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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

JONES MANOEL, UM AUTÊNTICO



Pré-candidato a deputado, Jones Manoel avisa: ‘Se eles estão tendo problemas com o Glauber, comigo a coisa vai ser bem pior’

O militante do PCBR se filiou ao Psol enquanto seu partido ainda não cumpriu os requisitos para formalização junto ao TSE
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Jones Manoel pretende concorrer a deputado federal, mas não descarta nem mesmo candidatura à presidência| Crédito: Arquivo pessoal

Após ter enfrentado um processo que quase o levou à cassação do mandato, em ação que teve como protagonistas deputados do Centrão e da extrema direita, Glauber Braga (Psol-RJ) ainda pode ser visto por seus colegas na Câmara como um parlamentar moderado? Se depender de Jones Manoel, sim. O militante do PCBR se filiou ao próprio Psol para concorrer a deputado federal por Pernambuco em 2026, já que seu partido ainda não cumpriu as exigências do Tribunal Superior Eleitoral para ser lançado, e está otimista para que o Congresso volte a ter um parlamentar declaradamente comunista.

“Se a gente tiver um comunista no Congresso Nacional, a primeira coisa que vai acontecer é a direita e a extrema direita que odeia o Glauber Braga, achar o Glauber moderado, achar o Glauber calminho”, disse, bem humorado, ao BdF Entrevista, podcast do Brasil de Fato. “Se eles estão tendo problemas com o Glauber, comigo a coisa vai ser bem pior”, provoca.

Jones explicou ao programa o que é a filiação democrática, o acordo que permite que ele inscreva sua candidatura pelo Psol enquanto trabalha junto aos companheiros para viabilizar a futura inscrição do PCBR. O expediente, aliás, já foi adotado em outros momentos históricos da política brasileira, especialmente por partidos de esquerda.

Na conversa, ele deixou claro que há setores internos do PSOL que não concordam com a parceria, especialmente por ele se declarar abertamente como não lulista. Apesar disso, acredita que tem boas chances de a candidatura prosperar sem percalços e ele estar no Congresso a partir do ano que vem defendendo alternativas de esquerda para o país.

“Se tem uma coisa que o Brasil precisa é de um campo de esquerda radical. No Brasil não existe polarização. Você tem uma extrema direita reacionária que é radical no seu fascismo, e a gente não formou um polo de esquerda radical. Isso é indispensável, inclusive se a gente quiser reduzir, combater a influência da extrema direita na juventude brasileira, que cresce em ritmos acelerados. Só é possível fazê-lo com um campo de esquerda radical”, resumiu.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: Como funciona essa ferramenta da filiação democrática, uma questão que tem dado certa confusão na cabeça das pessoas. Você vai ou não vai para o Psol? Como funciona isso?

Jones Manoel: A filiação democrática é um instrumento histórico da esquerda brasileira usado há mais de 70 anos. Basicamente o seguinte: um partido ainda não tem registro eleitoral, por qualquer motivo que seja, e esse partido faz um acordo com outro partido que tem registro eleitoral para lançar as suas candidaturas.

O PCB, quando foi cassado no âmbito da Guerra Fria no governo do Eurico Gaspar Dutra, fazia filiações democráticas e lançava seus candidatos por outros partidos, dentre eles, mas não só, o PTB, do Jango e do Brizola.

Se a gente avança um pouco no tempo, nos anos 1980, a dissidência que saiu do PCB em torno do Luiz Carlos Prestes e foi ser abrigado no PDT, não eram trabalhistas: eram comunistas que faziam filiação democrática para lançar seus candidatos pelo PDT.

Ainda nos anos 1980, os verdes no Brasil, que apareceram seguindo muito a tendência que estava colocada no cenário europeu, faziam filiação democrática e lançavam candidaturas pelo PT. O PT nos anos 1990 foi um espaço para filiações democráticas, para várias correntes e organizações políticas que não tinham registro eleitoral.

Avançando ainda mais no tempo, depois que o Psol se constituiu, o Psol também foi um espaço para afiliação democrática de candidaturas de organizações que não têm registro eleitoral.

Então, o PCR, que depois criou a UP, antes de ter a UP, lançou candidatura via filiação democrática pelo Psol, pelo PDT, pelo PRTB.

O pessoal do MRT lançou candidatura via filiação democrática pelo Psol; o polo comunista Luiz Carlos Prestes, lançou candidatura via filiação democrática ao Psol.

