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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A POESIA DE PRIMO LEVI



ALMANAQUE

Continuarão correndo pro mar
Os rios indiferentes
Ou a transbordar ruinosos os diques
Obras antigas de homens tenazes.
Continuarão as geleiras
A crepitar consumindo o fundo
Ou precipitando repentinas
A extirpar a vida dos abetos.
Continuará o mar a debater-se
Cativo entre os continentes
Sempre mais avaro de sua riqueza.
Continuarão seu curso
Sol estrelas planetas e cometas.
Mesmo a Terra temerá as leis
Imutáveis da criação.
Nós não. Nós, linhagem rebelde
De muito engenho e pouco siso,
Vamos destruir e corromper
Sempre mais depressa;
Logo, logo dilataremos o deserto
Nas selvas da Amazônia,
No coração vivo de nossas cidades,
Em nossos próprios corações.

2 de janeiro de 1987

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Químico e escritor, o italiano Primo Levi (1919-1987) escreveu memórias, contos, poemas e romances. Judeu, participou da resistência antifascista na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, e terminou prisioneiro no campo de concentração nazista de Auschwitz, na Polônia, experiências que são narradas em suas memórias.

Em seu livro É Isto Um Homem?, publicado em 1947, Levi conta sua passagem em Auschwitz: fome, sede e o cansaço dos trabalhos forçados. Essa narração é considerada um dos escritos memorialísticos mais importantes do século XX. O livro exalta a capacidade humana de resistir à dor e ao sofrimento, preservando a dignidade.

Levi estudava na Universidade de Turim em 1938 quando o governo fascista aprovou leis raciais que proibiam cidadãos judeus de frequentar escolas públicas. Mesmo assim, ele conseguiu se formar em 1941, quando a guerra já estava em curso. Mas seu diploma foi marcado com a expressão raça judia.

Em 1943, o jovem químico juntou-se à Resistência italiana (partigiani) e em dezembro desse ano foi detido pela milícia fascista. Primeiro, foi mandado para um campo de prisioneiros e em fevereiro de 1944 transferido para o campo de Auschwitz.

Por uma série de fatores, Primo Levi conseguiu sobreviver ao inferno do campo de extermínio e foi libertado em 1945. Ao retornar à Itália, tornou-se químico industrial e passou a escrever sobre sua experiência durante a guerra.

A experiência profissional também lhe deu motivos para a criação literária. Seu livro de contos A Tabela Periódica (1975) contém 21 narrativas, cada qual com o nome de um elemento químico e uma história a ele associada: “Argônio”, “Hidrogênio”, “Zinco”, “Ferro”, “Potássio” etc. Em outubro de 2006, O Royal Institute, do Reino Unido, classificou essa obra como o melhor livro de ciência já escrito.

Primo Michele Levi morreu em abril de 1987, aos 66 anos, em consequência de uma queda na escada de sua própria casa. Embora se acredite que o escritor cometeu suicídio, há quem diga que sua queda fatal foi provocada pela tontura, mal-estar de que ele sofria.

•o•

Ao iniciar a produção deste boletim, selecionei apenas poemas da antologia bilíngue Mil Sóis, publicada em 2019 pela editora Todavia, com tradução de Maurício Santana Dias. Depois, ao ler É Isto Um Homem?, decidi incorporar à pequena amostra ao lado o poema de abertura desse livro de memórias.

Começo, portanto, com esse texto, que tem o mesmo título do livro. Escrito quando Primo Levi ainda tinha, bem vívidas, as lembranças de Auschwitz, o texto representa uma espécie de alerta desesperado a quem não viveu aquelas terríveis experiências.

O poema na verdade indaga se os indivíduos sujeitos àquelas provações são mesmo homens e mulheres. Um texto forte, pungente. Para se ler e pensar. Para se ler e fincar pé: nazifascismo nunca mais.

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