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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

PIPOQUEIROS, PILANTRAS E PUSILÂNIMES


Estilhaços do trumpismo

Há razões para se preocupar quando líderes mundiais “lúcidos” se posicionam nas mesmas trincheiras de adversários da democracia
Marina Slhessarenko Barreto, de Berlim|13 jan 2026_16h35


“Podem tentar, mas não vão conseguir merda nenhuma”, disse o então chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos[1], Mark Milley, sobre as intenções de Donald Trump e sua entourage de dar um golpe ao final do primeiro mandato da era laranja (2017-2020). Milley segurou as rédeas de golpistas institucionalizados no alto governo norte-americano e frustrou as expectativas de esbórnia institucional, como escreveu Fernando de Barros e Silva nesta piauí em 2021.

Poucos anos depois, Dan Caine, o novo ocupante do cargo, congratularia a meticulosidade da “extração” ocorrida na Venezuela, com tintas de golpe de Estado. Caine poderia muito bem estar falando de um dente, mas o contexto não deixava dúvidas, a despeito da escolha questionável de vocabulário. Tratava-se da extração do presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores.

E aqui cabe uma nota: Caine, que se autodeclara “empresário em série e investidor” na bio da Força Aérea, é CEO da empresa de consultoria de segurança nacional Caine Group. Ele chegou a dizer que tal empreendimento só foi possível graças aos aprendizados de décadas de missões norte-americanas pelo mundo e pela competência inigualável das forças armadas de seu país. Um negócio, portanto, que deslanchou no embalo das guerras do Iraque (2003-2021) e do Afeganistão (2001-2021), da invasão da Líbia (2011), do sequestro do general panamenho Manuel Noriega (1990), da invasão de Granada (1983), além de tantos outros mais.

Ainda que de Milley a Caine os instintos democráticos tenham despencado alguns quilômetros, trata-se de um solavanco em território americano. Mais estranhas, preocupantes – e frustrantes, ainda que não surpreendentes – foram as reações dos outros chefes de Estado ao atentado contra a autodeterminação venezuelana.

Kaja Kallas, vice-presidente da Comissão Europeia, inaugurou o bonde negacionista. Às 7h53 do dia 3 de janeiro, relatou em um post ter conversado com o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio – filho de pais cubanos que migraram à Flórida durante a ditadura de Fulgêncio Batista – e a embaixadora da União Europeia na Venezuela. No post de 424 caracteres (quase todo gerado por inteligência artificial, segundo o detector Humalingo), Kallas reiterou ter afirmado “repetidamente que o Sr. Maduro carece de legitimidade” e que “defendeu uma transição pacífica”. Acrescentou: “Em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e a Carta da ONU devem ser respeitados. Apelamos à moderação”, além de afirmar que “a UE está monitorando de perto a situação na Venezuela”. Gilberto Kassab não teria sido capaz de ser tão sabonete.                                                           

O monitoramento “de perto” foi secundado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, da União Democrata-Cristã (CDU, mesmo partido do atual chanceler alemão Friedrich Merz). Ela disse: “nós ficamos ao lado do povo da Venezuela e apoiamos uma transição pacífica e democrática.”

No dia seguinte, Kallas, que também é a Alta Representante da UE para política externa e política de segurança, lançou um pronunciamento. Ela e os 27 países membros da UE rogam por “calma e contenção de todos os atores, para evitar escalada e assegurar uma solução pacífica para a crise”. Na nota, também “lembra” – o verbo aqui é importante, porque falta combinar a lembrança com os russos ou israelenses, por exemplo – “que em todas as circunstâncias, os princípios do direito internacional e a Carta da ONU devem ser respeitados”. Além disso, “todos os atores devem respeitar totalmente os direitos humanos e o direito internacional humanitário”.

Entre um posicionamento e outro, vários representantes europeus procrastinaram para responder ao acontecimento. Emmanuel Macron, o mesmo presidente da França que nos últimos anos trocou de primeiro-ministro como quem troca de gravata, não apontou um dedo para os Estados Unidos em seu pronunciamento. Disse que “o povo venezuelano se livrou da ditadura de Nicolás Maduro e só pode celebrá-lo”. Afirmou ainda que uma transição de poder deve ser “pacífica, democrática e respeitosa da vontade do povo venezuelano”. Em seguida, “nós sugerimos que o presidente Edmundo González Urrutia, eleito em 2024, possa assegurar essa transição o mais rápido possível”. Faltou esclarecer quem somos “nós”.

