Várias lendas populares pipocaram na Europa na Idade Média. Uma delas é a de que o ferreiro que fez os pregos colocados em Jesus na cruz era cigano. Jesus então teria amaldiçoado todos os ciganos com uma vida de vagância.
Aliás, é o nomadismo o fator apontado como o principal motivo da desconfiança que vários povos alimentaram contra eles. “A estigmatização da vida errante se tornou um fator de demonização daqueles ciganos que eram nômades comerciais”, afirma Acton. A necessidade de deslocar-se pela lunga drom – ou “longa estrada”, em romani –, geralmente em coloridas caravanas, fez com que os ciganos tivessem um contato mínimo com o mundo gadjikane – “não-cigano”. Assim, o grupo continuaria com seu estilo de vida. A história da polonesa Papuzsa (“boneca” em romani) é prova de que muitos grupos temem que seu modo de vida seja alterado pela revelação de seus costumes. Harpista, ela compunha música e poesia contando os sofrimentos de seu povo. No fim da década de 50, um poeta publicou a tradução de seus poemas em polonês, à revelia da vontade de Papuzsa. Resultado: foi expulsa da comunidade por traição. Morreu em 1987, só e esquecida.
A partir do fim do século 18, com a ascensão do capitalismo industrial e a rápida urbanização, o que era visto como uma diferença apenas cultural passou a ser visto como um comportamento motivado por uma questão racial. O racismo culminou com a Segunda Guerra Mundial. Al&eac
Ciganos: a segunda invasão da Europa
Agora eles não vêm da Índia, como há 500 anos, mas dos arruinados países do Leste. Nesse novo mundo, terão de aprender a pagar impostos, mandar os filhos para a escola e não roubar os não-ciganos.
por Norma Freire
Alguma coisa está acontecendo com os ciganos. Desde o início de 1993, grandes grupos vindos do Leste estão se dirigindo para Paris, onde as mulheres são vistas nas ruas implorando caridade, em nome das crianças. Nesse gesto, que parece parte da sua própria natureza, trazem notícias de perseguições, guerra e miséria.
Certo ou errado? Errado. Não faz parte da natureza de ninguém implorar caridade. Este é apenas um dos mitos, talvez o mais perigoso, que cercam os ciganos. O nomadismo, considerado como um dado natural deste povo, é outro mito. Segundo o sociólogo Jean-Pierre Liégeois, professor da Universidade de Paris V, “o nomadismo é mais um estado de espírito do que de situação. Sua importância é mais de ordem psicológica que geográfica”.
Muitos ciganos estabeleceram-se na Europa, primeiro no Leste, depois no Oeste, há mais de 500 anos. Admite-se que saíram da Índia, em repetidas migrações, e chegaram à Pérsia no século XI. América e Austrália só foram atingidas no século XX. A chegada da nova leva de migrantes do Leste provoca tensão e ansiedade. Povo que desconheceu a escrita até o século XX, os ciganos acreditam numa história que não está nos livros e se revela em tradições, símbolos e costumes. Alguns vêem surgir, na sombra dos recém-chegados, a marca da fatalidade e do destino.
O muçulmano Faik Serifovic, cigano nascido na província sérvia de Kosovo e com domicílio na Suíça, fica arrepiado quando escuta a palavra fatalidade, usada no sentido de determinismo. Membro do comitê executivo da Romani Union, uma associação internacional de ciganos com direito a voz consultiva na assembléia das Nações Unidas, quer fundar um centro cultural cigano. Por causa desse sonho, que persegue há vinte dos seus 43 anos, já perdeu negócios, um restaurante e até a primeira mulher. Ele sorri como se estivesse diante de uma visão do paraíso quando encontra, em suas andanças como revendedor de porcelanas, um camping com água encanada e luz elétrica, que admite ciganos e é dotada de escola maternal. São raros tais campings no Ocidente e inexistentes na Europa Oriental. Serifovic acredita que, com eles, o destino cigano seria melhor.
