A saga do jornalista brasileiro Solly Boussidan, que foi preso e maltratado na Rússia porque mandou artigos pela internet sobre o atentado no Aeroporto de Moscou
Apresentando o depoimento de Solly Boussidan
Preso na cidade de Sochi, no Mar Negro, dia 28 passado, o repórter
free lancer brasileiro Solly Boussidan, foi mais uma vítima da
truculência do governo da Rússia contra jornalistas. Seu crime: ter
enviado para o portal Terra Magazine artigos nos quais contava como a
televisão russa cobriu o atentado no Aeroporto de Moscou no dia 24 de
janeiro.
Boussidan estava de passagem pela Rússia, a caminho da Armênia,
quando postou seus artigos. Embora identificado como jornalista, tinha
apenas visto de turista, o que serviu de pretexto para a sua prisão. A
ação do Itamaraty e do governo alemão (ele tem dupla cidadania)
possibilitou que saísse do cárcere antes de completar os dez dias
determinados por um juiz para que sua deportação fosse realizada. Daí
Boussidan foi encaminhado para a cidade de Adler, na fronteira com a
Geórgia. Em um centro de detenção para estrangeiros, o brasileiro passou
48 horas sem comida e recebeu pressão para assinar documentos em russo
sem tradução e abrir mão da proteção consular brasileira. Depois, passou
a receber alimentação uma vez por dia, sem direito a banho e acesso aos
seus remédios, confinado numa cela minúscula com outros quatro presos.
Ele conseguiu contar sua saga ao repórter Roberto Simon, do Estado de
S.Paulo, que ajudou a divulgar a notícia pelo Brasil.
Passados cinco dias, Boussidan foi deportado, dia 1º de fevereiro,
para a Abkházia, república separatista da Geórgia. De lá, conseguiu
chegar a Tbilisi, capital e maior cidade da Georgia, onde o localizamos.
Ele respondeu à CartaCapital assim que chegou. A história que nos
contou é inacreditável e conclama à ação dos que lutam pela liberdade
de informação, hoje colocada em questão em várias partes do mundo,
sobretudo no Egito.
Nos próximos dias Boussidan retomará seu roteiro original. Depois de
descansar, vai para a Armênia e só depois de completar seu plano de voo,
retornará ao Brasil. Vida de repórter é assim.
O depoimento de Solly Boussidan, à CartaCapital, de Tbilisi, na Geórgia:
Caros, obrigado pelo apoio. Essas situações nunca são fáceis –
sabemos que não somos bem quistos em muitas partes, mas quando você
recebe “tratamento especial” por ser jornalista é que fica ainda mais
patente a importância de nosso trabalho.
Eu estava na Rússia passando dez dias antes de tomar um voo para a
Armênia. Não tinha intenção de trabalhar nem reportar do país. Mesmo
assim, para evitar problemas mencionei à Polícia de Fronteira que era
jornalista e inclusive mostrei a eles alguns de meus artigos.
Em Sochi, procurei a prefeitura para me apresentar e pedir que me
enviassem contatos com quem pudesse obter informações de turismo e sobre
a preparação para as Olimpíadas de Inverno de 2014. Obviamente fui bem
recebido pela prefeitura, pois interessa a eles divulgar a cidade como
destino turístico.
No entanto, eles preencheram um formulário padrão de “contato com a
mídia” que acabou alertando a polícia de imigração, a qual passou a me
monitorar. Isso foi no dia do atentado no aeroporto em Moscou.
O Terra me contatou pedindo informações sobre o que a mídia
russa estava reportando. Não era nenhum grande furo jornalístico. Muito
pelo contrário, essas informações provavelmente estavam disponíveis no
próprio site das emissoras e jornais russos para o mundo todo e serviram
em grande parte para complementar matérias de agências.
Esses artigos foram no entanto a “prova do crime”, que resultaram na minha prisão.
Dois dias depois fui interrogado por cerca de 12 horas por 5
policiais e levado a uma corte. Os policiais esperavam que eu fosse
apenas multado, mas o juiz decidiu me deportar e que até a deportação eu
ficasse retido em um centro de detenção.
