Dos
ecossistemas de Florianópolis, o Manguezal do Itacorubi, localizado no
final da avenida Beira Mar Norte, encontra-se no topo do rol de minhas-
hoje acentuadas- preocupações ecológicas, as quais, tenho até vergonha
de confessar, não são tão antigas assim. Acho que a imensa simpatia que
sinto pelo Manguezal do Itacorubi vem do seu notório abandono pelo poder
público, apesar de por ele passar, correndo ou andando, ou de
bicicleta, meio mundo de Florianópolis.
Lembro
que a ficha da omissão e do descaso com que o poder público estadual e
municipal trata a esplendorosa natureza da capital do Estado de Santa
Catarina, caiu para mim num final de tarde quando eu saía do expediente
na Celesc, onde exercia a função de advogado. Estava no meu carro na
avenida Madre Benvenuta, na qual está situado o Shopping Iguatemi e que
dá acesso à avenida Beira Mar. A gestão da prefeita Angela Amin se
encerrava. Eu olhei no morro em frente e vi a ocupação caótica onde
deveria reinar somente a mata atlântica.
Passado
um tempo, já na gestão do prefeito Dário Berger, deparei-me com este no
hall de entrada da Celesc. O prefeito estava acompanhado do seu então
secretário de turismo, Mário Cavallazzi. Após ambos terem me
cumprimentado muito amistosamente, eu fui nas carótidas do prefeito-
enfático, como sabem que sou os que me conhecem-, reclamando da situação
“vergonhosa” em que considerava encontrar-se a natureza de
Florianópolis. O prefeito, então, deu um tapinha nas minhas costas e
falou: “- Jardim, culpa da Angela! Culpa da Angela!” E os dois, rindo,
entraram no elevador.
Pouco
depois, estourou a denominada: “Operação Moeda Verde”, que investigava a
venda de licenças ambientais e envolveu o prefeito Dário Berger e
vários importantes secretários seus, além de grandes empresários e
vereadores, sendo que muitos deles chegaram a ser presos pela Polícia
Federal.
Evidentemente que a culpa também era da Angela Amin...
Mas,
voltando ao Manguezal do Itacorubi, que é a única razão deste
artigo. Há muito tempo atrás, eu adquiri, em um sebo, o livro
intitulado: “Uma cidade numa ilha/Relatório sobre os problemas
sócio-ambientais da Ilha de Santa Catarina”, elaborado pelo “Centro de
Estudos Cultura e Cidadania- CECCA” (não sei se ainda existe), que foi
publicado pela Editora Insular Ltda. em 1996, portanto, há quatorze
anos. Nele, por incrível que possa parecer, estão esmiuçados todos,
absolutamente todos os problemas de que padecemos, hoje, em
Florianópolis, e, sendo assim, traz informações preciosas e, suponho,
atuais sobre o Manguezal do Itacorubi. Registra que ele “recebe os
efluentes de esgotos sanitários de toda a populosa região da Bacia do
Rio Itacorubi, que drena grandes bairros da cidade como a Trindade, o
Pantanal, o Córrego Grande, o Itacorubi e o Santa Mônica”, bem como os
“efluentes tóxicos do tipo industrial (metais pesados e outros),
provenientes dos laboratórios da Universidade Federal de Santa
Catarina”, e o “chorume (líquido viscoso proveniente da decomposição e
compactação do lixo)” que o aterro sanitário que existia no bairro
Itacorubi continua a depositar em suas águas, “uma vez que após a
desativação” do mesmo, “não foram tomadas medidas sanitárias adequadas
para coleta e tratamento destes efluentes.” No livro, consta também a
informação de que a UFSC “afirma que não efetua mais tal emissão, mas
que, porém, não possui ainda uma solução definitiva para o problema.”
Recentemente,
resolvi dar uma andada pelo calçadão da avenida Beira Mar e aproveitei
para verificar a situação do Manguezal do Itacorubi. Muito lixo e de
todo o tipo sobre a sua vegetação e águas; o caminho de madeira pelo
qual se chega ao seu interior, com muitas tábuas arrancadas e algumas
soltas; bancos de que só restaram a carcaça; e ranchos e casas- algumas
ótimas-, de material, construídos sem se saber se dentro ou fora dele.
Por tudo o que vi, saí com a certeza de que o que era para ser um dos
pontos de visitação dos turistas, virou a prova mais cabal do descaso e
da omissão do poder público em relação ao meio ambiente
florianopolitano.
Não
sei se chegarei a assistir, mas haverá o dia em que um prefeito ou
prefeita de Florianópolis, enfim sensível aos problemas ambientais, terá
a luminosa ideia de liderar um esforço conjunto para, pelo menos,
descontaminar as águas do Manguezal do Itacorubi dos efluentes tóxicos e
do chorume, não sem antes, obviamente, estancar as suas causas.
Fonte: EDSON JARDIM
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