A colonização do Haiti ainda não cessou. Começou com a denominação de uma das Ilhas como São Domingos (é preciso dizer que isto é coisa de Padre?) e continua sob o tacão do Império do Vaticano, tanto quanto o Brasil (inicialmente Ilha de Vera Cruz, depois Terra de Santa Cruz, etc...)
O atraso e a pobreza se deve, em boa parte, à influência religiosa, que mantém as pessoas na superstição (aliás, a estimula), reprime os avanços da ciência e lhes dá combate incessante, de modo que a ignorância sempre prevaleça, que os delírios como deus, diabo e acompanhantes se imponham à razão.
Os pobres e os doentes, fragilizados, apegam-se a ilusões que lhe são ensinadas e até impostas, sem nenhum escrúpulo, pelos pregadores de todos os cultos (autênticos estelionatários, que contam com o apoio estatal, em todos os cantos, em nome do que se convencionou chamar de "liberdade religiosa") e a tendência é a perpetuação da ignorância e da pobreza, salvo se houver alguma reação efetiva e contundente à manipulação das consciências das pessoas por governos efetivamente republicanos.
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Elites falharam no governo do Haiti, diz professor
São poucos, na
Alemanha, os estudiosos da história e cultura haitianas. Um deles é o
professor Walther Bernecker, da Universidade Erlangen-Nurembergue, autor
do livro Pequena História do Haiti e pesquisador da história espanhola, portuguesa e latino-americana.
Para Bernecker, um dos
motivos do pouco interesse por temas haitianos entre os pesquisadores
alemães é o fato de o país falar francês, diferentemente do espanhol ou
português, dominados pela maioria dos interessados no estudo da América
Latina.
Durante o período
colonial, explica Bernecker, a Ilha de São Domingos ou Ilha Espanhola –
que engloba o Haiti e a República Dominicana – foi durante muito tempo
unificada e também esteve durante muito tempo dividida. Isso se deve à
própria história colonial da ilha, iniciada pelos espanhóis, que, ali
não encontrando ouro, voltaram suas atenções para outras regiões do
continente.
Professor Walther Bernecker
Abandonada, a colônia
foi ocupada por outras potências europeias, mais particularmente pela
França, que se apropriou de sua parte ocidental. Após a independência,
tal divisão, em uma parte francesa e outra espanhola, continuou. Chamada
de Saint-Domingue durante o período colonial, a parte
francesa voltou a ser denominada de Haiti ["terra de altas montanhas",
em crioulo], enquanto a parte espanhola continuou a se chamar Santo Domingo, mais tarde República Dominicana, disse o professor.
Algo único na América Latina
Depois dos Estados
Unidos, o Haiti foi, em 1804, o primeiro país do continente americano a
se declarar independente da metrópole europeia. A grande peculiaridade
dessa independência, no entanto, está no fato de se tratar de uma
colônia cuja população era composta quase que exclusivamente por negros.
No final do século 18,
o Haiti tinha cerca de 560 mil habitantes. Desses, somente pouco mais
de 10% eram brancos, ou negros libertos ou mulatos. Foram esses escravos
que iniciaram a revolta contra a metrópole colonial francesa e, mais
tarde, contra a elite branca e mulata, fundando então uma república de
escravos negros.
"Isso foi certamente
algo único na América Latina", explica Bernecker. E o extraordinário
está no fato de que essas lutas foram tão cruéis, que nenhum outro país
da América Latina quis tomar a independência do Haiti como exemplo a
seguir. Temia-se que essas lutas se expandissem para muito além da
independência política, na direção de uma guerra social, até mesmo uma
guerra racial, como foi o caso no Haiti, onde as perdas e as vítimas
foram tantas, que outros países latino-americanos não quiseram arriscar,
acresce Bernecker.
"Africanização" da independência
Dessa forma, explica o
professor, pode-se falar de uma "africanização" da luta de
independência do Haiti, que se distingue das demais lutas de libertação
na América Latina. A luta de independência do Haiti teve vários
estágios: ela começou com uma revolta dos colonos brancos contra a
França, porque sentiam estar sendo tratados de forma injusta pela
metrópole francesa
Em uma segunda fase,
tal luta se transformou em uma batalha pela emancipação racial,
empreendida pelos negros – que ocupavam as posições mais baixas da
escala social – contra os mulatos, que formavam uma espécie de classe
média, e principalmente contra os brancos.
O resultado dessa luta
em vários estágios foi que restaram, praticamente, só negros no Haiti,
já que os brancos foram expulsos ou exterminados, o que também aconteceu
com os mulatos. Assim, no final, viu-se a criação de uma república
composta quase que exclusivamente por negros. O período em questão vale
para os anos entre 1799 e 1804, quando a independência foi finalmente
declarada, explicita.
Isolamento político e econômico
Clã Duvalier governou Haiti por décadas
O
século 19 foi, então, extraordinariamente problemático para o Haiti.
Após a independência, a população composta por escravos não estava,
naturalmente, preparada para a autogovernança.
Falando em termos meramente econômicos, diz Bernecker, a estrutura econômica da antiga colônia francesa Saint-Domingue
era caracterizada por aquilo que os historiadores chamam de colônia de
monocultura, uma colônia muito rica, que se dedicou principalmente ao
cultivo do açúcar e mais tarde do café.