Para o bem de todos, Serifovic quer ter certeza de que os recém-chegados do Leste compreendem que para viver na nova terra em relativa paz e segurança será preciso pagar impostos, mandar os filhos para a escola e não roubar os não-ciganos. Caso contrário, teme que eles estarão colocando uma arma nas mãos daqueles que, em qualquer parte, consideram os ciganos naturalmente ignorantes, sujos, preguiçosos, ladrões e manipuláveis.
Sinal dos tempos, Faik Serifovic acha que o espancamento e a imposição da mendicância às mulheres é motivo para a convocação de uma Kris — o tribunal cigano. Não faz muito, esses delitos não seriam capazes de provocar um minuto de atenção em homens respeitáveis. Algumas mulheres de idade e posição têm participado das Kris, como observadoras. Em muitos grupos, só podem emitir opinião através dos pais, maridos ou filhos, sob pena de colocar os homens da família na boca do povo. Na prática, isso poderia ser a pá de cal em acordos de casamentos e negócios.
A realidade prosaica no dia-a-dia das ciganas desmente a imagem exaltada que dela fazem os gadjé. Vendedora de ilusões, profetiza de sonhos, leitora da sorte, ela não precisa das cartas para prever o próprio destino. Natradição cigana, cabe à mulher o papel de guardiã do patrimônio cultural e transmissora dos valores sociais do grupo. O homem é símbolo da autoridade e guia. Na prática, isso significou, para a mulher, uma liberdade estritamente vigiada. A juventude de uma cigana acaba aos 16 anos, idade em que geralmente se casam. Aos 12 anos, muitas famílias preferem tirar as filhas da escola, por temer que elas se percam na má companhia dos gadjé.
A virgindade está entre as primeiras virtudes de uma jovem. No Brasil, uma noiva cigana virgem pode custar até o preço de um automóvel, em moedas de ouro. Trata-se de uma quantia simbólica, embora este dote constitua um motivo de exaustivas discussões entre os parentes. Em muitas famílias, são os pais que ainda decidem os casamentos. Alguns consultam a opinião dos filhos, outros não. Entre os jovens, está se tornando cada vez mais comum o costume manouche de casamento por fuga. Depois de uma semana, o casal retorna ao grupo e passa a viver com a família do marido enquanto os mais velhos decidem o valor do dote. Esse período pode ser difícil para a mulher. Ela só é considerada realmente casada depois do nascimento do primeiro filho.
Muitos dispensam as cerimônias de casamento no civil e no religioso. Mas os Roma e os Gitanos não dispensam as grandes festas de casamento, em que todo mundo é convidado. A tradição manda que as matriarcas das famílias exibam, durante o baile, um lencinho com as manchas de sangue do rompimento do hímen, assunto que cabe a elas resolver na intimidade. Desvirginada, a noiva volta para o salão e dança com o noivo. “É de tal beleza, isso-” comenta a gitana Mossa Poubil, quase 30 anos, autora de um livro-depoimento sobre a condição da mulher cigana. “Acabaram de tirar-lhe as cinc estrellas e ela dança — levanta os braços no ar, move as mãos, os ombros, o corpo todo. Isso é flamenco! Ela dança e chora e está contente — e todo mundo está contente e dança também”.
Para se casar, é importante que uma jovem cigana seja trabalhadora, submissa, saiba ganhar a vida e guardar silêncio. Muitos ciganos consideram natural que o marido passe dias fora de casa, embebede-se com os amigos e freqüente assiduamente a intimidade das não-ciganas. Em público ou mesmo em família, a tradiçãoproíbe a mulher de queixar-se. Quando a situação no casamento torna-se insustentável, a nora pode tentar obter o apoio da sogra, o que nem sempre lhe é dado. As mulheres ciganas raramente são solidárias em lamúrias. A volta à casa paterna não é estimulada. Nesse caso, a família do marido pode reivindicar e receber a guarda dos filhos. O tempo, dizem, acaba por ajeitar as coisas.Cèline La Fleur, 58 anos, 13 filhos e 50 netos, admite que muitos ciganos estão mudando. As filhas de Cèline usam calças compridas, minissaia, shorts e aposentaram o lenço na cabeça, antigo símbolo cigano de aliança de casamento. Mas, como a maioria das ciganas, concebem a maternidade e o casamento como seu único destino. Irmã Cecília queria algo além. Cigana manouche, tornou-se freira e hoje vive e trabalha entre ciganos de acampamento.