Então, basicamente: o PCBR ainda não tem o seu registro eleitoral, mas gostaria de participar das eleições. Busca-se um acordo político com o Psol para lançar a nossa candidatura a deputado federal por Pernambuco pelo Psol.

Eu serei candidato do Psol, mas não militante do Psol. Eu não estou entrando no Psol para disputar o Psol, para participar dos congressos, das disputas de correntes. Eu continuo militante do PCBR e estaria no Psol para ser candidato, para ter a oportunidade de disputar as eleições de 2026. Em síntese, é isso.

E como estão as negociações com o Psol?

O Psol é um partido-corrente, ou tendências, como a gente fala na linguagem clássica da esquerda. A maioria das correntes e tendências manifestam uma posição positiva por um acordo que, diferente do acordo Mercosul e União Europeia – que é péssimo para uma das partes, no caso o Brasil – esse é um acordo ganha-ganha. O PCBR tem o ganho político de conseguir lançar a sua candidatura e, caso sendo positivo, ter um militante no parlamento burguês, que vai fazer uma agitação do programa do partido, que vai ter um tribuno do povo, usando outros termos clássicos de Lenin, para fazer as denúncias, para organizar a classe trabalhadora, para fazer inclusive a própria denúncia do caráter burguês, do Estado burguês, no âmbito do Estado Burguês; para potencializar o crescimento do movimento comunista no Brasil, etc.

O Psol também tende a ganhar porque o Psol tem o desafio de superar a cláusula de barreira, e a gente acredita que nossa candidatura vai ajudar nisso. O Psol nunca elegeu um deputado federal por nenhum estado do Nordeste brasileiro, então teria fortes possibilidades da gente ser o primeiro. E o Psol, aqui em Pernambuco, tem um desafio muito interessante e importante, que é fugir da polarização entre João Campos e Raquel Lyra e tentar criar um terceiro campo, um campo mais de esquerda.

O Psol já colocou a pré-candidatura ao governo do estado do Ivan Moraes, e seria bom para a chapa do Psol Pernambuco como toda a nossa candidatura, dada a repercussão, dada a capacidade de mobilização, de penetração em vários setores da sociedade. Então, o Psol ganharia a nível nacional, ganharia a nível local e o PCBR também.

Evidentemente, há alguns setores que são contra, e até agora as coisas não foram colocadas, infelizmente, de maneira explícita e aberta. O que a gente escuta a falar dos bastidores é que existem aqueles que são contra a filiação democrática porque o PCBR não é um partido lulista. O que é curioso, porque o apoio de várias alas do PSOL ao presidente Lula e a opção, por exemplo, por votar no Lula no primeiro turno, segundo o discurso oficial de justificativa é uma opção tática da conjuntura, não estratégica. Mais uma vez, sem querer entrar em linguajar de comunista ou de militante, só explicando, na cultura política das esquerdas, a ‘estratégia’ seria o que é essencial, o que define o centro do seu programa político. Já a tática seria as medidas, as ações que você tem que tomar em cada conjuntura. O que é essencial é a estratégia.

A tática, ela é secundária, é um meio para você ir concretizando a estratégia. Como o PSOL é um partido que no seu programa se apresenta como um partido socialista, e o PT não é socialista, o lulismo não é uma corrente, é, por assim dizer, político-eleitoral socialista, o apoio ao Lula seria um apoio tático. E aí tudo bem, a gente discorda na tática, isso é normal. Inclusive a filiação democrática, ela tem como pressuposto um acordo político entre organizações que diferem em vários aspectos. Agora, é difícil entender esse argumento porque ele entra em contradição com algumas coisas. ‘Ah, teria um problema com a filiação democrática porque o PCBR não é lulista’; e eu não sou lulista também, enquanto militante do PCBR, além da leitura que eu tenho do que é o lulismo no Brasil e do terceiro governo Lula.

Isso entra em contradição com dois argumentos. Primeiro argumento: é dito na esquerda brasileira que a grande batalha já ser travada é pelo Congresso Nacional, que é preciso renovar o Congresso. Todo mundo que entende de eleição tem uma perspectiva positiva da nossa candidatura aqui em Pernambuco, e aqui não estou fazendo discurso de ‘já ganhou’, porque isso não existe em eleição. Eleição é decidida quando abrem-se as urnas e começam a contar os votos, mas a perspectiva é positiva de ser eleito. Então tenho dificuldades de entender: se o argumento é que tem que mudar radicalmente e emergencialmente o Congresso Nacional, porque vai se abrir mão de uma candidatura que tem potencial de ganho?

