Em tempos de sol cada vez mais escaldante, não custa lembrar da importância das sombras e de que são as árvores que suportam a canícula para que possamos desfrutar de algum frescor em meio ao clima tórrido.
De estranhar que o sábio e respeitado HUMBOLDT tenha dito - na obra Quadros da Natureza -, que constitui conclusão errônea aquela que aponta para a ausência de árvores como o fator que torna os países quentes (...).
De outro vértice, o célebre "patriarca da independência" do Brasil, homem culto, assim se manifestou:
- Em nenhuma época se desconheceu a utilidade da cultura dos arvoredos, e o respeito às árvores é recomendado pelos melhores filósofos. O historiador de Cyro põe no número dos títulos de glória deste Príncipe o haver assim plantado toda Ásia Menor. Nos Estados Unidos apenas um lavrador se vê pai d’uma filha, planta uma floresta, a qual crescendo com o criança vem o ser seu dote de casamento. Sully plantou em quase todas as Províncias de França grande número de árvores, das quais existem ainda algumas, que a veneração pública honra com o nome deste grande homem; elas fazem lembrar hoje o que à vista duma plantação dizia Addison: por aqui passou um homem útil. No Brasil - quem o creria! - são entregues ao machado e às chamas. É tempo pois, ainda, que os Brasileiros saiam dos seus descuidos e atendam à sorte futura de seus filhos. É de sua própria utilidade não só conservar e pensar suas matas virgens, mas cuidar em plantar novas florestas, que venham ressarcir as que a ignorância destruiu. É também de sumo interesse à saúde pública, que no Brasil se plantem árvores à borda das estradas, e nas Cidades e Vilas, nas ruas, largos e praças, à imitação dos Boulevards de França, ou dos Esquires do Inglaterra.
As folhas das árvores absorvem o gás ácido carbono que compõe em grande porte o ar que respiramos, mas que por si só não é respirável: e sua abundância asfixia e mata o homem. As plantas, ao contrário, dão o oxigênio, que é esta parte do ar mais própria à respiração e à saúde.
Além disto, todo País pode enriquecer-se com aquilo mesmo que que faz seu Ornamento. "Se plantarem, diz o sábio M.J.B. Soy, arvoredo em todo lugar, que ele pode nascer, sem prejudicar os outros produtos, o país ficará além de mais formoso mais salubre cujo multiplicação provocará abundantes chuvas, e o produto de suas madeiras, num país vasto, pode subir o valores consideráveis. É pois desta arte, e com este duplicado interesse que se tornaram menos sensíveis os ardentes Estios do nosso clima. - JOSÉ BONIFÁCIO DE ANDRADA E SILVA - Representação enviada à Assembléia Constituinte, nos idos de 1823.
Há poucos dias, irritado com a desumanidade de um dono de dois grandes bois nelores, amarrados a pastar (sem o socorro de uma sombra, nem, sequer, um balde água para beber), vi-me na contingência de ir à cata do dono dos animais e "passar-lhe um sabão". Afinal, os bichos estavam indefesos, sob o calor inclemente e me olhavam como quem está a pedir socorro. Felizmente, o sujeito entendeu minha indignação e providenciou, sem reagir à minha "malcriação", a remoção dos animais, não sei para onde. Se tivesse readido, eu estava disposto a denunciá-lo aos encarregados, na administração pública, de proteger aqueles seres sencientes.
A importância das sombras, segue presente em algumas manifestações literárias abaixo, colhidas de leituras rotineiras:


- A quentura do sol batia na terra e Kino e Juana passaram para a sombra rendilhada das árvores, enquanto andavam por perto passarinhos cinzentos que também procuravam a sombra. - JOHN STEINBECK - A pérola.
- Ficava longe da estação, numa rua improvisada, mal delineada pelas casas escassas que se erguiam, tendo de permeio terrenos baldios, onde cresciam árvores de capoeira de certo porte. Por toda à parte, jaqueiras, mangueiras, sebes de maricás, além das essências silvestres de que falei, enfim, muita árvore e muita sombra doce e amiga. - LIMA BARRETO - O cemitério dos vivos.
Bem mais recentemente, uma curiosa avaliação apontou para uma via de Porto Alegre/RS, como a rua mais bonita do mundo. Discorrendo sobre os predicados daquele logradouro público, o jornal Diário de Pernambuco, assim se manifestou:
"(...) Um efeito climático que transforma o espaço urbano - Pesquisadores vêm estudando há anos o impacto das mais de cem árvores que cobrem a via. A copa contínua reduz significativamente a temperatura em relação ao restante do bairro, melhora a qualidade do ar e cria abrigo natural para aves e outros pequenos animais. O ambiente sombreado e o tráfego reduzido estimulam o uso da rua como espaço de convivência, favorecendo deslocamentos a pé e um ritmo mais tranquilo dentro de uma região central.(...)"
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