Expurgo também visara as camadas baixas da população
A "ordem número
00447" aprovada pelo Politburo, o escritório do comitê central do
Partido Comunista da União Soviética, chegou em 31 de julho de 1937. Com
essa ordem, emitida por Nikolai Yezhov, comissário do Interior, foi
iniciado na União Soviética o episódio conhecido como o Grande Expurgo.
Criminosos, membros
de comunidades religiosas, ex-membros de partidos políticos, opositores
dos bolcheviques, cossacos, kulaks (donos de propriedades rurais) e
todas as pessoas consideradas opositoras ao regime passaram a ser
perseguidos.
O
Expurgo stalinista começou em agosto de 1937 e durou até novembro de
1938. Os julgamentos eram feitos por "troikas", compostas pelo chefe
local do partido, um representante dos Comissariados do Interior e
um promotor público.
Segundo estimativas
atuais, cerca de 800 mil pessoas foram vítimas do Grande Expurgo. Desse
total, em torno da metade foi assassinada por arma de fogo e a outra foi
mantida presa por longo tempo. Muitas destas vítimas morreram no
cárcere. Durante muito tempo não se soube os exatos motivos que
originaram a ordem de Yezhov.
Novas informações
Pesquisadores do
Instituto Histórico Alemão em Moscou e da Universidade do Ruhr (Bochum),
juntamente com colegas na Rússia e na Ucrânia, pesquisaram o assunto. A
questão que pode ser colocada, e que muitos pesquisadores ainda
acreditam, é se, por exemplo, o Grande Expurgo de 1937 se deveu ao fato
de os detentores do poder esperarem uma guerra e, por isso, queriam
eliminar "elementos antisoviéticos".
Para Marc Junge,
membro da equipe de pesquisas, "provavelmente as razões da grande ação
foram de ordem econômica ou por razões da política interna, o que a
torna ainda pior". Já para o pesquisador Michael Ellman, o Expurgo de
Stalin pode ser considerado também um exemplo de social engineering. Para constituir o socialismo, determinados grupos sociais são apoiados, enquanto outros são aniquilados, explicou.
Na Ucrânia sob
domínio soviético, a ação teve o objetivo de extinguir em definitivo os
kulaks (proprietários de grandes propriedades rurais) e, segundo Serhiy
Kokin, diretor do arquivo do Serviço Secreto da Ucrânia e co-editor do
livro O Grande Expurgo na Ucrânia. Operação Kulaks 1937 – 1938,
isso já havia começado entre os anos de 1929 e 1930. Segundo ele, as
pesquisas deixaram claro como naquela época Moscou trabalhava em
conjunto com as demais regiões. Muitas das decisões eram tomadas pelos
representantes locais dos comissariados do Interior.
"Descobertas terríveis"
O
que especialmente assustou os pesquisadores alemães foi o fato de
muitas mortes terem sido planejadas detalhadamente. Bernd Bonwetsch,
antigo chefe do Instituto Alemão em Moscou e membro da equipe de
pesquisas, declarou: "O mais importante do que descobrimos é a
organização burocrática do que, em última análise, pode ser chamado de
extermínio em massa".
Marc Junge relatou
que os pesquisadores não sabiam que o Expurgo também visara as camadas
baixas da população: "Fizemos uma verdadeira descoberta sobre como ele
cresceu. O Expurgo contra a elite foi uma coisa terrível, mas também os
camponeses mais humildes, os clérigos de pequenas cidades e criminosos
de pequena monta sofreram com ele".
Acesso aos arquivos secretos em Kiev
Após cinco anos de
trabalho, os pesquisadores publicaram diversos livros, editados em
alemão, russo e ucraniano. "Falando honestamente, nós não estávamos
certos de que poderíamos finalizar este trabalho", confessou Bonwetsch.
O maior problema para
os historiadores foi o acesso a documentos. O arquivo do Serviço
Federal de Segurança da Rússia (FSB, sucessor do KGB) não foi aberto aos
alemães.
"Acabamos encontrando
quatro regiões em que documentos do arquivo do serviço secreto haviam
sido entregues a arquivos regionais", conta Marc Junge, citando como
exemplos as russas Tver, Perm e Yaroslavl. Os pesquisadores contam que
receberam também grande apoio da Ucrânia, onde segundo Junge o serviço
secreto possibilitou o acesso integral aos documentos em seu arquivo em
Kiev.
Autores: Roman Goncharenko / Markian Ostaptschuk (pp)
Revisão: Roselaine Wandscheer
Fonte: DEUSTCHE WELLE



Nenhum comentário:
Postar um comentário