Segundo, eu tenho dificuldade de entender o argumento, ainda mais quando, por exemplo, amplos setores do PSOL ofereceram uma filiação democrática para a Marina Silva. A Marina Silva é liberal. É progressista, democrática? Beleza. Mas a Marina Silva é liberal, inclusive na campanha a presidente dela em 2014 e 2018, a Marina Silva defendeu um programa econômico abertamente liberal, inclusive defendendo a autonomia do Banco Central. Então, se dá para fazer uma afiliação democrática de uma candidatura liberal, qual é o argumento de não fazer uma afiliação democrática de uma candidatura comunista? Só porque eu não sou lulista? Então, é mais grave não ser lulista que ser liberal e defender, dentre outras coisas, a autonomia do Banco Central? Acho que são argumentos que, se a gente for fazer uma análise fria, eles não se sustentam.

Porém, a gente tem uma avaliação de que o resultado final vai ser positivo. Eu acho que para a sociedade brasileira, vai ter uma pressão… pressão é uma palavra ruim, não é? Vai ter uma demanda para que esse acordo político se concretize, a filiação democrática aconteça, a candidatura saia e com a graça de Marx e todos os santos seja vitoriosa a gente volte a ter um comunista no Congresso Nacional.

Se a gente tiver um comunista no Congresso Nacional, como vai ser a atuação dele?

Se a gente tiver um comunista no Congresso Nacional, a primeira coisa que vai acontecer é a direita e a extrema direita que odeia o Glauber Braga, achar o Glauber moderado (risos). Achar o Glauber calminho. Se eles estão tendo problemas com o Glauber, comigo a coisa vai ser bem pior.

Uma das coisas que falta no grosso da esquerda brasileira nos últimos anos é falar sem medo do socialismo, da revolução brasileira, de enfrentar os interesses estratégicos da classe dominante. É não ter medo de fazer a crítica direta ao agronegócio e defender a reforma agrária; de falar abertamente da necessidade de reestatizar os setores estratégicos da economia e reverter as privatizações; de acabar com a privatização do Banco Central, chamada de “autonomia do Banco Central” e baixar essa taxa de juros, que é uma taxa de juros de acima das de agiotas, de 15% ao ano; de colocar em perspectiva real a transformação de serviços públicos para que o Brasil deixe de ter coisas como, por exemplo, analfabetismo, coisas como as insuficiências crônicas do SUS; enfrentar na prática o programa neoliberal com, por exemplo, sua ideologia de austeridade fiscal e fazendo um debate real sobre passe livre no Brasil, mas não é passe livre com o governo dando subsídio para as empresas de transporte: é estatizar os transportes coletivos nas regiões metropolitanas do Brasil, estabelecer um sistema realmente público com controle popular, com passe livre e com boas condições de trabalho para os rodoviários e rodoviárias.

Ou seja, alguém que consegue falar o que é essencial para dar resposta para os problemas da classe trabalhadora, apresentar de fato as soluções sem ter medo de melindrar os setores poderosos da sociedade capitalista brasileira, sem ter compromisso, rabo preso, rabo de palha com a elite econômica e a elite política, colocando sempre uma perspectiva de enfrentamento aos interesses do capital.

Aliado a isso, fazer ainda mais do mandato – e eu digo ainda mais porque tem vários deputados e deputadas no Congresso Nacional que já fazem isso, a exemplo do próprio Glauber Braga, a Fernanda Melchionna, a Sâmia Bonfim, o Tarcísio Motta. Fazer ainda mais do mandato um instrumento de luta da classe trabalhadora.

Neste momento, por exemplo, a gente está numa campanha junto aos trabalhadores e trabalhadoras demitidos da Eletrobras pela reversão do veto presidencial ao projeto de lei 1791, que foi aprovado no Congresso Nacional e que garante que os 20 mil trabalhadores e trabalhadoras demitidos da Eletrobras sejam reaproveitados em outras empresas públicas. O presidente Lula foi lá e vetou. A maioria dos deputados federais ditos progressistas, salvo exceções, como Fernanda Melchionna, Heloísa Helena, Sâmia Bonfim, ficou calado sobre esse veto. A gente, como deputado, os trabalhadores e trabalhadoras da Eletrobras, não precisariam nem pedir. A gente, de cara, se colocaria contra esse veto e faria não só a defesa da aprovação desse projeto de lei, como estaria em permanente campanha pela reestatização da Eletrobras.

