Há décadas, o empresário Senor Abravanel é um dos
homens mais admirados do Brasil. Ex-camelô, ele construiu no imaginário
nacional a imagem do empreendedor que veio de baixo e ergueu um império
graças ao próprio esforço. Com o passar do tempo, o filho de imigrantes
assumiu uma nova identidade, a do carismático apresentador Silvio
Santos. Um homem que, durante muitos anos, também foi o maior
contribuinte do Imposto de Renda pessoa física do País. Três meses
atrás, quando foi anunciado um rombo de R$ 2,5 bilhões no PanAmericano,
essa admiração cresceu ainda mais, quando Silvio entregou todo seu
patrimônio pessoal em garantia a um empréstimo do Fundo Garantidor de
Crédito (FGC), que permitiria o resgate do banco. E o discurso do
governo, capitaneado por Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco
Central, veio na linha do “nunca antes na história deste país” um
empresário demonstrou tanto desprendimento e desapego ao dinheiro.
Na semana passada, descobriu-se que o rombo do PanAmericano era ainda
maior: em vez de R$ 2,5 bilhões, inacreditáveis R$ 4 bilhões. E Silvio,
que já não tinha mais patrimônio para oferecer em garantia, fez o maior
negócio de sua vida. Sinalizou ao Banco Central que não faria qualquer
movimento para impedir a quebra e a liquidação do banco. Imediatamente, o
FGC e o governo, alegando “risco sistêmico”, começaram a se mexer. O
Fundo ampliou os empréstimos ao banco, a Caixa Econômica Federal abriu
um “cheque especial” de R$ 7 bilhões para o PanAmericano e, assim, foi
possível encontrar um comprador: o BTG Pactual, do banqueiro André
Esteves. Na prática, Silvio Santos conseguiu trocar um banco falido pelo
resgate de todo seu patrimônio, uma vez que as garantias foram
liberadas. Mais ou menos o que ele fazia nos seus programas de auditório, quando um
telespectador, preso a uma cabine, podia trocar uma bicicleta quebrada
por uma pequena fortuna.
Silvio fez o que qualquer empresário faria, mas o fato é que a solução
encontrada no seu caso abre o que os economistas chamam de risco moral. A
partir de agora, um banqueiro pode quebrar e ainda assim salvar seu
patrimônio. Não custa lembrar que, há poucos dias, Edemar Cid Ferreira,
que tem um filho casado com uma filha de Silvio, foi despejado de sua
mansão – e o rombo anunciado pelo Banco Central no Banco Santos era bem
menor do que o do PanAmericano. O dono do Baú da Felicidade, certamente,
contava com mais reputação e poder de influência.
E encontrou a sua porta da esperança num baú muito mais fundo.
Fonte: ISTO É INDEPENDENTE
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