Durante as lutas de
independência, esses cultivos de monocultura foram dissipados e, em seu
lugar, surgiu um método de trabalho dominado por pequenos camponeses,
que, por sua vez, não estavam integrados no mercado internacional. O
Haiti perdeu, assim, as fontes de riqueza anteriormente provenientes do
trabalho escravo.
Em termos políticos,
as lutas brutais de independência no Haiti amedrontaram outros países
latino-americanos, como também os EUA, que somente reconheceram sua
independência em 1862, quase 60 anos após a libertação do país. O
especialista em estudos haitianos explica que o resultado foi o
isolamento tanto político quanto econômico daquela parte da ilha, o que
impossibilitou seu desenvolvimento, no sentido moderno da palavra.
Elites fracassaram completamente
Além disso, acresce
Bernecker, um ponto decisivo para a compreensão da falta de
desenvolvimento do Haiti foi o fato de seus governantes, desde o
princípio, terem se apresentado como déspotas. Muito rapidamente, foi
outorgada uma Constituição, que nada mais era do que um modelo de
autocracia presidencial, escondida através de um aparente
parlamentarismo. Um ditador sucedeu ao outro.
Bernecker afirma que,
no século 19, houve no Haiti mais de cem revoltas e guerras civis, o que
impossibilitou qualquer continuidade no seu desenvolvimento político e
econômico. E isso constituiu, finalmente, o pano de fundo para que o
Haiti se tornasse, no século 20, o país mais pobre do hemisfério
ocidental.
Assim, o principal
motivo da miséria do país é político. Mas o fato de a política haitiana
ter sido tão instável, de nenhum tipo de estrutura poder ter se formado,
isso é um legado do período colonial, esclarece Bernecker.
Os antigos escravos
não estavam preparados para a autogovernança. E as elites, que poderiam
tê-lo feito, fracassaram completamente. Como foi o caso em muitos países
latino-americanos, e no Haiti de forma bastante extrema, as elites
interpretaram o Estado como sua presa. Ao assumir o poder, em vez de
investirem no país, elas desviaram para seus bolsos a receita da
produção local, o que descartou qualquer tipo de desenvolvimento.
Século 20
Aristide foi tão 'cleptomaníaco' quanto os outros
Na
primeira metade do século 19, a história marcada por guerras e revoltas
do Haiti não foi diferente da dos demais países latino-americanos. Na
antiga colônia francesa, todavia, isso aconteceu de forma extrema,
prolongando-se por todo o restante do século, explica o professor.
Quando, finalmente,
chegou-se a certa estabilidade no século 20, isso aconteceu sob
ditaduras pessoais de longa duração, como foi o caso da família
Duvalier, que dominou e explorou o país durante décadas, sem
desenvolvê-lo. Os Duvalier foram apoiados principalmente pelos Estados
Unidos, disse.
No século passado,
principalmente os Estados Unidos influenciaram a história do Haiti. Eles
ocuparam o país entre 1915 e 1934, controlando sua administração
financeira até 1947. A desculpa para a ocupação de então foi o
não-pagamento de dívidas que o Haiti tinha com os EUA. Tal desculpa foi
usada frequentemente pelos norte-americanos para ocuparem países no
Caribe e na América Central, acresce.
Durante muito tempo,
os fuzileiros navais norte-americanos ficaram estacionados no Haiti.
Nesse período, eles fizeram relativamente muito para melhorar a
infraestrutura do país, mas o que não fizeram foi fomentar a consciência
política ou, até mesmo, a instalação da democracia no Haiti. Não
importa quem estivesse no poder, Washington estava interessado em uma
estabilidade. Por esse motivo, os EUA apoiaram durante muito tempo o clã
dos Duvalier, que sem dúvida não eram democráticos, mas garantiram
certa estabilidade no país, destaca o professor.
Papel da religião
Ritual vodu: religião tem grande importância para haitianos
Na história do Haiti,
salienta Bernecker, o papel da religião é de extraordinária importância.
No país instalou-se o catolicismo, mas como a população era de
maioria africana, ela trouxe sua religião para a ilha. A mescla do
catolicismo com ritos africanos criou uma forma muito especial de
religião, que é o vodu.
Tal religião, que
ainda hoje é muito presente na ilha, foi utilizada principalmente por
ditadores como Duvalier para afirmar o seu poder, já que era considerado
por grande parte da população haitiana como a incorporação do Baron Samedi, o mais temido dos deuses do vodu, explica.
Mais tarde, nos anos
1960, a Teologia da Libertação exerceu um importante papel no Haiti. O
teólogo da libertação Jean-Bertrand Aristide tornou-se posteriormente
presidente do país, mostrando-se infelizmente tão cleptomaníaco quanto
os demais governantes anteriores, afirma Bernecker.
No Haiti, finaliza o
professor, a importância da religião não pode ser de forma alguma
subestimada, pois um dos aspectos da pobreza extrema é que, certamente,
somente na religião pode-se encontrar a esperança.
Autor: Carlos Albuquerque
Revisão: Roselaine Wandscheer
Fonte: DEUTSCHE WELLE
Fonte: DEUTSCHE WELLE




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