Se tem uma coisa que o Brasil precisa é de um campo de esquerda radical. No Brasil não existe polarização. Você tem uma extrema direita reacionária que é radical no seu fascismo, e a gente não formou um polo de esquerda radical. Isso é indispensável, inclusive se a gente quiser reduzir, combater a influência da extrema direita na juventude brasileira, que cresce em ritmos acelerados. Só é possível fazê-lo com um campo de esquerda radical.

O PCBR é um partido que surgiu a partir da expulsão de uma série de militantes do PCB, inclusive você. E eu queria perguntar por que nasceu a ideia de criar mais um partido, e não se filiar à UP ou até se filiar a uma corrente mais radical dentro do Psol?

O racha no PCB foi motivado por uma perseguição administrativa feita por um setor do partido que controlava os postos estratégicos: secretaria-geral, Secretaria de Organização. Não foi escolha nossa. A gente não queria sair do PCB, ser expulso do PCB. A gente foi expulso a partir do controle da máquina administrativa.

E aí, por que criar uma organização nova? Porque a gente tem discordâncias com a UP, por exemplo. A gente não tem o mesmo programa político, a gente não tem a mesma compreensão do Brasil, a mesma compreensão do cenário internacional ou de conjuntura, e isso se expressa, inclusive, neste momento.

Só para dar um exemplo: o PCBR fez um chamado para as organizações de esquerda radical no Brasil construírem uma mesa de unidade em torno de uma candidatura de esquerda radical no primeiro turno em 2026. A UP é uma das organizações que se mostra mais resistente a construir essa unidade. A UP tem uma lógica política, em vários momentos, de autossuficiência, de verdadeiro sectarismo, que dificulta vários processos de unidade de luta. Então, não dava. Além do que a UP não permite, no seu estatuto, a entrada de grupos políticos. A UP filia indivíduos, não grupos. Então, é proibido pelo estatuto da UP, por exemplo, que um grupo político constituído se incorpore ao partido, teria que fazer um debate político sobre fusão.

Sobre entrar em alguma corrente mais radical do Psol, nós temos uma leitura muito particular. O PCBR é uma organização marxista-leninista. O Psol tem correntes marxistas, como é o caso do MES, o movimento de esquerda socialista, o Fortalecer, mas são correntes que têm uma perspectiva teórica ligadas ao trotskismo, fazem referência a Leon Trotsky, que foi um dos líderes da Revolução Russa e criador e chefe militar do Exército Vermelho por alguns anos. Nenhum problema em fazer aliança política, em construir unidade de ação com trotskista, pelo contrário, quem é menos sectário é a gente. Mas é uma leitura diferente. São tradições diferentes dentro do marxismo.

Isso não impede que a gente construa a unidade de ação, a gente tem o mesmo objetivo final comum, que é a construção do socialismo no Brasil, mas temos compreensões de mediação prática diferentes. Então, não era possível, naquele momento, fazer uma fusão ou fazer uma entrada em alguma organização já existente. Por isso, a opção de constituir um partido político próprio e tentar ser um instrumento para potencializar a reorganização do movimento comunista e da classe trabalhadora no Brasil.

O horizonte da esquerda radical é a revolução, e, para uma revolução acontecer, é preciso um movimento de massa. Como a gente chega nesse movimento de massa com uma esquerda radical tão rachada em diversos partidos e correntes, e que não consegue uma unidade?

Eu acho que todas as revoluções, antes do decolar do processo revolucionário, a esquerda não estava unificada. Vamos pegar um exemplo clichê, a Revolução Russa. Quando começa o protesto das tecelãs, no começo de 1917, o movimento operário russo estava numa série de contradições, porque a maioria da Segunda Internacional tinha aderido à guerra imperialista, então cada sessão nacional da Segunda Internacional estava apoiando a sua burguesia na guerra. Existe uma profunda divisão no movimento operário russo, diversas correntes: socialistas revolucionários, bolcheviques, mencheviques, anarquistas, populistas, etc. O movimento não estava unificado. Ele se unificou sob a direção dos bolcheviques no contexto de ascenso das lutas operárias, camponesas e também de soldados no contexto da guerra. Numa situação revolucionária, os bolcheviques conseguiram ser a liderança.