Em algumas famílias, a roupa dos homens não é lavada junto com a das mulheres, e não é permitido ao marido acariciar a esposa, na intimidade. Antigamente, as mulheres eram as primeiras a exigir o cumprimento dessas proibições, consideradas como manifestação de respeito. Mas essas são, segundo Mossa Poubil, cada vez mais raras, assim como as carroças puxadas por cavalos, que acomodavam famílias de mais de quinze pessoas.Os estudiosos da realidade cigana insistem no perigo das generalizações em relação a um povo que não é um; são muitos. Quando apareceram pela primeira vez na Europa, em plena Idade Média, apresentavam-se como príncipes e reis do Egito, peregrinos expulsos da Terra Santa, descendentes malditos do Caim bíblico ou povo abençoado por Jesus, de quem teriam aliviado o sofrimento no Calvário. Nas esquinas, as mulheres ganhavam a fama de oráculo, com especial aptidão para aliviar os bolsos dos curiosos do oculto e atrair a ira das autoridades. O papel de intérpretes do desconhecido não lhes foi benéfico, embora, muitas vezes, representasse a única fonte de renda da família. O comércio com as coisas do sobrenatural faz parte do folclore cigano e sempre foi um terreno restrito a mulher.
Esse primeiro contato histórico ainda marca as relações entre ciganos e gadjé, como chamam aos não-ciganos. Percebendo-se e sendo percebidos como tribo profética, passaram a ocupar um território reservado aos mitos, com cadeira cativa na comunidade de poetas e artistas. Os historiadores tiveram menos sorte. Os ciganos não ergueram pirâmides, não fizeram guerras, não conquistaram impérios e, muitas vezes, não deixaram rastros de sua passagem.
Nação sem Estado, construíram uma realidade feita de “empréstimos culturais” dos povos com que conviveram mais tempo. Nem o nome pelo qual são genericamente conhecidos é deles. Liégeois explica que a palavra vem de “atsinganos”, seita herética desprezada na Grécia do século XII, época em que as primeiras famílias ciganas chegaram à região, estabelendo-se num lugar conhecido como Pequeno Egito. Entre si, os ciganos se reconhecem pelos nomes dos vários grupos e pela noção de pertencerem ao mesmo conjunto. “Fomos reconhecidos por Indira Gandhi como os filhos perdidos da Índia”, explica Vanko Rouda, um dos fundadores em 1992 do Movimento Confederal Cigano, que edita em Paris o jornal Le Tambour Tzigane. Como e por que saíram da Índia, os historiadores não sabem responder. Reyniers sugere que, em geral, as comunidades se dispersam quando há pressão demográfica, escassez de recursos econômicos e guerras. O caminho das migrações ciganas segue as rotas das invasões do século X em diante, embora nenhum general cigano apareça entre os conquistadores.
A maioria dos ciganos fala outro ou outros idiomas além do romani, a língua áspera e melancólica, declinável como grego e o latim que lhes serve de traço de união e de espelho. No interior do grupo, entendem-se por meio do romani. Ou melhor, de várias versões do romani, diluído em inúmeros dialetos influenciados pelo idioma das regiões onde permaneceram mais tempo. Essas influências vão muito além do campo estrito da linguagem. Na economia, por exemplo, os ciganos têm que se adaptar ao meio, para sobreviver e exercer suas tradicionais profissões — artesãos do cobre e do metal, treinadores de animais e artesãos de jóias, músicos e acrobatas — dentro de uma dinâmica cultural de produção que não é sua. Há quem explique o peculiar comportamento dos ciganos dentro da economia global com o conceito de “nicho específico”. Assim, o cigano seria “diferente” dos demais agentes econômicos pelo fornecimento constante de mercadorias, serviços e mão-de-obra nos setores em que surge desequilíbrio na balança da oferta e da procura. Na Bulgária, isso significa que, quando faltaram carrascos no século XVIII, os ciganos aceitaram ocupar este espaço. E antes do advento da medicina veterinária, eles eram requisitados em toda parte como ótimos conselheiros sobre saúde dos animais.
