As Forças Armadas dedicam 80% do seu orçamento anual ao pagamento de pessoal. Assim, se o valor pago com os militares foi equivalente àquele pago com o Alto Comando e seus familiares, 40% de todo o dinheiro investido nas Forças Armadas é dedicado a manter estes indivíduos como uma espécie de “casta superior” ao povo brasileiro.
por Redação de AND
15 de janeiro de 2026·
Os generais da reserva Marco Antônio de Farias (esq.) e Odilson Benzi (dir.) receberam em um único mês, dezembro passado, R$ 405 mil líquidos cada Foto: Superior Tribunal Militar
Os ministros recém aposentados do Superior Tribunal Militar (STM), os generais da reserva Odilson Benzi e Marco Antônio de Farias, receberam somente no mês de dezembro R$ 405 mil de pensão. O valor foi aprovado pelos ministros do STM por maioria de votos e excedeu o teto salarial do funcionalismo público, de R$ 46 mil brutos, pago aos ministros do Supremo Tribunal Federal, em 770%.
Segundo o STM, o valor pago aos dois ministros militares se trataria de uma indenização, reconhecida pelas Forças Armadas, de licenças especiais de 18 meses, não aproveitadas em serviço, que devem ser pagas na passagem à aposentadoria, além da licença prêmio concedida pelo cargo de magistrado.
Ou seja, o povo brasileiro foi obrigado a pagar R$ 810 mil reais a dois generais que optaram por não exercer uma licença, onde ficariam três anos sem trabalhar ganhando o mesmo salário, para receberem o valor à vista, vantagem esta que foi arbitrariamente concedida pelo Alto Comando das Forças Armadas. Isso sem contar os benefícios concedidos pelo cargo de ministro do STM.
Quando comparado com os R$ 3.281 mil recebidos em média pelos funcionários públicos, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, os valores chegam a superar em mais de 123 vezes, evidenciando a casta das Forças Armadas como um verdadeiro peso para o povo brasileiro.
Quando aplicado à realidade das Forças Armadas, os valores demonstram o abismo financeiro e o impacto destas regalias nos gastos com a Defesa. Comparado aos R$ 2,500 recebidos por mês a um soldado do exército brasileiro, o valor recebido pelos generais Benzi e Farias no mês de dezembro é superior em mais de 160 vezes.
A situação escancara os privilégios garantidos aos carreiristas do Alto Comando, cujo generalato já integra o seleto grupo de 1% de pessoas mais ricas do Brasil, com salários que chegam até R$ 60 mil, o que corresponde a 17 vezes a mais do soldo pago a um soldado. A situação destoa até mesmo daquela apresentada por países imperialistas, como o Estados Unidos, cuja disparidade chega a 8 vezes mais.
Entre 2018 e 2022, anos em que Farias e Benzi ostentavam cargos no magistério do STM, o povo brasileiro foi obrigado a arcar com R$ 94 bilhões para familiares de militares. No total, o sistema de castas militares promove o gasto de R$ 3,7 bilhões dos cofres públicos a herdeiros e viúvas de generais e outros militares de alta patente somente em 2022. No caso do salário dos generais, que custam R$ 100 milhões por ano, o gasto com estas famílias chegou à 3,8 bilhões, segundo dados divulgados pelo jornalista José de Roberto de Toledo ao monopólio de imprensa UOL.
Segundo Toledo, o valor empregado para o enriquecimento destas famílias corresponde ao valor utilizado para o sustento de todos os 90 mil soldados e cabos na ativa durante 2022. Este valor é aplicado para o pagamento de salários, que no caso dos cabos chega no máximo até R$ 3.600, se agraciado com benefícios, mais R$ 11,75 diários que são utilizados para a alimentação das tropas. Em 2022, quartéis da Capital Federal, Brasília, chegaram a dispensar as tropas mais cedo, alegando falta de comida.
No total, as Forças Armadas brasileiras dedicam 80% do seu orçamento anual ao pagamento de pessoal. Assim, se o valor pago com as tropas foi equivalente àquele pago com o Alto Comando e seus familiares, 40% de todo o dinheiro investido nas Forças Armadas é dedicado a manter estes indivíduos como uma espécie de “casta superior” ao povo brasileiro.
Benzi e Farias: militares de casta
A defesa da casta militar parece ter sido um importante fator na indicação de Benzi para o magistério no STM. Em 2014, antes da ex-presidente Dilma Rousseff sancionar seu cargo, Benzi ganhou a confiança do Senado após se demonstrar favorável à redução da maioridade penal enquanto defendia a implementação de medidas alternativas aos militares condenados. Em outras palavras: condenação e confinamento para adolescentes e afrouxamento da pena e serviço militar para os militares.
Já o general Farias, foi aprovado por unanimidade pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado em 2016 após indicar que defenderia os pilares da “disciplina e hierarquia”. Ao que parece, a hierarquia referida não é comprovada apenas pela patente militar, mas também pela disparidade salarial.
Não por menos, a manutenção e expansão das regalias para o Alto Comando das Forças Armadas foram sustentadas e ampliadas durante os anos de Farias e Benzi no magistério. Até mesmo militares expulsos por crimes foram mantidos nas folhas salariais, com R$ 25 milhões sendo gastos anualmente com oficiais criminosos.
É o caso de Ailton Barros, ex-major expulso do exército brasileiro após agredir sexualmente uma mulher e atropelar um colega da Polícia do Exército ao se recusar a parar em uma blitz durante o começo dos anos 2000. O ex-major foi considerado “morto” pelas Forças Armadas, garantindo que sua esposa recebesse R$ 4,6 milhões de reais da União em pensão até 2023, quando o Ministério Público pediu pela suspensão do pagamento. Ailton ainda chegou a ser candidato a Deputado Estadual do Rio de Janeiro pelo Partido Liberal” (PL) em 2022, enquanto ainda era considerado um “morto-vivo” pelas Forças Armadas.
Já em 2024, os soldados foram humilhados com a notícia de que o comandante do exército, Tomás Paiva, teria R$ 684 mil para serem gastos com refeições, que seriam oferecidas para membros do Alto Comando brasileiro e de outros países, que poderiam ocorrer “quantas vezes for necessário”. O cardápio foi escolhido pelo próprio Tomás Paiva, com ítens de luxo como mousse de gorgonzola com frango, salmão ao molho de maracujá e bacalhau à Gomes de Sá.
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