A mesma coisa a gente pode falar da Revolução Cubana, só para ficar um outro exemplo bem clichê, bem mais próximo da gente. A Expressão Popular recentemente lançou o livro da Vânia Bambirra, Revolução Cubana: Uma Reinterpretação.

Nesse livro, que é talvez o livro mais brilhante já escrito por uma brasileira sobre a Revolução Cubana, a Vânia mostra como existia uma diversidade gigantesca de organizações políticas que se propuseram a derrubar a ditadura e o domínio neocolonial dos Estados Unidos sobre Cuba, e que elas não se unificavam: elas só se unificaram sob a liderança da guerrilha comandada por Fidel Castro depois de um longo processo de maturação, lutas e derrotas.

Então, a gente vê com muita tranquilidade a diversidade de organizações de esquerda. Isso não é uma novidade histórica. Qual é o “x” da questão? É que a gente não faça da diversidade um impedimento para a unidade de ação. A gente não pode dizer: “Ah, você é trotskista, eu sou estalinista”, e por causa disso a gente não construir uma ação conjunta pelo fim da escala 6×1. Isso é inaceitável.

O problema da esquerda brasileira não é ser fragmentada do ponto de vista organizacional, é ter pouca capacidade de unidade de ação, de construção de diálogo, de mesa de debate, de unidade de ação, de frente de ação para as lutas concretas da classe trabalhadora. Divisão, sempre vai ter. Diversidade de organizações, sempre vai ter. E isso até positivo. Se há uma grande organização hegemônica que manda em tudo de norte a sul do país, quando essa organização hegemônica tende para uma degeneração social-liberal ou liberal, ela pode arrastar a classe trabalhadora inteira, que é o que aconteceu com o PT, diga-se de passagem. Então, ter uma certa diversidade de organizações é até bom, do ponto de vista de que se uma organização tiver um desvio à direita, isso não significa necessariamente que isso vai ser uma realidade para toda a classe trabalhadora do Brasil. A questão é a unificação na ação política e na capacidade de construir pontes e programas comuns.

O PCBR é um partido de vanguarda? Explica para a gente esse conceito, por favor.

De maneira bem didática, na ideia de Lenin, o que é um partido de vanguarda? A classe trabalhadora, nas suas lutas imediatas, ela se defronta com luta por melhores condições de trabalho, salário, por políticas públicas, por um posto de saúde, por uma creche, para melhorar a coleta de lixo, por aí vai.

A classe trabalhadora está na luta econômica. Essa luta econômica não necessariamente toma a dimensão política, da luta pelo poder do Estado, da luta pela ditadura do proletariado ou o poder popular, da luta pelo socialismo. É papel de um partido de vanguarda, inserido organicamente nessas lutas, potencializar a luta e a organização da classe trabalhadora no sentido de passar de uma consciência de lutas meramente econômicas para uma luta política no sentido de conquistar o poder do Estado.

Nesse sentido, como se referencia na tradição marxista-leninista, o PCBR busca ser um partido de vanguarda para potencializar, contribuir, aprender e avançar na organização da classe trabalhadora, desenvolvendo uma consciência revolucionária. Isso é o que está no programa do partido.

Particularmente, eu não gosto do título “partido de vanguarda”, porque ele virou um rótulo autoelogioso. O partido de vanguarda é uma realidade fática frente ao processo histórico. O que eu quero dizer com isso? Você pode se autoproclamar um partido de vanguarda, mas você só o é verdadeiramente quando você é vanguarda de um processo revolucionário. Então, todas as organizações de vanguarda são enquanto potencial: se proclamam, querem ser, gostariam de ser. A gente vai ver, no caso histórico, se é realmente uma organização de vanguarda no sentido leninista, depois que a revolução for feita, depois que a tomada do poder acontecer.

Então, de maneira objetiva, o Partido Comunista Chinês, que liderou uma revolução e tomou o poder político, ele pode se colocar como uma organização de vanguarda, porque ele foi foi objetivamente na história, no processo histórico chinês, uma organização de vanguarda. No Brasil, nenhum partido comunista liderou uma revolução, então nenhum partido comunista no Brasil é uma organização de vanguarda, no sentido mais preciso da palavra. Vai sê-lo no processo revolucionário, quando a tomada do poder acontecer.