Como em todos os povos, entre os ciganos nem todos os indivíduos são iguais. Algumas famílias são ricas, outras pobres. Algumas andam a pé, outras de avião. Carroças puxadas por cavalos são coisas de museu. Explica-se: embora ainda sejam considerados pelo menos seminômades, o estilo de vida dos ciganos foi afetado pelo progresso do mundo gadjé. Hoje viajam em caravanas de carros modernos, caminhões e trailers. Embora a produção industrial de aço inoxidável tenha tornado os artefatos de cobre obsoletos, ciganos urbanos conseguem empregos variados e também modernos, como por exemplo mecânicos de automóveis. Jacqueline Charlemagne, do departamento de Sociologia Jurídica da Universidade de Paris II, diz que a marginalização, entre os ciganos, “pode provocar a degradação das relações no interior do grupo familiar, indiferença quanto à escolarização das crianças e jovens e desvalorização social que impede qualquer comunicação com o exterior”. Dentro da comunidade cigana, muitos preferem a solução interna dos litígios a qualquer intervenção externa. “Em alguns grupos, isso passa por uma assembléia específica, reunida para a circustância”, nota Reyniers. A decisão dessas assembléias, as Kris, é respeitada. Freqüentemente evita-se o prolongamento das crises mediante compensações financeiras, dispersão dos antagonistas, fuga ou desconhecimento ostensivo entre as partes. Em casos extremos, recorre-se à expulsão do grupo, o que para um cigano tem gosto de pena de morte ou prisão perpétua. Os ciganos consideram que a violação de mulheres, homicídio de crianças, incêndio de caravanas e falsos testemunhos à polícia gadjé são crimes passíveis de pena de morte.
Um estudo feito pelo Conselho Europeu antes da queda do Muro de Berlim, em 1989, estimou a populaçãocigana na Europa do Leste entre 2,5 milhões e 4 milhões de pessoas. Um relatório publicado em 1993 pela revista Espace Social Européen estabeleceu em 1,250 milhão o número de ciganos nos doze países do Mercado Comum Europeu. Rouda afirma que estas estatísticas não refletem a realidade.
O sociólogo Jean-Pierre Liégeois duvida desses números e calcula em torno de 8 milhões de ciganos europeus, enquanto Rouda prefere algo entre 15 e 20 milhões. Acredita-se que existam cerca de 2 milhões de ciganos na América do Norte e 1,5 milhão na América do Sul, dos quais 800 mil no Brasil. A primeira notícia sobre um cigano no Brasil é um édito real de 1574: permitiu ao degredado João das Torres trazer família para o país.
Ciganos: a segunda invasão da Europa
Agora eles não vêm da Índia, como há 500 anos, mas dos arruinados países do Leste. Nesse novo mundo, terão de aprender a pagar impostos, mandar os filhos para a escola e não roubar os não-ciganos.
por Norma Freire
Alguma coisa está acontecendo com os ciganos. Desde o início de 1993, grandes grupos vindos do Leste estão se dirigindo para Paris, onde as mulheres são vistas nas ruas implorando caridade, em nome das crianças. Nesse gesto, que parece parte da sua própria natureza, trazem notícias de perseguições, guerra e miséria.
Certo ou errado? Errado. Não faz parte da natureza de ninguém implorar caridade. Este é apenas um dos mitos, talvez o mais perigoso, que cercam os ciganos. O nomadismo, considerado como um dado natural deste povo, é outro mito. Segundo o sociólogo Jean-Pierre Liégeois, professor da Universidade de Paris V, “o nomadismo é mais um estado de espírito do que de situação. Sua importância é mais de ordem psicológica que geográfica”.
