Quando
escrevi sobre excisão do clitóris e infibulação da vagina, nos anos 70,
houve quem pensasse que eu delirava. A imprensa brasileira desconhecia
tais práticas. Eu delas tinha notícia porque vivia em Paris, onde
surgiam as primeiras denúncias. É espantoso, diga-se de passagem, que a
denúncia de tal abominação milenar só tenha tomado corpo em meados do
século passado.
Hoje, qualquer leitor minimamente informado sabe
do que se trata. O costume bárbaro é praticado em uma trintena de
países, numa faixa transversal da África, que coincide com o Sahel, mas
se expande de sul a norte, do Egito até a Tanzânia. Embora não seja
coisa exclusiva do Islã, é particularmente praticada nos países
muçulmanos. A turma do politicamente correto, em nome da muito safada
noção de “diversidade cultural”, tenta amenizar o horror, falando em
circuncisão feminina. Como não há maiores objeções à circuncisão de
homens, a prática não seria tão horrenda.
Ocorre que a
circuncisão, além de ter suas motivações higiênicas, não mutila ninguém,
enquanto que a excisão do clitóris e infibulação da vagina mutilam a
mulher e a impedem de usufruir plenamente de sua sexualidade. É o que
chamo de ginecofobia, o medo ancestral do macho ante o potencial sexual
da mulher.
Trocando os queijos de bolso: nestes dias em que
almas ingênuas falam na hipótese de uma transformação democrática no
Egito, vontade de rir é o que não me falta. Notícia antiga do New York Times,
que já relatei neste blog, nos informava que uma menina de 13 anos, em
uma comunidade rural do Egito, foi levada a um consultório médico para
ser submetida à excisão do clitóris. Acabou morrendo. Mas isto não
irritou ninguém. O que irritou foi o fechamento da clínica pelo governo.
"Eles não vão nos impedir!", gritou o dono de uma casa de chá na rua
principal da cidade.
Segundo o jornal, há séculos as meninas
egípcias, geralmente entre os 7 e 13 anos de idade, vêm sendo submetidas
ao procedimento. Em 2005, uma pesquisa mostrou que 96% dos milhares de
mulheres casadas, divorciadas e viúvas entrevistadas disseram ter
passado pela excisão. Onde se viu democracia em um país que castra suas
mulheres?
O costume é coercitivo. Meninas que, por milagre,
tenham escapado à pratica infame, acabam pedindo para serem mutiladas.
Ou são excluídas de suas etnias. Segundo a etíope Berhane Ras-Work,
diretora do Comitê Interafricano, esse mecanismo funcionou por séculos
até o ponto de as próprias mulheres passarem a considerá-lo admissível,
"como meio para serem aceitas perante suas comunidades e elegíveis por
seus esposos. Os governos africanos o permitem, o ignoram ou não dão lhe
importância suficiente".
Com a crescente migração de árabes e
africanos para o Ocidente, o costume também migrou para a Europa,
Estados Unidos e Canadá. Calcula-se hoje em 500 mil o número de mulheres
com clitóris extirpado na Europa e estima-se que 180 mil correm o risco
de serem mutiladas a cada ano. Médicos italianos, sempre em nome da
famigerada diversidade cultural, chegaram a propor uma medida
conciliatória. As meninas sofreriam uma pequena incisão, que pelo menos
provocasse sangue - para satisfação dos bárbaros – e estamos
conversados. A brilhante idéia não foi aceita, nem pela comunidade
médica nem pelos bárbaros sedentos de sangue.
Segundo o
diretor-geral da Organização Internacional de Migrações (OIM), William
Lacy Swing, a sobrevivência da mutilação é particularmente forte nas
comunidades de imigrantes, onde tradicionalmente só as mulheres operadas
têm a esperança de fazer um "bom casamento". Abandonar essa prática,
por outro lado, pode supor a desonra para suas famílias. Ocorre que no
Ocidente mutilação física é crime. Mas imigrante árabe ou africano pouco
se importa com o que o Ocidente considera crime. O que importa é a
honra do macho.
Celebra-se amanhã o Dia Mundial da Tolerância
Zero contra a Mutilação Genital Feminina. Castas almas acham que o
problema pode ser eliminado na Europa nos próximos anos. Santa
ingenuidade! Os europeus já a toleram, ou teríamos 500 mil imigrantes no
cárcere. É o tipo de crime fácil de elucidar, o criminoso sempre está
ao lado da vítima. Ora, não estou vendo 500 mil imigrantes no cárcere.
A Europa, ao que tudo indica, já integrou à sua cultura a prática dos bárbaros.
Fonte: Blog do JANER CRISTALDO
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