Historiadora diz que folhas assinadas em branco pelo ex-ativista foram usadas para forjar documentos; procurador nega acusação
Andrei Netto, de O Estado de S.Paulo
PARIS - Uma suposta fraude nas procurações assinadas
pelo ex-ativista Cesare Battisti estaria por trás de sua condenação à
prisão perpétua pela Justiça da Itália. A acusação é feita pela
historiadora, arqueóloga e escritora francesa Fred Vargas com base em
documentos do processo, coletados ao longo dos últimos dez anos. Segundo
ela, três procurações teriam sido fabricadas durante o autoexílio de
Battisti para permitir que ele fosse representado em seus julgamentos.
O Estado teve acesso aos documentos. Segundo a denúncia da escritora,
Battisti teria deixado ao ex-companheiro de guerrilha Pietro Mutti,
líder do grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), folhas em
branco assinadas em outubro de 1981 para serem usadas na eventualidade
de um processo judicial. Esses papéis, de acordo com a escritora, teriam
sido usados pelo procurador do caso, Armando Spataro, e pelos
ex-advogados de Battisti, Guiseppe Pelazza e Gabrieli Fuga, para forjar
procurações que viriam a ser usadas nos julgamentos, em 1982 e em 1990.
Para supostamente fraudar os documentos, os três teriam usado uma
procuração anterior, escrita de próprio punho por Battisti em 1979 e
reconhecida como legítima por todas as partes. Com base nas três novas
procurações, o ex-guerrilheiro pôde ser levado a julgamento. Pela
legislação italiana, um preso pode ser julgado, mesmo em sua ausência,
desde que tenha nomeado representantes legais. Nessa época, conforme
Fred Vargas, Battisti vivia no México, sem contato com familiares e
amigos na Europa e não sabia dos julgamentos na Itália.
Coincidência
Nas cópias dos documentos obtidas pela escritora - célebre na França
por seus romances policiais -, Battisti dá direitos a Pelazza e a Fuga
para representá-lo. O que surpreende é a semelhança dos textos e das
letras. Em oito linhas, sempre terminadas pelas mesmas palavras, as
cartas mostram termos e escritas quase idênticas, apenas com espaços
maiores ou menores. A sobreposição dos documentos mostra palavras em
posições distintas, mas grafias que, segundo Fred Vargas, foram copiadas
uma a uma no intuito de simular a letra de Battisti.
Contratada pela escritora, a grafologista Evelyne Marganne, perita do
Tribunal de Recursos de Paris, analisou as assinaturas de Battisti nos
documentos e também levantou dúvidas sobre a autenticidade dos
documentos. Segundo seu laudo, a mesma pessoa assinou todos os
documentos, mas os números das datas que constam nas cartas não são
originais. "Sobrepondo os dois documentos e observando-os contra a luz,
qualquer pessoa vê que são o mesmo documento. Seria até divertido, se
não fosse grave", diz Fred Vargas. Além disso, as assinaturas seriam
autênticas, mas feitas no mesmo momento, e não com o intervalo de oito
anos. Ao Estado, Evelyne não quis fazer avaliações sobre a autenticidade
dos textos.
Armando Spataro, hoje coordenador de Contraterrorismo em Milão, negou
as acusações de Fred Vargas. "São absolutamente falsas. É uma história
antiga que surge de tempos em tempos, sempre que aparecem discussões
públicas sobre Battisti." Guiseppe Pelazza não respondeu aos pedidos de
entrevistas.
Fonte: ESTADO DE SP
Nenhum comentário:
Postar um comentário