Muitos ciganos estabeleceram-se na Europa, primeiro no Leste, depois no Oeste, há mais de 500 anos. Admite-se que saíram da Índia, em repetidas migrações, e chegaram à Pérsia no século XI. América e Austrália só foram atingidas no século XX. A chegada da nova leva de migrantes do Leste provoca tensão e ansiedade. Povo que desconheceu a escrita até o século XX, os ciganos acreditam numa história que não está nos livros e se revela em tradições, símbolos e costumes. Alguns vêem surgir, na sombra dos recém-chegados, a marca da fatalidade e do destino.
O muçulmano Faik Serifovic, cigano nascido na província sérvia de Kosovo e com domicílio na Suíça, fica arrepiado quando escuta a palavra fatalidade, usada no sentido de determinismo. Membro do comitê executivo da Romani Union, uma associação internacional de ciganos com direito a voz consultiva na assembléia das Nações Unidas, quer fundar um centro cultural cigano. Por causa desse sonho, que persegue há vinte dos seus 43 anos, já perdeu negócios, um restaurante e até a primeira mulher. Ele sorri como se estivesse diante de uma visão do paraíso quando encontra, em suas andanças como revendedor de porcelanas, um camping com água encanada e luz elétrica, que admite ciganos e é dotada de escola maternal. São raros tais campings no Ocidente e inexistentes na Europa Oriental. Serifovic acredita que, com eles, o destino cigano seria melhor.
Para o bem de todos, Serifovic quer ter certeza de que os recém-chegados do Leste compreendem que para viver na nova terra em relativa paz e segurança será preciso pagar impostos, mandar os filhos para a escola e não roubar os não-ciganos. Caso contrário, teme que eles estarão colocando uma arma nas mãos daqueles que, em qualquer parte, consideram os ciganos naturalmente ignorantes, sujos, preguiçosos, ladrões e manipuláveis.
Sinal dos tempos, Faik Serifovic acha que o espancamento e a imposição da mendicância às mulheres é motivo para a convocação de uma Kris — o tribunal cigano. Não faz muito, esses delitos não seriam capazes de provocar um minuto de atenção em homens respeitáveis. Algumas mulheres de idade e posição têm participado das Kris, como observadoras. Em muitos grupos, só podem emitir opinião através dos pais, maridos ou filhos, sob pena de colocar os homens da família na boca do povo. Na prática, isso poderia ser a pá de cal em acordos de casamentos e negócios.
A realidade prosaica no dia-a-dia das ciganas desmente a imagem exaltada que dela fazem os gadjé. Vendedora de ilusões, profetiza de sonhos, leitora da sorte, ela não precisa das cartas para prever o próprio destino. Natradição cigana, cabe à mulher o papel de guardiã do patrimônio cultural e transmissora dos valores sociais do grupo. O homem é símbolo da autoridade e guia. Na prática, isso significou, para a mulher, uma liberdade estritamente vigiada. A juventude de uma cigana acaba aos 16 anos, idade em que geralmente se casam. Aos 12 anos, muitas famílias preferem tirar as filhas da escola, por temer que elas se percam na má companhia dos gadjé.
A virgindade está entre as primeiras virtudes de uma jovem. No Brasil, uma noiva cigana virgem pode custar até o preço de um automóvel, em moedas de ouro. Trata-se de uma quantia simbólica, embora este dote constitua um motivo de exaustivas discussões entre os parentes. Em muitas famílias, são os pais que ainda decidem os casamentos. Alguns consultam a opinião dos filhos, outros não. Entre os jovens, está se tornando cada vez mais comum o costume manouche de casamento por fuga. Depois de uma semana, o casal retorna ao grupo e passa a viver com a família do marido enquanto os mais velhos decidem o valor do dote. Esse período pode ser difícil para a mulher. Ela só é considerada realmente casada depois do nascimento do primeiro filho.
Muitos dispensam as cerimônias de casamento no civil e no religioso. Mas os Roma e os Gitanos não dispensam as grandes festas de casamento, em que todo mundo é convidado. A tradição manda que as matriarcas das famílias exibam, durante o baile, um lencinho com as manchas de sangue do rompimento do hímen, assunto que cabe a elas resolver na intimidade. Desvirginada, a noiva volta para o salão e dança com o noivo. “É de tal beleza, isso-” comenta a gitana Mossa Poubil, quase 30 anos, autora de um livro-depoimento sobre a condição da mulher cigana. “Acabaram de tirar-lhe as cinc estrellas e ela dança — levanta os braços no ar, move as mãos, os ombros, o corpo todo. Isso é flamenco! Ela dança e chora e está contente — e todo mundo está contente e dança também”.