Como está o processo de conseguir as assinaturas para fundação do partido?

O TSE fez mudanças recentes que tornaram uma coisa muito draconiana. Você tem só dois anos para recolher todas as assinaturas. Se você não recolhê-las dois anos, vence o pedido de registro e você começa tudo de novo. É um prazo muito, muito diminuto.

A gente está num processo de estruturação de um plano nacional de legalização. A gente não lançou ainda a coleta de assinaturas, porque a gente acha que, quando a gente lançar essa coleta, a gente precisa ter condições objetivas de concluir essa coleta em dois anos, e hoje existe o risco de a gente não conseguir as mais de 500 mil assinaturas em dois anos. A ideia é, passado a eleição de 2026, tendo um resultado positivo, inclusive, elegendo o comunista Jonas Manoel em Pernambuco, o partido vai ter melhores condições, inclusive de estrutura, para colocar a campanha na rua e garantir que em dois anos a gente vai conseguir atras mais de 500 mil assinaturas para legalizar o partido.

Então, a gente está estruturando um plano nacional de legalização do partido, mas a gente ainda não colocou a campanha na rua, porque para colocá-la precisamos ter garantia, fazer uma análise fina, muito científica das nossas forças de que a partir do momento que a gente lançou na rua, a campanha de coleta de assinaturas, a gente tem condições de bancar em dois anos. Isso está quase lá, mas não chegou ainda.

A ideia inicial era você ser candidato à presidência, mas sem o registro no TSE do PCBR, isso acabou inviabilizado. Você acredita que ainda tem chance de nascer uma candidatura unificada de esquerda radical para a presidência nessas eleições ou isso já está descartado?

Eu acho que é uma necessidade, ter uma candidatura de esquerda radical no primeiro turno. Dentre outras coisas, porque, só com muita simpatia, mas com muita simpatia mesmo, alguém pode chamar a candidatura do Lula de ‘esquerda’. O Lula não vai falar, por exemplo, da reestatização das refinarias privatizadas da Petrobras. Se falar, vai ser uma vez ou outra. Inclusive foi promessa de campanha no passado que ele não cumpriu. Lula não vai falar da reestatização da Eletrobras, que inclusive o governo dele desistiu da demanda. O Lula parou de falar de reforma agrária. Inclusive, eu vi, no Brasil de Fato, uma matéria há uns dois meses, comparando o nível de vezes que o Lula citava a reforma agrária no primeiro e no segundo mandato e agora [Jones faz alusão à reportagem publicada em julho de 2025 em que o MST cobrou que a agenda da reforma agrária fosse prioridade para o governo federal]. Lula parou de falar de reforma agrária. Recentemente, o João Pedro Stédile deu uma entrevista em que ele falava que o governo não estava fazendo nada pela reforma agrária.

O Lula acabou de assinar um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que é uma tragédia para a soberania nacional brasileira, para qualquer perspectiva de reindustrialização do Brasil. Todos esses temas não vão ser debatidos no processo eleitoral se a única candidatura progressista, de esquerda, com muita simpatia, for do Lula. A gente precisa de uma candidatura de esquerda radical.

O PCBR vem trabalhando para isso, o PCBR vem tentando construir uma mesa de diálogo nacional com diversas organizações, com e sem registro eleitoral, para fazer esse debate com uma candidatura unificada. É difícil? É muito difícil, porque é muito sectarismo. Porque há briga pelo pequeno poder, quem vai ser cabeça de chapa, quem vai formalmente dirigir o processo sendo cabeça de chapa.

O mais importante, me parece, seria estruturar uma campanha que tenha realmente repercussão. É claro que, onde o Lula é candidato, o espaço para uma outra alternativa identificada com a esquerda fica menor. Isso é óbvio. Mas é possível fazer uma campanha com repercussão na casa de vários milhares e alguns milhões, quem sabe, dialogando diretamente com o setor da juventude e da classe trabalhadora, desde que se faça uma boa campanha. Uma campanha que esteja no século XXI, que tenha aprendido o básico da comunicação digital, que seja uma campanha arejada, com debates e propostas que toquem na realidade no cotidiano da classe trabalhadora. A gente não está na União Soviética, nem no Brasil dos anos 60 ou 70. Aquelas campanhas eleitorais do Partido Comunista, que o candidato está sentado numa biblioteca de uma sala, de uma casa muito chique, aí tem uma sala gigantesca, uma biblioteca no fundo, um hino da União Soviética tocando, ele falando ‘tem que estatizar tudo’… Esse tipo de campanha não toca ninguém, objetivamente. Os resultados eleitorais do passado estão aí para mostrar.