Macron concluiu a nota com um “a França está plenamente mobilizada e vigilante”. Em seguida, voltou à programação normal: cortar a tradicional Galette des Rois (um tipo de torta tradicional) de cerca de 24 kg, divididos em duas receitas, para 36 pessoas ao som de música eletrônica. Com ressalva importante: a torta não continha a tradicional fève, um brinde que geralmente é uma pequena peça de cerâmica ou porcelana, podendo ser um boneco ou até um anel, e dá sorte a quem ficar com o pedaço que o contém (e quase quebrar os dentes ao mordê-lo sem querer). O governo Macron, seguindo uma tradição iniciada por Giscard D’Estaing em 1975, manteve a eliminação da fève por não querer ser identificado com qualquer resquício da realeza local.

Friedrich Merz, o chanceler alemão empossado às pressas em maio de 2025 depois de fracassar para conseguir votos suficientes para sua eleição entre seus pares parlamentares, seguiu uma linha parecida. Começou afirmando que “Nicolás Maduro levou seu país à ruína” e seguiu dando cobertura à ação criminosa dos Estados Unidos, num estilo de invejar a mais sofisticada novilíngua dos anos 2026: “A avaliação legal da intervenção dos EUA é complexa e requer consideração cautelosa. O Direito Internacional permanece sendo o referencial orientador. Nesse estágio, a instabilidade política na Venezuela deve ser evitada.”

A avaliação legal, porém, é simples: é ilegal e contra todas as regras do direito internacional. Não há um jurista ou analista político sequer que tenha dado resposta desviante à pergunta sobre a licitude da ação de Trump no país latino-americano, seja na mídia impressa, audiovisual ou no rádio. Virou até enfadonho ouvir a pergunta “Was it legal?”.

À exceção dos líderes europeus que não se manifestaram publicamente a respeito, como o autodeclarado autocrata primeiro-ministro Viktor Orbán (Hungria) e o presidente Recep Tayyp Erdogan (Turquia) (que não reagiu de imediato, mas depois ligou para o presidente Trump a fim de expressar seu descontentamento), a novidade veio no campo da extrema direita europeia – e da esquerda sanchista espanhola. Pedro Sánchez, talvez o único líder europeu atual que ainda pode empunhar o rótulo de progressista[2], declarou que “a Espanha não reconheceu o regime de Maduro. Mas tampouco reconhecerá uma intervenção que viola o direito internacional e empurra a região a um horizonte de incerteza e belicismo”.

Giorgia Meloni, primeira-ministra italiana que acaricia neofascistas domésticos, mas joga com ambiguidade estratégica para se manter como entreposto entre autocratas europeus e a coalizão democrática decadente, foi em direção semelhante. Em timing combinado com o dos outros líderes da UE (von der Leyen postou às 10h14 de Brasília no X; Meloni, às 15h12; Macron, às 15h30; e Merz, o lanterninha, às 15h49), Meloni afirmou que “a Itália, junto com os principais parceiros internacionais [o que o adjetivo significa, é de se questionar] nunca reconheceu a vitória autoproclamada de Maduro”. Nesse contexto, “consistente com a posição histórica italiana, o governo acredita que ação militar externa não é o caminho para pôr fim a regimes totalitários, mas” – e a adversativa é infeliz dado o contexto – “ao mesmo tempo, considera legítima uma intervenção de natureza defensiva contra ataques híbridos a sua própria segurança, como no caso de entidades estatais que incentivam e favorecem o narcotráfico”.

Há exatos dois anos, em 07 de janeiro de 2024, a primeira-ministra se viu em uma sinuca de bico ao silenciar sobre uma manifestação neofascista ocorrida na Via Acca Larentia em memória de três jovens de extrema direita assassinados em 1978. Na ocasião, o partido de Meloni declarou que os manifestantes que se concentravam no local e performavam saudação fascista (a chamada “saudação romana”), passando da casa das centenas em vídeo viral que circulou nas redes sociais, eram militantes de grupos marginais. Meloni também acusou a esquerda de instrumentalizar o ocorrido para atacar o governo.

