Opinião: Os mercados financeiros governam o mundo
Os líderes políticos dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia
assistem impotentes à maneira como os anônimos mercados financeiros
direcionam fluxos bilionários para as bolsas de todo o mundo e ditam as
políticas fiscal e econômica.
Há tempos que o presidente Barack Obama, a chanceler federal Angela
Merkel e o presidente Nicolas Sarkozy não agem mais, mas são
empurrados. Merkel e Sarkozy procuram acalmar a situação com
declarações desvalidas de que eles teriam, há menos de três semanas,
tomado decisões maravilhosas na última cúpula do euro. Isso não ajuda
mais em nada.
Os mercados financeiros, os investidores e gestores de fundos de
pensão encontram-se num clima irracional de fim dos tempos. Na prática,
os fatos econômicos e político-financeiros não mudaram nos últimos 14
dias, mas mesmo assim vende-se nas bolsas de valores o que ainda dá para
vender.
O rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos pela agência de
rating Standard & Poor's agravou ainda mais todo esse tumulto. A
agência comprovou o que os mercados financeiros já sabiam há muito: que
também o homem supostamente mais poderoso do mundo, o presidente
norte-americano, é impotente na hora de enfrentar Wall Street.
Para os Estados Unidos, a obtenção de novos empréstimos vai agora se
tornar mais difícil. Há possibilidades de uma reincidência de recessão, o
que teria consequências para todo o mundo. A próxima onda da crise
financeira e econômica mundial, que teve início em 2008, vem a nosso
encontro.
Se a conjuntura econômica sofrer uma retração mundial, não haverá
mais recursos estatais para programas de incentivo ao consumo e à
produção: os principais países da zona do euro não estão mais em
condições de contrair ainda mais dívidas.
O poder dos mercados financeiros é de dar medo. Se as especulações se
voltarem agora contra a Itália, com a perda de confiança no Estado
italiano, ou seja, se os títulos públicos do país se tornarem
impagáveis, a zona do euro também não vai conseguir escapar.
As dívidas da Itália não podem ser assumidas por outros, uma injeção
de liquidez é impensável. Caso isso acontecesse, até mesmo a Alemanha,
que ainda conduz a Europa como locomotiva solitária da conjuntura,
ficaria sobrecarregada. A União Europeia terá que se imbuir de medidas
mais acirradas que as tomadas até agora, a fim de impressionar os
mercados financeiros, que notoriamente determinam o caminho a ser
seguido.
Chegou a hora de transformar os pacotes de ajuda num fundo monetário
europeu decente, capaz de ajudar países em crise. Chegou a hora de dar à
zona do euro um governo econômico digno deste nome. Chegou a hora de
contar a verdade aos cidadãos europeus e dizer a eles que todos nós
teremos de carregar as dívidas dos países da zona do euro com altas
taxas de inflação.
Se Merkel, Sarkozy e companhia continuarem enrolando, o euro, como
moeda comum, não terá mais salvação. Aí será apenas uma questão de
tempo até que as agências de rating tirem a melhor nota, o A triplo, da
França, do Reino Uido e até mesmo da Alemanha.
Pois a situação estrutural na França não é muito diferente da dos
Estados Unidos. A Alemanha está aumentando suas dívidas públicas em
velocidade recorde. É questionável se a União Europeia, o Grupo dos 7
países industrializados mais importantes ou o G20, com os emergentes a
bordo, ainda serão capazes de fazer algo. A crise econômica mundial se
aproxima, os mercados financeiros reinam e as agências de rating
governam.
Autor: Bernd Riegert (as)
Revisão: Soraia Vilela
Fonte: DEUTSXHE WELLE

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