O juiz optou por ignorar o fato de que a Embaixada Brasileira em
Moscou já havia assegurado meu credenciamento junto ao Ministério das
Relações Exteriores da Rússia. Ignorou também o fato de eu ter me
identificado como jornalista na fronteira e desconsiderou o meu
argumento de que eu não tinha como prever um ataque terrorista no país,
sendo que as informações que eu transmiti foram circunstanciais e em
função de um evento repentino e inesperado.
Durante os dois primeiros dias não me deram comida – depois disseram
que “esqueceram” de me avisar que a comida ficava disponível em uma
sala do centro de detenção na hora do almoço. Mesmo assim, recebíamos
comida somente uma vez ao dia. O banheiro era uma várzea e era
impossível tomar banho, pois apesar de haver chuveiro, não tínhamos
toalhas e fazia frio. Passei cerca de uma semana sem tomar banho.
Dividia um quarto pequeno com mais quatro pessoas – todos sem tomar
banho há dias – uma situação bastante desagradável. Contudo, não fui
maltratado por nenhuma autoridade.
A Embaixada em Moscou ficou incansavelmente em cima do meu caso e em
contato com o Ministério das Relações Exteriores russo e a corte para
tentarem reverter a decisão judicial ou pelo menos acelerar minha
deportação, que havia inicialmente sido marcada para o dia sete de
fevereiro. O principal problema foi que o ministério russo assumiu muito
mais uma postura defensiva do que de cooperação com o Itamaraty
A embaixada alemã em Moscou também tentou interceder e cooperar com o
Itamaraty e a priori haviam conseguido que minha deportação fosse para
Berlim, ao invés do Rio como os russos queriam inicialmente.
A sentença e o tratamento que eu recebi deixaram inclusive alguns
policiais da imigração um pouco perplexos e os funcionários da
prefeitura de Sochi preocupados com as repercussões, afinal de contas,
caso o episódio não tivesse ocorrido eu provavelmente estaria escrevendo
matérias em algumas semanas que promoveriam o turismo na Rússia.
Esses policiais acabaram conseguindo acelerar minha deportação caso
eu conseguisse acesso ao território da Abkházia, por onde entrei na
Rússia. Entrei em contato com as autoridades abkházias, que gentilmente
se prontificaram em me receber e dar assistência.
No dia 1 de fevereiro fui entregue as autoridades abkházias e segui
para Sukhumi. Estava exausto, me sentindo péssimo após uma semana me
alimentando mal e sem tomar banho. Passei uma noite lá e segui para a
fronteira com a Geórgia, onde potencialmente enfrentaria um novo
problema. Como a Abkházia declarou-se independente da Geórgia, os
georgianos consideram a entrada em território abkházio a partir da
Rússia como uma entrada ilegal na Geórgia. Como consequência, podem lhe
prender e deportar. Novamente o Itamaraty através da Embaixada em Ancara
intercedeu a meu favor e consegui chegar a Tbilisi hoje ( 4 de
fevereiro), após dois dias de viagem.
Agora estou bem alimentado, de banho tomado e mais relaxado. O
incidente todo foi bastante traumático, pois realmente nunca fiz ou tive
a intenção de fazer nada errado. Meu relato ao Terra poderia facilmente
ter sido também descrito em sites de mídia social – não acho que se
qualifica como “trabalho jornalístico ilegal”.
A decisão e o modo como fui tratado pela Rússia foram completamente
desproporcionais, principalmente levando-se em conta que ocorreram em
função de um atentado terrorista na capital do país que pegou a todos –
inclusive às próprias autoridades russas – de surpresa. Continuo exausto
pelo estresse acumulado nos últimos dias – além da situação
desagradável, da falta de condições de higiene e alimentação, da multa
que paguei, me senti naturalmente humilhado e injustiçado (a advogada
apontada pelo tribunal para me representar nem sequer leu o processo ou
falou comigo antes do julgamento, saiu antes da leitura da sentença e
não voltou para falar comigo!). Ademais, a tensão de não saber se o
processo ia ser revertido, se algo ia mudar a cada momento, se iam me
permitir contato com a embaixada e minha família e para onde ou quando
eu ia ser deportado era constante e não me permitiam relaxar em momento
algum.
Enfim, o pior passou. Tecnicamente estou impedido de retornar à
Rússia por cinco anos, mas há modos de tentar reverter essa proibição.
Nenhum comentário:
Postar um comentário