Poucos dias depois, a Suprema Corte de Cassação da Itália determinou que a saudação romana só é crime quando evocar “perigo concreto” de reorganização de partido fascista de acordo com os termos da Lei Scelba (de 1952, que proíbe apologia ao fascismo e a reorganização de partidos fascistas). No caso da manifestação de janeiro de 2024, porém, não haveria os elementos materiais necessários para caracterizar tal perigo. A corte também descartou a aplicação dos crimes de discriminação racial, étnica ou religiosa pelos termos da Lei Mancino (1993).

Em resumo: para a última instância de julgamento italiana, é tolerável à democracia a performance em massa de liturgia fascista em contexto de rememoração de mortos políticos a depender do contexto. Em janeiro de 2024, pois não ofereceu perigo “concreto” de insurgência política ou social.

A maior surpresa de posicionamento do bloco, porém, ficou com Marine Le Pen, líder de extrema direita francesa recentemente impedida de disputar eleições por cinco anos pelo uso indevido de fundos públicos. Le Pen, que já havia se saído muito bem nas eleições de 2022 contra Emmanuel Macron (abocanhou expressivos 41,5% dos votos), era cotada como sucessora da paralisia macronista. Com a decisão de inelegibilidade em 2025, porém, Le Pen prepara seu sucessor Jordan Bardella — ou candidato-tampão até que uma anistia os separe.

Seu posicionamento a respeito da situação na Venezuela, porém, surpreendeu até as línguas russas (suas aliadas de primeira hora). Seu pronunciamento no X foi muito mais ligeiro (publicado cerca de 5 horas antes) e assertivo do que o de líderes do establishment europeu.

Em suas palavras, “existiam mil razões para condenar o regime de Nicolás Maduro (…). Mas existe uma razão fundamental para se opor à troca de regime que os Estados Unidos acabaram de provocar na Venezuela”. Ela é a “soberania”. De fato, a soberania pode ser questionada como razão única ou principal para o repúdio ao imperialismo norte-americano. Para efeitos de condenação da invasão, contudo, serve de bússola aqui até mesmo para cabeças antidemocráticas. Le Pen concluiu seu pronunciamento esperando que “a palavra seja devolvida o mais rápido possível ao povo venezuelano. A eles cabe retomar o poder de definir, soberana e livremente, o futuro que deseja se dar como nação”.


O ouro do pronunciamento mais rápido, porém, ficou com Nigel Farage, o extremista que deixou Liz Truss (a premiê que durou menos do que um pé de alface no poder) no chinelo. Logo depois da Europa descobrir o ataque norte-americano à Venezuela, Farage publicou no X: “As ações americanas na Venezuela na madrugada são heterodoxas e contrárias ao direito internacional – mas se fizerem China e Rússia pensarem duas vezes, pode ser uma coisa boa.” Spoiler: elas fizeram pensar, mas no sentido oposto ao pretendido pelo “Mr. Brexit”. (Mais sobre isso abaixo).


Outros entusiastas (do extremismo) de direita e aliados de última hora (leia-se: pragmáticos) de Vladimir Putin, também se posicionaram contra a operação estadunidense. São eles o presidente da Sérvia, Aleksandar Vučić, e o premiê da Eslováquia, Robert Fico. Em pronunciamento ao vivo depois de reunião do Conselho de Segurança do país, Vučić afirmou que “a velha ordem mundial está colapsando, nenhuma regra se aplica, e a ordem da ONU só existe no papel”. No presente mundo novo, “a lei da força domina, a lei dos mais fortes. Quem é mais forte oprime. Esse é o único princípio que existe no mundo moderno”.

Em seu próprio quintal, inclusive, o presidente vem reprimindo movimentos de massa de estudantes contra a corrupção e a falta de representatividade política. De tal monta são os protestos na Sérvia que motivaram uma bicicletada de cerca de oitenta estudantes e acadêmicos sérvios em abril de 2025: eles pedalaram de Novi Sad (Sérvia) a Estrasburgo (França) por treze dias para se encontrar com membros do Parlamento Europeu e do Conselho da Europa.