Eu acho que é uma necessidade da história da luta de classes no Brasil. A gente vem trabalhando para essa construção de unidade, mas é difícil sair. Eu espero um resultado positivo. De toda forma, se essa candidatura da esquerda radical não sair, aí fim do ano a gente vai ter um debate muito interessante, muito gostoso, muito polêmico para fazer, porque as responsabilidades vão ter que ser cobradas.

A gente vive um momento de ascensão do fascismo. Bolsonaro agora está fora, está preso, mas tem os filhos do Bolsonaro, tem outras pessoas que disputam o legado bolsonarista, como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Ratinho Junior, uma série de atores. Não é arriscado dividir o progressismo nesse momento histórico?

Eu acho uma boa reflexão, mas vamos pensar por outro prisma. A gente está enfrentando a extrema direita na eleição. Cada voto que não for para a extrema direita, eles se enfraquecem. É matemática básica: a extrema direita quer ganhar a eleição. Cada voto que você tirar deles, significa que eles estão mais fracos eleitoralmente. Mesmo que o voto não vá, por exemplo, para o Lula.

Então, se tem uma candidatura da esquerda radical que, por exemplo, tira votos da juventude, que ia votar na extrema direita, mas passa a votar na esquerda de esquerda radical, isso enfraquece a extrema direita. Isso é objetivo, não é opinião.

Vamos dialogar três insuficiências do governo Lula: a popularidade do Lula na juventude é baixíssima. As pesquisas eleitorais vêm captando uma percepção de conservadorismo na juventude. A juventude tem uma inclinação a apoiar candidaturas da extrema-direita que têm aparência disruptiva, antissistêmica. O Sidônio pode fazer a mágica que for, a candidatura do Lula não vai conseguir nos próximos seis meses reencantar essa juventude. Se a gente não tiver uma candidatura da esquerda radical, isso pode consolidar essa juventude como braço eleitoral ideológico da extrema direita.

Por outro lado, há setores das camadas médias e trabalhadores de melhor salário, em todo o Brasil, mas particularmente no Sul e no Sudeste, que não querem votar no Lula. Isso não vai mudar. Por causa de questão de acúmulo, desgaste, denúncia de corrupção, por causa de propaganda ideológica da mídia burguesa, mas também, porque a desindustrialização brasileira caminhou em ritmo acelerado durante os cinco governos petistas e isso teve um impacto muito grande na geração de emprego, de renda, de qualidade de vida em várias cidades e regiões do Sul e do Sudeste brasileiro.

Ter uma candidatura de esquerda radical que fizesse um debate, por exemplo, sobre a desindustrialização brasileira; sobre a destruição da complexidade produtiva; de empregos qualificados; sobre o rentismo; sobre a taxa de juros no Brasil; sobre o domínio dos bancos e o cartel bancário, cinco bancos concentram 80% do mercado bancário brasileiro e por aí vai; poderia pegar esses votos que estão indo para a extrema-direita e não vão para o Lula.

Então eu acho que esse argumento é meio simplista, porque ele desconsidera que qualquer voto tirado da extrema-direita enfraquece a extrema-direita. Mesmo que esse voto não vá para o Lula no primeiro turno, mas enfraquece a extrema-direita, porque é um voto a menos. Eu acho que esse elemento que precisa ser considerado.

Você acredita que é possível tirar o voto da extrema direita e passar para esquerda radical?

Cem por cento! Totalmente! Uma das provas disso é que todos os dias quando eu estou em atividades de rua, não tem um santo dia que eu não encontre jovens, mas não só jovens, que dizem que eram do MBL, eram simpáticos à extrema-direita, eram ‘incels’, e deixaram de ser acompanhando o meu conteúdo.

Uma anedota, mas uma anedota, para mim, significativa. Ontem o padre Fábio Marinho, de Minas Gerais, me ligou. Eu não estava disponível para atender no momento, aí depois a gente se falou. O padre estava na delegacia resolvendo uma questão, e me ligou porque estava conversando com policiais que acompanham o meu canal, leem meus livros, acompanham o debate que a gente faz, concordam, defendem, são, entre aspas, ‘fãs’, e aí comentaram com o padre: ‘Padre, o senhor conhece o Jonas Manoel, eu já vi que vocês conversaram no Três Irmãos Podcast, a gente gosta muito dele’, e o padre me ligou para eu falar com os policiais. É um ambiente que gera a expectativa de ser de direita, bolsonarizado, e tem muita gente ouvindo, curtindo, gostando de um debate comunista. Se você perguntar para esses policiais, é provável que a maioria deles estavam inclinados à direita e deixaram de estar.

