Valor poderia ser utilizado para a construção de 1,9 mil moradias do Minha Casa, Minha Vida
Guilherme Mazui e Rodrigo Saccone
Desde o começo da atual legislatura, em 2011, a Câmara dos Deputados gastou R$ 78,1 milhões com despesas de divulgação dos mandatos dos parlamentares. É o principal gasto com verba indenizatória.
Com o valor, usado, por exemplo, para pagar panfletos e boletins informativos, seria possível erguer 1,9 mil habitações populares do programa Minha Casa Minha Vida ou construir 48,8 mil cisternas para ações de combate à seca.
Os gastos constam em levantamento feito por ZH, com base em dados fornecidos pelo Portal da Transparência da Câmara. A reportagem analisou os valores de reembolso de 574 deputados, entre titulares e suplentes das 27 unidades da federação, que tiveram despesas com divulgação nos últimos anos.
A verba de divulgação integra a cota para o exercício da atividade parlamentar, ajuda de custo mensal que a Câmara oferece a cada deputado para bancar gastos como locomoção, alimentação e passagens aéreas. O valor da cota varia conforme o Estado de origem do político, que, no caso do Rio Grande do Sul, é de R$ 34.573,13 por parlamentar.
Em geral, os deputados usam a despesa de divulgação com agências de publicidade, gráficas e veículos de comunicação. O custeio de boletins informativos costuma sair deste reembolso, por exemplo.
O levantamento de ZH mostra que em 2011, primeiro ano da atual legislatura, a Câmara desembolsou R$ 28,564 milhões em divulgação, ressarcimento que subiu para R$ 30,777 milhões em 2012, ano de campanha eleitoral para prefeitos e vereadores. Já em 2013, até agosto, o custo batia em R$ 18,789 milhões.
Os valores são considerados altos pelo secretário-geral do Contas Abertas, Gil Castello Branco. Para ele, seria importante criar um teto para a despesa de divulgação, a fim de evitar gastos desnecessários:
— A cada dia é preciso criar mecanismos para regulamentar o bom senso do parlamentar.
O deputado que mais usou a cota com publicidade foi o mineiro Toninho Pinheiro (PP), com R$ 625,1 mil. ZH procurou o gabinete do parlamentar, que não comentou o gasto. Já o gaúcho de maior reembolso é Enio Bacci (PDT), com R$ 386,39 mil — a bancada toda gastou R$ 3.975.333,20.
O deputado justifica a despesa com seu informativo mensal, com tiragem entre 50 mil e 100 mil exemplares, distribuído em todo o Estado. O boletim substitui a necessidade de manter escritório político.
— Economizei com escritório, que representava uma despesa de R$ 10 mil mensais com aluguel. Mais da metade do meu gasto com o informativo, cerca de R$ 18 mil mensais, vem da economia que eu faço por não ter escritório.
TCU alerta para uso inadequado
O reembolso com divulgação é alvo de processo no Tribunal de Contas da União (TCU). Ao votar em acórdão de abril deste ano, o ministro relator Walton Alencar Rodrigues destaca a dificuldade para distinguir a divulgação do trabalho com atos de promoção pessoal do deputado, o que configuraria propaganda eleitoral paga com recursos públicos.
— Para que se evite o uso inadequado de verba indenizatória, é necessário deixar mais claros exemplos de despesas que podem ou não ser ressarcidas — orientou Rodrigues no voto.
Em agosto, a Câmara informou ao TCU não ter condições de acatar todas as recomendações em razão do volume de notas fiscais apresentadas — cerca de 12 mil por ano — e pela inexistência de corpo técnico para atender à demanda. A Casa estuda colocar em seu site as cópias eletrônicas de todas as notas fiscais.
Despesas propensas ao superfaturamento
Caue Fonseca
caue.fonseca@gruporbs.com.br
A rubrica em que os parlamentares mais gastam é também uma das mais propensas ao superfaturamento. Uma comparação entre as amostras do material impresso e as notas fiscais — documentação disponível para consulta de qualquer cidadão — mostra discrepâncias.
Um exemplo curioso aparece nas notas emitidas pela Marwic Artes Gráficas, de Nova Iguaçu (RJ). Embora seja a terceira empresa em que os parlamentares mais gastaram nesta legislatura, ela atendeu a apenas dois deputados, Nelson Bornier (PMDB-RJ) e Felipe Bornier (PSD-RJ). Pai e filho, os Bornier pagaram R$ 690 mil à Marwic desde 2011.
Nelson se elegeu prefeito de Nova Iguaçu no ano passado. Já Felipe segue na Câmara. Conforme mostram as notas fornecidas pela Marwic, Felipe paga entre R$ 12 mil e R$ 14 mil por mês. Em maio de 2012, a compra foi de 10 mil exemplares do “Jornal Felipe Bornier”, uma simples folha impressa em frente e verso e dobrada ao meio. O conteúdo é a reprodução em texto de quatro discursos do deputado.
O custo de cada folha, portanto, foi de R$ 1,20. ZH ligou para a Marwic e pediu orçamento de uma publicação idêntica: 10 mil cópias em papel offset em preto e branco. A resposta foi R$ 950 — menos de R$ 0,10 por cópia. Conforme a nota de R$ 12 mil apresentada à Câmara, o parlamentar pagou um valor de 12 vezes superior. Foi reembolsado integralmente sem despertar suspeitas.
ZH entrou em contato com o gabinete de Felipe pedindo explicações e não obteve retorno.
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