O premiê eslovaco Robert Fico foi até mais longe em sua conta do Facebook (rede social ainda muito usada pelo Leste Europeu e ex-repúblicas soviéticas): “Ações militares americanas na Venezuela são uma outra prova do rompimento da ordem engendrada depois da Segunda Guerra Mundial. Direito internacional não vale, poder militar é usado sem autorização da ONU e quem é grande e forte faz o que quer para promover seus próprios interesses.” E continuou: “Como primeiro-ministro de um país pequeno, devo condenar tal violação do direito internacional, como fiz em relação à guerra do Iraque, à rejeição do Kosovo como um Estado soberano, ao uso de poder militar russo na Ucrânia ou à avaliação da situação em Gaza.”

Faltou só mencionar que em várias ocasiões passadas ele deu cobertura e encorajamento à agressão ilegal da Rússia contra a Ucrânia. Inclusive em entrevista à Folha de S.Paulo.

O cenário para a aceleração de movimentos beligerantes foi montado. Não é de hoje que setores da sociedade civil de diversas partes do mundo (do Brasil aos EUA, da Alemanha à Hungria e além) alertam sobre os riscos da militarização e do espraiamento de guerras. Quando até Le Pen, uma das adversárias mais vocais da democracia francesa, se posiciona nas mesmas trincheiras do campo democrático mais são, então temos todas as razões para nos preocupar.

Desde o dia 3 de janeiro de 2026, o mundo entrou em estado de alerta. Até porque a data coincide com diversos eventos baixo-astral no calendário geopolítico global.

Em 3 de janeiro de 1990, o presidente George Bush prendeu e capturou o general Manuel Noriega, líder de facto do Panamá. Na ocasião, também não havia contado com o apoio prévio do Congresso norte-americano. Dessa vez, uma autorização prévia também seria impossível, afirmou o secretário de Estado Marco Rubio na coletiva de imprensa do dia da invasão, sob o risco de arruinar a operação.

Quase quarenta anos depois, o presidente panamenho iria se posicionar de maneira escorregadia. José Raúl Mulino não condenou em nenhum momento a agressão dos Estados Unidos e disse que seu governo se coloca a favor do “ensaio democrático e a favor da aceitação dos desejos legítimos do povo venezuelano, expressos de maneira contundente nas urnas eleitorais, onde foi eleito o cidadão Edmundo González”. Ao final, sugeriu que seu país “será sempre solidário com a paz e com um processo de transição ordenado e legítimo” – que é exatamente o que não acontece nesse tipo de situação, historicamente falando: basta observar os casos da Líbia, Iraque, Afeganistão, dentre tantos outros.


Como me lembrou o professor de história e teoria política da Uerj Christian Lynch, a data de 3 de janeiro também marca o dia em que Benito Mussolini declarou uma nova era na política italiana com a consolidação do Estado fascista. “Para mim, este é o marco simbólico do regime ditatorial”, defende Lynch. Neste dia há 101 anos (1925), Mussolini fez um discurso no Parlamento italiano assumindo a responsabilidade política pelo assassinato do socialista Giacomo Matteotti e pondo fim às ambiguidades liberais de então.


Ali, ele declarou que detinha o total controle do governo e subjugou o sistema parlamentar; daí se seguiram as Leis Fascistíssimas (1925 e 1926). Vale lembrar que Mussolini ele próprio começou sua carreira política como socialista. Depois, virou intervencionista e só em um terceiro momento se declarou fascista. Camaleão político de vulto.

Também foi em 3 de janeiro que os Estados Unidos mataram Qasem Soleimani, general iraniano e comandante de elite da guarda revolucionária islâmica do Irã. Responsável por operações militares e de influência do Islã fora do país, ele foi responsável por expandir sua área de influência ao Iraque, Síria, Líbano e Iêmen. Acusado de apoiar milícias que mataram soldados norte-americanos e civis, Soleimani foi assassinado pelos Estados Unidos em 2020, em um ataque de drones ao comboio de carros em que ele se localizava em Badgá. Junto a ele, também foi assassinado Abu Mahdi al-Muhandis, líder de milícia iraquiana que tinha laços com o Irã.