Quando a gente faz disputa ideológica, isso dá resultado. Eu acho que o próprio crescimento que a gente teve nos últimos tempos enquanto figura pública, é prova que a disputa político-ideológica dá resultado. As pessoas que passaram a me acompanhar, referenciar, comprar os livros, ir para as atividades, se organizar no PCBR, não era só gente que era progressista e virou de esquerda radical. Tem muita gente que era liberal ou era de direita e fez um processo de transformação ideológica.

Parece que a esquerda sempre precisa moderar seu discurso para chegar ao poder, enquanto a extrema direita, quanto mais eleva o tom, parece que mais cresce. E aí, talvez, a solução seja não moderar o discurso, e, sim, ir para um discurso mais radical.

Tem um elemento de tática eleitoral, é que o Brasil vive um clima estranho, a gente perdeu o básico. Por exemplo, quando o Psol tinha candidatura a presidente, isso ajudava o PT, objetivamente. O Psol fazia um discurso mais à esquerda, dava um certo nível de politização à esquerda e isso criava um ambiente cliente melhor, inclusive, para o PT fazer sua tática eleitoral.

A gente teve eleição no Chile, e foi muito curioso. O candidato vitorioso, o [José Antônio] Kast, ele é um cara de histórico nazista. Ele foi para as eleições como um cara da extrema direita, o “Bolsonaro chileno”, inclusive, como foi apelidado. Só que na eleição do Chile, tinha um cara ainda mais à direita que ele, o [Johannes] Kaiser. Ele era tão de extrema direita, que isso beneficiou o Kast, ele pareceu moderado. Ele pareceu até uma direita mais racional, civilizada, e por aí vai. Isso fortaleceu bastante ele nas eleições do Chile.

A gente viu isso em São Paulo. O Ricardo Nunes foi uma benção na vida dele o Pablo Marçal. A candidatura do Pablo Marçal deu a Ricardo Nunes um ar de moderação, um ar de racionalidade que ele tentou construir e não conseguiu. Foi simplesmente o Pablo Marçal brotar nos debates que você olhava para o Ricardo Nunes e pensava: “Esse aí é ladrão, é privatista, mas pelo menos ele come de garfo e faca”.

Trazer um elemento de um campo mais radical que puxe o debate à esquerda, inclusive de maneira até involuntária, ajuda o campo progressista ou a centro-esquerda, como quiser chamar, do ponto de vista eleitoral. Isso é óbvio, porque a direita e a extrema-direita bota 300 candidatos. Alguém acha que o Renan Santos está entrando na eleição para ganhar? Que o Aldo Rebelo está entrando na eleição para ganhar? Que o Romeu Zema está entrando na eleição para ganhar? Esses caras, se forem candidatos, eles não estarão ali para ganhar. Estarão ali para fortalecer a disputa político-ideológica à direita e à extrema direita e para azeitar o campo para a tática política daquele que vai ser o jogador principal desse campo, que vai ser o Flávio Bolsonaro, o Tarcísio ou qualquer outro.

Há dez anos, isso era meio óbvio. Só que o Brasil vive um fenômeno engraçado, que coisas que eram óbvias deixaram de ser óbvias.

Se não tiver uma candidatura da Esquerda Radical, o PCBR vai apoiar o Lula no primeiro turno?

Não sei. Muita coisa pode acontecer daqui para lá. Pode ser que eu seja candidato, seja eleito. Imagina que coisa, você ir a posse de um comunista em 2027. Tem muita coisa em aberto. O cenário começou agora, a gente está em janeiro de 2026. Acho que não é para especular ou debater sobre “se”, até porque se for para especular sobre “se”, tem vários “ses”. Um “se” muito mais divertido é um comunista ser eleito e aí finalmente a gente vai ter um presidente que cumpre promessa de campanha e que não apoia teto de gastos, austeridade e privatizações. Vamos ver o cenário se configurar primeiro, para depois a gente tomar a deliberação política.

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