Para se casar, é importante que uma jovem cigana seja trabalhadora, submissa, saiba ganhar a vida e guardar silêncio. Muitos ciganos consideram natural que o marido passe dias fora de casa, embebede-se com os amigos e freqüente assiduamente a intimidade das não-ciganas. Em público ou mesmo em família, a tradiçãoproíbe a mulher de queixar-se. Quando a situação no casamento torna-se insustentável, a nora pode tentar obter o apoio da sogra, o que nem sempre lhe é dado. As mulheres ciganas raramente são solidárias em lamúrias. A volta à casa paterna não é estimulada. Nesse caso, a família do marido pode reivindicar e receber a guarda dos filhos. O tempo, dizem, acaba por ajeitar as coisas.Cèline La Fleur, 58 anos, 13 filhos e 50 netos, admite que muitos ciganos estão mudando. As filhas de Cèline usam calças compridas, minissaia, shorts e aposentaram o lenço na cabeça, antigo símbolo cigano de aliança de casamento. Mas, como a maioria das ciganas, concebem a maternidade e o casamento como seu único destino. Irmã Cecília queria algo além. Cigana manouche, tornou-se freira e hoje vive e trabalha entre ciganos de acampamento.
Em algumas famílias, a roupa dos homens não é lavada junto com a das mulheres, e não é permitido ao marido acariciar a esposa, na intimidade. Antigamente, as mulheres eram as primeiras a exigir o cumprimento dessas proibições, consideradas como manifestação de respeito. Mas essas são, segundo Mossa Poubil, cada vez mais raras, assim como as carroças puxadas por cavalos, que acomodavam famílias de mais de quinze pessoas.Os estudiosos da realidade cigana insistem no perigo das generalizações em relação a um povo que não é um; são muitos. Quando apareceram pela primeira vez na Europa, em plena Idade Média, apresentavam-se como príncipes e reis do Egito, peregrinos expulsos da Terra Santa, descendentes malditos do Caim bíblico ou povo abençoado por Jesus, de quem teriam aliviado o sofrimento no Calvário. Nas esquinas, as mulheres ganhavam a fama de oráculo, com especial aptidão para aliviar os bolsos dos curiosos do oculto e atrair a ira das autoridades. O papel de intérpretes do desconhecido não lhes foi benéfico, embora, muitas vezes, representasse a única fonte de renda da família. O comércio com as coisas do sobrenatural faz parte do folclore cigano e sempre foi um terreno restrito a mulher.
Esse primeiro contato histórico ainda marca as relações entre ciganos e gadjé, como chamam aos não-ciganos. Percebendo-se e sendo percebidos como tribo profética, passaram a ocupar um território reservado aos mitos, com cadeira cativa na comunidade de poetas e artistas. Os historiadores tiveram menos sorte. Os ciganos não ergueram pirâmides, não fizeram guerras, não conquistaram impérios e, muitas vezes, não deixaram rastros de sua passagem.
Nação sem Estado, construíram uma realidade feita de “empréstimos culturais” dos povos com que conviveram mais tempo. Nem o nome pelo qual são genericamente conhecidos é deles. Liégeois explica que a palavra vem de “atsinganos”, seita herética desprezada na Grécia do século XII, época em que as primeiras famílias ciganas chegaram à região, estabelendo-se num lugar conhecido como Pequeno Egito. Entre si, os ciganos se reconhecem pelos nomes dos vários grupos e pela noção de pertencerem ao mesmo conjunto. “Fomos reconhecidos por Indira Gandhi como os filhos perdidos da Índia”, explica Vanko Rouda, um dos fundadores em 1992 do Movimento Confederal Cigano, que edita em Paris o jornal Le Tambour Tzigane. Como e por que saíram da Índia, os historiadores não sabem responder. Reyniers sugere que, em geral, as comunidades se dispersam quando há pressão demográfica, escassez de recursos econômicos e guerras. O caminho das migrações ciganas segue as rotas das invasões do século X em diante, embora nenhum general cigano apareça entre os conquistadores.