Por fim, nesta mesma data os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com Cuba, no ano de 1961. O rompimento veio como reação à revolução de Fidel Castro e à declaração do Estado comunista, fatos vistos como ameaçadores à dominação norte-americana na região. No mesmo ano, os Estados Unidos invadiram a Baía dos Porcos e, no ano seguinte, vieram a causar a crise dos mísseis na região.

Na América Latina, a desunião fez a força com a invasão da Venezuela. Desde que o ataque aconteceu, dois grandes blocos se formaram: o daqueles contra a intervenção de Trump e o dos apoiadores. Dentre os primeiros, estão Colômbia, Chile, México, Cuba, Bolívia, Uruguai e Brasil – com a ressalva de que, com a troca de governo em março, o lado do Chile certamente vai mudar. Já entre os segundos, Argentina, Equador, Peru, Paraguai e El Salvador – em um arco de referências que vai do ditador pop Nayib Bukele ao motosserrista Javier Milei.

Em uma região que já serviu de quintal para Washington durante a Guerra Fria, a divisão é preocupante. Ela significa hoje maior vulnerabilidade dos países às pressões estadunidenses – para além da já desgastada subserviência. Longe de intervenções pontuais, os Estados Unidos já exercitaram suas tropas e sua CIA em pelo menos sete países da região: Panamá, Cuba, Nicarágua, Haiti, República Dominicana, Guatemala e Granada. Além disso, participaram (in)diretamente de golpes militares em pelo menos treze deles: Brasil, Chile, Argentina, Bolívia, El Salvador, Equador, Guiana, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Haiti, Cuba.

Em contraposição à paralisia do desacordo, a Colômbia vem costurando a liderança de uma coalizão soberana pela América Latina, cuja procedência aponta para nada menos que a queda brutal de popularidade do presidente Gustavo Petro (mesmo diante de sua base de esquerda). Foi o país que convocou a letárgica reunião do Conselho de Segurança da ONU em 5 de janeiro. Também foi ele que mobilizou a assinatura de um comunicado com México, Uruguai, Brasil, Chile e Espanha contra a invasão. Petro, além disso, convocou manifestações nacionais em prol da soberania nacional – no pior estilo influencer beligerante de óculos escuros e pegada meio 007 de Instagram.

Dado esse cenário, duas confusões no debate público precisam ser desfeitas. Primeiro, é possível (e necessário) condenar veementemente a invasão dos Estados Unidos e o caráter antidemocrático do governo de Nicolás Maduro.

Segundo, para quem diz que essa intervenção de Trump é um desvio de seu “America First”, basta ver o quanto o presidente quer se lambuzar com o petróleo extrapesado característico da Venezuela. É verdade que apenas 33% da população norte-americana apoia o golpe venezuelano. Ao mesmo tempo, o gesto de Trump é uma tentativa desesperada de manter sua dominância em um mundo que já lhe virou as costas – seja na corrida climática, tecnológica, intelectual e até bélica. Ou forjar uma nova liderança: além de agressiva, colonialista raiz, nacionalista e polarizante.

Uma articulação tenebrosa de laços vem se revelando depois da invasão à Venezuela, que resultou em pelo menos 100 mortes — como viemos a saber depois de mais tempo do que o razoável. Fomos (e ainda estamos) descobrindo as coisas a conta-gotas.

Primeiro, soubemos que a operação já pode ter sido de antemão combinada com os russos, literalmente. Na noite anterior à invasão da Venezuela, fake news de que os embaixadores da Rússia deixaram o país começaram a circular no TikTok, mas o Kremlin negou as elucubrações. Coincidência pouca seria bobagem: para quem não sabe, os brothers e os brátyas[3] compartilham informações estratégicas antes de desferir golpes pelo mundo (ainda bem!). Foi assim, por exemplo, quando a Rússia lançou seu ameaçador míssil balístico intercontinental em novembro de 2024, que tinha potencial para cruzar a Europa inteira (pelo menos cerca de 2.400 km), mas só valeu como teatro para assombrar Dnipro, cidade ucraniana a cerca de 350 km da fronteira.

