
Oliver Rockwell
Inúmeros europeus procuram no estrangeiro ajuda
para pôr fim aos seus dias, agora que cada vez mais países autorizam a
eutanásia. Será que a opção pela morte está em vias de se sobrepor ao
direito à vida, interroga-se o semanário Wprost.
"Não quero viver mais e gostaria de vos pedir que estudassem
uma maneira de me ajudarem a morrer...". O juíz Rolf Vogel já ouviu
inúmeros pedidos de condenados, mas nunca um igual a este. B., sociólogo
de Michelsberg, com 52 anos, é um assassino. Matou a mulher. Os peritos
confirmaram que sofre de esquizofrenia. Na audiência, no seu perfeito
juízo, pediu ao juiz: "Quero morrer, ajude-me”.
Roger Kusch, ex-senador hamburguês, gostaria de satisfazer este
pedido. Chegou mesmo a criar um aparelho que, afirma, "garante a
qualquer pessoa uma morte sem dor e com dignidade, bastando carregar no
botão". A questão da eutanásia era, até há pouco, assunto tabu na
Alemanha, por causa do peso do genocídio praticado no III Reich.
Uma "morte socialmente aceitável"
Neste momento, a Ordem Federal dos Médicos (BÄK)
faz um apelo claro a "uma flexibilização das normas" relativas à morte
medicamente assistida. Em cada três médicos alemães, há um que se mostra
preparado para intervir no sentido de encurtar o sofrimento dos doentes
terminais que desejem morrer. O senador Kusch, que em 2006 empenhou a
carreira política e o cartão de membro da CDU em prol desta ideia, pode
agora falar de uma vitória indireta. Fundou uma associação sem fins
lucrativos – "Ajudar a Morrer" – e admite já ter recorrido à sua
invenção, arranjando forma de abandonar a cabeceira do doente no momento
decisivo para evitar consequências penais decorrentes do ato. É pois em
solidão que os clientes de Roger Kusch recebem por injeção automática a
sua dose mortal de cloreto de potássio.
A questão da assistência médica no momento da morte, de doentes em
fase terminal e de pessoas de idade, foi suscitada há uns anos por
Karsten Vilmar, antigo bastonário da BÄK que, em vez de "eutanásia",
prefere dizer "morte socialmente aceitável". Segundo o atual bastonário
da BÄK, Jörg-Dietrich Hoppe, é claro que os médicos não podem ser
condenados ou acusados de conduta antiética por prestarem ajuda ao
suicídio.
Hoppe ignora a participação ativa dos médicos no ato de prestar a
morte, mas apela à legalização do seu papel de conselheiros de pessoas
cansadas de viver e que exigem meios médicos apropriados. Essa
assistência resultaria, em seu entender, "unicamente da consciência
médica". Esta opinião é partilhada por cerca de 74% dos alemães, que
desejam uma ajuda ativa dos profissionais de saúde na eutanásia.
Para o presidente da Caritas alemã, Peter Neher, a assistência médica
à morte, mesmo que passiva, não é aceitável. Os licenciados em Medicina
não fazem o juramento de Hipócrates para matar, argumenta Neher.
Os opositores à eutanásia asseguram, por seu turno, que a vontade de
morrer é um dos sintomas de depressão passageira que podem curar-se e
que mesmo as pessoas profundamente deficientes, quando corretamente
tratadas, re-encontram a vontade de viver.
Turismo europeu do suicídio em plena expansão
A liberalização da legislação alemã sobre suicídio assistido é uma
questão de tempo, atendendo à importância das opiniões favoráveis no
meio médico e judicial. Especialmente o "turismo" europeu do suicídio
vive uma fase de expansão. Sir Edward Downes era diretor de orquestra da
BBC. Lady Joan Downes, sua mulher, 11 anos mais nova, tinha sido
bailarina. Aos 85 anos, ele estava cego e não ouvia; a ela, tinha-lhe
sido diagnosticado um cancro. Por a eutanásia ser proibida na
Grã-Bretanha, os Downes pediram ajuda à organização suíça, Dignitas.
Foram os primeiros clientes de Ludwig Minelli, advogado e fundador da
organização. Os voluntários aguardam a chegada da morte numa moradia à
beira do pitoresco lago de Pfäffikon. Embora o preço do serviço não seja
negligenciável (6400 euros, incluindo cremação), a procura rapidamente
suplantou as capacidades técnicas do "empresário".
Na Suíça, a eutanásia é legal. Em caso de controlo, os que a aplicam
têm ainda de demonstrar, em registo vídeo do apoio prestado, que as
pessoas envolvidas causaram a sua própria morte. A maior parte dos
cidadãos suíços aceita o apoio à morte, mas há também aqueles que não
querem que a paisagem do seu país se transforme num desfile ininterrupto
de cortejos fúnebres vindos de toda a Europa.
Os detratores perderam a batalha do comércio da morte. Na
eventualidade de um aumento constante da procura deste tipo de serviços,
os legisladores e os decisores são obrigados cada vez mais a fazer
concessões.
Com uma legislação em vigor há dez anos, a Holanda foi a precursora
da eutanásia na Europa. O número de pessoas que morre a pedido nos
países do Benelux situa-se atualmente nos três a quatro mil por ano. No
Luxemburgo, para se legalizar a morte assistida, a constituição foi
revista. Quase todos os outros países da Europa Ocidental toleram a
assistência passiva à morte.
Reações da Holanda
Uma clínica para o final de vida
Segundo um estudo da NVVE, Associação para o Final de Vida Voluntário, "a Holanda está preparada para uma clínica de final de vida", refere o Volkskrant.
Será uma clínica destinada a pessoas que queiram fazer eutanásia, mas
que não encontram um médico disposto a ajudá-las. Segundo a NVVE, "por
desconhecimento da legislação [em vigor] e por receio de consequências
jurídicas", inúmeros médicos recusam a prática da eutanásia. O jornal
cita, a título de exemplo, o caso de uma pessoa que conta
ter tido dificuldade em encontrar um médico generalista que pudesse dar
resposta ao desejo de sua mãe, doente de Alzheimer, de morrer. Nota
igualmente que muitos médicos receiam transformar-se em "Doutor Morte".
Se o projeto da NVVE for por diante, não há nada garantido neste
momento, acrescenta o Volkskrant, mesmo que o projeto tenha o
mérito de ter relançado o debate sobre a morte voluntária. A associação
médica KNMG estima, por exemplo, que uma "decisão ponderada sobre a
morte necessita de alguma abertura de espírito, em que a eutanásia não
seja encarada como a única solução possível". Por seu turno, o diário propõe a criação de um "registo dos médicos que aceitem o desejo do final de vida".
Fonte: http://www.presseurop.eu
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