A maioria dos ciganos fala outro ou outros idiomas além do romani, a língua áspera e melancólica, declinável como grego e o latim que lhes serve de traço de união e de espelho. No interior do grupo, entendem-se por meio do romani. Ou melhor, de várias versões do romani, diluído em inúmeros dialetos influenciados pelo idioma das regiões onde permaneceram mais tempo. Essas influências vão muito além do campo estrito da linguagem. Na economia, por exemplo, os ciganos têm que se adaptar ao meio, para sobreviver e exercer suas tradicionais profissões — artesãos do cobre e do metal, treinadores de animais e artesãos de jóias, músicos e acrobatas — dentro de uma dinâmica cultural de produção que não é sua. Há quem explique o peculiar comportamento dos ciganos dentro da economia global com o conceito de “nicho específico”. Assim, o cigano seria “diferente” dos demais agentes econômicos pelo fornecimento constante de mercadorias, serviços e mão-de-obra nos setores em que surge desequilíbrio na balança da oferta e da procura. Na Bulgária, isso significa que, quando faltaram carrascos no século XVIII, os ciganos aceitaram ocupar este espaço. E antes do advento da medicina veterinária, eles eram requisitados em toda parte como ótimos conselheiros sobre saúde dos animais.
Como em todos os povos, entre os ciganos nem todos os indivíduos são iguais. Algumas famílias são ricas, outras pobres. Algumas andam a pé, outras de avião. Carroças puxadas por cavalos são coisas de museu. Explica-se: embora ainda sejam considerados pelo menos seminômades, o estilo de vida dos ciganos foi afetado pelo progresso do mundo gadjé. Hoje viajam em caravanas de carros modernos, caminhões e trailers. Embora a produção industrial de aço inoxidável tenha tornado os artefatos de cobre obsoletos, ciganos urbanos conseguem empregos variados e também modernos, como por exemplo mecânicos de automóveis. Jacqueline Charlemagne, do departamento de Sociologia Jurídica da Universidade de Paris II, diz que a marginalização, entre os ciganos, “pode provocar a degradação das relações no interior do grupo familiar, indiferença quanto à escolarização das crianças e jovens e desvalorização social que impede qualquer comunicação com o exterior”. Dentro da comunidade cigana, muitos preferem a solução interna dos litígios a qualquer intervenção externa. “Em alguns grupos, isso passa por uma assembléia específica, reunida para a circustância”, nota Reyniers. A decisão dessas assembléias, as Kris, é respeitada. Freqüentemente evita-se o prolongamento das crises mediante compensações financeiras, dispersão dos antagonistas, fuga ou desconhecimento ostensivo entre as partes. Em casos extremos, recorre-se à expulsão do grupo, o que para um cigano tem gosto de pena de morte ou prisão perpétua. Os ciganos consideram que a violação de mulheres, homicídio de crianças, incêndio de caravanas e falsos testemunhos à polícia gadjé são crimes passíveis de pena de morte.
Um estudo feito pelo Conselho Europeu antes da queda do Muro de Berlim, em 1989, estimou a populaçãocigana na Europa do Leste entre 2,5 milhões e 4 milhões de pessoas. Um relatório publicado em 1993 pela revista Espace Social Européen estabeleceu em 1,250 milhão o número de ciganos nos doze países do Mercado Comum Europeu. Rouda afirma que estas estatísticas não refletem a realidade.
O sociólogo Jean-Pierre Liégeois duvida desses números e calcula em torno de 8 milhões de ciganos europeus, enquanto Rouda prefere algo entre 15 e 20 milhões. Acredita-se que existam cerca de 2 milhões de ciganos na América do Norte e 1,5 milhão na América do Sul, dos quais 800 mil no Brasil. A primeira notícia sobre um cigano no Brasil é um édito real de 1574: permitiu ao degredado João das Torres trazer família para o país.
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