Com a China também há indicadores de que o jogo foi combinado. A última reunião diplomática de Maduro antes de ser arrancado do poder foi com Qiu Xiaoqi, enviado especial do Sr. Xi Jinping. Não só ela aconteceu às vésperas do golpe, como foi reproduzida em forma de live do instagram. Um amigo italiano, impressionado pela retórica e estética madurista, me mandou no WhatsApp: “Eu estava literalmente acompanhando a live dele horas antes. Cheguei até a gravar. Realmente inacreditável.”

Alianças assim, porém, são de confecção muito frágil. Afinal, são movidas por interesses imediatos e oportunidades de ação. Tanto é que, nos dias seguintes, os Estados Unidos – apoiados pela Grã-Bretanha – raptaram um navio de petróleo russo que estava sendo escoltado no Atlântico. Logo antes, o ex-presidente russo Dmitri Medvedev (2008-2012), aliado de primeira hora de Putin, também brandiu impropérios contra o primeiro-ministro alemão. Já que Trump invadiu a Venezuela e retirou Maduro do poder, estaria na hora de alguém tirar o chanceler Friedrich Merz do poder – um neonazista, segundo acusa.

O futuro não poderia ser mais amargo: o clube dos autocratas está afiando suas garras pelo globo, sem mais quaisquer desculpas legalistas para se proteger da crítica. Afinal, lembremos que algumas décadas atrás o governo norte-americano ainda se preocupava com o acabamento final: era em nome da “democracia” (petrolífera! – possuir petróleo só é permitido quando se entregam os barris às potências imperialistas).

Aos vencedores, as novas colônias. O petróleo da Venezuela fica com os Estados Unidos, e a Rússia e China só soltam notas de repúdio moribundas. Os recursos minerais da Ucrânia ficam com a Rússia, e os Estados Unidos param de apoiar financeira e militarmente a resistência ucraniana (ou continuam habitando uma ambiguidade muito oportuna aos russos). Os semicondutores avançados de Taiwan ficam sob custódia da China, e tampouco os americanos metem a colher da autodeterminação dos povos.

Essa nova coalizão está em processo, mas ainda não consolidou sua vitória. Se é verdade que o poder militar e a força bruta estão concentrados por ali, também é verdade que a maioria do mundo segue sob o jugo desse mesmo xadrez político.

E se a Europa já parece ter entregado seus pontos, isso não quer dizer que as democracias morreram simplesmente como modelo de governo desejável daqui para a frente. Uma nova forma de resistência não poderia nascer por brotamento (ou medo de invasão russa) de quem já perpetrou séculos de colonialismo e exploração. Mais: de quem, depois da segunda guerra mundial, apenas confiou cegamente na nova ordem norte-americana e não investiu em seus próprios potenciais de desenvolvimento e defesa. Pior: de quem se protegeu com o arsenal alheio, performando cegueira em relação às guerras fósseis praticadas nas suas periferias por décadas a fio. Ainda que a Europa tente acertar contas com seu passado, enfim, é muito improvável que seja ela a capitã da mudança. Seu modelo de governança é parte do problema.

É por isso que apenas o “Sul Global” pode disputar espaço com essa nova coalizão antidemocrática e fóssil. É apenas das forças que vêm sendo oprimidas por séculos de extrativismo, exploração e manipulação que a mudança em direção a um mundo mais democrático, pacífico e justo pode acontecer.

Isso não apaga, porém, o fato de que dentro desses próprios países do “Sul” o Estado e outras forças coloniais tenham exercido (e continuem exercendo) violências monstruosas. Há que se aceitar a ambivalência, como afirmou recentemente na piauí em julho passado o professor de filosofia da Unicamp Marcos Nobre. Nós, o Sul global, somos afinal a maioria. Uma maioria que não pode se calar diante da barbaridade dos fatos que estão postos. Se não fizer isso agora, talvez depois seja tarde demais.


[1] O cargo tem visibilidade muito diferente daquela que possui no Brasil. Lá, são figuras de grande projeção e têm papel relevante no aconselhamento do presidente.


[2] E Keir Starmer? Promessa do progressismo do Labour quando eleito em 2024, ele decepcionou o próprio campo com suas investidas antiimigração e, mais recentemente, com seu alinhamento com nada menos que Donald Trump para capturar um navio petroleiro de bandeira russa no Atlântico.


[3] Plural de brat, irmão em russo.

Fonte:Revista Piauí

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